GILBERTO FREYRE E A TROPICOLOGIA
Gilberto Osório
Estudo e interpretação ao mesmo tempo bio-sociais e sócio-culturais do homem situado no Trópico, já nos primeiros escritos de Gilberto Freyre - artigos de jornal - a Tropicologia deixava-se por assim dizer anunciar mais de uma vez. Não está em nosso propósito nem caberia nas dimensões deste simples registro inventariar em obra tão extraordinariamente densa e copiosa tudo quanto se devesse identificar nela, desde seus primórdios, como potencialidade ou antecipação duma ciência ecológico-cultural do Trópico, mas talvez bastasse arrolar algumas particulares inflexões do adolescente dos anos vinte para fazer evidente como era virtual desde esse tempo o pendor que o reclamava para uma prospecção científica do mundo tropical como "cenário étnico-social - experimentamos nós mesmos caracterizá-lo não faz muito - de costumes, práticas e interesses real ou presuntivamente condicionados ou não por uma Tropicalidade."1 p. 20 É o caso dos seus artigos escritos para o Diario de Pernambuco entre 1918 e 1926 e não faz muito editados em dois volumes. Tempo de Aprendiz, por iniciativa do Conselho Estadual de Cultura: "o livro do começo para explicar toda uma obra, que segue as linhas gerais de um pensamento", escreveu seu prefaciador Nilo Pereira. Artigos, identificou-os o próprio autor, "em que já surgem, como antecipações, alguns dos pensadores que se acentuariam no homem de todo feito e permanecem no idoso" 19 v. I p. 25-33
A despeito duma formação intelectual principalmente adquirida nos Estados Unidos e na Europa, manteve-se invariavelmente fiel e atento à sua origem. Dizemos a despeito porque não é essa a regra e na verdade é coisa que acontece bem pouco. Aqui mesmo tivemos um paraense ilustre, pessoalmente conhecido de todos nós, suponho, que depois de educado na Inglaterra e na França veio viver muitos anos no Recife como um desterrado. Não como um desterrado de Belém do Pará, mas sim de Londres e Paris. E não porque entre seus antepassados houvesse nórdicos da Europa, aliás escoceses, dum clã tradicional dos "Highlands", cuja alcunha timbrou-lhe o sobrenome, mas porque guardou consigo até os últimos dias uma nostalgia pungente dos poetas e dramaturgos que lhe povoaram a mocidade, e cujos textos repetia de cor. No Gilberto Freyre, porém, estudante escrevendo "Da outra América", o que se pressentia era uma espécie de sofreguidão por voltar, impaciência afinal traduzida, por obra duma espécie de sublimação, no apaixonado alvoroço com que se comportou no Recife após cinco anos de ausência. "Apaixonado de suas igrejas velhas, de seus mercados cheios de coisas tão nossas", escreveu dele Luis Jardim; "de sua vida popular, dos seus rios, dos seus sobrados de azulejos, de suas casas de sítio com mangueiras, de seus banhos de rio; de sua mucambaria, de seus clubes de Carnaval, de seus xangôs". 5 p. 23
O primeiro inverno passado em latitudes médias fora registado para o Diario de Pernambuco com juvenil entusiasmo. Como assinala Willy Hellpach num seu famoso livro sobre as influências do tempo, do clima e da paisagem sobre a alma, é quando da passagem para um clima diferente que o organismo humano habituado a outras condições atmosféricas experimenta mais vivamente a ação particular do novo clima. 23 p. 124 No Texas o rapazinho recém-chegado do Recife tropical gosta do frio. Todo o mundo anda, admira-se ele, move-se, faz as coisas com vontade, com disposição, com energia. E como a neve "faz a gente alegre! Toda pessoa que encontrei naquela manhã de neve disse-me 'bom dia' com um claro sorriso". 19 v. I. p 47
Cedo confessará que corre o risco de desnacionalizar-se - de "destropicalizar-se", diria talvez hoje - e precisa de se abroquelar nos livros que recebe do Brasil, sobretudo no Diario de Pernambuco que lhe chega às mãos com regularidade, e nas latas de doce de caju enviadas daqui. 19 v. I p. 150 As cores da primavera, a folhagem renovada das árvores deliciam-lhe os olhos. "O encanto desse variar de paisagens nós, tropicais, desconhecemos em nossos países nativos. Nosso tempo - continua, no quinto artigo enviado para o Diario de Pernambuco, em maio de 1919 - é quase o mesmo, todo o ano. Nossa natureza quase rebelde a mudanças bruscas". 19 v. I p. 55 Três anos mais tarde, noutro inverno já agora em Nova Iorque, experimenta exemplificar estilos literários, que lhe sugerem frutos e flores, e são os charcos mefíticos da zona tropical o que lhe acode à lembrança enquanto lê Les Fleurs du Mal de Baudelaire: "flores da beira das lagoas negras dos trópicos, com exalações amolecedoras, intoxicantes."19 v. I p. 179
Ao retornar ao Recife a reaclimação não se faz sem desconfortos e desânimos. O calor tropical parece-lhe tirânico. Um torpor, "um lânguido estado de sono que não se acaba, embora não se aprofunde", leva-o a desconfiar de que nos trópicos é bom alvitre "não viver vida de espírito intensa". Anos mais tarde escreverá que não é preciso ir aos exageros de Huntington e doutros fanáticos da influência do clima para admitir com Carl Kelsey, autor de The Physical Basis of Society, que se "certos climas estimulam o homem a maiores esforços e conseqüentemente a maior produtividade; outros, o elanguescem". Como seria o caso da biastenia tropical, diminuição da vitalidade geral sob a ação deprimente ao mesmo tempo soporífera e irritante do clima.
