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Assinatura de Gilberto Freyre
Palestras  



GILBERTO FREYRE, O ANTECIPADOR


Francisco de Assis Barbosa

Meu caro Fernando Freyre, senhores seminaristas, senhores comentadores:

Ao aceitar o convite de Fernando Freyre para participar deste Seminário, ocorreu-me falar sobre Gilberto Freyre, o Antecipador, como decorrência de estudos que ando fazendo a respeito do movimento das idéias no Brasil, precisamente sobre o chamado movimento modernista, antes e depois dos anos vinte. São reflexões, dados e notas que venho tomando há já algum tempo sobre o problema da modernização que se opera, digamos, a partir da "belle époque" brasileira. Exemplo desse fenômeno é, no governo de Rodrigues Alves, a reforma urbana no Rio de Janeiro, modernização um tanto ou quanto predatória, tal, como se repetirá, mais tarde, com os melhoramentos no governo de Epitácio Pessoa, e que terão desdobramentos nem sempre racionais nas reformas urbanas de outras cidades brasileiras ainda na República Velha, como em Salvador, no fastígio regional de Seabra.

Essas reformas caracterizaram-se pela preocupação de acabar com o que era considerado velho, de iniciar uma fase, marcadamente moderna na vida nacional.

No Brasil, a palavra modernismo surge pela primeira vez em nossa história cultural, creio, nos estudos de literatura brasileira de José Veríssimo, e depois na História da Literatura Brasileira, do mesmo autor, na qual se inclui um capítulo intitulado MODERNISMO. É de 1916, como é sabido, a edição da História de Veríssimo. Trata-se de um livro póstumo, publicado logo após o seu falecimento. Nele, o eminente crítico designa como modernistas todos aqueles escritores, poetas e prosadores brasileiros que iniciaram, ou tentaram iniciar, o movimento simbolista. O mesmo nome foi dado na Argentina, aplicado sobretudo ao grupo Flórida, que começou a exercitar o simbolismo, com uma conotação de rompimento com as matrizes castelhanas, seguindo embora o modelo importado da França ou da Alemanha, de sentido esquerdizante. Note-se que é no final do século passado que se inicia a reforma urbana de Buenos Aires, como uma Paris sul-americana, ao mesmo tempo que surge o Partido Socialista Argentino, tal como o movimento anarquista, cuja repercussão no Brasil está ligada aos grupos migratórios que se concentraram de preferência em São Paulo. Daí a safra de jornais anarquistas e socialistas, os quais se revestiram de certa importância junto dos grupos proletários que, no início do século, se organizavam na capital paulista.

Já em 1897, no seu famoso relatório como ministro da Indústria, Viação e Obras Públicas, na interinidade de Manoel Vitorino, como Vice-Presidente da República, Joaquim Murtinho advertia para os perigos das novas correntes socialistas que se implantavam no Brasil. Nesse relatório, o futuro ministro da Fazenda, ditador das finanças de Campos Sales, propõe um movimento de reação contra essas idéias consideradas perigosas e declara que é necessário, inadiável mesmo, republicanizar a República.

Ao contrário do que aconteceu nos restantes países da América Latina, o movimento simbolista não teve no Brasil feição marcantemente esquerdista. Por igual, não terá maior conseqüência a tentativa de fundação de um Partido Socialista no Brasil, em 1902, em São Paulo, como também já acontecera, logo depois da proclamação da República, com a tentativa de um Partido Operário. Na mesma época, a inquietação social na Rússia, e particularmente o Domingo Sangrento, tiveram no Brasil uma certa repercussão, como o demonstram o famoso artigo de José do Patrocínio Ave Rússia, e as crônicas simpatizantes, de espírito libertário, de Olavo Bilac. Nesse contexto compreende-se a advertência que havia poucos anos fizera Joaquim Murtinho. Naquele instante, vivíamos o ambiente de pré-guerra. O movimento cultural brasileiro era ainda precário, num país sem universidades, como uma vida intelectual circunscrita aos cafés, à Academia Brasileira de Letras, ao Instituto Histórico. No entanto, a literatura brasileira se afirmava pela obra de Machado de Assis, que começara a publicar os grandes romances da fase final, o primeiro deles Memórias Póstumas de Brás Cubas (1ª edição, 1880, em folhetins da Revista Brasileira; 4ª edição, 1899). Capistrano de Abreu iniciara a sua ação renovadora na historiografia brasileira, com a tese defendida para ocupar a cátedra do Colégio Pedro II, em 1883, O Descobrimento do Brasil e Seu Desenvolvimento no Século XVI. Joaquim Nabuco havia publicado os três volumes de Um Estadista do Império (1897-1898). Em 1902, aparecera o livro vingador de Euclides da Cunha, Os Sertões. E ainda no primeiro decênio do século, o Dom João VI no Brasil (1908), de Oliveira Lima.

