A MULHER NA OBRA DE GILBERTO FREYRE
QUASE PREFÁCIO
Potiguar Matos
Um dos paradoxos mais cativantes da obra de Gilberto Freyre é que simultaneamente, parece uma estrada perfeita e um caminho inacabado. Freyre propõe respostas de embasamentos perenes e pode dar aos apressados a idéias ingênua de um construtor de sistemas irretocáveis. Para citar exemplo ilustre, um Augusto Comte aprisionando o pulsar infinito da História no ritmo ternário de sua lei. Ou, um Spencer, teorizando a respeito da passagem social de um tipo homogêneo indefinido e incoerente, para o heterogêneo, definido ou coerente. Ainda, um Marx na anatomia, sem dúvida, fascinante dos seus fatais modos de produção...
Freyre coloca marcos com visíveis intenções de permanência. O "tempo tríbio", a "tropicalidade", a "meta raça", a "teoria do homem situado", o modelo de "Casa Grande & Senzala", a "democracia étnica". Mas, sua transmetodologia tem forma de totalidades maiores. Pancientífica não se esgota no cientificismo. Freyre é um empático, o coração tem razões que a própria razão desconhece. Assim, se faz semeador de desafios, um estranho agricultor de mistérios, tentando reencarnar a vida não como um empalhador de passarinhos, mas um autêntico ressuscitador, indo a todas as lindes em busca do real.
Todos os seus estudos possuem, poderíamos arriscar, uma dupla polarização: a mais objetiva, que deriva imediatamente da observação dos fatos, dentro de figurinos irrepreensivelmente lógicos; outra quase noturna, abissal, pessoal, "pois já não há mais quem pretenda ver a vida ou o passado do homem, em geral, como sendo racional e de todo explicável através de métodos apenas racionais, lógicos, matemáticos" - para usar palavras suas de "Ordem e Progresso".
O complexo geral de sua obra se carrega de provocações, pistas, perspectivas, pedindo descobridores. Glauce Maria Navarro Burity se preocupou com uma delas, a mulher e a sociologia gilbertiana. Utilizando, com inegável "savoir-faire", uma técnica de close acentua o perfil e projeta a saga feminina no processo de nossa formação. Joga com a trilogia fundamental da criação de Freyre ("Casa Grande & Senzala", "Sobrados e Mucambos", "Ordem e Progresso", respaldadas pelo ensaio pioneiro de 1922, "Vila Social no Brasil nos meados do século XIX"). E o faz, não como simples repassadora de informações, mas, com inteligência crítica, domínio da matéria, acentuando os relevos da ótica gilbertiana, num dos seus momentos de mais percuciente alcance e que nos leva, diretamente, ao cerne do processo social, e ebuliente mistura de tons, origem e desenvolvimento da nossa família, dinâmica sexual, tensões da escravidão e preconceitos múltiplos.
Deu-nos, assim, um estudo sobre a aventura brasileira da mulher que nos atrai, irresistivelmente, para o aprofundamento das teses de Freyre e estabelece um relacionamento poderosos e inquebrável com um dos fatores mais importantes para a compreensão do nosso passado e decodificação do nosso presente.
Glauce Maria aponta a riqueza do universo de Freyre, fazendo do seu ensaio um talentoso convite para percorrê-lo. E examiná-lo com olhos que jamais poderão ser de turistas. Ela nos mostra como é, cada vez mais, necessário estudar Freyre e crescermos com a singular grandeza de sua lição.
A MULHER NA OBRA SOCIOLÓGICA DE
GILBERTO FREYRE
Glauce Maria Navarro Burity
Podemos afirmar, com certeza, que o maior mérito da produção científica gilbertiana é ter contribuído, de forma admirável, para a autoconsciência do Brasil como cultura própria. Usando de uma metodologia específica no campo sociológico, em que essa visão sociológica aparece enriquecida simultaneamente, dos enfoques histórico, antropológico, etnológico, biológico, psicológico e até ecológico, Gilberto Freyre consegue, de fato, penetrar no âmago da nacionalidade brasileira em seu período de formação.
Na verdade, para ele, sendo a sociologia uma ciência "anfíbia", isto é, em parte natural, em parte cultural, exige métodos complexos e não simples, de explicação.
Exige uma " metodologia múltipla e não singular", "estatística e quantitativa", para a descrição e explicação de uma série de fatos, e "qualitativa e compreensiva para a descrição e interpretação de outros". Aspectos de uma única ciência. Nesta, o bio-social se alonga no sócio-cultural, "através de fronteiras nem sempre nítidas da vida do homem, ou do grupo humano situado".
Para Gilberto Freyre ainda a sociologia, que é um estudo principalmente de formas, de processos, de funções de convivência humana, deve penetrar também em outros aspectos, aparentemente miúdos, mas sumamente importantes para a captação de rítmo dessa mesma convivência, procurando surpreender nas relações entre pessoas e grupos: o tempo social e o tempo psíquico que se refletem nas diversas manifestações culturais. Sem o conhecimento desses tempos, é impossível ao homem de hoje apreender o que existe de mais significativo não só nas épocas que sejam objeto de esforços de reconstituição histórica, como nas obras de pensamento e arte produzidas por essas épocas. Daí a procura do sociólogo por várias fontes de informações, tais como anúncios de jornais, testamentos, modas no trajar, contas de alfaiates, de chapeleiros, de sapateiros, etc.