Fosse como fosse, naquele ano de 1926, ainda mal reaclimatado no seu trópico de origem, Gilberto Freyre parece ter chegado a duvidar de si mesmo, da viabilidade dos planos de trabalho que certamente já o empolgavam na concepção do que seria o seu primeiro livro magistral, Casa-Grande & Senzala. O desalento abate-o e exprime-se na suspeita de que só os improvisos fáceis e rápidos poderiam alcançar aqui algum sucesso. No Trópico, todo empreendimento intelectual tinha de ter alguma coisa de heroismo. A cultura-continuava ele queixando-se em seu artigo "Da Tirania do Calor Tropical" - é coisa difícil neste "ar mole", que molha de suor, "de oleoso suor", qualquer esforço leve, inclusive mental. Suor "lúbrico e insidioso", como a cantiga das sereias de Homero na Odisséia, cantiga entorpecente e feiticeira que fascinava os marinheiros fazendo-os esquecer o rumo do navio e desviando-os por fim do seu caminho. Refratário aos ademanes épico-mitológicos, Gilberto Freyre não compara, é certo, a sedativa transpiração tropical ao canto mavioso das nereidas, mas foi como se pensasse nelas quando escreveu que o suor, "lúbrico e insidioso", era "como uma doce e feminina força (. . .) que apenas nos convida a alongar corpo e espírito à sombra das bananeiras, numa fácil vida sem ambições difíceis. Sem entusiasmos intensos. Sem inquietudes". 19 v. II p. 260 Pergunta a seu tanto ansiosamente se "acabaremos por vencer a tirania do calor", mas a verdade é que antes mesmo da moderna tecnologia do ar condicionado acudir-lhe à impaciência, o luminoso rastilho de sua obra sócio-antropológica começou a riscar o panorama cultural brasileiro. Antes mesmo, também, que se acantonasse no seu refúgio rurbano de Apipucos, um lugar aprazível deste nosso burgo nem sempre suavemente tropical e às vezes muito calorento. Lugar onde lhe nasceram os dois filhos e onde se mantém até hoje, proclamando-se sempre, como há quase trinta anos atrás, "inveterado morador desta tropicalíssima cidade do Recife". 9 p. 41
Cidade tropical monstruosamente desprovida de árvores, escandalizou-se ele ainda a bordo do vapor que o trazia de volta; tanto que, visto de longe, do mar, parecia o Recife um macabro ossuário exposto ao sol, e só na vizinha e ainda plácida Olinda, no frondoso jardim da Abolição - hoje tão depredado e esquecido - encontrou Gilberto Freyre alguma coisa "mais de acordo com as nossas condições tropicais (. . .) suas muitas palmeiras e o chão de areia de praia todo manchado de largas sombras". 19 v. II . p 35 Areia macia e fresca, lembro-me bem, que era um deleite pisar e revolver descalço, mesmo com risco de apanhar algum bicho-de-pé.
Quisera ter reencontrado um Trópico coerente com suas próprias singularidades insígnias e condicionamentos, e foi alegremente, portanto, que assinalou como depois de termos sido uma população tristonhamente vestida de preto, nos estávamos "reconciliando com o clima e com a paisagem, que pedem e até exigem o frescor e a claridade e a leveza das roupas brancas. Ou quase brancas. Claras". 19 v. II p. 224 Sem embargo de que ainda havia entre nós quem não vestisse "calças brancas ou de flanela clara para não ter a impressão impudica de estar de ceroulas". E quem comparecesse a piqueniques alegres "em sombrias roupas de acompanhar enterro ou ir à missa de sétimo dia". 19 v. II p. 174 Roupa branca como aquela com que desembarcou no Recife, em outubro do ano passado, o presidente William Tolbert Jr., da república negra da Libéria: um trajo oficial, protocolar, de pano branco, folgado, de algodão. Aproximando-se desse modo do compromisso em que, segundo Paul Siple, resolve-se nos trópicos o problema de como se vestir: compromisso entre a ideal maneira de viver nu e um vestuário satisfazendo as necessidades psicológicas e físicas.
Vestuário - insistirá ele anos mais tarde - que é um desses problemas humanos que transcendem da consideração fisiológica e higiênica para se tornar "assunto de ecologia". Incluindo-se entre aqueles muitos outros traços que se desenvolvem superorganicamente ou culturalmente no homem, o vestuário participa duma categoria de fenômenos "de estratificação cultural, de harmonização do homem com o meio, de ajustamento ecológico", 16 p. 14 em suma, porisso que um equilíbrio ecológico envolve processos de adaptação que não são somente fisiológicos. Além disso - ou porisso mesmo - deveriam insistir os sociólogos e antropólogos sociais em considerar os problemas humanos à luz de diferenças regionais. p.13 O livro Problemas Brasileiros de Antropologia, em que Gilberto Freyre primeiro desdobrou essa ordem de idéias, é de 1943 e assinala um momento a partir do qual à estamparia dos tecidos, as confecções em geral e até mesmo os calçados passaram a sintonizar-se melhor com um Brasil tropical mais luminoso, mais ensolarado, mais guloso do vermelho e do amarelo do que azul e do violeta. Antes disso tinham predominado preferências de "grupos de néo-brasileiros do Sul, mais amigos, talvez da cor azul". E como as indústrias de tecelagem e estamparia, localizadas em centros urbanos "de gostos e estilos de vida mais europeus que indianóides ou africanóides", limitavam-se a adaptar àquelas preferências a totalidade dos seus produtos, estes eram apesar disso destinados em grande parte à comercialização entre populações das "menos europeisadas do Brasil". Isso podia estar concorrendo, quem sabe, para uma unificação de nossos padrões culturais, "mas com sacrifício (. . .) de espontaneidades regionais que em vez de fazerem dano a essa cultura comum, enriquecem-na". p. 74
No Manifesto Regionalista de 1926, redigido ao cabo do primeiro Congresso de Regionalismo reunido no Brasil - congresso multidisciplinar e abrangente que interessou num mesmo plano de estudos e reflexões desde sanitaristas sisudos e higienistas inquietos até poetas festivos do nosso folclore - coube ao mocambo ser proclamado como "um valor dos trópicos", desses "caluniados trópicos - lê-se também no Manifesto - "que só agora o europeu e o norte-americano vêm redescobrindo e encontrando neles valores e não apenas curiosidades etnográficas ou motivos patológicos para alarmes" 12 p. 37-8 Mocambo revestido "de palha, folhas e capins secos que franciscanamente defendem os moradores das chuvas e das ventanias fortes sem os privarem do sol, do ar e da luz tropicais". 12 p. 39 E até sem os privarem dos pingos de luar que através do telhado sem forro lhes salpicam de estrelas o piso de terra batida, como já muito antes de Orestes Barbosa e Sílvio Caldas vi eu mesmo em Olinda, em mocambos empoleirados nas ladeiras e onde havia gente que pisava nos astros distraída, segundo aquele verso de "Chão de Estrelas", que Manuel Bandeira confessadamente invejava achando que fosse "talvez o mais bonito de nossa língua". Mocambo que como a casa-grande levantada nos engenhos já do século XVI, com seus alpendres e "telhados caídos num máximo de proteção contra o sol forte e as chuvas tropicais" - a casa-grande, "uma expressão nova, correspondendo ao nosso ambiente físico e a uma fase surpreendente, inesperada, do imperialismo português: sua atividade agrária e sedentária nos trópicos" - 8 p. xxx "um tipo arquitetônico e ecológico eurotropical" 4 p. 13 desenvolvido aqui, como os sobrados revestidos de azulejos, "de originais portugueses ou africanos e indígenas: sugestões e inspirações para uma arquitetura verdadeiramente brasileira, ou pelo menos regional". 13 p. 30
Falavam em contrapartida, no Recife, sinais dum culto deliberadamente mantido pela tropicalidade de nossa condição, sinais tão desejáveis quanto fáceis de assumir. Cafés, por exemplo, ou restaurantes com palmeiras, papagaios faladores, caritós de guaiamus, vinho de jenipapo, folhas de canela "aromatizando o ar com seu pungente cheiro tropical", coco verde, contadores com violões e "uma dessas pretalhonas vastas e boas, assando castanhas ou fazendo pamonha (. . .) Isso, sim, seria uma delícia de café". 19 v. I p. 322 Desapontava particularmente o moço licenciado em Ciências Políticas e Sociais pela Universidade de Colúmbia aquilo de não ver servida em restaurantes e cafés a água de coco verde, apesar de que só então se estivessem generalizando os refrigerantes industrializados, como as gasosas e os guaranás Fratelli Vita. Hoje em dia, a despeito da invasão multinacional das coca-colas e quejandos, a água de coco reconquistou galhardamente uma grande parte do mercado, e não somente a do mercado de bebedores de uisque, não sendo talvez de todo estranho a essa reviravolta o protesto de Gilberto Freyre na década de vinte. Tamanho é agora o comércio de coco verde que mesmo no centro da cidade a oferta se faz todos os dias largamente. E não deixa de ser digno de nota o fato do presidente João Figueiredo, quando de uma de suas mais recentes visitas ao Recife, ter feito parar a comitiva, violentando o apertado cronograma protocolar, para chupar num canudo água de coco verde em plena Rua do Imperador.
