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Assinatura de Gilberto Freyre
Palestras  



GILBERTO FREYRE, O ESCRITOR


David Mourão Ferreira

Mestre Gilberto Freyre, minhas senhoras e meus senhores. Constitui para mim honra muito especial vir falar num aspecto da obra do Mestre Gilberto Freyre aqui, no seu Recife natal. O fato de se tratar de um Seminário em moldes muito especiais, que se deve justamente à iniciativa de Gilberto Freyre, um Seminário sobre Tropicologia, pareceu-me, a um primeiro relance, que não seria muito adequado pra o tema da exposição que venho aqui ler. Pois eu trato de encarar uma parte da obra do escritor Gilberto Freyre para além do âmbito da Tropicologia, como obra literária autônoma e até certo ponto desligada de circunstâncias. Mas evidentemente há a radiação regional do escritor Gilberto Freyre. Também na sua obra literária se manifesta, também nela se verifica o constante e fecundo diálogo entre região e universo, entre espírito local, que ele conhece e revelou como ninguém mais, e o espírito universal que anima todos os seus textos.

Eu vou tentar ler vagarosamente e não engolindo demasiado as palavras, como temos o hábito em Portugal e de que somos muito acusados, para que o meu texto seja facilmente compreendido por todos. E é claro que quaisquer dúvidas que haja na percepção daquilo que eu disser, gostaria muito que se manifestassem, desde logo, essas dúvidas.

O excesso de dons e de capacidades pode ser tão prejudicial como a sua carência. Ou pode ser mesmo ainda mais prejudicial. Ou pode ser até, com efeitos incalculáveis, uma terrível fonte de equívocos e de pesadas injustiças.

É em Mestre Gilberto Freyre que estou pensando. Se ele não fosse também o grande sociólogo de renome internacional, o incomparável pioneiro e o mais alto expoente nos estudos de tropicologia, o genial precursor no domínio de tão fecundas aproximações interdisciplinares, o sempre renovado modelo de ensaístas - e até de cronistas - para quem não têm segredos os aspectos permanentes ou mutáveis de diversas culturas, decerto que a sua obra de específica criação literária - tanto no plano da novelística como no plano da poesia - gozaria hoje, no Brasil e fora dele, daquela merecida audiência que em todo o mundo culto se confere a um significativo punhado de grandes escritores latino-americanos. E nem o fato de, em número de volumes, essa obra ficcionística e poética ser comparativamente escassa pode sequer constituir uma escusa para o relativo silêncio que a rodeia. Nos horizontes da criação literária, e à parte um ou outro caso excepcional em que torrencialidade não deixa de rimar com autenticidade, deve-nos antes suscitar suspeitas quanto deriva de uma superstição da abundância ou de um mecânico ritmo de produção em série.

Enquanto uma obra científica, ou mesmo de cariz crítico-ensaístico, muito ganhará em ser uma soma - e soma incessantemente acrescida do resultado de novas pesquisas, de novos conhecimentos, de novos argumentos, de novas reflexões -, já pelo contrário uma obra de "criação", no sentido estrito e mais rigoroso do termo, só lucrará em apresentar-se como uma quintessencial, como produto final e depurado, conseguido quanto possível ao arrepio da mística do número e das mercantis seduções da quantidade. Ora, se não me engano, a produção de Gilberto Freyre, no modo assimétrico como se tem repartido por essas duas vertentes, exemplarmente satisfaz, afinal de contas, as diversificadas exigências de cada uma delas. E a própria circunstância de Mestre Gilberto Freyre desde sempre se ter mostrado sensível e permeável, quer à expressão poemática quer à experimentação narrativa, mas de só em plena maturidade haver dado à estampa os resultados de suas incursões em ambos estes gêneros mais e melhor sublinha ainda o aludido caráter quintessencial (perdoe-se-me o possível neologismo) de quanto pertence, na multímoda atividade gilbertiana, ao âmbito de uma específica criação literária.