Além dessas aspectos, vale salientar que Gilberto Freyre não apenas ensina o que é a sociologia, mas também como se faz sociologia, e tudo isso aliado a uma forma de expressão eminentemente artística, como escritor admirável que o é. Soube sempre em seus escritos, por mais científicos e áridos que fossem, aliar o conteúdo profundo à forma artística de escrever e se expressar, o que o torna duplamente admirado e conhecido pelas traduções em vários idiomas.
DESENVOLVIMENTO
A TRILOGIA GILBERTIANA
Escolhemos como assunto de nossa exposição a figura da mulher na trilogia clássica de Gilberto Freyre, vale dizer, em seus livros: Casa Grande & Senzala, Sobrados e Mucambos e Ordem e Progresso.
Antes, porém, vejamos o sentido das pesquisas em cada uma dessas obras. Essas três obras tentam fazer a reconstrução da vida social brasileira, desde a segunda metade do século XVI, até a primeira década do século XX. Casa Grande & Senzala - narra o período de nossa história social, a partir da segunda metade do século XVI, até as primeiras décadas do século XVIII. Esse estudo procura enfocar a ordem social patriarcal, rural, brasileira. O título da obra é expressivo, pois faz realçar a estrutura estável e hierarquizada dessa mesma sociedade: senhor e escravo. Encontra-se aí toda a formação da família brasileira sob o regime de economia patriarcal, analisada através de nossos antecedentes sócio-culturais. Surge, como não poderia deixar de ser, a visão do homem lusitano: aberto para experiências novas, em convivência com outros povos, outras raças e outros climas, dotado de mobilidade e miscibilidade. O estudo do primitivo habitante das terras brasileiras, e cultura inferior à do europeu e à do africano é feita com segurança e detalhes informativos.
A presença do africano no Brasil, contribuindo para a nossa miscigenação e o nosso enriquecimento cultural, é estudada de forma surpreendentemente precursora, em seus aspectos valorativos do homem negro.
SOBRADOS E MUCAMBOS
Descreve outra fase da nossa história social, correspondente às últimas décadas do século XVIII e à primeira metade do século XIX.
Durante esse período, o Brasil passa por profundas modificações sócio-econômicas. As atividades comerciais e industriais se intensificam, por força, inclusive, da descoberta de minas. As cidades crescem rapidamente e se modificam, ganhando novo colorido e importância no plano econômico e administrativo. A vida de D. João VI acelera o ritmo dessas modificações. A paisagem social ganha novo aspecto e surgem inúmeras e novas figuras sociais. É a decadência do patriarcado rural e a consolidação do patriarcado urbano.
O Senhor do Sobrado substitui o Senhor da Casa Grande. A senzala alonga-se em dependência de empregado e mucambo. Trata-se, também, nesse período do fenômeno relativo à reeuropeização do Brasil, através do imperialismo industrial da Inglaterra e da França. Principalmente da Inglaterra. É também o período da ascensão social do mulato e do bacharel. Surge, nesse trabalho, com mais vigor, a descrição de tipos humanos bastantes característicos, tais como: o senhor rural, a mulher patriarcal rural e urbana, o padre católico, o filho do senhor do sobrado, o caixeiro português e o brasileiro, o médico, o bacharel e o mulato, os estrangeiros, etc.
ORDEM E PROGRESSO
Retrata a sociedade brasileira durante os últimos lustros da Monarquia e os três primeiros da República, vale dizer a partir da segunda metade do século XIX até a primeira década do século XX. Estuda, enfoca as idéias, as lutas, as figuras, as grandes realizações e transformações do Brasil naquele período. Estuda o problema da industrialização e suas consequências, as modas e os costumes, a transformação do trabalho escravo para o trabalho livre, a crise de relações do Estado e Igreja, tudo à base, principalmente, de depoimentos de pessoas que vivem aquela fase da história brasileira.
São reflexões, enfim, sobre a transição do Brasil Monarquia para o Brasil República, que teve nos militares os seus construtores, e no positivismo a sua inspiração ideológica.
A MULHER BRASILEIRA SEGUNDO A
TRIOLOGIA CLÁSSICA DE GILBERTO FREYRE
Vistas, embora de relance, as linhas básicas do pensamento Gilbertiano em sua tentativa de descrever sociologicamente e, se podemos dizer também, por dentro, a vida social brasileira até a primeira década do século XX, enfoquemos agora, de forma mais detalhada, um dos tipos humanos mais presentes em sua obra: a mulher brasileira. A mulher brasileira não só enquanto elemento positivo, conservador, estável, de ordem, mais realista e mais integralizador, mas também enquanto beleza meio mórbida, radicalmente diferenciada de tipo e de trajo de senhor patriarcal. Aspectos da exploração da mulher pelo homem, característica notadamente do regime patriarcal agrário, mas, também, presença de mulheres fortes, independentes e realizadoras, substitutivas de ações tipicamente do homem colonizador.
Vejamos agora detalhes enriquecedores para compreendermos a real situação da mulher brasileira na visão de Gilberto Freyre.
A MULHER PATRIARCAL RURAL E URBANA
O que caracterizava o regime patriarcal era a distinção tão acentuada que o homem dava a mulher, tornando-a tão diferente dele, quanto possível.