No prefácio escrito para a quarta edição do Manifesto Regionalista sublinhou Gilberto Freyre, já então - em 1967 - com uma visada retrospectiva de tropicólogo, a influência que os reginalistas do Recife tinham exercido sobre os estudos, entre outros, de Geografia Regional e de Sociologia Regional. 12 p. xx No que lhe diz respeito, fora induzido nos Estados Unidos à conveniência metodológica de estender perspectivas ecológicas de "regional approach" à Sociologia e à Economia numa tentativa mais ousada - revelou ele próprio - de interrelacionalismo complexo, multidisciplinar. 9 p. 63 E do contexto, afinal, da Sociologia Regional ou Ecologia Social, ou Ecologia Humana, é que a Tropicologia viria a derivar mais tarde como "um conjunto de critérios e técnicas senão científicas, para-científicas de adaptação do homem europeu e de seu descendente ao meio tropical". 15 p. xx Critérios cuja noção básica - a noção de situação tropical - foi recentemente assimilada pelo Professor Mário Lacerda de Melo a idéias geográficas implícitas de região e regionalidade. 24 p. 266 Em função dessas idéias, aliás, antecipara-se o recém-chegado de Baylor, de Colúmbia e doutros meios universitários extra-tropicais ao se empenhar em 1926 pela necessidade de sustar a "crescente descaracterização da cozinha, regional" 12 p. 47 em nome do paladar pernambucano" enobrecido por cento e cinqüenta, duzentos e até quatrocentos anos de feijão de coco e de sabongo, de doce de caju e de vinho de jenipapo", como componente de todo um conjunto da cultura regional que precisava de ser preservado e desenvolvido. Quando nada porque, uma vez que "a nutrição é fator poderosíssimo de tipo social e de tipo nacional (. . .) o laboratório da química social é antes a cozinha que a escola". 5 p. 154-5 Era preciso salvar o grude, o arroz doce, o munguzá, a tapioca molhada. E é desse tempo, por sinal, o ditirambo com que louvava o "divino pirão", o pirão de farinha da tropicalíssima mandioca, num artigo para o Diario de Pernambuco em que, a propósito dessa "glória do Brasil", exclama, com a boca cheia dágua, que nunca foi pintada uma tela, nem versejado um poema, nem plasmada uma estátua, nem composta uma sinfonia "que igualasse em sugestões de beleza a um prato de pirão". 5 p. 38
Mesmo sem ter sido um comilão propriamente, Gilberto Freyre proclama-se guloso de quitutes tropicais, particularmente dos feitos com açúcar, o também tropicalíssimo açúcar de cana. Quando passava em 1953 pela Ilha da Madeira de volta a Pernambuco admitiu que sua fama de bom garfo atravessava fronteiras, tanto que trazia o camarote, no Serpa Pinto, atulhado de cestas de doces com que o presentearam em Funchal por sugestões partidas de Lisboa. 7 p. 538 Gula, de resto, que é uma apenas das muitas curiosidades sensoriais arroladas por Gilberto Freyre como distintivas de tropicalistas precursores. Tropicalistas como Fernão Mendes Pinto, por quem foram fixados dos Trópicos flagrantes de tal modo sensíveis que, lendo-o "sentimos a forma, a cor, a luz, o aroma, o gosto". "Tropicalismo ao mesmo tempo volutuoso e meticuloso", 21 p. 107 -8 que é a mesma Tropicologia cujo sucesso com Gilberto Freyre, escreveu o norte-americano Paul. V. Shaw, deve-se aos seus olhos perspicazes, ao seu faro aguçado, à sua sensibilidade táctil, aos seus ouvidos argutos e à sua conversa inquisitiva. "Ele, vê, ouve e cheira tudo - admirou-se o instrutor de História da Universidade de Colúmbia - quase literalmente". 9 p. 5
Não foi só isso, é claro, o que lhe assegurou sucesso às especulações sistemáticas por ele desdobradas acerca do que as regiões tropicais "contêm de peculiarmente tropical em suas civilizações e culturas e no comportamento biológico e sócio-cultural dos seus homens". 9 p. 69 Nem às especulações nem às sínteses organicamente formuladas em termos de ciência do homem situado no Trópico. Se adotarmos a linguagem proposta por um Bernard S. Phillips para caracterizar um processo de averiguação científica, 27 p. 65 toda uma progressiva seqüência de paradigmas comportando séries de hipóteses implícitas ou explícitas sobre fenômenos conceitualmente interpretados, bem como a formulação de proposições sobre a natureza desses fenômenos - proposições afinal ordenadas sistematicamente em teorias - todo um desenvolvimento progressivo, enfim, dessa estratégia de abordagem surpreende-se ano após ano na obra de Gilberto Freyre.