O padrão intelectual brasileiro definia-se porém pela maior ou menor capacidade do escritor se exprimir em termos clássicos. Predominavam nos jornais as seções gramaticais, fiscalizadoras do bem escrever, no mais castiço figurino lusíada. Além dos gramáticos, os juristas constituíam a fina flor da intelectualidade. Tinham mais crédito que os romancistas e os poetas aqueles cidadãos capazes de elaborar um bom parecer jurídico, nos quais patenteavam sua erudição, ou os que continuavam a tradição imperial da oratória parlamentar.

"O Rio civiliza-se", dizia-se então. E o Barão do Rio Branco, à frente do Ministério das Relações Exteriores, convidava para vir ao Brasil algumas figuras representativas da "inteligentzia" européia, uma das quais foi o esfuziante Enrico Ferri.

Declarava-se materialista e socialista. "Io sono materialista" - assim iniciou Ferri a sua conferência no Teatro Lírico, ante a estupefação da platéia repleta de bem-pensantes. O jovem Edgardo de Castro Rebelo iniciou-se no socialismo e no marxismo sob a influência dominadora do criminalista italiano, na sua triunfal visita ao Brasil.

Não é possível separar a questão política da vivência intelectual. A consolidação da República fez-se por meio da política dos governadores, após o Brasil ter vivido dois cataclismas sociais, ambos acarretando considerável número de perdas de vidas humanas. O primeiro foi a Revolução Federalista, a epopéia vivida por Gumercindo Saraiva na sua marcha de Jaguarão até Ponta Grossa e sua volta até a fronteira uruguaia. Foi a primeira grande marcha militar pelo interior do Brasil, combatida por Floriano Peixoto, sendo estimadas em pelo menos vinte mil mortos as baixas entre aqueles que participaram do movimento. O segundo foi a guerra sertaneja de Canudos, cujas perdas não estão ainda devidamente avaliadas. José Calazans, com certeza o estudioso que reuniu o material mais completo sobre o assunto, não conseguiu chegar ainda a um número definitivo ou mesmo sequer aproximativo de vítimas. Mas é possível ter-se uma idéia, ainda que inexata, quando se sabe que no massacre do Arraial de Bom Jesus talvez mais de dez mil casebres desapareceram após a derrocada de Antônio Conselheiro e seus seguidores.

Ainda no período anterior à guerra, o Barão do Rio Branco manifestava já a preocupação de transformar o Brasil numa potência militar, dando apoio ao rearmamento da Marinha e promovendo a compra de novos couraçados, o que teve como epílogo sangrento a revolta dos marinheiros. Em idêntico sentido, caminhava o movimento de reorganização do Exército, iniciado por Hermes da Fonseca, à frente do Ministério da Guerra. Entretanto, a campanha pelo Serviço Militar Obrigatório, que apenas se concretizará no governo de Venceslau Brás, teve resultado pouco animador: a constatação da incapacidade física da maioria dos jovens convocados. Durante a política dos governadores quando as oligarquias dirigiam o país no quadro de uma organização republicana extremamente fechada, não existia qualquer participação popular nas eleições, ou esta era reduzidíssima. A Campanha Civilista, primeira disputa eleitoral, denota uma presença insignificante de eleitores, menos de 3% sobre a população do país.

Após a guerra de 1914, o que podia chamar-se de "intelectualidade brasileira" começou a se organizar em associações, em clubes, em ligas. Como o Brasil não possuía partidos nacionais, só através de agrupamentos ocasionais e efêmeros a classe intelectual passou a exercer um papel de destaque perante a sociedade, assim se explicando os movimentos que apareceram na época, como o movimento pelo Serviço Militar Obrigatório, o movimento da Liga da Defesa Nacional, o movimento pelo Saneamento. É, então, precisamente durante a guerra de 1914-1918, que surge um desses movimentos de caráter mais amplo, a liga pelos Aliados, idealizada por José Veríssimo. Igualmente importante, em suas várias fases, foi o movimento da Revista do Brasil, iniciativa do grupo do jornal. O Estado de S. Paulo, o mesmo jornal que tinha enviado Euclides da Cunha como correspondente à Guerra de Canudos. A revista é, inicialmente, criação do grupo do O Estado, a que se vai unir depois Monteiro Lobato e mais tarde recebe a adesão de Paulo Prado. Da Revista do Brasil nasce a Companhia Editora Monteiro Lobato, que apresenta uma nota diferente, inclusive pela publicação de Urupês. Nesse livro aparece o Jeca para designar o homem que trabalha no campo, segmento do proletário rural, antevisto por Joaquim Nabuco, para designar o camponês. O Jeca ou melhor, Jeca Tatu, em São Paulo, era, não o proletário da cidade, mas o proletário do campo. É um movimento, esse de Monteiro Lobato, que vai despertar uma consciência nova no Brasil. No entanto, Monteiro Lobato encarava a situação do povo e do proletário rural no Brasil de uma forma que mais tarde ele próprio viria a corrigir. Para ele, inicialmente, tudo era conseqüência do mau estado de saúde do povo, da incapacidade que, naquela época, o Brasil tinha de oferecer melhores condições sanitárias ao homem do campo.

