O BAÚ DO GÊNIO DE APIPUCOS Textos inéditos de Gilberto Freyre, autor de Casa-Grande & Senzala, o intelectual que Explicou o Brasil aos brasileiros e ao mundo.
João Gabriel de Lima
A importância do intelectual pernambucano Gilberto Freyre para a cultura brasileira só pode ser expressa por meio de imagens grandiosas. Por exemplo: não é exagero dizer que seu Casa-Grande & Senzala está para a sociologia nacional assim como o Gênesis para a Bíblia. Na obra, publicada em 1933, Freyre explica pela primeira vez como os índios, os portugueses e os escravos negros criaram uma nação miscigenada sem paralelo no mundo. A partir de uma análise minuciosa da formação do país, Freyre disseca característica da sociedade brasileira que perduram até hoje. Em todas as listas de livros fundamentais para entender o Brasil, Casa-Grande & Senzala aparece com destaque, geralmente ao lado de Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, e Os Sertões, de Euclides da Cunha. Em termos de repercussão internacional, no entanto, nem o historiador paulista nem o escritor carioca rivalizam com Gilberto Freyre. Ele recebeu o título de doutor Honoris causa em seis universidades estrangeiras, a Sorbonne francesa e a de Oxford, na Inglaterra. Nesse país, foi agraciado, em 1971, com o título de sir. Suas obras estão traduzidas para treze idiomas. Entre as línguas mais faladas, Casa-Grande & Senzala só não saiu em japonês. Lacuna que será preenchida no ano 2000, durante as comemorações do centenário do sociólogo, que viveu entre 1900 e 1987.
Pode-se dizer que Gilberto Freyre não se limitou a ensinar como era o Brasil aos brasileiros. Com seu prestígio internacional e fluente em inglês (foi alfabetizado nessa língua e fez carreira acadêmica nos Estados Unidos e na Inglaterra), o sociólogo era freqüentemente chamado para dar conferências no exterior e contribuiu para a formação da imagem que se tem hoje do Brasil lá fora. Pouco antes de morrer, Freyre queria traduzir essas conferências para português e reuni-las em livros. Tinha até os títulos. Um, por razões óbvias, chamar-se-ia Palavras Repatriadas. O outro, para o qual já tinha escrito um prefácio, Antecipações. Este último teria como objetivo
juntar palestras, ensaios e artigos produzidos na juventude. Com a morte do autor, os textos, classificados em pastas, ficaram sob a guarda de Edson Nery da Fonseca, aposentado como professor emérito da Universidade de Brasília, amigo e confidente do sociólogo em seus últimos anos de vida e considerado o biógrafo oficial de Freyre para sua família.
Depois de um trabalho minucioso de revisão das traduções e levantamento das origens de cada texto. Nery da Fonseca acaba de concluir a organização de Palavras Repatriadas e Antecipações, seguindo, na medida do possível, o roteiro preestabelecido por Freyre. Os dois livros, aos quais VEJA teve acesso com exclusividade e que ainda não têm editora nem previsão de lançamento, são essenciais para a compreensão do percurso intelectual de Freyre. Neles, o sociólogo burila as teorias que mais tarde desenvolveria em livros e, no caso das conferências proferidas no exterior, procura estabelecer uma imagem menos preconceituosa do Brasil no mundo. Os livros trazem textos que haviam saído em revistas acadêmicas estrangeiras, alguns dos quais já traduzidos em publicações similares no Brasil, e um conjunto de vinte completamente inéditos – dezoito em Antecipações e dois em Palavras Repatriadas. Os trechos que ilustram esta reportagem fazem parte do grupo dos que nunca haviam sido publicados.