Saliente-se antes de mais nada a heterodoxia audaz, por vezes quase herética, com que se sobrepôs a certas posições convencionais - para não dizermos preconceituosas - no domínio das ciências do Homem, particularmente no da Sociologia: "ausência de ortodoxismo - preferiu dizer com mais brandura um ilustre crítico indígena da Tropicologia - seja quanto a definição de objeto, seja quanto à adoção de normas metodológicas", 24 p. 252 Estudando situacionalmente, como antropólogo, o Homem tropical, recusou-se como sociólogo a considerá-lo em função daquela Sociologia "abstrata" que por assim dizer opunha o sujeito à natureza, fazendo dele algo como aquele "campo de estudos - escreveu Jean Piaget - reservado às ciências do espírito mais vizinhas da metafísica que das chamadas ciências 'exatas e naturais' ", 28 p. 105 Impunha-se rever filosoficamente os conceitos, "de Homem Abstrato e de Cultura independente de sua ecologia, como se tal cultura fosse, por sua vez, outra abstração", e substituí-los pelos de Homem e Cultura situados. 6 p. 7 Esse conceito de "Homem situado", que Gilberto Freyre veria sem demora proclamado como válido por insignes mestres da Sorbonne, parece-nos que de certo modo corresponde ao do Homem habitante com que Maurice Le Lannou considerou, em seu "La Géographie Humaine" (1949), certos geógrafos que já naquele tempo andavam cegamente distanciados da síntese e do conhecimento dos conjuntos, síntese e conhecimento próprios do verdadeiro espírito geográfico. Há mesmo certa semelhança entre as perspectivas que desse modo abriu o sociólogo-antropólogo Gilberto Freyre, e a multiversidade de disciplinas que, interessando crescentemente à Geografia moderna, Le Lannou exigia fossem sinteticamente consideradas em seus resultados. Na introdução ao livro Um Brasileiro em Terras Portuguesas, Gilberto Freyre reclama muito justamente ser creditado, desde Casa-Grande & Senzala, pela adoção pioneira de técnicas combinadas e estudos conexos "de várias ciências articuladas ou conjugadas para um esforço comum em torno de complexo limitado por suas características de espaço", 21 p. 139 o espaço tropical. O mais, nesse particular, talvez se possa resumir como sendo a segurança que pôs no desembaraço com que se prevalece de expressões e idéias nada convencionais.
De Casa-Grande & Senzala (1933) registara o crítico João Ribeiro que era um livro sem conclusão, e a interrogação rabiscada por Ribeiro Couto na última página do exemplar que tinha lido exprimira, por certo, igual perplexidade. Quem os relembra, ambos, é o próprio Gilberto Freyre, reconhecendo que ao escrever o seu livro de estréia estava ainda na fase indagadora, numa quadra o seu tanto já de análise interpretativa, mas não ainda de síntese, nem de conclusão.14 p.16 Como quer que fosse, acercava-se sensivelmente do objeto que se definiria mais tarde em termos lusotropicológicos e, além disso, o método de que se valeria e ainda se vale para isso - uma metodologia com algo de muito pessoal e a cuja consideração esperamos voltar mais adiante - era já o adotado em Casa-Grande & Senzala.
Denunciava nesse livro uma Sociologia "mais alarmada com as manchas de mestiçagem do que com as da sífilis, mais preocupada com os efeitos do clima do que com os de causas sociais suscetíveis de controle e retificação". 8 p. 38 O estudo ecológico do Homem - estudo do Homem em relação com o ambiente - completado pelo estudo cultural seriam as duas constantes solidárias que poderiam dar à Sociologia" as suas melhores condições de ciência e à filosofia social a sua visão mais larga". 13 p. 9 Ecologia Social, em suma, não no sentido dos sociólogos da Escola de Chicago, sectários de R. E. Park e E. W. Burgess, mas no de Radhakamal Mujerkee, 11 p. 303 sentido segundo o qual foi graças à ponderação de áreas geográfico-ecológicas que Gilberto Freyre concebeu afinal o sistema de estudos que é a Tropicologia. Já em 1937, no seu livro Nordeste, preconizava "um critério rigoroso de ecologia ou de sociologia regional" que presidisse a análise e a compreensão das especializações regionais de vida, de cultura e tipo físico no Brasil, 13 p. 23 rigorosamente coerente, portanto, com o que sustentara no Manifesto Regionalista ao extrair certas conclusões do fato de que o Brasil é sociologicamente feito de regiões desde os primeiros dias, "regiões naturais a que se sobrepuseram regiões sociais". 12 p. 32 E não tardou que da sua "concepção de estudos definida a partir de uma base espacial concreta ou da consideração básica do regional", 24 p. 256 concepção comungada na Índia por Mujerkee, repontasse a Sociologia Regional, sinônima de Ecologia Humana e ainda de Ecologia Social.
