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Assinatura de Gilberto Freyre
Palestras  



GILBERTO FREYRE E SUA IMPORTÂNCIA POLÍTICA


Afonso Arinos de Melo Franco

Senhor Presidente, senhores debatedores, minhas senhoras, meus senhores, meu querido Gilberto Freyre.

Preliminarmente eu devo acentuar que aqui também represento a Fundação Getúlio Vargas. O Presidente, Luís Simões Lopes, na véspera da minha partida do Rio pediu-me que fizesse essa declaração formal. Pediu-me que representasse a Fundação nesta sessão, que faz parte de um ciclo comemorativo do octogésimo aniversário de Gilberto Freyre.

Gostaria também de muito especialmente, apressadamente, tentar transmitir ao auditório a emoção, mais que emoção, a ternura com que eu revejo o Recife. Ontem e hoje o meu trânsito, a minha deambulação pela cidade, encheu-me não apenas os olhos do presente como a saudade do passado. A saudade do passado, que está presente em tantas das suas reminiscências ainda subsistentes no Recife e que têm desaparecido das grandes cidades do Sul. As reminiscências arquitetônicas, ecológicas, os jardins, os parques, as árvores, uma certa maneira de viver, um certo tipo de edificação residencial que a gente aqui encontra. Hoje acompanhei deslumbrado, na Avenida Rosa e Silva, na Dezessete de Agosto, nessas praças que a gente vai encontrando por aí, a atmosfera da minha infância, na Rua Senador Vergueiro, na Rua Marquês de Abrantes, na Rua Conde de Bomfim, em certas ruas de Botafogo, completamente destruídas pelo tempo e pela especulação imobiliária.

Isso impressiona, eu não digo ao estrangeiro, mas ao forasteiro, ao brasileiro que vem de outra terra e que sente de repente a união que Gilberto Freyre tão bem caracterizou em seus livros, a união cultural do Brasil com o Império Português. Aquelas plantas, aquelas jaqueiras aquelas buganvílias, que a gente vê na Índia, que a gente vê em Goa, que a gente vê em Madras, as palmeiras que a gente vê em Hong-Kong. Certa presença asiática e espanhola que nós não temos em Minas Gerais. Em Minas não há Ásia e não há Espanha; nada. E também os nomes que vieram surgindo na minha memória, Antiógenes Chaves, Olívio Montenegro, Estevão Pinto, Ascenso Ferreira, Luís Delgado, Aníbal Fernandes, aqueles companheiros da minha primeira passagem pelo Recife, aqueles admiráveis companheiros que já se foram.

Senhor Presidente, a incumbência que me coube é tentadora, é atraente, é mesmo fascinante. Não direi que seja difícil, não é nada difícil, mas é esquiva, é fugidia. Para abordar o assunto - ou para me situar dentro dele - eu queria lembrar umas generalidades que são óbvias, mas que fazem parte da minha exposição. É a correlação sempre subjacente, essa ligação que existe entre a Sociologia e o Direito Político, entre a Sociologia e a ação política, através do Direito. Nós, ele e eu - e quando eu digo ele e eu, eu não estou querendo estar ao lado de Gilberto Freyre, estou falando em um paralelismo de geração - seguimos linhas em que nossa atividade intelectual predominantemente política se apresenta, formalmente ou factualmente, nele através das aparências da Sociologia e da Antropologia, dos estudos predominantemente, sociais, e em mim, paralelamente, no campo das atividades jurídicas. Eu queria mostrar que aquilo que fez o cerne de atenção, o foco de atividade, o ponto de convergência, em Gilberto Freyre, que são os estudos de Sociologia e Antropologia, estão realmente entrosados, através de muitas raízes, com a ciência jurídica.

A Faculdade de Direito do Recife é a fonte perene, o caudal das relações entre a Filosofia e o Direito, como as faculdades do Sul, principalmente a de São Paulo o caudal, a fonte permanente da ligação entre o Direito como teoria e o Direito Positivo; entre o Direito-Legislação e a teoria jurídica, o Direito-Doutrina. Isso está nos livros. Nilo Pereira está aqui e outros também fizeram estudos sobre a Faculdade de Direito do Recife, a começar pelo velho Phaelante da Câmara - eu acho esse nome fabuloso como nome literário, um coisa extraordinária - desde ele, do velho Clóvis Beviláqua, de toda a gente que tem feito a história da Faculdade e tem escrito sobre Tobias, sobre Clóvis. Eu queria lembrar atualmente Pinto Ferreira, Nelson Saldanha, Lourival Vilanova, todos esses, dentro da Faculdade de Direito, que estão colocando o problema da maneira como eu estou querendo abordar, a ligação entre a Sociologia, entre a Antropologia, as Ciências Sociais e o Direito, através dos condutos da Filosofia.