Duas correntes então de posições paralelas: uma considerava que a salvação do Brasil estava na educação; a outra era de opinião que o Brasil devia salvar-se pela saúde. A primeira intensifica-se na década de 1920 através da Associação Brasileira de Educação e das várias reformas educacionais de âmbito estadual na época tentadas; a segunda, encontra expressão na Campanha Sanitarista. É curioso que, num momento em que o Brasil era um país monocultor, produtor de matérias extrativas que asseguravam as suas divisas no estrangeiro (fosse a borracha ou o café), não se cogitava do problema econômico, no sentido geral da necessidade de dotar a plebe brasileira, a grande massa do proletariado rural, de melhores condições de salário e vida material, incentivo ao pequeno agricultor, medidas de proteção para fixá-lo à terra, evitando assim as migrações rurais, fenômeno que se agravaria com a urbanização e modernização dos grandes centros metropolitanos. Esses foram problemas que essas duas mentalidades, tanto a que defendia a necessidade do Brasil se salvar pela saúde, quanto a daqueles que davam prioridade à educação, sempre deixaram de lado.

Ao tempo em que Gilberto Freyre termina os seus estudos no Recife, no Colégio Batista, em 1917, quase no final da guerra, e se prepara para completar os seus estudos superiores nos Estados Unidos, o paradigma do intelectual brasileiro era Rui Barbosa. Nesse período de 1917 a 1923, no qual Gilberto Freyre completa a sua educação superior na Universidade de Baylor, e depois em Colúmbia, e se prepara para estudos complementares na Europa, o intelectual Rui Barbosa era um paradigma cívico. O intelectual padrão era um jurista, um senador da República, um político liberal, um orador de grande facúndia verbal, era um erudito, fiel à pureza gramatical, como à letra da Constituição, quase sempre arranhada pela classe política e pelos tribunais.

Na mesma época, Assis Brasil pode ser apontado como um segundo paradigma: era um homem que vinha do Sul, um republicano histórico que tinha rompido com o seu cunhado Júlio de Castilhos. Enquanto este era de tendência positivista, ditatorialista, Assis Brasil era o reverso da medalha, um democrata, um homem que tinha fundado o Partido Libertador no Rio Grande do Sul e que desde então havia restaurado o espírito liberal de Silveira Martins, colocando-se à frente da campanha pela modificação dos hábitos eleitorais no Brasil sob o signo Representação e Justiça. Considero esses dois homens como paradigmas do intelectual brasileiro da época. Ambos deixaram um grande acervo cultural, através de seus arquivos e de suas bibliotecas, o de Rui Barbosa hoje incorporado à Fundação Casa de Rui Barbosa; o de Assis Brasil conservado no seu castelo em Pedras Altas, uma vasta biblioteca particular, uma coleção de valiosos documentos, que tem servido a muitos estudos, particularmente sobre a história republicana e em especial sobre a história gaúcha.

O intelectual brasileiro de então enquadrava-se, como disse, em parâmetros estatísticos, naqueles em que prezavam o escrever bem o seu português, em que primavam pela linguagem correta. Era uma categoria à parte da sociedade, a que eu qualificaria de greco-romana, de cultura clássica, sem a preocupação de penetrar fundamente na análise e na compreensão do homem brasileiro. No entanto, a maioria da população era de analfabetos. A classe intelectual e, conseqüentemente, a classe política, que se interpolavam, estavam uma e outra muito acima das classes populares, da massa por assim dizer ignara do povo.

É em Os Sertões que pela primeira vez o homem do interior se mostra em sua verdadeira feição, pária rural, em contraste violento com os políticos e intelectuais metropolitanos; esse contraste, ao surgir o livro vingador de Euclides da Cunha, assumiu o aspecto de um verdadeiro choque, que irá repetir-se com a publicação de Urupês, de Monteiro Lobato, com repercussões na década de 1920, em trabalhos que visavam uma melhor compreensão do que se convencionou chamar de realidade nacional. Aliás, a expressão "realidade nacional", que aparece por essa época, só vai adquirir consistência com a vitória da revolução de 1930.