É claro que estou abusivamente simplificando; ou compartimentando em excesso por meras razões metodológicas. Não há texto saído da pena de Mestre Gilberto Freyre que não traga o selo inconfundível daquilo a que o escritor português Luis Forjaz Trigueiros - tão brasileiro, aliás, pelo coração e pela cultura - chamou um dia a "genialidade desinibida" do nosso autor; não há texto seu, em suma, que não traga assim a profunda marca de uma criação radical e indisfarçável. Mesmo as suas obras de escopo científico mais circunscrito obedecem invariavelmente àquele tão esquecido preceito de Ortega y Gasset, segundo o qual "um livro de ciência tem que ser de ciência, mas tem também que ser um livro"; e o menos que pode dizer-se de livros seus como Casa-Grande & Senzala, Sobrados e Mucambos, Nordeste e tanto mais é que são, a um tempo, obras de rigor e de sortilégio, de análise e de fascinação, em que o amplo material cientificamente carreado e cientificamente submetido à científica fieira dos métodos mais exigentes tem o condão de jamais se mostrar inacessível ou árido por obra e graça de um pessoalíssimo estilo sempre surpreendente, de um sentido arquitetônico sempre vigilante, de uma intrínseca noção de estrutura em que o microscópico e o macroscópico entre si harmoniosamente se correspondem e doseiam. Daí, o justo prestígio de que tais obras usufruem entre os mais doutos especialistas; daí, também, por outro lado, o merecido êxito que nunca têm cessado de alcançar junto do grande público.

Mas o próprio Gilberto Freyre, com um admirável sentido de autolucidez, é o primeiro a estar consciente desta sua dupla vocação de homem de ciência e de escritor. Nesse curioso e apaixonante livro que se chama Como e Por que Sou e Não Sou Sociólogo, ei-lo que nomeadamente se considera de "difícil classificação como sociólogo" para também ou principalmente se entender como escritor, acrescentando então o seguinte: "Escritor de sistemática formação científica, é certo, e esta, de modo específico, a antropológica - a sociológica. Porém escritor a quem, talvez, não faltem características literárias que lhe dêem direito, se não ao título, a uma condição que só se atinge através da arte de escrever". Aduzirei, pela minha parte, que só não concordo com o que há de restritivo e de dubitativo neste trecho de tão clarividente autognose: efetivamente, nem se me afigura que Gilberto Freyre, enquanto escritor, seja apenas ou sempre catalogável como "escritor de sistemática formação científica", nem tampouco me parece minimamente sustentável a dúvida quanto ao "título" a que tem pleno direito, mercê de algumas das suas obras, de ser também considerado um escritor à part entière. E sobre tais obras é que principalmente irá incidir a nossa atenção. Elas são, aliás, as que se inserem naquele específico âmbito de "criação" literária, em sentido restrito, a que já há pouco fizemos referência.

Não falando, por agora, de um livro como Tempo Morto e Outros Tempos - onde igualmente se encontra presente uma dimensão de descomprometida criatividade, sujeita embora à disciplina caprichosa, ou ao capricho disciplinado, de um juvenil diário íntimo -, cinjamo-nos sobretudo, na vasta produção de Mestre Gilberto Freyre, àquelas três espécies bibliográficas em que, logo no título ou no subtítulo, se deixa entrever a presença da "criação" como já sinônimo de "imaginação" ou em que pelo menos cessa de aflorar o apelo de uma "sistemática formação científica". Refiro-me, como facilmente se depreende, aos volumes Talvez Poesia (de 1962). Dona Sinhá e o Filho Padre (de 1964) e O Outro Amor do Dr. Paulo (de 1977). Designados estes dois últimos como "seminovelas" e apresentando-se a matéria poética do primeiro, no próprio título, sob uma caução dubitativa, o que imediatamente todos eles apresentam de comum é esse reservado pudor na adoção de uma plena especificidade literária ou de uma absoluta "literariedade". Já vimos como isto corresponde a uma reticente aceitação do próprio autor em relação a determinados dons que sabe possuir, mas que hesita em assumir completamente. Falta agora observar como isto mesmo, em vez de ter o quer que seja de negativo, é antes manifestação de um alto escrúpulo artesanal e até um importantíssimo índice de modernidade.