O homem sempre foi o sexo forte e nobre, e a mulher o sexo fraco e belo. Esta beleza era um tanto mórbida, pois a menina ideal era aquela, segundo Gilberto Freyre, "franzina e quase doente".
Quanto à Senhora - "era aquela gorda, mole, caseira e maternal" . Nada de tipo vigoroso e ágil, que se assemelhasse á figura do rapaz.
"A extrema diferenciação e especialização do sexo feminino em "belo sexo" e "sexo frágil", fez da mulher do senhor de engenho e da fazenda, e da iaiá de sobrado, um ser artificial, mórbido.
Uma doente, deformada no corpo para ser a serva do homem". [1]
Durante todo o período patriarcal encontramos mulheres franzinas, que se entregavam, o dia todo, na tarefa de coser, tomar o ponto dos doces, embalar-se nas redes, gritar para as mulecas, brincar com os periquitos, espiar os homens pelas brochas das portas, fumar cigarro ou charuto, parir e morrer de parto. Assunto sério não era para elas. Nos motivos psíquicos da preferência dos homens pelas mulheres gordas e moles, encontramos raízes econômicas nisso: o desejo de afastar-se a possível competição da mulher no domínio econômico e político, que era exercito, exclusivamente, pelo homem nas sociedades de estrutura patriarcal
A exploração da mulher pelo homem outro tipo característico da sociedade patriarcal-agrária.
Aos homens lhes eram concedidos todas as liberdades, inclusive as sexuais.
Tudo conspirava no sentido de levar a mulher a ser "serva do homem e a boneca de carne do marido". [2]
Padrão duplo de moralidade - dá ao homem todas as oportunidades de ação social, iniciativa, de contactos diversos limitando, assim, todas a oportunidades da mulher ao serviço doméstico: aos contactos com os filhos e parentes, com as velhas, as amas e escravos e ainda ao contacto direto com o confessor - através do confessionário.
Sabemos que o papel deste, muitas vezes, foi o de saneamento mental e serviu de terapêutica contra os recalques e loucuras femininas.
A função do confessor foi indispensável dentro do tipo de sociedade patriarcal do século XIX.
A mulher desempenhou o importante papel de estabilizadora de valores. Foi a sua presença, constante e policiadora, que tornou possível a aristocratização, em vários aspectos, da colonização brasileira. Importante papel da mulher "matriz" na formação brasileira, que teve na Casa Grande o principal centro de integração social. A sua ação exercia-se, entretanto, e muitas vezes, de forma suave e discreta. Assim, por exemplo: "quase ninguém sabe o nome da mulher de José Bonifácio ou da esposa de Pedro de Araújo Lima. Da mulher-esposa, quando vivou ou ativo o marido, não se queria ouvir, a voz na sala, entre conversas de homem, a não ser pedindo vestido novo, cantando modinha, rezando pelos homens". [3]
Em geral, a mulher no regime patriarcal, era um elemento exclusivamente doméstico, e, quando menina, aumentaram-se as restrições e o confinamento.
À menina negava-se qualquer direito ou ação que aparentasse independência, castigando-se a respondona ou saliente, ou aquela que, diante dos mais velhos, ousasse falar mais alto. Eram as acanhadas e de ar humilde, os modelos exemplares de meninas. Essa tirania paterna, era substituída, mais tarde, pelos marido. Os pais preocupavam-se em casar cedo as filhas. Os casamentos eram comuns entre as jovens de 13,14 e 15 anos e eram os pais que escolhiam o marido para elas. Aos 20 anos, já recebiam o título de solteirona.
Atingiam os encantos de menina-moça sem passar pela puberdade. Se as meninas casavam-se cedo, envelheciam rapidamente. Ficavam reduzidas a simples máquinas de ter filhos, o que consumia a mocidade e a própria vida. O encanto delas, só durava até aos 15 anos.
Após o casamento, uma nova Casa Grande, com as mesmas atividades femininas: o preparo de quitutes para o marido, o cuidado com os filhos e a ordem estridente que davam aos escravos.
Gilberto Freyre fala acerca do domínio tirânico exercido pela mulher patriarcal sobre as mucamas, como espécie de sub-produto escravagista. Refere-se ele aos cronistas viajantes da época, e à tradição oral, que falam da perversidade das senhoras em relação aos escravos. Essa crueldade era dirigida mais às mucamas, sendo o ciúme do marido, o motivo principal disso. Era portanto, o sexo provocando a rivalidade entre mulheres.
Inicialmente houve pouca diferença entre a senhora rural e urbana.
Escreve Gilberto Freyre:
"O patriarcalismo brasileiro, vindo dos engenhos para os sobrados, não se entregou logo à rua: por muito tempo foram quase inimigos, o sobrado e a rua. E a maior luta foi travada em torno da mulher por quem ansiava, mas a quem o pater famílias o do sobrado procurou conservar o mais possível trancada na camarinha e entre as mulecas, como nos engenhos; sem que ela saísse nem para fazer compras. Só para a missa. Só nas quatro festas do ano e mesmo então, dentro dos palanquins, mas tarde de carro fechado". [4]
Foi uma evolução muito lenta entre a senhora rural e a urbana. Vários anos decorreram, para que a mulher deixasse de ser apenas doméstica e se instruísse, tornando-se mais participante da vida social. Essa abertura para o mundo social vai acontecer "na chácara", através do palanque, do caramanchão.