De volta ao Brasil, terminados os estudos nos Estados Unidos e na Europa, a preocupação de Gilberto Freyre, é o seu reencontro com os problemas nacionais. No prefácio que José Lins do Rego escreveu para Região e Tradição, desenha-se claramente aquele novo padrão de intelectual, bem diferente de Rui Barbosa e Assis Brasil, o primeiro já desaparecido e o segundo, em franca decadência e destituído de charme intelectual. O jovem que regressava ao Brasil trazia idéias completamente opostas daquelas que até então eram consideradas o padrão da cultura e da inteligência brasileiras. O movimento modernista de 1922, ocorrido em São Paulo, assinala o rompimento com certas normas, sobretudo normas de pureza gramatical e de reação contra o espírito acadêmico. Os intelectuais paulistas que iniciaram esse movimento eram quase todos ligados ao Partido Republicano Paulista, integrantes da máquina oligárquica, de forma que seus primeiros artigos, nos quais se fazia o elogio de Marinetti e do futurismo, foram publicados no Correio Paulistano por Menotti Del Picchia, o grande pioneiro, redator do mesmo jornal e futuro deputado do PRP.

É então que entra em cena um novo personagem, Graça Aranha, que em 1913, em Paris, tivera o primeiro contato com o jovem intelectual brasileiro Alceu Amoroso Lima. Ele se mostrava preocupado com a pasmaceira intelectual brasileira, com o pouco interesse que existia no Brasil pela cultura européia, e propôs a Alceu e a Rodrigo Otávio Filho a formação de um clube, que se chamaria Göethe. A idéia de Graça Aranha, que só virá a tomar corpo quando ele se aposenta da diplomacia e retorna ao Brasil definitivamente por volta de 1921 ou 1922, era a de fazer um movimento que desse ao Brasil uma reforma em termos estéticos, algo diferente do primitivo Clube Göethe, mas ainda baseada na Grécia. Graça Aranha nunca se libertou, é bem verdade, do idealismo greco-romano. Ainda há pouco, no prefácio que escreveu ao seu mais recente livro, Tentativa de Mitologia, Sérgio Buarque de Holanda se refere a essa preocupação de Graça Aranha com a Grécia, preocupação então partilhada por grande número de intelectuais brasileiros. O Modernismo de Graça Aranha é bastante nebuloso e difuso, sobretudo nessa preocupação anacrônica com a Grécia e a necessidade de integração do intelectual no cosmo universal.

Nunca como naquela época houve tanto grego no Brasil, obsessão que Lima Barreto ridicularizou na década anterior. Todos se declaravam gregos, mesmo um Tobias Barreto (um pouco antes), um Euclides da Cunha (no início do século). Na morte de Machado de Assis, em 1908, quando se falou dele como um representante do mestiço brasileiro, Joaquim Nabuco estranhava, em carta a José Veríssimo, a insistência com que eram lembradas as origens raciais de Machado de Assis. Dizia ele: "para mim, ele nunca foi mulato, nunca senti Machado de Assis como um mulato, ele para mim era como um grego. Um grego da época de ouro" (cito de memória). Ao dizê-lo, Nabuco refletia bem a mentalidade da época. Também o modernismo de Graça Aranha apresentava esse traço, que vai marcar a dissidência com os modernistas e comprometer de um modo irremediável a sua liderança.

Graça Aranha queria estender a todo o país alguma coisa parecida com o que havia sido tentado em Pernambuco, no século passado, através da Escola do Recife, e inspirando-se simultaneamente no movimento iniciado na França por Maurice Barrès após a derrota da França pela Alemanha na guerra de 1870. Foi esse um movimento por um novo nacionalismo, que procurava incutir nos franceses a idéia nacionalista que ia se revestir de um tom exacerbado no movimento de Charles Maurras. O movimento modernista, que sempre reagiu contra a idéia de ter Graça Aranha como chefe, foi, como é evidente, um movimento com muitas correntes que se digladiavam na sombra. No entanto, a idéia básica era a de liquidar o passado: tudo o que era do passado não tinha interesse, tudo que vinha do passado devia ser combatido. A palavra "modernismo" é inadequada, pois nela se englobam em sucessivos estados espasmódicos o modernismo de José Veríssimo do começo do século, o modernismo de 1922 e mesmo o modernismo de hoje. A Semana de Arte Moderna, em São Paulo, acabou sendo um evento patrocinado pelo PRP. Realizá-la no Teatro Municipal, conforme conta em seu depoimento, em curioso livro, René Thiollier, foi apenas uma justificativa para impedir que a mesma data o então candidato pela Reação Republicana a Vice-Presidente da República, J. J. Seabra, fizesse nesse local sua conferência oposicionista.