Intitular Talvez Poesia uma coletânea de versos, rotular de "seminovelas" duas extensas narrativas em que o elemento "ficcional" aliás prepondera - eis o que desde logo nos introduz numa área de suspeição particularmente característica da vivência literária dos nossos dias, se é que não mesmo tem a ver, de modo bem direto, com aquela "era da suspeita" tão certeiramente diagnosticada em tempos por Nathalie Sarraute no que à ficção narrativa se refere, mas que não menos abrange, e até desde há mais longa data, o domínio da expressão poética. Hoje em dia (um "hoje em dia" que hoje em dia conta quase um século), só os ingênuos ou os imbecis têm a certeza de escrever poesia quando escrevem poesia, de escrever ficção quando escrevem ficção. É, rigorosamente, no que à poesia em particular respeita, o mínimo que seria recomendável afixar, no frontispício de toda e qualquer obra poética (se acaso isto mesmo não estivesse implícito nas melhores), nunca deveria andar muito longe desse mesmo título - Talvez Poesia - do livro de poesia de Gilberto Freyre. Como já se está entendendo, não tem de qualquer modo razão de ser, para o leitor que sou, esse "talvez" agora em causa, o do título gilbertiano.

Antes ainda de entrarmos nos poemas desse livro, bastaria o belo testemunho prefacial do grande poeta Mauro Mota para que nos não quedassem dúvidas quanto à qualidade da poesia que dentro do volume nos aguarda. Os próprios textos de mais específico valor documental têm sempre a exorná-los outras intrínsecas virtudes que são já da esfera do "monumento" e não apenas do "documento', ascendendo não raro àquele invejável plano de múltiplas sugestões em que "documento" e "monumento" intimamente se fundem numa coesa unidade. Constitui já um dado adquirido da história literária o fato de, por exemplo, um poema como "Bahia de Todos os Santos e de Quase Todos os Pecados" representar, como diz Mauro Mota, "um dos suportes do movimento modernista na história"; mas extremamente bem avisado se mostra o mesmo poeta e crítico em não se quedar nesta justa constatação em apontar, desde logo, muitas das tais intrínsecas virtudes, de raiz já puramente poética e de floração autonomamente estilística. Bem avisado se mostra ainda quando nomeadamente sublinha aspectos de "uma técnica contrária à da simples visualização", quando se detém em pormenores da estrutura poemática, quando, enfim, proclama a importante "revolução semântica" levada a cabo por Gilberto Freyre neste seu poema da juventude. E em duas simples mas impressivas frases, que são mais do poeta que do crítico, Mauro Mota define de modo lapidar aquilo em que essencialmente consistiu essa mesma "revolução semântica": "Bota lenço vermelho no pescoço das palavras. Fuzila os adjetivos bolo-de-goma". Dificilmente se exprimiriam melhor duas das principais características que são de fato visíveis ao longo de todo o texto; e só me resta acrescentar que elas as duas, de mistura com certas formas de flagrantemente captar o real e de através de vívidas enumerações o reproduzir, sinteticamente transfigurado, me fazem lembrar outro poema capital da poesia modernista em lingua portuguesa. Refiro-me ao grande poema "A Cena do Ódio", do português José de Almada Negreiros, de que todavia Gilberto Freyre não poderia ter tido conhecimento, porque, embora escrito e até impresso em 1915, apenas veio a ser tornado público em 1958, ou seja cerca de trinta anos depois da primeira publicação do poema gilbertiano sobre a Bahia. Mas esses dois belos "instantâneos" poéticos - um de atmosfera baiana, outro de ambiente lisboeta - bem mereceriam, a despeito das diferenças que os separam, ser um dia cotejados ou analisados em conjunto, pelo que respeita, sobretudo, à maneira com num e noutro se realiza, para reempregarmos a feliz expressão de Mauro Mota, esse inovador gesto - que é um gesto eminentemente estilístico - de "botar lenço vermelho no pescoço das palavras". Quando Verlaine preconizava, no seu célebre. Art Poétique, que a poesia torcesse o pescoço à eloqüência, longe estava ele de calcular que outro processo de lho torcer, sem tão-pouco chegar a fazê-lo, haveria de ser inventado, com o recurso ao emprego de berrantes camadas cromáticas, por dois poetas da língua portuguesa, muito diferentes um do outro é certo, mas ambos, de qualquer modo, simultaneamente poetas e pintores.