Daí que num congresso de Filosofia reunido em New Haven, 1942, propunha Gilberto Freyre um novo conceito de regionalismo fundado na premissa de que "região é objeto de estudo ao mesmo tempo sócio-cultural e sócio-ecológico", de "estudo científico de equilíbrio ou desequilíbrio nas relações entre o Homem social e sua cultura". Estudo necessariamente multidisciplinar, valendo-se abrangentemente da Antropologia, da Ecologia, da Biologia e da Geografia, da Sociologia, da História, da Economia. O novo regionalismo assim conceituado importaria, portanto, em que a investigação sociológica ou antropológica - inclusive histórica - do Homem social e de sua cultura fosse completada "pelo estudo ecológico de sua relação com a chamada área natural, sem desprezar-se, é claro, o estudo das relações de uns grupos humanos com os outros, diversamente situados dentro do espaço regional; e com grupos humanos situados noutros espaços". 9 p. 64-5 Porquanto nas ciências do Homem como da natureza "não se faz pesquisa ou estudo em profundidade, quando falta à pesquisa, ou ao estudo, critério ou orientação ecológica , servida por métodos de análise e até de interpretação correspondentes a situações especificamente regionais". 22 p. 33 Assim falou Gilberto Freyre ao sugerir que se instituisse na Universidade Federal de Pernambuco um Seminário de Tropicologia, duma Tropicologia "que ao conhecimento ecológico de regiões tropicais acrescente o cultural e o histórico-cultural", 9 p. 61 com o que aliás se daria ênfase regional salutar à atividade universitária porquanto "o próprio conceito de 'trópico' (. . .) é um conceito regional. Ecológico". 21 p. 33 Contemplando toda a matéria suscetível de ser submetida a uma sistemática tropicológica de análise e de tentativa de síntese e tendo como especial objeto o brasileiro, "gente decisivamente tropical ou tropicalóide em sua ecologia, em seu comportamento, em sua cultura". 22 p. 29
A Tropicologia ganhara já cidadania científica, aliás, substituindo-se decisivamente àquele "tropicalismo" que para os europeus da segunda metade do século passado era só "verbalismo, retórica, exagero de cor, exuberância de formas, ausência de medidas, de equilíbrio, de proporção". 21 p. 32 Exuberância de formas desproporcionadas como a daquelas mulheres esteatopígicas boximanes e hotentotes documentadas por Frobenius, menos estimada pelo interesse etnológico do que por seu exotismo disforme e pitoresco. Em 1952, ao proferir uma conferência Em Torno de um Novo Conceito de Tropicalismo na Sala dos Capelos da Universidade de Coimbra, 21 p. 170-86 revelava Gilberto Freyre que há vários anos vinha planejando um ensaio tropicológico, e o contacto que acabava de manter com áreas e culturas tropicais africanas e asiáticas tinha esclarecido e confirmado algumas velhas antecipações suas a respeito, pelo que na Índia, num pagode hindu que visitara em Queula, se sentira, "tão luso-tropicalmente à vontade como numa igreja Católica do Brasil".7 p. 347 Quatro anos mais tarde, tendo participado do XVIII Congresso Internacional de Geografia no Rio de Janeiro, o geógrafo soviético Guerassimov visitava a Amazônia e preconizava, impressionado com o panorama da floresta equatorial e de suas formas de ocupação, que se desenvolvesse o quando antes no Brasil uma "ciência tropical" para estudo sistemático e interpretação das relações do Homem, das sociedades, das culturas, enfim, com as situações tropicais, espaços tropicais. Quando nada porque, como vinha apregoando Marston Bates entre muitos outros, as culturas sofreram, no curso do seu desenvolvimento, manifesta influência do meio. Através, por exemplo, "de diferentes espécies de alimentos, qualidade dos materiais utilizados para os utensílios, acasos a vantagens do clima e da topografia". 3 p. 52 Fez-se, porém, praticamente imediata a evidência de que entre nós essa perspectiva científica já se consubstanciara, porquanto poucos meses depois, num conclave do Instituto Internacional de Civilizações Diferentes realizado em Bruxelas, deveu-se a Gilberto Freyre o reconhecimento duma ecologia social do Trópico e duma consideração antropológica do Homem nele situado, propósito esse a concentrar-se "no estudo da simbiose luso-tropical, característica, há séculos, da ocupação pelo português de várias áreas tropicais. 9 p. 117-8 Áreas que, como foi o caso do Brasil, suas aptidões para aclimar-se "madrugaram, em vez de se retardarem como nas possessões tropicais de ingleses, franceses e holandeses". 8 p. 13 Do que se pode inferir que a Tropicologia vinha sendo mentalmente gerada a partir duma Lusotropicologia. Mas voltaremos adiante a esse assunto.
Em 1962, com a publicação de Homem, Cultura e Trópico a propósito da inauguração do Instituto de Antropologia Tropical anexo à Faculdade de Medicina da Universidade do Recife, dava Gilberto Freyre contas de que afinal se organizava em ciência o conjunto de estudos sobre os Trópicos e o Homem situado nos Trópicos, que "são uma parte do mundo e da humanidade tão normal como a outra, embora com motivos de natureza biológica e de ordem cultural para se desenvolverem de modo diferente da européia ou da anglo-americana", porquanto para a definitiva sistematização dessa matéria não faltavam fundamentos, à margem da Ecologia, por um lado, e da Antropologia por outro. 9 p. 25-5 Anos antes, de resto, em conferência da Universidade de Virgínia, perguntara se não se estaria constituindo aos olhos de todos uma nova ciência que se pudesse chamar Tropicologia. E respondera ele mesmo afirmativamente, qualificando como para-tropicologistas ou quase-tropicologistas o francês Pierre Gourou, o inglês Marston Bates e o alemão Konrad Guenther, um geógrafo, um ecólogo e um naturalista. Era urgente, portanto, que a Tropicologia se constituisse no Brasil - o maior país tropical do mundo - em ciência especial a partir do Instituto de Antropologia que então se inaugurava. Para considerar, inclusive, no Homem situado no Trópico, "as peculiaridades de metabolismo, de comportamento em seus aspectos bioquímicos, de índices antropobiométricos, de relação com o ambiente, de predisposição a certas doenças e de imunidade a outras, de necessidades de alimentação e de recreação diferentes das experimentadas pelo Homem em situação ecologicamente diversa". 9 p. 74
Foi como Lusotropicologia, mencionamos ainda há pouco, que os prenúncios duma Tropicologia geral manifestaram-se. Isso desde, pelo menos, a dramática advertência com que, no Gabinete Português de Leitura de Pernambuco, num momento em que ameaças do nazismo racista pareciam irresistíveis nos começos da Segunda Guerra Mundial, alertou Gilberto Freyre sobre os perigos representados pelos imperialismos etnocêntricos para a integridade da nossa cultura luso-brasileira. A propósito dumas xácaras invocadas pelo Padre Antônio Ribeiro em seu ensaio A Vocação Missionária de Portugal (1936), o conferencista alongou-se em poeta ao proclamar que o português é irmão das águas. Irmão não só das estrelas austrais, não só do sol dos Trópicos, mas também dos homens dos Trópicos: "os povos para além das águas dos mares: as gentes pardas e pretas das terras do sul". 20 p. 29 Mas a Lusotropicologia tomaria consistência terminante com a publicação de Um Brasileiro em Terras Portuguesas" (1953), embora seu teorizador qualificasse o livro de mera "Introdução a uma possível Luso-Tropicologia" e de "tentativa de sistematização" dessa que não tardaria ele mesmo a anunciar como parte de uma subciência do Trópico que se denominasse Hispanotropicologia, para analisar e interpretar a especialíssima simbiose do europeu hispânico com o Trópico, sob critérios solidariamente ecológico-sociais e antropoculturais. Foi a propósito de sua peregrinação pelos Portugais africanos e asiáticos, testemunhando a aclimação do português - "aclimação como que volutuosa e não apenas interessada em áreas tropicais ou em terras quentes" - 21 p. 176 que Gilberto Freyre, quase literalmente apalpando, farejando e bisbilhotando - diria o já citado Paul V. Shaw numa versão apenas menos enfática daquele "vendo, tratando e pelejando" de Luís de Camões - jubilosamente admitiu: "senti confirmar-se uma realidade por mim há anos advinhada ou pressentida através de algum estudo e de alguma meditação": a realidade "de que existe no mundo um complexo social, ecológico e de cultura, que pode ser caracterizado como luso-tropical''', 21 p. 14-5 Em razão do que dirá mais tarde que cada dia mais sentia ser a sua pátria não somente o Brasil, porém o Trópico. "Todo o mundo tropical. Daí as afinidades que me prendem - ele disse - a paisagens e populações tropicais, tanto da Ásia como da África, para não falar da América". 18 p. 66 Pelo que sem demora exortaria os mestres de Coimbra a estudarem os Trópicos lusitanos, onde o português "criou um mundo de valores aparentemente contraditórios mas na verdade harmônicos", os valores da civilização luso-tropical.