"Foi na chácara, através do palanque, ou do caramanchão ou do recanto de muro debruçado para a estrada, e foi no sobrado, através da varanda, do postigo, da janela dando para a rua, que se realizou mais depressa a desorientação da vida da mulher no Brasil. Sua europeização ou reeuropeização". [5]
A mulher começa a participar da vida política e social, inclusive das discussões políticas sobre o abolicionismo ou o regime republicano. Vai perdendo o seu jeito acanhado e tímido e começa, assim, a aparecer aos estranhos.
Surgem as modas européias que corresponderiam às mulheres já burguesas e ocidentais. Estas mulheres caracterizavam-se por serem magras, delgadas e apolíneas. Elas conquistavam um lugar na sociedade, como pessoas e não como servas dos seus senhores.
Os pais vão perdendo também autoridade sobre as filhas, que lutam pelo direito de amar e escolher seus maridos. E o sinal evidente do declínio do patriarcalismo urbano. A rua vai ganhando para o sobrado.
Surge e aumentam os raptos de moças. A respeito, Gilberto Freyre diz: "Esses raptos marcam, de maneira dramática, o declínio da família patriarcal no Brasil e o começo da instável e romântica. A ascensão do mulato e bacharel - acentuou-se através desses raptos; mas também a ascensão da mulher. Seu direito de amar, independente de considerações de classe e de raça, de família e de sangue. Sua coragem de desobedecer ao pai e à família para atender aos desejos do sexo ou do coração". [6]
A República de 1889 vai acentuar essa evolução contribuindo para o que Gilberto Freyre chama de reeuropeização da mulher brasileira.
"Embora faltasse "elegância" à Corte de D. Pedro II, parece que não faltou a algumas senhoras" mulheres de altos personagens", certa desenvoltura, pois "não se querendo dar nunca por velhas" tomavam por afilhados "distintos mancebos provincianos" de quem faziam a "fortuna".
A influência de senhoras, se não desse tipo, na verdade raro, encantadores ou envolventes, em assuntos secundários de governo, parece ter-se acentuado no governo de Deodoro e consolidada a República, em torno de certos Ministros de Estado e de outros líderes políticos. Houve sinhás famosas por essa espécie de prestígio: Sinhás que merecem um estudo especial e sistemático. [7]
Analisadas as caraterísticas gerais da mulher brasileira na sociedade patriarcal, vejamos agora algumas situações especiais e interessantes a seu respeito, durante esse período de formação da nacionalidade brasileira.
Destacamos os principais tópicos analisados por Gilberto Freyre - principalmente em "Sobrados e Mucambos".
A MULHER E O SEU MODUS VIVENDI
A MULHER E A MODA
A mulher patriarcal brasileira ( principalmente a de Sobrados) - segundo Gilberto Freyre, "embora andasse dentro de cassa de cabeção e chinelo sem meia, esmerava-se nos vestidos de aparecer aos homens na igreja e nas festas, destacando-se então, do outro sexo como mulher de outra classe e de outra raça, pelo excesso ou exagero de enfeite, de ornamentação, de babado, de renda, de pluma, de fita e ouro fino, de jóias, de anel nos dedo, de bichas nas orelhas". [8]
Já os cronistas do século XIV - como Gabriel Soares de Sousa, no seu conhecido "Tratado Descritivo da Terra do Brasil", fornecem dados importantes do Brasil Colonial - acerca da moda, em que as mulheres ricas abusavam da seda e fazendas finas.
A mesma observação é feita pelo Pe. Fernão Cardim na sua obra de alto interesse histórico - "Tratado da Terra e Gente do Brasil" - em que ele se refere às senhoras de Pernambuco que exageravam-se nas sedas, veludos e jóias.
Também Ambrósio Fernandes Brandão dos Diálogos e Grandezas do Brasil", crônica do século XVII chama a atenção para o excesso de pintura no rosto das mulheres.
Tanto as plumas, quanto as pulseiras, anéis, trancelins, brincos, não faltaram na fase de esplendor ou já mesmo de declínio do sistema patriarcal brasileiro.
Na primeira metade do século XIX, as mulheres de cor traziam os cabelos cortados e cobertos com turbantes. Já as aristocráticas, por ostentação da classe alta e de belo sexo. Conservavam as cabeleiras tão compridas quanto lhes eram possível.
O trajo das mulheres de " sobrado" ou de "Casa Grande" chagava aos maiores exageros de ornamentação, para se distinguir das mulheres de mucambo ou de casa térrea.
Quanto aos homens, estes também apareciam em festas super-ornamentados. Esmeravam-se nos penteados e na barba.
Havia uma diferença bem marcante entre os brancos e negros. Era proibido a esses, o uso de jóias e tetéias de ouro, para que ficasse marcado no trajo, as diferenças de raça e classe.
As mucamas bem vestidas e com jóias representavam um prolongamento das suas iaiás brancas, quando estas se exibiam em festas de rua e de igreja.
Chamamos atenção para a nossa sociedade patriarcal, onde a moda feminina é perturbada pela moda inglesa e sobretudo a francesa. Isto foi em parte, subproduto da influência de rapazes brasileiros que iam nos centros europeus, principalmente em Coimbra. De lá, traziam novidades e comunicavam às mulheres.
Verificamos que não só importavam a moda, mas também a cultura, e isto vamos sentir na importação das doutrinas filosóficas da França.