Nem só porém, no poema a que vimos aludindo se revela, em termos de poesia, a vocação pictórica de Gilberto Freyre. Se há mesmo denominador comum capaz de abranger produção poética tão diversificada como a que se reparte pelas várias secções de Talvez Poesia, esse denominador é justamente o da preeminência do olhar num artista verbal doublé de artista plástico; e esse artista bem poderia fazer seus estes dois versos de Cesário Verde: "Pinto quadros por letras, por sinais, / Tão luminosos como os do Levante". É que são efetivamente "quadros" quase todos os poemas de Gilberto Freyre, de tal modo que o horaciano preceito ut pictura poesis se mostra aqui constantemente posto em prática. As formas, os volumes, as cores emergem com tal intensidade na sem dúvida poesia de Talvez Poesia que se diria ser sempre o verbo "ver", mesmo quando não nomeado, a verdadeira espinha dorsal dos seus versos; mas trata-se ainda de um "ver" em perpétua deambulação, como se com o verbo "andar" quisesse andar sempre emparelhado. Das seis secções em que o volume se divide, as mais significativas e as mais extensas trazem mesmo no título a sugestão de espaços, a concreta referência a circunstância de lugar: "Brasiliana: Litoral e Sertão"; "Agosto Azul e Outros Poemas Europeus"; "África e Ásia". E note-se, já agora, na ordem por que aparecem seriadas, como essas secções se sucedem numa direção levantina, como elas também parecem tender, em termos geográficos, ao encontro daqueles "sinais" evocados por Cesário Verde, "tão luminosos como os do Levante". Por outro lado, em termos de cultura, essa mesma seriação deixa ainda subentender uma incessante procura das origens, uma incansável busca de raízes. Mas o mais importante é o fato de estes belos poemas de ambulatórios, sobre o fundo móvel de sucessivos cenários do Novo e do Velho Mundo, realizarem afinal, sob uma forma atualizada, e com o substrato da alta preparação científica de um grande antropólogo, aquilo que foi objetivo e sonho de um dos mais significativos pendores da poesia européia anterior ao surrealismo. Refiro-me àquela tendência habitualmente designada por "poesia da possessão do mundão" que teve pontos de contato com o chamado "unanimismo" e cujos principais representantes, nas letras francesas, foram um Valery Larbaud, um Blaise Cendrars, um Paul Morand, embora, sob outros aspectos e com um muito diverso desenvolvimento, também de tal tendência se possam aparentar um Jules Supervielle ou um Saint-John Perse.