Logo depois, em nota ao capítulo II da Sociologia - Introdução ao Estudo dos Seus Princípios, reiterava a intenção de desenvolver, a título de Ecologia Social, o estudo sistemático da simbiose luso-trópico, isto é, da especial adaptação do português a espaços tropicais no Oriente, na África e na América. 17 p. 303
É a partir daí que se projeta em perspectiva transregional, como objeto da Lusotropicologia, o complexo de civilização formado pelos vários grupos de portugueses, descendentes de portugueses e continuadores ou modificadores de portugueses fixados ou estabelecidos nos Trópicos - complexo de que o Brasil é hoje líder - 9 p. 93-4 em função, portanto, do passado lusitano como expressão, em grande parte, de uma experiência simbioticamente lusotropical. 22 p. 30 Simbiose que em Casa-Grande & Senzala já fora identificada, por assim dizer, em termos de contemporização plástica entre duas tendências do sistema patriarcal de colonização portuguesa no Brasil: a imposição imperialista da raça adiantada à atrasada, imposição de formas européias ao meio tropical, e a contemporização, ao mesmo tempo, dos colonizadores com as novas condições de vida e de ambiente. 8 p. xxx Complexo transregional porquanto como área de presença histórica lusitana nos trópicos sua ocorrência é dispersa. Não inteiriça ou contínua, mas "ecologicamente dependente das mesmas pressões e circunstâncias". 9 p. 66
Dessa mesma perspectiva transregional, de resto, participam por definição quaisquer civilizações já ecológica e simbioticamente euro-tropicais, de sorte que as especulações lusotropicológicas teriam de também projetar-se no domínio mais abrangente duma Hispanotropicologia igualmente transregional e além disso, multinacional. A publicação pelo Arquivo Público Estadual de Pernambuco, em 1956, do monumental Morão, Rosa & Pimenta - Notícia dos Três Primeiros Livros em Vernáculo sobre a Medicina no Brasil forneceria uma oportunidade para essa projeção: o prefácio de Gilberto Freyre - "um dos mais lúcidos ensaios de Tropicologia do insigne pernambucano", como o qualificou Jordão Emerenciano em sua "Nota do Editor" - foi na verdade um desdobramento, sobre o mundo tropical de colonização hispânica, do quanto já surpreendera e interpretara no de colonização portuguesa. E aqui repontou irresistivelmente a questão que poderia figurar entre as preliminares desse estudo: seriam possíveis outras tropicologias especiais além da Hispanotropicologia e da especialíssima Lusotropicologia? Gilberto Freyre resolve-se pela negativa, pois essas duas subciências "são as únicas - escreveu ele - que exprimem relação simbiótica de saber, empatia, experiência e vivência de europeus com os trópicos", "saber do Trópico", em suma. 15 p. xxiii E as modernas sociedades lusotropicais a ele se afiguraram, de resto, "mais democráticas em seus estilos de convivência humana, que as sociedades essencialmente coloniais, mesmo quando politicamente democráticas, ainda quando orientadas ou dominadas por Europeus do Norte nos trópicos". Sociedades em que os "valores essenciais de populações e culturas tropicais são despedaçados, conservando-se deles apenas os pitorescos etnográficos". 15 p. xxxviii
Os dois tipos, aliás, de colonização européia nos trópicos, com seus resultados tão veementemente desiguais, derivam da circunstância, propõe Gilberto Freyre, de ter sido sempre etnocêntrica a colonização não-hispânica - anglo-saxônica, germânica, flamenga - ao passo que a hispânica teve em vez disso um caráter sociologicamente cristocêntrico: não foi em vão, com efeito, que os colonizadores portugueses históricos prepararam-se mais para cristianizar do que para europeizar os trópicos. 15 p. xxviii Os portugueses e os europeus de origem ibérica em geral, todos "colaboradores no desenvolvimento de novos tipos de sociedades, de culturas e, talvez, de homens, em espaços tropicais", 9 p. 27 como o mexicano e o paraguaio, além do brasileiro e do indo-português.
Em Homem, Cultura e Trópico (1962) caracteriza-se formalmente a Tropicologia como "uma ciência fundamentalmente ecológica antes de ser dinamicamente biossocial e sócio-cultural em seu estudo do Homem situado em meio tropical". 9 p. 48 Como "um dos necessários pontos de encontro para as pesquisas ecológicas que tenham objetivo comum, em suas aplicações funcionais, o maior bem-estar do homem, residente antigo em áreas tropicais, ou nelas adventício", 9 p. 72-3 cumpre à Tropicologia estabelecer o que essas regiões "contêm de peculiarmente tropical em suas civilizações, ou culturas e no comportamento biológico e sócio-cultural dos seus homens". 9 p. 69 Esse homem situado no Trópico, noção de base de uma Tropicologia sistemática, é um novo tipo resultante, em áreas tropicais, de uma cultura em processo de consolidação ao longo de crescente interpenetração eurotropical de raças e culturas regionais ou nacionais. 22 p. 37 Um geógrafo poderia ir ainda mais longe, como o fez Max Sorre, para quem "não há grupo humano capaz de se fixar e se perpetuar não importa onde conservando a totalidade dos seus caracteres fisiológicos e anatômicos". "Quelque chose comme une race géographique". Isso faz lembrar que a propósito da vigorosa contestação oposta por Sorokin a Huntington, no sentido da supremacia do fator hereditariedade sobre o fator ambiente, já sustentava o autor de Casa-Grande & Senzala que "os dois fatores em muitos pontos se cruzam, sendo difícil de separar a hereditariedade do meio. Principalmente se admitirmos a possibilidade de se transmitirem influências adquiridas em novo meio físico ou sob ação bioquímica. 8 p. 322