O Pe. Lopes Gama, em "O Carapuceiro" (1843) descreve que "as nossas sinhazinhas e yayás já não querem ser tratadas senão por "demoiselles", "mademoiselles" e "madames". Nos trajes, nos usos, nas modas, nas maneiras, só se aprova o que é frances; de sorte que já não temos uma usança, uma prática, uma coisa por onde se possa dizer: isto é próprio do Brasil".
A MULHER E A ALIMENTAÇÃO
No que tange à alimentação - uma das coisas que os cronistas da sociedade patriarcal brasileira verificaram foi a série de ricas guloseimas consumidas pelas senhoras.
Já as mocinhas, aquelas virgens pálidas, a alimentação tinha como base - os caldinhos de pintinho, água de arroz e confeitos. Para as senhoras, aquelas gordas e bonitas, haviam um verdadeiro regime de engordar; "com muito mel de engenho, muito doce de goiaba, muito bolo, muita geléia de araçá muito pastel e chocolate".
Em ambos os casos, uma alimentação imprópria e deficiente. E isto talvez concorresse para que elas se compensassem dos desgostos ou frustrações no amor sexual.
Esse regime alimentar deficiente produzia, segundo Gilberto Freyre, "criaturinhas fracas do peito, meninas românticas de olhos arregalados, de 14 e 15 anos que os bacharéis de 25 e de 30 nomeavam passando de cartola e bengala pelas calçadas dos sobrados, voltados para as varandas como para nichos ou altares. O outro, as mães de 18 e 20 anos, mulheres gordas, mas de uma gordura mole e fôfa, gordura de doença, mulheres que morriam velhas aos 25 anos, no oitavo ou nono parto". [9]
Com esta má alimentação carente de vitaminas, verificavam-se casos de tuberculose pulmonar, pois as meninas de 15 a 20 anos passavam o dia todo a comer guloseimas, desprezando um nutritivo bife ou um outro pedaço de carne verde.
Esta supressão de alimentos fortes, recaía mais na própria sociedade patriarcal que achava que a mocinha solteira não deveria comer alimentos fortes.
O perigo que ela evitava era o da robustez de macho. Esse vigor só ficava bem às negras da senzala; e não às meninas casadouras e elegantes, e bem às senhoras da sociedade.
Constituía etiqueta deixar, sempre a moça bem educada, um resto de comida no prato, isto para não parecer a ninguém que estava com fome.
A MULHER E A SAÚDE
O conceituado médico Luiz Correia de Azevedo, que no meado do século XIX muito se preocupou com os problemas de higiene e de educação, considerava a mulher, dentro da organização social do Brasil, "uma escrava, à qual ainda não chegou, nem chegará tão cedo, o benéfico influxo da emancipação".
Ele compara a "uma boneca saída das oficinas as mais caprichosas de Paris, traria menos recortes, menos babados, menos guizos, menos fitas e cores do que essa infeliz criança, a quem querem fazer compreender, de tenra idade logo, que a mulher deve ser uma escrava dos vestidos e das exterioridades, para mais facilmente do homem a escrava".
Sabemos que o vestuário deformou o corpo da mulher, particularmente o uso do espartilho - que foi o responsável por diferenças de respiração.
A maioria dos pesquisadores supõe que a tuberculose teve frequência mais nas mulheres, que nos homens. Isto deveu-se ao menor desenvolvimento do tórax da mulher.
Já outros consideram a tuberculose uma resultante de causas sociais e por conseguinte, evitáveis: vestuário compressor, menos exercícios físicos durante a infância e maiores restrições à vida ao ar livre.
As meninas de 11 anos, desde tenra idade, eram obrigadas a ter um bom comportamento. Isto lhes impedia de brincar, pular, correr, saltar, enfim, de viver ao ar livre, como meninos de sua idade.
Desde os 13 anos - obrigavam-nas a vestir-se como moça, abafada em sedas, babados e rendas; ou a usar decotes, para ir ao teatro ou a algum baile. Daí a causa de pneumonia e tuberculose entre elas.
Segundo José Bonifácio Caldeira de Andrade Junior, ao escrever em 1855, sobre "a maneira de trajar das meninas do Brasil", descreve como sendo "defeituosa". E salientava a moda entre as senhoras da sociedade; de Trazerem "descobertos e expostos ao capricho, das intempéries, o colo, as espáduas, os braços e a parte superior", moda responsável, ao seu ver, por grande número de pneumonias, anginas", etc.
Para o já referido médico - Luís Correia de Azevedo, "a menina brasileira, desde criança, de peito alimentado, inconvenientemente aos seios de uma ama de raça africana ou indígena, no geral mulheres sujeitas a moléstias crônicas da pele, hereditárias ou não, crescia entre inimigos que, em vez de a protegerem, prejudicavam-na, sob a forma de carinhos, sorrisos, e de um demasiado amor que enerva". Crescia a menina "envolvida sempre em vestuários comprimentes, prejudiciais ao desenvolvimento das vísceras, e por consequência atuando sobre o útero, órgão por excelência digno de atenção no desenvolvimento das primeiras idades da mulher".
É preciso salientar que as condições anti-higiênicas desses vestuários e os defeitos da alimentação concorreram para má saúde e fraqueza orgânica das moças e senhoras brasileiras.