Afinal, que quer dizer "moderno"? Prefiro aceitar a tese de Gilberto Freyre, desenvolvida magistralmente no seu livro Além do Apenas Moderno. Muito antes, porém, desde o seu regresso, vindo da Europa, ainda muito jovem, Gilberto Freyre recebeu com restrições o modernismo, pois via nele sobretudo um movimento que não respeitava o passado, o tradicionalismo, não o que o passado tivesse de velho, de antiquado, de superado, mas sobretudo aquilo que o passado pudesse oferecer como vivência, como experiência e como ensinamento. Havia, na posição assumida pelos criadores da revolução modernista em São Paulo, esse lado negativo. No entanto, os moços paulistas sacudiam o Brasil pela sua irreverência, pelo papel que desempenhavam na renovação de valores, da "desburrificação" do Brasil, como disse Mário de Andrade, na "descoelhonetização" do Brasil, como dizia por sua vez Sérgio Buarque de Holanda, que chamava a Coelho Neto, com a mesma irreverência, o Coelho Avô.

Essa insistência na negação do passado não a quis aceitar Gilberto Freyre. Não a aceitou aqui, no Nordeste, onde já se encontrava engajado no movimento modernista um escritor como José Américo de Almeida, promotor, procurador do Estado, que se preparava para a carreira política. Como intelectual, José Américo iniciara-se pelo soneto parnasiano. Era o autor de um livro, escrito segundo o modelo euclidiano, A Paraíba e seus problemas. Havia entrado em contato com os grupos renovadores de São Paulo, tendo chegado a colaborar na Revista de Antropofagia. Foi muito forte sua ligação com muitos dos modernistas, especialmente com Mário de Andrade e Antônio de Alcântara Machado, que tem por sinal posição muito próxima da de Gilberto Freyre, de quem se aproximava também em idade (Gilberto Freyre nascera em 1900, Alcântara em 1901). Quando eclodiu o movimento modernista em São Paulo com a realização da Semana de Arte Moderna, Antônio de Alcântara Machado era estudante na Faculdade de Direito de São Paulo. Foi ele quem organizou um grupo de jovens estudantes de Direito para vaiar a Semana. Quanto a Manuel Bandeira, não participou da Semana devido a suas notórias divergências com Graça Aranha, cuja liderança jamais aceitaria.

No depoimento de José Lins do Rego, publicado em Região e Tradição, é interessante a nota acerca da posição de Gilberto, que consistia sobretudo em procurar entender o Brasil de seu tempo, em conhecê-lo, na resistência contra o excesso do "modernoso" que viria a tornar-se uma praga no Brasil: a derrubada, o bota-abaixo das velhas edificações, da nossa arquitetura colonial. Aliás, esta tinha já sofrido um primeiro abalo com a Missão Artística Francesa tão bem estudada por Gilberto Freyre e Manuel Bandeira. Dessa primeira tentativa de modernização brasileira, no período joanino, ao tempo do rei velho, será bom reler o que escreveu Manuel Bandeira, num artigo sobre a evolução das artes plásticas no Brasil. O grande poeta aponta certos ademanes acadêmicos que de alguma forma haviam tolhido o desenvolvimento espontâneo dos artistas coloniais brasileiros no campo da pintura e no campo da escultura.

Da corrente modernista, creio que foi com Manuel Bandeira que Gilberto Freyre mais se identificou, além de Antônio de Alcântara Machado e Prudente de Moraes, neto, pois todos eles condenavam aqueles excessos praticados pelos homens que haviam tomado a vanguarda do movimento modernista em São Paulo. É muito sintomática essa preocupação de Gilberto Freyre em fazer prevalecer o tradicionalismo, num Brasil que já procurava modernizar as suas cidades, descaracterizando-as, como aconteceu no Rio de Janeiro, na Bahia e em Belém, e ao mesmo tempo se mantinha apegado aos valores tradicionalistas, que procurava exaltar.