Ditadura do slogan – Os livros de Gilberto Freyre nasceram polêmicos e continuam provocando controvérsia até hoje. Como bem observou o escritor e crítico francês Roland Barthes em uma resenha da edição francesa de Casa-Grande & Senzala, esta obra foi lançada em 1933, o mesmo ano da ascensão de Hitler ao poder. Ou seja: numa época em que um regime embasado em idéias racistas começava a se afirmar, Freyre desferiu um tacapaço mortal nas teorias que pretendiam provar a superioridade de uma etnia sobre a outra. Por isso, o intelectual pernambucano era considerado um radical de esquerda no Brasil dos anos 30, época em que havia no país vários simpatizantes das idéias nazi-fascistas. Mais tarde, Casa-Grande & Senzala provocaria um terremoto do lado oposto. No livro, Freyre faz uma defesa apaixonada da colonização portuguesa, ao que ele também dá ênfase nos inéditos transcritos em VEJA. O seu entusiasmo pelos portugueses, os primeiros europeus a construir uma civilização nos trópicos, é até hoje um assunto controverso, já que muitos ainda acreditam na bobagem de que o Brasil seria um país mais adiantado se ingleses ou franceses tivessem chegado aqui antes. Não foi esta, no entanto, a razão da polêmica nos anos 50. Na época, o ditador português António de Oliveira Salazar usou as idéias de Casa-Grande & Senzala como aval para sua política contra a independência das colônias africanas. Por causa disso, Freyre foi demonizado pela esquerda. Para piorar as coisas, o autor aceitou um convite de Sarmento Rodrigues, ministro do Ultramar de Salazar, para fazer uma viagem de pesquisa às colônias lusitanas em 1953. O intelectual chegou a elogiar o ditador português em artigos e conferências (veja trecho "Sobre Salazar"),
Isso contribuiu para que a obra de Freyre ficasse cerca de uma década, a de 70, longe do currículo das universidades brasileira. Na época, o autor se queixou de sofrer "patrulha ideológica", não apenas pelo apoio a Salazar, mas por ter sido simpático ao regime militar que se estabeleceu em 1964. Também não ajudava em nada o fato de o pernambucano ir contra a corrente da sociologia marxista, então hegemônica, baseada no conceito de "luta de classes", inexistente no pensamento de Freyre. Só recentemente o autor readquiriu plenamente sua magnitude. "A queda do Muro de Berlim fez bem a Gilberto Freyre", opina o professor uruguaio Guillermo Giucci, da Universidade Federal do Rio de Janeiro e que já trabalhou nas universidades americanas de Princeton e Stanford. "Hoje, como o referencial marxista não é mais predominante, obras pluralistas como a do pernambucano voltaram a despertar interesse". Giucci e seu conterrâneo Enrique Larreta são considerados os dois maiores especialistas em Freyre no meio acadêmico. Ambos estão trabalhando, atualmente, numa biografia intelectual do autor pernambucano. Vinculado à Universidade de Estocolmo, o antropólogo Larreta tomou conhecimento da obra de Freyre no exterior. "Ele é um precursor do conceito de hibridação cultural, muito discutido nesta época de globalização", avalia.
Entre outros motivos, Freyre consegue ser polêmico à esquerda e à direita, no passado e no presente, por causa de uma característica positiva de sua obra: a complexidade. Seus livros não cabem em receituários ideológicos. O intelectual pernambucano costumava dizer que os radicalismos faziam sucesso porque as pessoas têm preguiça de refletir e porque adotar um slogan é mais fácil do que pensar. "Freyre sempre cultivou a dúvida. Ele repudiava os clichês e as conclusões forçadas", observa o professor Nery da Fonseca. Lendo a obra do sociólogo pernambucano com cuidado, nota-se que, em suas obras de maior fôlego, ele foge do tom panfletário, sempre acompanhando as idéias que defende de vários e apropriadas ressalvas. Seu elogio da escravidão à moda portuguesa é feito em oposição à maneira, muito mais violenta, com que os ingleses tratavam seus cativos. Ele nunca escreveu porém, que o sistema escravista era superior a uma sociedade de homens livres. Embora defendesse a colonização ibérica sempre condenou a violência dos colonizadores contra as civilizações maia e inca (veja o trecho "Imperialismo Assimilatório").
Conrad brasileiro – Freyre, cuja a obra é difícil de rotular em termos
ideológicos, tinha no entanto ambições
políticas. Acalentou o sonho de ser governador de Pernambuco.