Alguns médicos inteligentes, conhecedores do interior dos sobrados ilustres, deram importância às influências do meio social, de hábitos e de educação sobre a vida da mulher brasileira.
Os hábitos de higiene e saúde são tão fundamentais quanto o clima.
Em 1798, se vê depoimentos de médicos que referiam-se à falta de higiene na vida da mulher, que vivia confinada ao lar-sedentária, mórbida e era óbvio que certas doenças sociais como a tuberculose, fosse tão comum.
A MULHER E O MÉDICO
Nas primeiras décadas do século XIX, a figura do médico veio marcar nova fase na situação da mulher patriarcal brasileira.
O médico de família passou a exercer uma grande influência sobre a mulher. Esta foi encontrando no doutor uma figura prestigiosa de homem em quem repousava a confiança na confissão de doenças, de dores, de intimidades do corpo, oferecendo-lhes um meio agradável de desafogar-se da opressão dos pais e maridos.
O médico, cada vez mais, ia substituindo o confessor, o qual era muito acomodado ao "pater famílias".
O absolutismo do "pater - famílias" - que foi o senhor absoluto da Casa Grande de engenho ou da fazenda, foi se desfazendo à medida que outras figuras masculinas criaram prestígio na sociedade escravocrática: o médico, o diretor de colégio, o presidente da província, o chefe de polícia, etc.
O médico de família - Contribuiu muito para restabelecer na mulher brasileira, o sentido de vida e de saúde, recalcada que era ente a sociedade patriarcal já decadente.
OS CAMINHOS DE MAIOR
LIBERTAÇÃO DA MULHER
Com a ascendência dessas pessoas e instituições, a mulher vai se libertando daquela excessiva autoridade patriarcal, e juntamente com o filho e o escravo, elevam-se jurídica e moralmente.
Interessante também é observar o casamento entre a moça branca, rica e fina, a iaiá da Casa-Grande com o bacharel pobre ou mulato ou com o militar plebeu, contribuiu para prestigiar a mulher, criando o que Gilberto Freyre chama de - "descendência matrilinear". - onde os filhos tomam o nome ilustre e bonito da mãe, por ex: Castelo Branco - Holanda Cavalcante - Silva Prado - Albuquerque Melo, etc.
A IGREJA E ALIBERTAÇÃO DA MULHER
Não se deve deixar de incluir a Igreja entre as forças que concorreram para o declínio do patriarcalismo das casas grandes e dos sobrados.
A Igreja, que antes vivera subserviente ao "pater famílias", e cuja autoridade os jesuítas se bateram ardentemente, no 1º século de colonização, aos poucos, vai perdendo o domínio absoluto sobre a mulher, pois acima da autoridade dos bispos e vigários, novas influências surgiram através dos médicos, dos colégios, do teatro, da literatura profana etc.
Esta mesma Igreja cuja voz soava tão forte aos sobrados, foi uma força que concorreu para o declínio do patriarcalismo das Casas-Grandes e Sobrados.
Já em 1886, a própria Igreja, através de seus Arcebispos, dirigia uma circular aos bispos condenando o abuso do capelão, sempre subordinado ao patriarca - de celebrar a santa missa nos oratórios das casas particulares, o que provocou uma celeuma nas dioceses, pois o interesse econômico dos padres estava ligado às capelas particulares. Os bispos, contudo, apresentam certas dificuldades no cumprimento dessa ordem tão anti-patriarcal, e essa circular foi considerada sem efeito.
Aos poucos, foi se desfazendo a simbiose Igreja - Casa Patriarcal, representada pelos oratórios, e no lugar desses foram aparecendo os templos maçônicos.
Quando à maçonaria, esta foi introduzida no Brasil em 1801. Essas lojas se assemelhavam às sociedades secretas primitivas - onde eram "fechadas" às mulheres; as quais não lhes eram permitido avistar os instrumentos sagrados. No Brasil, o segredo maçônico das conspirações liberais - excluíam as mulheres, negros e mulatos dos governos democráticos e veio aprofundar o antagonismo entre o sexo conservador e o diferenciador.
Nas sociedades secretas primitivas, as mulheres eram excluídas totalmente das atividades mais sérias dos homens (no caso das sociedades secretas), e em todo o trabalho em prol da Liberdade, da Independência e da Democracia.
INSTRUMENTO SOCIAL DA MULHER
Vamos encontrar pais e maridos duríssimos, que faziam entrar para os conventos filhas e até as mulheres à força ou por simples ostentação social.
No início do século XVIII - foi constatado um número grande de homens solteiros e considerável o de moças, que os pais tirânicos as recolhiam ao Convento, enviando-as para o Reino. Para uns era a honra de ter uma filha religiosa, para outros, era a dificuldade de escolher genros entre homens solteiros, de branquidade duvidosa.
Famílias ilustres das capitanias mais antigas, com moças em idade de casar, procuram maridos para suas filhas, dentro da fidalguia do regime patriarcal.
Há um caso de um pai ter apunhalado a filha por suspeitar de namoro com rapaz plebeu, de "cabelos ruim".
A ENDOGAMIA PATRIARCAL
Em São Paulo, Pernambuco e Recôncavo Baiano, o problema foi mais ameno, pois havia os casamentos consanguineos (entre primos, tios e sobrinhos) foram fazendo das várias famílias iniciadoras do povoamento, quase uma só.