Mas, em geral, os filósofos do Direito aqui no Recife têm uma posição, desde o século passado (a gente vê muito isso, por exemplo, na Minha Formação no Recife, de Gilberto Amado), eu não chegaria a chamar darwiniana, mas uma posição evolucionista, uma posição que tende para o materialismo não histórico no sentido de Feuerbach e Engels, mas um materialismo jurídico, o positivismo jurídico, a negação daqueles valores que são de Direito, mas estão além do Direito. Em suma, a negação do Direito Natural, a negação do Super-Direito. Um dos mais recentes e ilustres professores do Recife, Cláudio Souto, aborda diretamente esse problema nos seus livros. Para ele o Direito, cientificamente considerado, é o conhecimento do dever-ser. Mas para nós, que acreditamos no Direito Natural, o dever-ser é uma noção de Direito Natural.

Eu tenho um parente de quem fui muito amigo na minha mocidade, vocês, juristas devem conhecê-lo, Carlos Campos. Ele é dos Campos de Minas, primo-irmão do Chico Campos. Ele tem um livro chamado Direito e Sociologia. A posição dele é a de Léon Duguit, na tradição de Durkheim, a posição sociológica em face do Direito. A divisão do trabalho e a confluência dos interesses geravam uma espécie de ordem social que no fundo prescindiria do Direito. Esta é a opinião de Durkheim, um grande sociólogo, um dos fundadores da Sociologia no século XX, que Carlos Campos adotou. Mas essa idéia também se prende ao Direito Natural.

Outros, como o ilustre Kelsen, assumem posição diferente. Esses negam o Direito Natural partindo daquela idéia da regra primária hipotética, a hipótese jurídica da qual decorre todo um sistema lógico, condicionado, articulado. Mas o que é essa hipótese kelseniana? É o Direito Natural. Faz lembrar Santo Tomás de Aquino. É a hipótese tomista do bem comum. Temos aí outra forma de negar o Direito Natural através das próprias noções do Direito Natural.

Essa ligação entre a Sociologia e o Direito sempre nos preocupou. Eu não digo a nós, juristas, porque eu não sou jurista. Eu sou um professor de Direito. Há uma diferença entre o jurista e o legista, entre o jurista e o professor de Direito. O jurista a gente encontra em homens como Cairu, a gente encontra em homens como o nosso Barão de Penedo, encontra em homens como Teixeira de Freitas, encontra em homens como Clóvis. Eles possuiram aquela espécie de inspiração que está fora da lei, que está acima da lei, que está mesmo, de certa maneira, acima da doutrina. A existência do jurista é como a do poeta, não depende da ciência. O jurista é uma espécie de poeta da Ciência Social, é um criador. Nem sempre aparecem os grandes poetas. Eu vou aqui pedir desculpas de uma coisa que eu vou dizer - eu já disse uma vez por escrito e fui copiosamente espinafrado, mas vou repetir - Rui Barbosa para mim não era um grande jurista, era um grande legista. Rui era um grande advogado, era um grande sabedor das leis. Quando a gente vê a crítica que ele faz a Clóvis Beviláqua, no projeto do Código Civil é a crítica do legista contra o jurista.

Bom, eu digo que nós juristas - não, não sou jurista, que diabo, eu estou me contradizendo - nós professores de Direito percebemos essas comunicações entre a Sociologia e o Direito como uma tendência muito favorável para a Política. Cada vez que a Democracia se aprofunda no seu sentido social, cada vez que a Democracia se aprofunda na massa, no povo, naquilo que nós no Direito chamamos povo (no Direito a noção de povo não é demográfica, o povo não é a população, o povo é aquela parte da população que se interessa e participa da Política, quando a Constituição diz "todo poder vem do povo" quer dizer isto), na medida em que se aprofunda a participação popular, no sentido em que o interesse das camadas sociais pela Política é maior, então o interesse pela Sociologia e pelos problemas sociais vai aumentando no campo dos juristas, dos que tratam do Direito.

Porque o camarada para se eleger não precisa mais, como eu, ter uns primos em Paracatu, que esses primos, eu ficava no Rio de Janeiro, votavam em mim, votavam em meu pai, votavam em meu avô. Hoje não. Hoje o camarada tem que estar lá no duro, porque tem de saber do negócio da casa, do negócio da comida, do negócio da saúde, do negócio da doença. O Direito começa a ser invadido, o legista começa ase interessar pelo campo da Sociologia. Eu acho um pouco estranho e confesso que fico meio triste, porque não está aparecendo a mesma coisa no campo contrário, quer dizer, a Sociologia não está se interessando muito pelo campo do Direito. Continua a sentir um certo tédio, um certo ar de superioridade. Não dá. No dia em que a Sociologia brasileira e a Economia brasileira se aperceberem que só funcionam através do Direito, esse troço pode sair da droga em que está, que só através da construção jurídica esta Nação pode se transformar num Estado livre. A importância do Direito deve ser maior para os sociólogos, para os antropólogos, para os economistas. Porque todas as soluções que forem arranjadas naquela espécie de jogo de gamão feito no escuro, como estão sendo arranjadas nos últimos tempos, essas soluções não dão resultado. Se não forem soluções jurídicas, não têm estabilidade, não têm saida, não solucionam.