Tudo começou em 1927, quando de volta ao Recife depois de
estudar no exterior, arranjou um emprego de secretário
particular de Estácio de Albuquerque Coimbra, então
governador do Estado. Coimbra via aquele jovem de brilhante
formação intelectual como seu provável
sucessor. A Revolução de 30 e a posterior ditadura de
Getúlio Vargas abortaram o projeto, já que ambos
caíram em desgraça no período. Freyre só
voltaria à política depois do estado Novo, em 1946,
como deputado constituinte. Na ocasião, cogitou em se
candidatar ao governo de Pernambuco, mas desistiu por achar que
não tinha chance. Pensou que seu momento chagaria em 1964,
com a instauração do regime militar. Freyre era amigo
pessoal do primeiro presidente da nova ordem, Humberto de Alencar
Castello Branco, e achava que seria nomeado governador por via
indireta. Segundo Nery da Fonseca, foi por essa razão que o
sociólogo se alinhou com a ditadura de 1964. O
político cearense, no entanto, escolheu outra pessoa para o
cargo. Freyre ficou magoado e deixou de apoiar ostensivamente o
regime.
Filho de uma família de classe média do Recife – seu pai, Alfredo, era juiz de direito –, Gilberto era tido como pouco dotado intelectualmente na infância. Com 7 anos de idade, ainda não sabia ler nem escrever. Só gostava de desenhar. Alarmado, o pai chamou um educador amigo da família, um religioso britânico de sobrenome Williams. Seu diagnóstico: Freyre teria uma inteligência imagética. Por isso, deveria ser alfabetizado por intermédio de desenhos. Ele próprio, o reverendo Williams, se encarregaria da tarefa, mas teria de fazê-lo em inglês, já que seus conhecimentos de português eram precários. Assim, quando ingressou no Colégio Americano Gilreath de Recife, de orientação batista, para fazer o ciclo básico, Freyre já dominava perfeitamente o idioma de Shakespeare. Graças ao bom desempenho na escola, ganhou uma indicação para uma faculdade batista dos Estados Unidos, a Baylor Universit, em Waco, Texas. Lá, obteve a graduação em humanidades. Um professor da universidade, Joseph Armstrong, sugeriu a Freyre que se naturalizasse americano. Segundo ele, o jovem brasileiro poderia vir a ser um novo Conrad, pois escreveria em inglês tão vem quanto um nativo na língua, a exemplo do autor polonês que se tornou um dos maiores no idioma britânico. Freyre rejeitou a idéia de naturalização, mas continuou sua vida acadêmica no exterior – fez mestrado na Universidade Colúmbia, em Nova York, e em seguida um curso de extensão em Oxford, na Inglaterra. Depois disso, voltou para o Brasil. Queria escrever sobre seu país.
Referências eróticas – Paradoxalmente, o livro Casa-Grande & Senzala acabou sendo concebido no exílio. Depois da Revolução de 30, Freyre e seu mentor político, Estácio Coimbra, foram morar em Lisboa. Quando estava lá, Freyre foi convidado para dar um curso sobre o Brasil na Universidade Stanford, na Califórnia, Estados Unidos. "Esse curso, para o qual Freyre foi obrigado a organizar suas idéias sobre o país, é a pedra fundamental de Casa-Grande & Senzala" , avalia Guillermo Giucci. A aula inaugural do ciclo é a grande estrela do inédito Antecipações (veja trecho "Somos mestiços"), por lançar várias idéias que seriam desenvolvidas posteriormente. De volta a Portugal, Freyre começou a trabalhar no livro, que teria a princípio o título de Vida sexual e de Família no Brasil Escravocrata. Não teria sido um nome inadequado. Referências eróticas pululam em Casa-Grande & Senzala. O assunto era uma obsessão do autor. Freyre, a julgar por entrevista que deu à revista Playboy, em 1980, tinha uma vida agitada nessa área. Segundo ele próprio, gostava de fazer sexo com mulheres dos países exóticos que visitava "por curiosidade antropológica". Na entrevista, admitiu também ter tido relações homossexuais na juventude. De acordo com Edson Nery da Fonseca, isso ocorreu com um colega em Oxford, Esme Howard Junior, filho de um lorde inglês que era embaixador da Grã-Bretanha em Madri. "Esme gostava tanto de Freyre que chegou a mandar confeccionar um camafeu para ele" revela o confidente do sociólogo. "Essa jóia se perdeu, provavelmente destruída por Magdalena, a mulher de Gilberto, que era muito ciumenta". Freyre, por seu turno, dedicou a Howard Junior uma conferência sobre o mito de Don Juan, proferida logo que chegou a Oxford (veja trecho "Don Juan nas Américas").