Em casos especiais, havia casamentos com aventureiros do Reino e mulatos da terra, que ansiavam, uma maneira de se "limparem" pelo casamento.
No século XVII, vêem-se mulatos e aventureiros das Ilhas, que ascenderam pelo casamento à melhor aristocracia pernambucana. Internamentos em Conventos.
Para evitar possíveis matrimônios, as moças eram recolhidas a conventos ou estabelecimentos de correção, onde "ficavam reclusas mulheres e moças, não precisamente de má vida, mas que deram algum grave motivo de descontentamento aos pais e maridos". Ainda Gilberto Freyre narra uma citação de um viajante alemão: "muitos brasileiros internam suas mulheres, sem plausível razão, durante anos, num claustro, simplesmente a fim de viverem tanto mais a seu gosto na sua casa com uma amante. A lei presta auxílio a este abuso; quem se quer livrar da própria esposa, vai a polícia e faz levá-la ao convento pelos funcionários, desde que pague o custo de suas despesas".
Na época colonial não era muito fácil esses internamentos. Na época patriarcal, a lei favoreceu a esta subordinação da mulher ao homem.
A MULHER SOLTEIRONA NOS SOBRADOS
A mulher semipatriarcal do sobrado, continuou, no dizer de Gilberto Freyre - "abusada pelo pai e pelo marido". Nos sobrados, a maior vítima foi talvez a solteirona.
"Abusada não só pelos homens, como pelas mulheres casadas". [10]
Era a solteirona quem ficava em casa o tempo todo, meio governante, tomando conta dos meninos e escravos, cosendo, enfim encarregada dos afazeres domésticos. Nos dias de festas, ocupava-se inteiramente na preparação destas, e quase não apareciam às visitas. Devido a sua situação de dependência econômica, absoluta, ela foi, evidentemente, uma criatura obediente e submissa.
Mesmo na França, em fins do século XVIII, cujas idéias democráticas de "Liberdade", "Igualdade e "Fraternidade", vieram influir no nosso país, através de livros proibidos, de bacharéis e doutores formados pelas Universidades de Paris e Montpellier. No Código Civil, Havia a seguinte exposição de motivos.
"La femme a besoin de protection, parce qu'elle est plus faible; l'homme est plus libre parce qu'il este plus fort (...) L'obéissance de la femme est um hommage rendu au pouvoir que la protège (...)"
E incrível que, no século XIX, jurístas mais conservadores que liberais fossem partidários da subserviência da mulher ao senhor patriarcal e que as solteironas fossem pouco mais que escravas na economia dos sobrados.
"As restrições de ordem jurídica e social - refletindo, na maior parte, motivos econômicos - impostas com tanto rigor à mulher brasileira durante a fase patriarcal, explicam-nos muito da sua inferioridade de sexo" [11]
SEXO E COR
Nós, brasileiros, nos libertamos mais depressa dos preconceitos de raça do que de sexo.
No primeiro século de colonização, nossos tabus contra os índios foram quebrados, e já no século XVII, a voz del-Rei já se levantava a favor dos "pardos".
Mas, no que tange aos tabus de sexo, estes persistiram durante muito tempo.
"A "inferioridade" da mulher subsistiu à "inferioridade da raça", fazendo da nossa cultura, menos uma cultura como a norte-americana, com a metade de seus valores esmagados ou reprimidos pelo fato da diversidade de cor e de raça do que, como os orientais, uma cultura com muitos dos seus elementos mais ricos abafados e proibidos de se expressarem pelo tabu do sexo. Sexo fraco. Belo sexo. Sexo doméstico. Sexo mantido em situação toda artificial para regalo e conveniência do homem, dominador, exclusivo dessa sociedade meio morta". [12]
Há várias teorias para tentar justificar a "inferioridade" do sexo feminino segundo seus adeptos. São teorias frágeis, sem convicção como são as teorias da "inferioridade" das "raças de cor". O que sabemos, foi o constrangimento em que viveu o "sexo fraco" na fase da indústria doméstica e patriarcal, sem oportunidade, o que propiciou ao homem o seu domínio absoluto sobre a cultura acumulada dentro de sistemas nitidamente masculinos. E não "inferioridade" de sexos.
CASAMENTO COM MULATOS
Já foi dito que na sociedade patriarcal brasileira do século passado, as diferenças sociais de sexo eram favoráveis ao homem e que às vezes andavam em conflito com as diferenças sociais de raça - favoráveis - ao branco. Havia casos de paixão de iaiás brancas com mulatos.
A distância social e psíquica entre a mulher banca e o escravo preto foi maior que entre o senhor branco e a escrava preta.
Gilberto Freyre assegura que foi através da mulher branca e fina (sensível ao encontro físico e ao prestígio sexual do mulato mais ardente e atraente) que durante o declínio patriarcal, se fez nas próprias áreas aristocráticas e endogâmicas do país, a ascensão do mulato claro e do bacharel ou militar pobre à classe mais alta da sociedade brasileira.
A maioria dos pais de status social mais elevado, não queria saber de casamento de suas filhas que não fosse dentro de sua etnia e mesma classe sócio-econômica. E esta igualdade recaia nos parentes próximos: tios e sobrinhos, primos e primas.
No entanto, as sinhás das Casas-Grandes de engenho, fugiam com plebeus ou rapazes de cor que branco, assim, o critério patriarcal e endogâmico do casamento, uma vez que se sujeitavam mais à escolha do marido pela família.