Ocorria, então, no Brasil, o curioso período chamado neocolonial, num movimento estimulado também por um pernambucano, José Mariano Filho. Assistíamos, na década de 1920, a um retrocesso no que se considerava modernismo, em termos de arquitetura, sendo disso um dos exemplos mais típicos a construção ou remodelação da velha Academia de Direito de São Paulo instalada no Convento dos Franciscanos, o qual foi transformado num edifício neocolonial, desprezando completamente a velha construção, uma das mais veneráveis da nossa arquitetura colonial. À frente desse movimento surge o professor Alcântara Machado, pai de Antônio de Alcântara Machado. Quem visita hoje a Faculdade de Direito de São Paulo, edifício neocolonial de visível mau gosto, encontrará essa coisa curiosa, que é o busto do professor Alcântara Machado da autoria de Vitor Brecheret: um busto acadêmico feito por um artista moderno, tão ou mais acadêmico que o busto de Rui Barbosa da autoria do jovem estudante da Escola Nacional de Belas-Artes, Vicente do Rego Monteiro (1916), que se encontra na Fundação Casa de Rui Barbosa. Exemplo de outro regresso é a construção em estilo neocolonial do Instituto de Educação do Rio de Janeiro, promovida por Fernando Azevedo, que foi um dos mestres da renovação, quando dirigiu a Secretaria de Educação do antigo Distrito Federal. Além do Instituto de Educação, outro exemplo é a Escola Naval em estilo neocolonial.

Como é evidente, Gilberto Freyre não aceitaria nunca esses pastiches. O que ele condenava era a descaracterização, que atingia por exemplo a sua cidade do Recife, cuja derrubada se iniciou por essa época, na seqüência do movimento iniciado no Rio de Janeiro por Pereira Passos pela modernização da cidade. Essa posição tradicionalista assinala bem um certo mal-estar de Gilberto perante os companheiros de geração, embora ele não fosse um homem isolado, como demonstra a iniciativa do convite a Manuel Bandeira e outros escritores do Sul para colaborarem no jornal A Província, órgão ligado ao governo do Estácio Coimbra.

Antes, porém, Gilberto promove a edição monumental do Livro Nordeste, sob o patrocínio do Diario de Pernambuco. É, a seu pedido, que Manuel Bandeira escreve a Evocação do Recife, assinalando o reencontro do poeta com o tradicionalismo. Não se pode negar, muito menos subestimar, a influência de Gilberto Freyre no grande poeta no sentido de restituir a sua poesia, que estava sendo desfigurada pelo neoparnasianismo, pelo simbolismo, a uma poesia profundamente brasileira, cujo marco inicial foi sem dúvida "Evocação do Recife". Era também de Gilberto Freyre que partiam sugestões a um poeta de Alagoas, Jorge de Lima, que começara a sua trajetória com um soneto "O Acendedor de Lampeões", em estilo parnasiano e versos alexandrinos, para que escrevesse poemas como Nega Fulô e muitos outros, focalizando o tema do negro.

Esse tema era, na época, considerado perigoso e desprovido de interesse cultural ou social. A valorização do negro é uma das antecipações mais importantes de Gilberto Freyre. Nos estudos anteriores sobre o negro do Brasil, fossem os de Nina Rodrigues ou os de Manuel Quirino na Bahia, não existe de modo algum a valorização que mais tarde lhe seria atribuída pelos estudos de Gilberto Freyre. Em sua tese defendida na Universidade de Columbia sobre a situação das classes sociais no Brasil na segunda metade do século XIX, Gilberto defende já a tese da miscigenação e da incorporação do negro na sociedade brasileira, como elemento decisivo para a formação do caráter social brasileiro. Numa sociedade que recebera os primeiros resultados do grande influxo migratório iniciado no final do século XIX (a grande migração de europeus, sobretudo de italianos, que se enriquecerá mais tarde com componentes árabes e japoneses e que transformará o Brasil na grande nação meta-racial dos nossos dias) só nos anos vinte os estudos sobre o negro do Brasil adquirem uma nova dimensão, impulsionados por Gilberto Freyre.

A elaboração de Casa-Grande & Senzala não se fez por geração espontânea, ela foi lenta, consciente, que vem desde a tese de Colúmbia e se desenvolve depois no número histórico do Livro do Nordeste. Nesta obra importantíssima, Gilberto Freyre faz o inverso de Euclides da Cunha: em vez de, como Euclides, mostrar o sertão abandonado e esquecido, ele faz a primeira chamada de contacto de âmbito nacional para a compreensão do problema do Nordeste, através da presença de muitos intelectuais do Sul que convidara a colaborar. O Livro do Nordeste opera esse contacto bem antes que tenha surgido A Bagaceira, de José Américo de Almeida. Embora a importância do Livro do Nordeste não se tenha manifestado de imediato, ela se revelará a longo prazo. Nessa primeira fase, em que Gilberto Freyre começa a repensar o Brasil, e estudá-lo, a aprofundar o seu conhecimento, tudo isso se incorpora à preparação a Casa-Grande & Senzala. Embora posterior a 1930, essa obra resulta de uma longa reflexão, visando o conhecimento do Brasil, através da formação da família patriarcal, sobretudo a enraizada no Nordeste.