Quando Gilberto Freyre intitula-se ele mesmo de tropicólogo "com pretensões a analista global de quantos fenômenos biossociais e sócio-culturais sejam condicionados pela ecologia tropical", 4 p. 4 enfatiza a seu modo um procedimento que lhe é particularmente caro, com efeito, e que vem a ser porisso, mesmo uma das conotações metodológicas do estudo tropicológico: a abordagem multidisciplinar, interdisciplinar dos temas. Essa preocupação abrangente exprime-se no rol das sugestões com que ele resumia, em 1962, os propósitos do nascente Instituto de Antropologia Tropical, quais fossem os de "animar, orientar, coordenar estudos pan-tropicais e inter-tropicais, fazendo do Recife um centro ao mesmo tempo brasileiro e pan-tropical de estudos ecológicos e antropológicos" e acrescentando à consideração do Homem físico e biossocial o estudo de suas culturas ou de suas civilizações naquilo que estas tenham de especificamente tropical em sua base, ou sua condição, ou constante ecológica. 9 p. 29 e 39 Inclusive dos obstáculos opostos pela natureza do Trópico a valores de civilização procedentes de outros meios naturais. Assunto que já o preocupara, aliás, em Casa-Grande & Senzala ao enfatizar algumas das novas condições mais irritantes em que se exercitara o esforço colonizador do português: "No homem e nas sementes que ele planta, nas casas que edifica, nos animais que cria para seu uso ou subsistência, nos arquivos e bibliotecas que organiza para sua cultura intelectual, nos produtos úteis ou de beleza que saem de suas mãos - em tudo se metem larvas, vermes, insetos, roendo, esfuracando, corrompendo. Semente, fruta, madeira, papel, carne, músculo, vasos linfáticos, intestinos, o branco do olho, os dedos dos pés, tudo fica a mercê de inimigos terríveis". 8 p. 18
O Instituto de Antropologia Tropical fora uma sua idéia antiga, que se antecipara, de resto a de qualquer outra entidade desse gênero e fora objetivo de uma nota submetida em 1951 por Gilberto Freyre ao Diretório da Fundação Wenner-Green de Antropologia. Ao Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, que já existia desde 1949, reservava ele, que o fizera instituir, atividades de pesquisas intranacionais, ao passo que ao Instituo de Antropologia abriam-se panoramas internacionais de estudos comparados no plano pan-tropical, tudo sem esquecer a remota inspiração do Movimento Regionalista do Recife (1923) - "regionalista, tradicionalista e, a seu modo, modernista" - em relação à perspectiva de virem os povos de origem hispânica situados nos trópicos a integrar "uma vanguarda dessa terceira civilização que (. . .) seja também uma constelação de culturas regionalmente diversas em vários dos seus aspectos" 9 p. 202
O ambicioso plano de estudos do Instituto de Antropologia Tropical não foi posto em execução porque teve vida efêmera, em conseqüência da reestruturação universitária que logo teve lugar, mas passaria a merecer depois assíduo desempenho com os trabalhos do Seminário de Tropicologia da Universidade Federal de Pernambuco. Anunciado por Gilberto Freyre como multidisciplinarmente concebido em torno de uma sistemática tropicológica com implicações filosóficas e humanísticas, mas também científicas, o Seminário foi instituído no reitorado Murilo Guimarães e completou em 1979 seu décimo terceiro ano de funcionamento na Universidade, sempre coordenado por Gilberto Freyre exceto nos derradeiros meses, quando a coordenação foi confiada ao antropólogo Roberto Motta. A exemplo do que lhe serviu de modelo - o que fora inovado pelo professor Frank Tannenbaum da Universidade de Colúmbia - o Seminário de Tropicologia caracteriza-se por uma combinação de trabalho criador e atividade recreativa, quase lúdica, hedônica, tal como vaticinou Gilberto Freyre, cumprindo-se à sombra de tempo livre da burocracia, ou da rotina rigidamente pedagógica. Com participantes descontraídos, cada um dos quais fazendo-se admitir nos debates - é ainda Gilberto Freyre quem os define - como um "boêmio-criador" à maneira de Darwin e Einstein: ambos hostis desde a mocidade às formas de convívio universitário caracterizado pela rigidez nas relações de estudantes sempre examinandos com professores sempre examinadores. 22 p. 28 Nessa atmosfera foi a Tropicologia desdobrada, passo a passo, por novas teorizações, novos princípios, novas especulações, em suma, formuladas por Gilberto Freyre na abertura dos trabalhos de cada reunião, as quais vêm registadas nos anais do Seminário, infelizmente nem sempre publicados com regularidade e com presteza. E enriquecida também pelo tratamento dado aos numerosos temas expostos e discutidos por assembléias de gente de todas as idades, de muitas especialidades e de ambos os sexos: conferências sobre Antropologia e Sociologia, sobre Ecologia e Geografia, versando umas Saúde, Higiene e Nutrição, outras População, Economia, Artes, Arquitetura, História, Educação. E ainda Transporte e Comunicações e Política Internacional, tudo em função de um estudo multidisciplinar sistematicamente interrelacionado e comparado. Neste ano que agora vai findar o Seminário de Tropicologia vem sendo, numa nova fase, promovido pela Fundação Joaquim Nabuco, como sabemos, por iniciativa do seu presidente, Fernando Freyre.
Sabíamos ser impraticável, nas dimensões deste registo, configurar o enredo mesmo somente parcial das implicações culturais e científicas que a Tropicologia vem fazendo germinar, mas é bom exemplo delas aquela inferência de Roberto Motta para quem seria de especial interesse para a Sociologia do desenvolvimento o fato de que "os estudos tropicológicos demonstram que não existe um Desenvolvimento, do mesmo modo que não existe uma História (. . .) Cada povo - e isto vale especialmente para as áreas tropicais - ou tem seu próprio desenvolvimento, sua experiência irredutível a todas as outras, ou não terá desenvolvimento algum, deformando-se e alienando-se (. . .) no esforço duvidoso da aceitação dos paradigmas de um modelo de História afinal inexistente". 25 p. 38
Valores, aliás, de cultura e de raça - no caso brasileiro, de "supra-raça", ou "meta-raça", segundo Gilberto Freyre, conceitua nossa morenidade dominante e crescente - pode a civilização européia assimilar do trópico "para, em novas combinações de formas - tanto formas de homens como de convivência humana - e através de novos portadores dessas combinações, continuar a ser civilização hibridamente vigorosa, viva e criadora", 21 p. 183 Porquanto nós os povos tropicais, principalmente os luso-tropicais, estamos na obrigação "de desenvolver ou de aperfeiçoar estilos de casa, de móvel, de tecido, de trajo, de recreação, de adorno pessoal, assim como de técnicas agrárias, pastoris, médicas, veterinárias, urbanísticas, em que à modernidade se junte a tradição regional". 9 p. 59 Inclusive, por exemplo, o saber empírico do ameríndio sobre as virtudes terapêuticas de plantas tropicais, atualmente estudadas pela Universidade Federal da Paraíba - que nesse particular exibiu há algum tempo mostruários no Museu do Homem do Nordeste - como que desafiando a farmacopéia das multinacionais.