Cingindo-me, porém, ao primeiro dos nomes apontados, avançarei a hipótese de esse verdadeiro heterônimo de Larbaud que foi. A. O. Barnabooth ter em parte "ressuscitado", já liberto dos seus tiques e remorsos de fabuloso milionário, em muitos dos poemas itinerantes de Gilberto Freyre. E quem acaso conheça a profunda devoção que de há muito consagro à obra de Valery Larbaud sem custo reconhecerá o que de altamente valorativo coloco neste atrevido paralelo. O que mais importa, no entanto, não é o fato da minha própria devoção larbaudiana: é, sim, o fato de idêntica devoção dispor também de relevante lugar na inteligência e na sensibilidade de Mestre Gilberto Freyre. No prefácio que escreveu para a edição de Tempo Morto e Outros Tempos, detidamente se refere o nosso autor ao "pouco conhecido Valery Larbaud" para depois acrescentar: "É um dos escritores franceses cuja personalidade e cuja obra mais me seduzem. Creio que não sou o único a ter desses entusiasmos por escritores ou por artistas de pouca repercussão no grande público". E, mais adiante, estas outras palavras com as quais me sinto em inteira consonância: "Talvez se deva enxergar nesses entusiasmos algum esnobismo. Mas é possível que eles sejam expressão de uma coragem cada dia mas rara: a de admirar num indivíduo valores que nem sempre são os consagrados pelas academias, por um lado, e pelo grande público, por outro lado. Individualismo do chamado ibérico ou hispânico. Personalismo do que chega a ser anárquico no bom sentido da palavra". Curiosamente, nas duas páginas que ainda a seguir dedica ao requintado criador de Fermina Marquez é apenas o prosador, não o poeta, quem aí mobiliza e concentra a penetração crítica de Gilberto Freyre.

Seja como for, não consigo ler, pela minha parte, certos poemas resultantes das andanças européias de Mestre Gilberto Freyre sem divisar determinadas manifestações de sensibilidade e de disponível atenção que mais têm a ver, em última análise, com o Barnabooth que Larbaud sonhou criar do que propriamente com o Barnabooth que ele de fato criou. Um pouco mais e quase diria eu que efetivamente se encontra, em certos versos gilbertianos, um Barnabooth mais verdadeiro que o verdadeiro. Compreende-se aliás por quê: Larbaud imaginara um Barnarbooth oriundo da América Latina; mas Larbaud nunca pusera os pés na América Latina e, embora sempre o tenha deplorado, só através dos livros a conhecia. Daí os limites do heterônimo a que deu vida e obra, limites que eram sobretudo de mundividência ou de cosmovisão, a começar pelo exclusivo europeismo que o seu alter ego exibia e professava. Em contrapartida. Gilberto Freyre é mesmo oriundo da América Latina; e, para mais, brasileiro; e, ainda por acréscimo, o genial antropólogo que todos conhecem e reconhecem; e, como brasileiro e como antropólogo, um verdadeiro "cosmopolita" no sentido estóico do termo - isto é: um verdadeiro cidadão do mundo, o que também equivale a dizer que se trata, em plenitude, e numa acepção muito mais ampla que a da tradição clássica, de um antêntico humanista para quem, autenticamente, nada do que é humano consegue ser alheio.

Só agora tomei conhecimento, a propósito de Gilberto Freyre, da penetrante e originalíssima paráfrase que o Professor Edson Nery da Fonseca recentemente fez da célebre sentença de Terêncio a que eu próprio acabo de aludir. Com essa paráfrase me sinto absolutamente de acordo; e, como Nery da Fonseca propõe, antes importaria de fato, em relação ao mestre de Aventura e Rotina, ampliarmos do seguinte modo o conceito terenciano: "Sou vivo: nada do que é vivo reputo alheio a mim". Eis o que também os seus versos exuberantemente testemunham; e eis porque nos seus versos se pode concentradamente "ler", como que en abime, toda a sua trajetória intelectual de universal pernambucano, herdeiro e intérprete de múltiplas culturas, grande cientista e grande mago no modo de as entender. Mas o mais admirável é que tais versos nem por isso deixem de ser poesia.