E como foram várias as moças raptadas na segunda metade do século XX! Estes casos vão contribuir para o declínio da família patriarcal brasileira e pela ascensão do mulato e bacharel, como também da mulher.
A coragem que elas tinham em desobedecer aos pais, seu direito de amar, atendendo ao desejo do sexo, contribuíram para que elas se libertassem do jugo patriarcal. Como resultado disso, a autoridade paterna enfraqueceu-se, dissolveram-se os vínculos familiares e a sociedade arruinou-se.
Para essa sociedade, tudo se explica através das más influências, como o teatro, as más leituras dos romances (inclusive o de José de Alencar), levaram muitas jovens a querer imitar certos tipos de mulheres altivas e caprichosas.
Sabe-se que não houve romance moralista que impedisse a libertação da mulher do despotismo do pai ou marido, embora dentro do complexo patriarcal, essa libertação se fizesse através da substituição do homem pela mulher.
CONCLUSÃO:
Através da análise das suas principais obras, podemos observar o quadro da sociedade brasileira, especialmente da família brasileira criado por Gilberto Freyre, que, em seu colorido, profundidade e exatidão, só é comparável, como escreve o professor Noor da Universidade de Munster, só é comparável com o quadro que Balzac deu da sociedade francesa de seu tempo. E continua ele: "para resumir de uma modo simples e exato a obra de Gilberto Freyre, é oportuno repetir o que o sociólogo da literatura Georg Lukacs, apreendeu como as características mais importantes da obra de Balzac; em sua obra estão inseparavelmente unidos a arte primorosa, o conhecimento profundo da realidade e o humanismo".
Em nosso trabalho focalizamos simplesmente uma das figuras mais presentes em sua análise sociológica: a mulher brasileira, dentro da sociedade patriarcal.
Assistimos à extrema diferenciação e especialização do sexo feminino em "belo sexo" e "sexo frágil" a ponto de fazê-la muitas vezes um ser artificial e mórbido, serva do homem e boneca de carne do marido, que encontrava na religião e no confessionário os caminhos para a sublimação dos seus sofrimentos psíquicos.
Mas também, a sociedade patriarcal, criou figuras magníficas de mulheres criadoras, dentro dos sobrados ou do interior das Casas-Grandes, as quais exerceram ação decisiva no que tange a adaptação do modo de vida nas regiões tropicais.
Enfim, de um modo geral, como afirma, em síntese, o próprio Gilberto Freyre: "O homem foi dentro do patriarcalismo brasileiro, e elemento móvel, militante e renovador; a mulher o conservador, o estável, o de ordem. O homem o elemento de imaginação mais criadora e de contatos mais diversos é, portanto, mais inventor, mais diferenciador, mais perturbador da rotina. A mulher é o elemento mais realista e mais integralizador".
A situação da mulher brasileira, no sentido de sua libertação, vem simultaneamente com o processo de desenvolvimento do país após a República.
A industrialização brasileira, o aparecimento dos grandes centros urbanos, a imigração estrangeira, o desenvolvimento dos meios de comunicação, tais como o rádio, a televisão, o cinema, entre outros, à influência da pedagogia americana, a multiplicação das escolas superiores cada dia mais frequentadas por mulheres, tudo enfim que tem favorecido a modernização da sociedade brasileira, contribuiu e vem contribuindo para a libertação da mulher, tornando-a mais participante no que tange às atividades profissionais, administrativas, e até políticas.
Notas
1 - FREYRE, Gilberto, Sobrados e Mucambos,
Rio de Janeiro, José Olympio, 1968 p. 94 [voltar]
2 - FREYRE, Gilberto, Sobrados e Mucambos.
Rio de Janeiro, José Olympio, 1968 p.94 [voltar]
3 - FREYRE, Gilberto, Sobrados e Mucambos,
Rio de Janeiro, José Olympio, 1968 p. 95 [voltar]
4 - FREYRE, Gilberto, Sobrados e Mucambos.
Rio de Janeiro, José Olympio, 1968 p. 34 [voltar]
5 - FREYRE, Gilberto, Sobrados e Mucambos.
Rio de Janeiro, José Olympio, 1968 p. 154. [voltar]
6 - FREYRE ,Gilberto , Sobrados e Mucambos.
Rio de Janeiro, José Olympio, 1968 p. 154 [voltar]
7 - FREYRE, Gilberto , Sobrados e Mucambos.
Rio de Janeiro, José Olympio, 1968 p. 97 [voltar]
8 - FREYRE, Gilberto, Sobrados e Mucambos.
Rio de Janeiro, José Olympio. 1968 p. 98-99 [voltar]
9 - FREYRE, Gilberto, Sobrados e Mucambos.
Rio de Janeiro, José Olympio, 1968 p. 116 [voltar]
10 - FREYRE, Gilberto, Sobrados e Mucambos. p.127 [voltar]
11 - FREYRE, Gilberto, Sobrados e Mucambos. p. 127 [voltar]
12 - FREYRE, Gilberto, Sobrados e Mucambos. p. 127-128 [voltar]
BURITY, Glauce Maria Navarro. A mulher na obra de Gilberto Freyre. João Pessoa: Fundação Espaço Cultural da Paraíba, 1988. 19p.
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