A meu ver, um dos traços fundamentais da personalidade de Gilberto Freyre é o seu não-convencionalismo: homem solteiro, ainda muito jovem, nessa época, e que não parecia inclinado ao casamento, ele despertava paradoxalmente estranhezas pelo seu lado anticonvencional e descontraído. Nunca assumiu uma atitude de dono da verdade ou de beletrista que desse à atividade de intelectual uma certa condição mitológica, de coisa muito alta, talvez inatingível para qualquer um, que só os eleitos, os deuses, pudessem alcançar. Um intelectual devia ser antes, pelo contrário, um homem à flor da terra, dentro de seus problemas, dentro da sua realidade.

É como antecipador que Gilberto Freyre vai mostrar muitas das coisas que no Brasil eram marginalizadas e consideradas inferiores. Uma delas seria a poesia de Augusto dos Anjos, que a duras penas havia conseguido publicar o seu livro em 1914, mediante um empréstimo contraído com seu irmão Odilon. O livro teve um momentâneo êxito, mas logo caiu no esquecimento. Lembro-me de Orris Soares me contar que, quando morreu Augusto dos Anjos, encontrara-se com Bilac na Avenida Rio Branco e lhe dissera que o Brasil acabava de perder um grande poeta. Bilac retorquira: "Quem é Augusto dos Anjos? Não o conheço. Nunca ouvi falar nesse nome". Soares então recitou um soneto do poeta, não me lembro qual. Bilac, desdenhoso, continuou sua caminhada pela avenida, dizendo: "O Brasil não perdeu nada com a morte desse moço". No momento em que os próprios modernistas de São Paulo consideravam Augusto dos Anjos um poeta de mau gosto, até mesmo de maus bofes, Gilberto Freyre, pelo contrário, valoriza-o em seu artigo de 1924. É uma outra de suas iluminações na década de 1920, antes ainda de Casa-Grande & Senzala.

O que impressionava os jovens intelectuais desse tempo, como José Lins do Rego e também muitos dos paulistas, como mais de uma vez me confessou Sérgio Buarque de Holanda, era a capacidade de leitura, o conhecimento universal de Gilberto. Ele era um homem que tinha procurado se especializar em sociologia, o que naquela época era quase um sintoma de loucura. Estudar sociologia, coisa que não existia no Brasil, iniciar um jovem sua vida intelectual fora daquelas atividades clássicas de médico, bacharel ou engenheiro, tinha algo de insensato. Mas Gilberto, além de estudioso em sociologia, era também um puro intelectual aberto à literatura e lendo tudo o que aparecia na época. Segundo depoimento de Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto conhecia Ulysses, de Joyce, um desses livros raros que então surgiram e que ninguém lia. Numa de suas viagens, Paulo Prado trouxera em sua bagagem esse livro imenso, Ulysses, aquele imenso livro que ele não conseguira ler, pois era de fato um livro extremamente difícil de ser digerido. Lembrou-se então que talvez o Sérgio Buarque de Holanda pudesse ler o livro. Entregou-o a Sérgio Buarque e Sérgio leu o livro, e chegou a esboçar um artigo sobre ele. Mas, nesse meio tempo, Gilberto publicou o seu artigo sobre Joyce e sobre Ulysses. Sérgio desistiu então de publicar o seu, pois ele não iria acrescentar nada ao que já dissera Gilberto Freyre. Assim, o artigo-revelação de Joyce no Brasil não seria de Sérgio Buarque de Holanda, e sim de Gilberto Freyre.

É esse aspecto antecipador de Gilberto que o marca profundamente e que estabelece entre ele e as grandes figuras do movimento modernista uma dissonância. Não que se tratasse de uma forma de afastamento de um movimento geral. O processo cultural é um processo dinâmico, um processo acumulativo, que não é obra de uma só pessoa e sim de um conjunto, de muita gente, mesmo quando se trata de uma pessoa como Gilberto, que avançava na primeira linha dos vanguardeiros. Ele representava, porém, entre os intelectuais brasileiros da época, alguma coisa de diferente. Trazia do estrangeiro, como universitário, uma nova mentalidade, trazia também essa extravagante condição de ser um sociólogo. No Brasil, a sociologia era qualquer coisa de mitológico, de que falavam Pontes de Miranda e Delgado de Carvalho, e que tinha sido tratada, mas de forma acadêmica, por Oliveira Viana, no seu livro Populações meridionais do Brasil, e de forma pedagógica, por Fernando Azevedo, com os seus Elementos de Sociologia. Mas foi a Gilberto que coube a primeira Cadeira de Sociologia, criada no Recife, na Escola Normal, pela Reforma Carneiro Leão, no governo de Estácio Coimbra.