Permitam-me que cite, a esse respeito, pelo menos dois breves exemplos. O primeiro será o deste curto poema sobre Évora, em que, sem uma única metáfora, sem o recurso à rima, com palavras de todos os dias, através da mais desnuda linearidade sintática, se recria de súbito uma atmosfera mágica e se condensa o impacto de um deslumbramento: "Quando saí da Biblioteca / a cidade estava escura: / era quase noite, e Évora à noite / é ainda mais Évora do que durante o dia". A par de textos como este, em que parece ter-se redescoberto o segredo de certos epigramas da Antologia Platina ou de certos haikai da poesia japonesa ou de certos espécimes lapidares da lírica arábico-andaluza, a obra poética de Gilberto Freyre, como quintessência também formal, oferece-nos ainda o exemplo de casos que se recomendam por qualidades diametralmente opostas: a caudalosa sucessão das imagens, a alacridade da invocação ou da apóstrofe a profusão do numeroso epíteto inesperado, a tática da enumeração só aparentemente caótica, a estratégia do largo fôlego na pintura de quadros de natureza luxuriante. E repare-se, de caminho, que os poemas onde imperam estes pressupostos estéticos são mais amiúde aqueles de atmosfera tropical, enquanto se reservam principalmente, para os de menos exuberantes paragens ou regiões, os ditames de uma poética de economia e da contenção, da ironia, da elipse e da litote. Por vezes, no entanto, manifesta-se o compromisso entre essas duas divergentes formas de elocução; e o segundo exemplo que ainda quero referir situa-se precisamente nesta zona fronteiriça. Trata-se de um poema de louvor à beleza da mulher brasileira - e, particularmente, da mulher nordestina -, através da discreta articulação de redondilhas do romanceiro a manifestarem todavia pudor ante a extensão do "romance" tradicional e a quedarem-se, assim, numa espécie de "média-metragem" muito voluntariamente assumida, em que as alusões, escassas mas paradigmáticas, funcionam também como alusões, de outras alusões (quando se fala, por exemplo, de "cariocas", "gaúchas" ou "paulistas" estão-se igualmente aludindo às demais que não se aludem) em que os referentes geográficos se entrelaçam com os referentes culturais, em que o contraponto do passado e do presente se mitifica em corpo e corporiza em mito: "Cariocas e gaúchas / Belezas brasileiríssimas / Como também as paulistas / Abram alas batam palmas / Para a do Norte que vem / Toda de branco vestida / Muito sinhá no olhar / Muito moderna no andar. / O Norte não é só vaqueiro / Nem só Joaquim Nabuco / Não é só casa de engenho / Nem só Delmiro Gouveia / É também essa mistura / De uma graça de outro tempo / Com o moço Brasil de hoje / Que leva ao Sul leva ao Centro / A brasileira do Norte".

Com este hino à juventude da mulher nordestina aparenta-se longinquamente a primeira obra de ficção, ou de semificção, de Gilberto Freyre - Dona Sinhá e o Filho Padre -, onde encontramos, também "muito sinhá no olhar" e logo no nome, uma "heroína" de origem idêntica, se bem que não já na flor da juventude, antes na curva descendente de seus dias. E é como se os dois gêneros - o lírico e o narrativo -, um mais próximo da adolescência do mundo, outro mais cerca da sua maturidade ou declínio, houvessem sido chamados para retratar dois correspondentes períodos etários de praticamente a mesma figura. Seja como for, a seminovela mostra-se, como é óbvio, extremamente mais complexa que o poema e está logo exigindo, por esse fato, uma abordagem menos sumária.