Essa idéia da ida do Direito para a Sociologia não é nova, eu a encontrei na minha mocidade. Eu vinha na trilha do Direito. A minha gente vinha de São Paulo - nunca do Recife nem de Olinda, que eram muito longe - desde a primeira metade do século passado. Era aquela família de sujeitos afeitos às Ordenações, depois à Consolidação de Teixeira de Freitas, depois ao Código Civil, ao Código de Comércio. Eu seu formado nesse negócio, desde menino que a vida é para mim Literatura e Direito. Economia era nome feio, cheque era documento indecente. Ninguém tinha negócio de cheque. Coisa estranha: não havia bancos. Hoje em Minas só existe banco. Formado desse jeito, eu, desde cedo, comecei a me aperceber que havia um deslize, uma derivação daquele campo em que eu havia sido formado, para a Sociologia. Comecei a ler Alberto Torres. Meu pai era muito amigo dele. Eu tenho ainda livros dele com dedicatória para o velho Afrânio. Li A Organização Nacional e li também Oliveira Vianna. Comecei a sentir que a Política estava tomando outro rumo. Eu, quando era estudante, dizia: vou fundar uma sociedade dos inimigos de Alberto Torres. Havia uma sociedade dos amigos de Alberto Torres, eu preferia formar a dos inimigos, porque aquilo eu achava chatíssimo. Mas depois comecei a perceber que aquilo era um caminho, era um caminho do Direito para a Sociologia.

Começou a haver uma derivação dessas duas ciências para a Política. Por duas razões. Primeiro pela estatização. A absorção cada vez maior, da vida social pelo Estado, foi fazendo com que o Estado tomasse conta de coisas antigamente entregues ao Direito Privado. Segundo pela ideologia. A ideologia foi também transformando em Política, no sentido mais dinâmico, mais atuante, mais violento da palavra, muita coisa que antes estava no Direito e na Sociologia. Todo mundo que não se colocava dentro de um quadro ideológico determinado era um jurista secundário, um jurista desinteressado das verdadeiras soluções, ou então era um sociólogo também engajado em posições que não mereciam apoio, em posições do passado. A ideologia foi trazendo para o campo da ação política o livre debate do Direito, da Sociologia, da Antropologia, de tudo. Arrastava para a vida política os militantes, os antigos doutrinários do Direito, da Sociologia, da Antropologia, a ponto de muitos de nós temos de romper com representantes das nossas ciências preferidas, na medida em que se vão tornando porta-vozes de uma ideologia implacável. Isso me aconteceu. Isso aconteceu a Gilberto Freyre. Isso nos aconteceu durante toda a nossa vida.

Agora a ideologia está começando a recuar, há um certo refluxo, porque no fim de setenta anos ficou uma chateação danada, os problemas não eram resolvidos, a mocidade começou a cansar, veio aquele negócio de Paris em 1968, abriram-se novas perspectivas e a ideologia começou a se estilhaçar. Em vez de uma estrela, ficou uma porção de estrelas. Em vez de uma estria colorida, ficaram várias estrias coloridas.

Bom, eu disse muita coisa que não deveria ter dito, muita besteira, mas eu agora estou querendo entrar de frente na obra de nosso mestre. Eu fiquei muito tempo hesitante. Como é que eu podia extrair da obra de Gilberto o material necessário para esta exposição? Eu conheço a obra de Gilberto, conheço Gilberto antes da obra, portanto conheço tudo. Eu conheço a obra, conheço a preparação da obra, conheço o início da obra, conheço a confecção da obra, tudo isso. Conheço a bibliografia feita ali por nosso amigo, nosso querido amigo Nery da Fonseca, li aquela bibliografia que saiu na última edição de Casa-Grande & Senzala e verifiquei o seguinte. Há na obra de Gilberto uma parte que serve admiravelmente para os objetivos que tenho em vista, é a parte composta de Casa-Grande & Senzala, Sobrados e Mucambos e Ordem e Progresso. Ele próprio diz que isto forma uma Introdução à História da Sociedade Patriarcal. Mas é interessante, antes de entrar na análise desta obra, dizer alguma coisa sobre o significado desta aluvião, desta acumulação de material e de pensamento que compõe a obra imensa de Gilberto Freyre.

Há dois tipos de obras cíclicas. O primeiro é aquele planejado pelo autor e desenvolvido na linha desse plano. Nós temos um exemplo na ficção brasileira, com Otávio de Faria, e temos um exemplo na ficção universal, com Marcel Proust. Eles fizeram o plano da obra como quem constrói o plano de uma grande obra de engenharia, o plano de uma grande ponte, de um grande estádio. Depois houve acomodações no decurso da execução. Mas tanto Marcel Proust quando Otávio de Faria fizeram esse planejamento anterior e o cumpriram com um rigor heróico - eu próprio gostei deste adjetivo, heróico. Otávio de Faria e Marcel Proust foram heróis. Morreram por causa disso, morreram na execução da obra, não chegaram a acabar. Otávio de Faria nos últimos meses de vida me disse que o último livro dele era um resumo dos outros que ele não teria mais condições de escrever. Proust a mesma coisa. Proust morreu corrigindo provas, naquele desespero.