Palavras Repatriadas e Antecipações não eram os únicos livros planejados por Freyre. Ele tinha mais doze em mente, dos quais já definira até os títulos. Suspeita-se que vários outros trechos inéditos estejam guardados na Fundação Gilberto Freyre, organização não governamental que funciona no confortável sobrado onde o sociólogo morou a maior parte da vida, no bairro de Apipucos, no Recife. Entre os prováveis livros inacabados, o que desperta maior interesse é Jazigos e Covas Rasas, uma interpretação sociológica do país a partir dos rituais utilizados pelos brasileiros para enterrar seus mortos. Ele chegou a fazer referência a esse título no prefácio de uma das reedições de Sobrados e Mucambos, sua obra mais famosa depois de Casa-Grande & Senzala . "Meu avô estava trabalhando nesse livro quando morreu e, por isso, é quase certo que ele tenha deixado alguns capítulos prontos", suspeita Gilberto Freyre Neto, superintendente geral da fundação. Na casa de Apipucos existem vários caixas lacradas com manuscritos do sociólogo, esperando por um estudo prévio para que possam, ser publicados. Isso só será feito quando a fundação obtiver patrocínio para o projeto. Por enquanto, Freyre Neto só conseguiu viabilizar a catalogação da correspondência do sociólogo. Se o patrocínio vier, é possível que Palavras Repatriadas e Antecipações sejam o início de uma série de volumes que completariam a obra de um dos mais brilhantes intelectuais nascidos ao sul do Equador.
O ABC do sociólogo
A vida de Gilberto Freyre daria um livro movimentadíssimo, mas ele ainda não foi escrito. As duas biografias publicadas do intelectual não dão conta de sua complexa personalidade. A primeira, elaborada por Diogo de Mello Meneses um parente do sociólogo, tem as desvantagens de só ir até 1944 e de ter sido revisada pelo próprio Freyre. A outra, assinada por Vamireh Chacon – Gilberto Freyre, uma Biografia Intelectual
–, debruça-se, como o nome sugere mais sobre a obra do que sobre a vida. Para suprir em parte essa lacuna. Edson Nery Fonseca, amigo íntimo e confidente do autor pernambucano, está dando retoques finais num livro curiosíssimo: Gilberto Freyre de A a Z. professor universitário na área de biblioteconomia, Nery da Fonseca fez uma espécie de dicionário em que vários aspectos da vida do sociólogo são organizados em verbetes. O autor não se furta a abortar aspectos espinhosos da vida de Gilberto Freyre. Fala sem meias palavras das reviravoltas políticas do sociólogo. É o primeiro também a escrever sobre o relacionamento homossexual do intelectual com o colega de Oxford Esme Howard Junior. "Não vejo por que não tocar nesse assunto, já que na Inglaterra da época, assim como na Grécia antiga, a relação entre mestre e pupilo muitas vezes ia além dos bancos escolares", acredita Nery da Fonseca.
Trechos de textos inéditos de Gilberto Freyre publicados pela Revista Veja:
Fonte: LIMA, João Gabriel de. O Baú do Gênio de Apipucos: textos inéditos de Gilberto Freyre, autor de Casa-Grande & Senzala, o intelectual que expllicou o Brasil aos brasileiros e ao mundo. Veja. São Paulo, 15 set. 1999, p. 70-77.
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