Refira-se, em primeiro lugar, o extraordinário "achado" que representa, na estrutura de Dona Sinhá e o Filho Padre, não só a continuada "confusão" entre a figura imaginária e a figura real da protagonista, mas, sobretudo, a genial "jogada de antecipação" desta última em relação à primeira. Imagine-se num gigantesco tabuleiro de xadrez, e antes de o jogo propriamente começar, a desconcertante intervenção de um ser humano que se identifica, de modo iniludível, como verdadeiro modelo ou corpóreo arquétipo de uma das pedras que vão ser utilizadas; neste caso, mais concretamente, como arquétipo e modelo da própria pedra que representa a "Rainha". Eis todo o jogo imediatamente posto em causa; eis imediatamente subvertido o tradicional "xadrez" da ficção; eis imediatamente complicada, de maneira imprevisível e até aos últimos limites, a partida que se vai jogar e que terá de contar, doravante, em dois distintos planos, tanto com a vontade do jogador como com a da pedra que afinal não é pedra. Nesta mistura do real e do ficcional se funda uma das razões para a designação de "seminovela" dada por Gilberto Freyre à sua narrativa. Outra, não menos importante, decorre do permanente contraponto entre estória e História, entre invenção e ensaísmo, entre discurso romanesco e excurso psicossociológico. Mas ambas estas razões, pelo que implicam de problematização do tecido ficcionístico e de alargamento da sua superficie, mais nos convidariam a classificar de "supernovela" ou de "metanovela" o que de "seminovela" se viu crismado pelo autor. Outra coisa, aliás, não terá entendido o crítico do prestigiadíssimo The New York Times, em artigo de página inteira, ao capitular de "metaliteratura" a narrativa. Dona Sinhá e o Filho Padre, a quando da sua edição em inglês sob o título de Mother and Son. E tal característica confere ainda a este notabilíssimo texto uma vibração e um halo de irrevogável modernidade.

A um muito primeiro relance, talvez o confronto entre pessoa e personagem faça enganadoramente ocorrer à memória o exemplo de Pirandello. O que todavia se verifica em certas obras do grande siciliano - nomeadamente em Sei Personaggi in Cerca d´Autore - pertence a outra esfera de problematização, circunscreve-se a um interno conflito da literatura e do teatro consigo mesmos. Na narrativa de Gilberto Freyre, pelo contrário, as "duas" Dona Sinhá - que vêm por fim a ser uma só - situam-se em zonas diferenciadas e exigem diferenciados métodos de approach: enquanto uma se move no labirinto da imaginação especificamente literária, a outra - captável até por meio da reportagem ou da entrevista - torna-se objeto de uma precisa indagação histórico- sociológica. É certo que a entrevista ou a reportagem, no caso vertente, ainda ou já participam do artifício ficcional. Mas os instrumentos mobilizados para a caracterização daquela Dona Sinhá - ou, pelo menos, de uma tipificada Dona Sinhá do Largo de São José do Ribamar, representativa de uma determinada sociedade em vias de extinção, sobrevivente ao próprio mundo que a viu nascer - esses instrumentos de pesquisa e de análise são declaradamente os do sociólogo e do historiador que coexistem em Gilberto Freyre. Inútil acrescentar que nada de semelhante se passa na obra de Pirandello, cujas personagens mais emblemáticas se mostram mesmo socialmente desencarnadas, quando não ostensivamente divorciadas da História.

É nos antípodas desta concepção que se afirma e desenvolve toda a mundividência subjacente à obra monumental do demiurgo de Nordeste. E já Roland Barthes tivera ensejo de apontar, como travejamento dessa obra, "o senso obsessional da substância, da matéria palpável do objeto vivo". Acrescentarei, à minha conta, que o Homem é sempre, na multiforme criação de Gilberto Freyre, o primeiro de tais objetos, o essencial de tal matéria, a forma primordial de tal substância. Impossível, pois, divorciá-lo da História, desencarná-lo da sociedade em que vive. Por outro lado, se esse movimento de divórcio e desencarnação não foi apenas próprio de um Pirandello, mas antes correspondeu a toda uma tendência do "moderno" na cultura ocidental, facilmente compreendemos como também sob este aspecto Gilberto Freyre se revela um verdadeiro profeta desse "além do apenas moderno" que, nos últimos anos, e sobretudo no fascinante livro que tem este título, ele não tem cessado de prever e de perscrutar. Ainda há poucos meses, num excelente ensaio publicado na revista Colóquio/Letras, alguém que é hoje, para mim, um dos maiores vultos se não o maior, da atual crítica literária em língua portuguesa - refiro-me a José Guilherme Merquior - assinalava justamente a precursora importância desse livro, que data já de 1973, e do mesmo passo verberava aquela "política irracional da recusa graças à qual, por tanto tempo, um abismo se abria entre a literatura moderna e a moderna civilização". Sublinhando a historicidade do ser humano, entendendo-o como não desencarnado da sociedade onde se move, Gilberto Freyre é um daqueles autores que já se inscrevem, para empregarmos a expressão de Merquior, num horizonte metamoderno; e a sua própria obra novelística, assumindo processos típicos da modernidade - como aquele, a que aludimos, do confronto entre pessoa e personagem - decididamente ultrapassa o âmbito esotérico ou laboratorial desses mesmos processos, pelo denso conteúdo histórico-social de que volta a preencher, no mencionado confronto, o obliterado conceito de "pessoa".