Outros foram formando o plano na medida em que a execução já tinha começado a marchar. Nós podemos citar um francês e um brasileiro: Balzac e Otávio Tarquínio. Balzac só se apercebeu de que aqueles romances que ele estava escrevendo iam dar um conjunto, que ele chamou Comédia Humana, quando já havia vários livros publicados. Otávio foi a mesma coisa. Otávio começou a escrever perfis daqueles homens da mesma época e de repente ele se apercebeu de que estava fazendo obra cíclica, a que ele deu o nome, depois de já ter publicado vários volumes, de História dos Fundadores do Império.

Gilberto é muito esperto. Eu me lembro quando ele estava compondo Casa-Grande, o Rodrigo meu primo, afobado, Gastão Cruls, Manuel Bandeira a me dizerem "Gilberto está fazendo um negócio danado, é preciso prestar atenção, é Gilberto!" Ele aí escreveu e publicou Casa-Grande. Mas quando chega no fim diz assim "Bem, está tudo aqui explicado, mas sobrou tanto assunto, quem sabe se eu talvez não faça outro volume e é capaz até de eu fazer um terceiro". Gilberto é exatamente o tipo que se defende, que não se revela. Então veio o segundo livro, veio o terceiro, e formaram essa Introdução. Eu vou ficar é nela.

Ainda hoje ele me deu a última edição do livro que ele mesmo chama Quase Política. E tem toda a razão. Porque é mesmo quase Política. Porque Política mesmo, no duro, é de onde sai o pensamento, a influência, a criatividade, a capacidade de organização. É de onde sai o susto, porque Política é um negócio de dar susto. Quando o sujeito não dá susto, não está fazendo Política. Jânio Quadros deu aquele susto danado e de vez em quando dá outros. O sujeito não assustou está desgraçado. O Gilberto deu aquele susto na Casa-Grande, que eu não entendi no princípio. Escrevi até um artigo contra certos aspectos de Casa-Grande. Casa-Grande é de 33, esse artigo é também de 33. Há, portanto, 47 anos.

Gilberto deve ser posto em paralelo com Montaigne. Algumas pessoas têm feito essa comparação de passagem. Otávio Tarquínio falou uma vez de Casa-Grande como livro montaigniano, mas habitualmente não se fala nisso. Lê-se pouco Montaigne no Brasil. Eu leio os Ensaios desde moço, por causa de um curso que eu fiz em Genebra quando eu tinha 18 anos. Um Professor da Universidade de lá deu um curso sobre Montaigne. Daí vem a inspiração do livro meu que foi O Índio Brasileiro e a Revolução Francesa. Montaigne é para mim uma leitura constante. E fico muito feliz por poder fazer essa comparação entre Casa-Grande e os Ensaios aqui na Casa de Nabuco, na presença de Gilberto Freyre.

Montaigne começa a escrever os Ensaios aos 38 anos, em seguimento a fundas desilusões políticas. Ele aspirou a posições no Reino dos Valois, mas a guerra civil, a luta religiosa, tornou muito difícil a situação de um homem como ele. Então se retira, como ele diz, "para o convívio das Musas" no seu castelo, perto de Bordeaux, e começa a ler e a escrever. Publica a primeira edição dos Ensaios em 1580. Quer dizer, a edição dos dois primeiros livros dos Ensaios, depois é que ele acrescenta o terceiro e, nos dois primeiros, acrescenta uma grande dose de notas. De maneira que hoje se pode conceber muito bem o que saiu no primeiro aparecimento dos Ensaios e o que foi sendo acrescentado no decurso da vida do autor. O êxito do livro foi espetacular, desde logo, e isso o encorajou a ir acrescentando novos textos. Montaigne foi juntando a seu único livro tudo aquilo que faz parte do total dos Ensaios.

Na obra de Gilberto o conjunto corresponde não só às anotações que ele fez para o próprio Casa-Grande, mas também às extrapolações, quando transborda nos outros dois livros, Sobrados e Mucambos e Ordem e Progresso. Gilberto começa a obra aos 32 anos, depois de atravessar fundas decepções políticas. Era uma das personalidades mais promissoras do governo de Estácio Coimbra e vem a Revolução de 30, ele sofre um abalo muito grande na sua vida. Montaigne se retira para o seu castelo. Gilberto sai de Pernambuco, vai para a Bahia, vai para a Europa, e vai amadurecendo o livro dele. A primeira edição de Casa-Grande & Senzala, chama logo a atenção, provoca debates. O livro ganha grande autoridade. Sucedem-se as edições. Eu peço apenas que se reporte isso ao que eu acabo de dizer sobre os Ensaios de Montaigne. Tipo de composição, idade, o choque da decepção política, o aprofundamento da matéria do livro, as edições sucessivas e aprimoradas. O mesmo se passa com Montaigne e com Gilberto Freyre.