Parece-me, a esta altura, que estou me alongando muito nestas minhas considerações, talvez por não ter trazido nenhuma nota escrita. Pelos motivos que já expus a Fernando Freyre, ocupações e compromissos, além de problemas de saúde, no momento em que havia sido convidado para participar deste Seminário, não me permitiram escrever uma monografia, dentro dos princípios canônicos do Seminário de Tropicologia. Estou apenas traçando alguns momentos que reputo significativos, relativos à presença de Gilberto Freyre antes da publicação de Casa-Grande & Senzala, utilizando reflexões e notas de um trabalho em elaboração sobre o movimento de idéias no Brasil.

Em resumo, e procurando deixar claro o que já disse: no processo de renovação intelectual brasileira, nenhum grupo se pode considerar hegemônico sobre os demais. Seja o grupo da Klaxon, ou o da Revista de Antropologia, ou o da Anta, seja o grupo mais criativo ou mais fecundo que foi o da Revista Nova, com a direção de Paulo Prado, de Mário de Andrade e de Antônio de Alcântara Machado. Todos esses grupos prestaram, sem dúvida, a sua contribuição importante. Houve, no modernismo, certas distorções com muitas correntes em posições conflitantes: do grupo do Verde-Amarelo ao Pau-Brasil e tantos outros, em São Paulo; os grupos do Verde e da A Revista, em Minas Gerais; o grupo da Madrugada, no Rio Grande do Sul; o grupo da Revista do Norte, aqui em Pernambuco; o grupo Arco e Flexa na Bahia, que nada teve de modernista, chefiado por Carlos Chiacchio, além de outros em Belém do Pará e em Maceió. Nessas correntes cruzadas, há muito a ser analisado dentro do processo renovador da inteligência brasileira.

Mas, em meio a todos os intelectuais brasileiros daquela época, Gilberto chama a atenção pela sua singularidade: singularidade de uma postura que não se limitava a condenar o passado ou a condenar aquele tipo de literatura que não se escrevia, presa aos estilos clássicos, à gramática, ou a condenar os excessos, que no Recife e em todo o Brasil, se apresentavam violentamente chocantes. Com efeito, é chocante ver hoje, finda a polêmica, uma bela igreja ao lado desses edifícios monstruosos construídos pela especulação imobiliária dos Iapês, dos Iapas, e que surgiram posteriormente, já na fase em que o modernismo devia apresentar os resultados da sua polêmica. Não se trata de saudosismo, pelo contrário, é o espírito de conservação daquilo que o passado nos deu de melhor. A propósito, lembro a arquitetura de Lúcio Costa que teve em Gilberto Freyre um de seus entusiastas: em matéria de arquitetura e urbanismo, ele soube compreender a necessidade da vinculação entre o tradicional e o moderno.

Certamente, este foi o papel desempenhado por Gilberto: mostrar que é preciso olhar o passado, respeitá-lo, tirar dele o seu ensinamento e partir daí para uma compreensão verdadeira do Brasil, do Brasil que Gilberto diz ser "produto de uma meta-raça". Esse conceito de "meta-raça" é uma das suas invenções, ou inovações.

Peço perdão aos que me ouvem pela maneira informal com que desenvolvi um tanto atabalhoadamente esta minha comunicação. Sei que não estou dizendo nada de extraordinário. Estou prestando apenas a minha homenagem de veneração, de respeito, de admiração a um grande brasileiro, a um dos maiores escritores da nossa língua, a um homem que tem sido freqüentemente comparado com justiça às maiores expressões literárias universais de todos os tempos, a um mestre, a um escritor que renovou a nossa linguagem, pelo seu estilo e pelo seu profundo conhecimento e identificação com a vida brasileira, e que é, além de um cientista de renome internacional, além de um sábio, é, também um poeta. E nisso está como que resumida e simplificada toda a grandeza de Gilberto Freyre.



Fonte: BARBOSA, Francisco de Assis. Gilberto Freyre, o antecipador. In: Seminário de Tropicologia: Trópico & Gilberto Freyre, antecipador, antropólogo, escritor literário, historiador social, pensador, político, tropicológico, 1980, Recife. Anais... Recife: Fundaj, Massangana, 1983. p. 133-146.

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