Já infelizmente me faltará o tempo para um pouco me deter, como desejaria, na segunda "seminovela" de Gilberto Freyre, intitulada O Outro Amor do Dr. Paulo. Sendo em parte uma continuação de Dona Sinhá e o Filho Padre, a este novo texto narrativo naturalmente se aplicam muitas das considerações anteriormente formuladas. Mas, desta vez, a reiterada deslocação do eixo novelístico do Brasil para a Europa - ou, principalmente, do Recife para Paris - soergue problemas de outra ordem, muito em especial os da difícil europeização de brasileiros que se desejavam desenraizados e os da sua inserção relativa em coordenadas histórico-culturais do Velho Mundo. Essa mesma deslocação axial como que retoma o trânsito já verificado na seriação dos textos de Talvez Poesia. Num caso e noutro, é sempre, de qualquer modo, a sensibilidade brasílica, como fenômeno sui generis, o que avulta em termos de ficção e devém objeto privilegiado de pesquisa. E aqui, de novo, como se esclarece numa nota editorial apensa ao volume, "o tempo social que se evoca é revivido imaginativa e empaticamente, tendo por base testemunhos colhidos pelo autor entre sobreviventes da época". Noutra nota que o volume insere, esta da responsabilidade do autor, alude-se à reduzida audiência que Dona Sinhá e o Filho Padre obteve entre os críticos brasileiros, em contraste com o êxito alcançado junto do grande público e com os aplausos recolhidos entre a opinião crítica internacional. Conhecedor, decerto, do velho provérbio português, segundo o qual "santos de casa não fazem milagres", Gilberto Freyre será naturalmente o primeiro a não se admirar muito com o caso. Como ele próprio aliás disse, recentemente, numa notável e corajosa entrevista à revista Playboy, "os patrulheiros ideológicos existem e sua grande arma é o silêncio". Mas também todos sabemos que tal silêncio nunca será duradouro perante obras de alta qualidade, porque tais obras se encarregam, elas próprias, de limpidamente ir demonstrando, a gerações sucessivas que não podem ser silenciadas.

Uma penúltima observação. Se mais amiúde recorri, nas precedentes considerações, a padrões de confronto e a pontos de referência não apenas brasileiros, isso deveu-se, de modo primacial, ao fato de se me afigurar que a obra especificamente literária de Mestre Gilberto Freyre, sendo embora brasileiríssima de raiz, sob muitos aspectos transcende os quadro meramente nacionais de uma possibilidade de estético entendimento. E assim volto a uma perspectiva aflorada no início: fosse acaso essa obra a de um autor que tão-só houvesse publicado duas narrativas e um volume de versos - estas duas narrativas, este volume de versos - e decerto a crítica lhe entoaria um mais alto, mais constante e unânime coro de louvores. O excesso de dons e de capacidades torna-se às vezes prejudicial, por ser, enfim o que mais dificilmente se perdoa. Tenho dito!



Fonte: FERREIRA, David Mourão. Gilberto Freyre, o escritor. In: Seminário de Tropicologia: Trópico & Gilberto Freyre, antecipador, antropólogo, escritor literário, historiador social, pensador, político, tropicológico, 1980, Recife. Anais... Recife: Fundaj, Massangana, 1983. p. 285-296.

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