Eu me lembro, quando saiu Casa-Grande, quando estava sendo preparado, Manuel Bandeira me dizia: "Olha, Gilberto é peso pesado, a Casa-Grande é coisa séria, sabe, não é brincadeira, não". Rodrigo escrevia para Mário de Andrade que "o negócio de Casa-Grande & Senzala está ficando sério... é preciso prestar atenção". Rodrigo é meu primo Rodrigo de Melo Franco. Ele tomou-se de paixão e ajudou muito na preparação do livro. Otávio Tarquínio, Augusto Schmidt, Gastão Cruls, todo esse grupo dos meus amigos fraternos, dos meus companheiros, todos bastante mais velhos do que eu (Gilberto não, Gilberto é um pouco mais velho), eles me diziam "Gilberto é um negócio sério, é preciso pegar o livro de Gilberto". Casa-Grande surge assim no Brasil, como uma espécie dos Ensaios.

A composição dos Ensaios, como a composição de Casa-Grande, é uma composição assim, aluvional, vem de fora para dentro. Eles vão crescendo, eles vão se acrescendo. Não se acrescendo por fora, mas por dentro. Eles parecem com uma igreja barroca. Porque a gente chega ao lado de uma igreja barroca - pelo menos de uma fase do barroco, do rococó - e é aquela coisa fechada, aquela fachada muito simples, aquela linha transversal, as duas torres quadradas, maciças, aquela porta, aquela coisa fechada de moça por detrás da janela, a menina por detrás da veneziana (não há mais, mas havia). Mas a gente abre a porta e é aquele deslumbramento. Lá dentro aqueles altares, aqueles vermelhos, aquelas pinturas, aqueles dourados, aquelas talhas. Isto é a obra de Casa-Grande e é a obra do Montaigne.

Casa-Grande tem um desenvolvimento esquemático, extremamente linear. Ele diz o que? Antecedentes do colonizador português. Depois vem o segundo capítulo (Gilberto chama capítulos, mas são as partes do livro), sobre a influência dos Índios. Essa contribuição de Casa-Grande não tem sido devidamente apreciada, ou melhor, tem sido muito apreciada, mas não tem sido devidamente estudada. Porque todo mundo acha negro muito mais atraente. Aquele negócio de mucama, de senhor, de ama-de-leite, chama a atenção de todos e ninguém presta atenção na parte do índio. A parte do índio no livro dele é sobretudo baseada em bibliografia e por isso não a estudaram muito, mas é importantíssima.

Então vem aquela coisa assim direta. O português, depois o índio, depois o negro, o negro com ar modesto, a participação do negro na vida patriarcal, na vida de família, na vida sexual, etc. Mas aquilo é um aluvião, tem uma quantidade de dados que é uma coisa fabulosa. E a última parte é a família patriarcal. O lineamento parece muito tranquilo e não é. É o tipo do livro barroco. É uma igreja barroca. A gente chega lá dentro e encontra aquele negócio trabalhado como o diabo, cheio de arabescos, cheio de símbolos, de coisas que sobem, de plantas, de flores, de frutas, de imagens, de corações, de promessas, de crânios, aquilo tudo surge lá dentro daquela arquitetura linear. Montaigne é assim. Montaigne chega e diz "Dos Carros", "Da Amizade". Nunca ninguém escreveu nada sobre amizade como Monteigne escreveu. Nunca ninguém escreveu nada sobre a morte, nem Cícero, como Montaigne escreveu sobre a morte. Ele dá uma entrada assim de uma simplicidade e a gente chega lá dentro e é uma caverna de deslumbramentos. É uma gruta de maravilhas. Parece aquele negócio lá perto de Belo Horizonte - como é que chama aquilo? - Maquiné, Gruta de Maquiné. A gente entre ali e são aquelas colunas, aqueles lagos.

Na obra de Montaigne e na obra de Gilberto há o mito do pai. (Eu digo mito no sentido de Georges Sorel, nas Reflexões sobre a Violência. O mito não quer dizer a mentira, o mito é o símbolo. O símbolo que abala uma época, capaz de revelar umas certas verdades que estavam esquecidas. Se vocês não leram Georges Sorel, eu peço que leiam.) O mito paterno, o símbolo do pai, a presença do pai, indutora e condutora, de que eles tiram muito mais coisas do que habitualmente se pensa que Gilberto ou Montaigne terão herdado do pai, em termos culturais. Nabuco também tem isso, tem o mito do pai.

Gilberto e Montaigne, liberdade intelectual quanto à vida social e a vida sexual, consideradas culturalmente. Comportamento pessoal conservador. Montaigne era, como Gilberto, um homem que não foge diante das idéias, da análise, da interpretação, da revelação escrita dos fatos. No campo do relacionamento entre classes, entre atividades, entre posições, da vida sexual, da miscigenação, do interesse sexual, da vida sexual da criança, do adulto, do escravo, do senhor, tudo isso ele trata com grande liberdade, foi uma revelação. Vocês não assistiram essa fase, quando apareceu Casa-Grande. Eu assisti. (Estou falando como o velho timbira de Gonçalves Dias: "Meninos, eu vi".) Foi um estouro, foi o susto que eu disse, sobre o estudo da vida sexual. E no entanto comportamento pessoal e social conservador, valorativo, axiológico... Montaigne, Gilberto.