Civilização moderna em desenvolvimento num espaço tropical, "não deseja o Brasil ser sub-europeu nas suas aparências nem anti-europeu nas suas atitudes, porém juntar sua herança européia aos valores tropicais para assim formar um novo estilo de civilização". 9 p. 75 Como parte e "expressão de um mundo - o situado no Trópico - mais do futuro que do presente ou do passado", 14 p. 22 são palavras ainda de Gilberto Freyre, tem o Brasil condições já hoje de contribuir para a "valorização de modernas civilizações em desenvolvimento e para a orientação de jovens nações situadas nos trópicos". De "contribuir com sua experiência já válida e com suas sínteses já fecundas, de música, de culinária, de artes plásticas, de artes aplicadas, de poesia, de ciência", 9 p. 51 porquanto detém de fato oportunidades de povo condutor de povos tropicais menos desenvolvidos do que o brasileiro. 9 p. 196 O que é uma versão cultural - sociológica - daquele pregão político que desde o antepenúltimo presidente dos Estados Unidos vem sendo repetido por figurões norte-americanos e europeus, pregão de que o Brasil é um líder irrecusável da América Latina, senão mesmo do Terceiro Mundo.
Insistindo ainda uma vez, e já agora para terminar, em que não nos alimentou a vã prosápia de recolher exaustivamente de toda a obra de Gilberto Freyre enunciados do pensamento tropicológico consumado ou emergente, cremos, nada obstante, ter realçado a linha de coerência, tão certeira e fecunda, que também nesse particular assinala sua prodigiosa atuação cultural.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. ANDRADE, Gilberto Osório de. Domínio tropical - dimensão e conceito ecológico-geográfico de tropicalidade. Estudos Universitários, Recife, 9(1), jan./mar. 1969.
2. ----------------------. Introdução à Tropicologia: a Problemática Ecológico-geográfica Ciência & Trópico Recife, IJNPS, 1(1): 85-104 jan./jun. 1973 e 1(2): 271- 334 jul./dez. 1973.
3. BATES, Marston. L´Homme el la Nature entre le Cancer el le Capricorne. Trad. de J. Joubert, Paris, Payot, 1953, 276 p.
4. FREYRE, Gilberto. A Presença do Açúcar na Formação Brasileira. Rio de Janeiro, Instituto de Açúcar e do Álcool, 1975, 212 p.
5. ----------------------. Artigos de Jornal. Recife, Edições Mozart s. d., 184 p.
6. ----------------------. Aspectos da Influência Africana no Brasil. Cultura, Brasília, Ministério da Educação e Cultura. 6(23): 6-19, out./dez. 1966.
7. ----------------------. Aventura e Rotina - Sugestões de uma viagem à procura das constantes portuguesas de caráter e ação. Rio de Janeiro, José Olympio, 1953, 557 p.
8. ----------------------. Casa-Grande & Senzala, 14. edição brasileira, Recife, Imprensa Oficial, 1966, 640 p. 2 tomos.
9. FREYRE, Gilberto. Homem, Cultura e Trópico, Universidade do Recife, 1962, 235 p.
10. -------------------. Homens, Terras e Águas na Formação Agrária do Brasil: Sugestões pra um Estudo de Inter-relações, Boletim do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, Recife, v. 3, 1953, p. 3-12.
11. -------------------. Interpretação do Brasil, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1947.
12. ------------------. Manifesto Regionalista, 4 ed. Recife, IJNPS, 1967, 73 p.
13. ------------------. Nordeste - Aspectos da Influência da Cana sobre a Vida e a Paisagem do Nordeste do Brasil, 3 ed., Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1961, 183 p.
14. -----------------. Novo Mundo nos Trópicos, Lisboa, Ed. Livros do Brasil, 1972 335 p.
15. -----------------. Prefácio In Morão, Rosa & Pimenta (vd), p XIX-XXXVIII
16. -----------------. Problemas Brasileiros de Antropologia. Rio de Janeiro, CEB, 1943 219 p.
17. FREYRE, Gilberto. Sociologia - Introdução ao Estudo dos seus Princípios, 2. ed., Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1957, 2 tomo, 741 p.
18. ------------------. Sugestões de um Novo Contacto com Universidades Européias, Universidade do Recife, 1961, 243 p.
19. FREYRE, Gilberto. Tempo de Aprendiz (artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918/26), São Paulo, Instituição Brasileira de Difusão Cultural S.A., 1979. 385 e 400 p. 2v.
20. -----------------. Uma Cultura Ameaçada: a Luso-Brasileira, Recife, 1940, 84 p.
21. -----------------. Um Brasileiro em Terras Portuguesas - Introdução à uma Possível Luso-tropicologia, etc., Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1953, 438 p.
22. -----------------. Um Novo Tipo de Seminário (Tannenbaum) - Um desenvolvimento na Universidade de Columbia: Conveniência da Introdução da sua Sistemática na Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 1966, 39 p.
23. HEPPPACH, Willy, Géopsyché - L´Ame Humaine sous l´Influence du Temps, du Climat, du Sol et du Paysage, Trad. de F. Gidon, Paris, Payot, 1944, 374 p.
24. MELO, Mário Lacerda de. O Recife e a Tropicologia. Revista Pernambucana de Desenvolvimento, Recife, CONDEPE, 4(2): 251-74, jul/dez. 1977.
25. MORÃO, Rosa & Pimenta - Notícias dos três Primeiros Livros em Vernáculo sobre a Medicina no Brasil, Recife, Arquivo Público Estadual, 1956, 569 p.
26. MOTTA, Roberto. Tropicologia, História e Desenvolvimento, Revista Pernambucana de Desenvolvimento Recife, 4(1): 29-38, jan./jun. 1977.
27. PHILLIPS, Bernard, S. Pesquisas Sociais - Estratégias e Táticas tradução, de Vanilda Paiva, Rio de Janeiro, Agir Editora, 1974, 460 p.
28. PIAGET, Jean. A Situação das Ciências do Homem no Sistema das Ciências, tradução de Isabel Cardigos dos Reis, 3 ed., Lisboa, Livraria Bertrand, 1976, 149 p.
Fonte: OSÓRIO, Gilberto. Um modelo de história social: o de Gilberto Freyre. In: Seminário de Tropicologia: Trópico & Gilberto Freyre, antecipador, antropólogo, escritor literário, historiador social, pensador, político, tropicológico, 1980, Recife. Anais... Recife: Fundaj, Massangana, 1983. p. 233-251.
|