Montaigne, o que é que ele era? Em primeiro lugar, sociólogo. Ele se interessava intensamente pelos seus semelhantes desde que congregados em sociedade. Ele não se interessava pelo homem abstrato. Montaigne era um analista do homem em sociedade e era um antropólogo. Ele se interessava pelo homem como humano e como animal, pelo seu comportamento antropológico. Daí o seu interesse pelas populações primitivas. O ensaio sobre os índios do Brasil é de um antropólogo, com os recursos da época. Gilberto sociólogo e antropólogo. Ele liga para o sujeito dentro de um contexto, sociológico e antropológico.

Narcisismo introspectivo. Montaigne e Gilberto. Eu chamo narcisismo introspectivo aquele tipo de satisfação que vem da satisfação de um dever cumprido, de um dever intelectual cumprido, que não se externa agressivamente. Esse narcisismo introspectivo que o Gilberto tem, que o Montaigne tem, e que a Anah diz que há outros que têm, tem uma espécie de amenidade, uma espécie de doçura. Porque há um tipo de narcisismo que anda de tanque, de carro de assalto, extrovertido, mas há outro tipo de narcisismo que vai a pé, senta com a gente, conversa com a gente, e é esse tipo de narcisismo que Gilberto tem, que Montaigne tem, e que Anah diz que há outros que têm.

Outra coisa de Montaigne e de Gilberto: o gosto pelo aconchego dos príncipes (príncipes no sentido maquiavélico, o primeiro, o "princeps", o principal). Montaigne tinha aquela independência, aquela coragem, aquela simplicidade, mas gostava do aconchego, do cafuné dos príncipes. Gilberto também gosta, e muito. Quando Montaigne recebe o título de Cidadão Romano, ele descreve tudo direitinho. Aí o Papa disse isso, aí ele fez aquilo, porque o Santo Padre então se voltou para mim, etc. etc. Quando ele vai visitar Henrique III e diz que vai levar seu livro para o Rei, Henrique III responde que não precisa trazer nada, porque ele já tem o livro. Montaigne então responde: "Senhor, se Vossa Majestade gosta do meu livro, então Vossa Majestade gosta de mim, porque o meu livro sou eu". Henrique IV vai visitá-lo no Castelo de Montaigne, vai caçar na vizinhança e dorme lá. É a glória. Também Gilberto. Quando ele recebe o título de Knight of the British Empire, o título de "Sir", fica todo prosa, conta tudo direitinho, porque então Sua Majestade a Rainha fez assim então Sua Majestade a Rainha se voltou para mim e disso, porque a Rainha Mãe recebeu-nos, a Magdalena e a mim, etc. etc. E os Presidentes e os Salazares, esse negócio todo e tal, ele fica ali naquele aconchego dos Príncipes, nota curiosa, é uma nota montaigniana e gilbertiana.

Uma coisa muito comovente é a amizade, na obra de Montaigne e na obra de Gilberto Freyre. A importância de La Boétie foi muito grande, mas só depois do ensaio de Montaigne sobre a amizade é que a gente pode aquilatar a significação daquele homem que não deixou uma obra à sua altura. Paris é uma coisa fabulosa. A Rua La Boétie acaba de fronte da Avenida Montaigne. É preciso que o sujeito seja Conselheiro Municipal de Paris para descobrir essas sutilizas. Se eu fosse Governador do Rio de Janeiro me lembraria dessas coisas: Rua Gilberto Freyre, Rua José Lins do Rego. Porque Gilberto encontrou um amigo que foi uma expressão gigantesca de amizade, o nosso querido Zé Lins. A presença de Zé Lins na obra, na vida de Gilberto... Ele tem outros amigos muito bons, mas a presença de Zé Lins é uma coisa incomparável, ele o tempo todo fala em Zé Lins e Zé Lins o tempo todo fala nele.

Eu vou pedir dez minutos de interrupção para poder respirar, sabe, quando eu falo demais eu não respiro.

Eu gostaria de abordar um dos poucos contrastes que existem - e é natural que existem - entre a obra e pensamento de Gilberto e a obra e pensamento de Montaigne. Montaigne tinha uma preocupação constante com a morte, com problemas hereditários, com doenças que naquele tempo eram muito graves, como a famosa pedra na bexiga de que ele sofria. Todas as crises que atravessava, não só em casa como durante as viagens, ele descrevia impiedosamente. A idéia da morte era nele uma fonte de interesse filosófico, de fortaleza, de resignação. O ensaio sobre a morte é uma das obras primas da literatura mundial. Morreu moço, ele era um homem que sabia marcado pela morte. Claro que naquele tempo a longevidade era muito mais rara do que hoje, mas ele morreu forte, robusto e moço, de uma doença que é difícil discernir, provavelmente uma complicação de base cárdio-renal.

Gilberto não tem muita preocupação com a morte, ela não entra muito no seu sistema de pensamento, nas suas elucubrações. Ao contrário, ele está sempre pensando na vida. Esse é o contraste mais forte entre os Ensaios e Casa-Grande & Senzala. Os Ensaios são um livro sempre escurecido pela sombra da morte. Casa-Grande é um livro sempre iluminado pela presença da vida, todos os aspectos da vida, desde a vida material a vida biológica, que ele estuda em muitas partes com cuidado, com amor, a propósito de doenças, de remédios, de crianças, de adultos. A vida dentro da casa é nele, não direi uma obsessão, mas uma preocupação permanente. Casa-Grande está muito centrada em torno da casa, mesmo que não seja grande, porque trata da casa-grande, da senzala, da casa pequena, tudo aquilo na mesma época, mas sem desprender-se nunca da idéia da vida e da casa.

E isso mostra a sua formação longeva. A curiosidade constante pela vida, que ele mantém até hoje, é conseqüência dessa formação. O pai dele morreu com 87 anos e ele vai passar dessa marca. Isso influi no livro, na confecção do livro. O amor pela vida, o esquecimento da morte e a constante plenitude, ele enche constantemente a ânfora da vida, ele enche... Fernando me disse uma vez que ele chegou da Europa e tinha um compromisso no Rio, cinco dias depois (foi agora, não faz nem um ano). Fernando disse a ele: ²Papai, você devia descansar uns dias, você veio de viagem". Ele disse assim: ²Ora, meu filho, mas eu já tenho cinco dias para descansar". A vitalidade física, a consciência meio inconsciente dessa vitalidade e a curiosidade por todos os aspectos da vida: Gilberto vive para não morrer. Montaigne viveu para morrer.

A viagem de Montaigne é a viagem que já está feita quando a gente encontra na obra de Gilberto e na obra de Montaigne, a pessoa leva de si para depositar nos lugares que percorre. A viagem de Montaigne, a pessoa leva de si para depositar nos lugares que percorre. A viagem de Montaigne a Roma é essa viagem. Roma era uma desgraça no tempo dele, Roma estava arrebentada, as grandes obras do Renascimento estavam apenas começando. Mas Montaigne trazia dentro de si um tal conhecimento da Roma antiga, que a gente sente que ele estava criando uma Roma que não mais existia. As viagens de Gilberto, tanto as viagens ao Oriente como as viagens a Portugal, todas as viagens de Gilberto trazem consigo essa carga de vivência pessoal sobre aquilo que ele vai ver. Ele dá ao leitor não uma descrição do que viu, mas dos sentimentos que levava no momento em que estava vendo. Os livros de Gilberto como Aventura e Rotina, eu os leio muito nessa comparação montaigniana. Aí a viagem é uma coisa simbólica, a viagem, para os que fazem viagem desse tipo, é a própria vida.

Ambigüidade, mudança social e conservação das estruturas, tanto na obra de Montaigne como nos ensaios de Gilberto. Eu costumo dizer para Anah. Olha aqui, eu sou um homem que deseja tudo aquilo de que não vou gostar, eu desejo mudanças de estrutura no Brasil, mas eu sei que vou me aporrinhar muito, vou me chatear muito quando elas vierem. Mas eu desejo, eu quero. Gilberto é a mesma coisa, Montaigne é a mesma coisa. Gilberto tem uma ânsia de mudança que aparece desde Casa-Grande, através da denúncia das condições de vida, das doenças, do tipo de alimentação, uma série de coisas que ele coloca e que mostra nele um empenho de redenção social. Mas há nele uma tendência invencível à conservação das estruturas. Eu compreendo isso profundamente. Em Montaigne a gente sente a mesma coisa. A gente pega um ensaio de Montaigne sobre os canibais, ou sobre a vaidade, ou sobre os carros, tipos de ensaios em que o problema social aparece mais diretamente, e a gente sente uma força de convicção, de fé, de desejo de mudança, de transformação daquelas estruturas. Mas ao mesmo tempo a gente sente nele o gosto da vida naquele castelo, o gosto daquela limitação do ilimitado, porque na casa, nós que amamos a casa e temos uma casa, temos um infinito dentro daquela limitação de paredes. Há uma abertura para o mundo dentro daquela coisa fechada. Isso a gente sente na presença do castelo na obra de Montaigne e na presença de Apipucos na obra de Gilberto. Montaigne não queria de maneira alguma mexer naquela casa, naquela biblioteca, naquela torre, naqueles livros.

Outra coisa que eu sempre achei muito próxima entre Montaigne e Gilberto (eu estou chegando ao fim, Magdalena!), o riso sem ironia. O lado faceto, a malícia, sem maldade. A gente vê muito isso nos Ensaios. Por exemplo, o ensaio sobre a roupa dos homens é extremamente malicioso, porque os homens do século XVI gostavam de expor, através de certos detalhes de vestuário - os homens! - certas promessas anatômicas que nem sempre correspondiam à verdade. Montaigne tratava disso muito maliciosamente, dizendo que as francesas se enganavam com aquelas esperanças inatingíveis. Não há maldade em Montaigne, há malícia. A gente encontra muito isso em Casa-Grande & Senzala. Essa coisa constante, esse jeito de quem tem medo de não ser tomado inteiramente a sério e que então não toma nada inteiramente a sério, ficando sempre com um ar de riso. Isso a gente vê em Montaigne e a gente vê muito em você, Gilberto, na Casa-Grande.

Montaigne era um pontífice, um sujeito que construía pontes. Ele dizia: eu não faço diferença entre os huguenotes e os católicos, se quiserem me matar, me matem, mas eu aceito a presença de uns e de outros. E nunca foi atacado. A influência dos Ensaios no campo social, no campo psicológico, no relacionamento civilizado entre os partidos, naquele período feroz do Renascimento, um dos mais brutais da vida da França, foi enorme. Nós não temos idéia hoje do que eram as violências, os assassinatos, os massacres. Foi uma coisa espantosa a repercussão dos Ensaios. Montaigne escreveu numa linguagem que era dedicada a chamar a aristocracia para a leitura. Porque a aristocracia francesa naquela época era uma aristocracia belicosa, de noções de honra, de violência, de duelo, de guerrilha. Os homens que estavam destinados desde cedo a morrer, como eram os da aristocracia de sangue daquela época, não liam porque não tinham tempo.

A leitura que existia era escrita sobre temas e com estilo extremamente tediosos, sobre moral, sobre história, em linguagem muito solene. Os homens não liam, os reis não liam, os fidalgos não liam, os grandes comandantes liam muito pouco. Rabelais, por causa daqueles romances satíricos cheios de grandes safadezas, todo mundo lia. Mas os livros sérios não liam. Montaigne escreveu um livro que todo mundo lia, porque era atraente, era um livro que não fugia a nada, que não recusava nada, que falava do amor, que falava do sexo, que falava de todas as graças da vida com uma linguagem de sala-de-jantar, eu não direi linguagem de copa-e-cozinha porque não era. Esse estilo montaigniano foi feito para atrair a nobreza, que pouco lia.

Casa-Grande é um livro feito para atrair a atenção da nobreza brasileira, que eram os intelectuais, a nobreza brasileira que estava cansada do movimento modernista, cansada daqueles estouros de linguagem, daquela arritmia de versos. Havia alguns grandes escritores que apareceram em 22, mas aquela obra já estava fatigada. Gilberto foi escrever um livro montaigniano, no sentido de recrutar leitores na nobreza. E recrutou. Todos os intelectuais brasileiros começaram a ler esse livro em grande parte porque o estilo dele era extremamente atraente.

Eu me permito recordar o que eu disse a princípio sobre a politização da Sociologia, a politização do Direito, a politização da Ciência Social. Ciências sociais são ciências morais. Nós falamos em ciências morais pensando sobretudo em Ética, mas devemos lembrar que as ciências sociais são morais porque morais vem de "mores", costumes. Moral é aquilo que diz respeito aos costumes. Imoral é o que contraria os costumes habituais. Gilberto e Montaigne são cientistas sociais e cientistas morais porque voltados para os "mores", para o estudo e a compreensão dos costumes, para a evolução dos costumes, a importância política, o significado político dos costumes. Casa-Grande & Senzala é um livro inserto no quadro da Política. A Política que não se preocupar com a base sociológica, hoje no Brasil, é, como eu disse, uma Política que não dá susto. É a política que só dá outro tipo de susto, o susto que representa o retrocesso da liberdade.

Eu ajuntaria pessoalmente - e isso tenho repetido muitas vezes nos últimos dois anos - a linha jurídica. Se nós não tivermos a compreensão de que é indispensável uma estrutura jurídica estável - e quando eu digo jurídica quero dizer jurídica-democrática - uma estrutura jurídica que corresponda as bases sociológicas, será inútil a ação de artifícios e de mágicas para resolver os atuais problemas deste país. Eles não podem mais ser resolvidos em recintos fechados, sobretudo quando esses recintos fechados são inacessíveis à informação, ao julgamento, à crítica, quando estão sendo manipulados dentro das paredes de alguns palácios em Brasília.

Brasília é uma estação estratosférica. A gente chega a Brasília, tem grande impressão de desligamento. A ação política deve corresponder à compreensão sociológica da evolução brasileira. E essa compreensão sociológica da evolução brasileira, traduzida através de esquemas jurídicos, é indispensável à ação do poder político. Por isso a obra de Gilberto Freyre é eminentemente política. Por isso essa obra trouxe à sua vida, como a obra de Montaigne trouxe à vida de Montaigne, um grande relevo, uma grande projeção, uma grande presença política. Por isso o pensamento de Gilberto Freyre tem que ser hoje considerado uma grande contribuição política para a solução dos problemas brasileiros. Muito Obrigado.



Fonte: FRANCO, Afonso Arinos de Melo. Gilberto Freyre e sua importância política. In: Seminário de Tropicologia: Trópico & Gilberto Freyre, antecipador, antropólogo, escritor literário, historiador social, pensador, político, tropicológico, 1980, Recife. Anais... Recife: Fundaj, Massangana, 1983. p. 333-343.

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