UM MODELO DE HISTÓRIA SOCIAL: O DE GILBERTO FREYRE
Cecília Maria Westphalen
Senhor Doutor Gilberto Freyre, senhor Presidente deste Seminário, senhores participantes.
Pela segunda vez, na minha carreira universitária, na minha carreira de magistério, ocorreu-me a sensação de temeridade. A primeira foi, em 1958, quando convidada pelo eminente, há pouco falecido, Professor Richard Konetzke, falei, em alemão, no Seminário de História da América Latina, na Universidade de Colonia, sobre Alexandre von Humboldt, por ocasião das comemorações do seu Centenário. Esta sensação, agora ocorreu-me pela segunda vez, convidada pelo Seminário de Tropicologia, desta mui reputada Fundação Joaquim Nabuco, para falar, no Recife, sobre Gilberto Freyre e o homem brasileiro, nas comemorações do seu octogésimo aniversário. E, sobretudo, na sua presença.
Temeridade, sem dúvida. Mas, é o próprio Gilberto Freyre que ensina: em matéria cultural, é necessária a virtude da ousadia,1 quase diria a aventura da ousadia, aquela da criação inovadora, mas também aquela da reafirmação de verdades conhecidas que modismos de empréstimo fazem aos imaturos denegrir, se não propositadamente esquecer.
Os paranaenses, porém, não são dados às grandes ousadias. Não diria jamais, parafraseando Euclides da Cunha, o paranaense é um tímido, o que de certo modo, o faria diferente do comum do homem brasileiro de outras regiões que transbordam de sol vertical e de luz ofuscante. Eu diria apenas: o paranaense é um retraído.
Não por influência de imigrantes nórdicos, dolicocéfalos, de além Renánia. Nem mesmo pelo clima com muito frio, névoas e geadas. Nem somente pela contemplação solitária, que a infinitude dos campos no horizonte propicia. Mas pelas suas funções históricas, ancestralmente históricas.
O Paraná foi sempre, desde os tempos pré-cabralinos, uma zona de trânsito, de passagem de índios que, pelos caminhos do Peabiru, da costa se dirigiam ao interior do Continente, e deste ao litoral.
Depois, foi a passagem histórica de portugueses, de espanhóis, de alemães todos desejando alcançar o lendário Potosi, haja vista as passagens de um Aleixo de Garcia, de um Alvaro Nunez Cabeza de Vaca, de Ulrich Schmidel e outros.
Depois ainda, foi o passar dos Bandeirantes, ou o passar das tropas para as guerras do Sul, ou das expedições militares povoadoras que deveriam, na prática, firmar os fundamentos, no Ocidente, do "uti possidetis" português. Ou, como ainda há pouco, os revolucionários de 1930.
Zona de trânsito, zona de passagem, tudo isto fez com que o paranaense fosse, tradicionalmente, um homem calado, quieto, acostumado, a ver o que muitas vezes passa ruidosamente e pouco dura. E, sobretudo, a exercer uma função de guarda, de sentinela da presença histórica luso-brasileira.
E, assim também, pelas suas funções de vigia, o paranaense é aquele que não deixa o posto, não migra. Se o faz, é por pouco tempo. Quando ocorre a primeira geada, lá está ele de volta ao Paraná, a fim de não perder esse magnífico fruto da araucária que é o pinhão, tal como o faziam outrora os indígenas.
Tudo isto pode parecer que irei aqui, diante da magistral cátedra de Gilberto Freyre, dizer que, no Paraná existe, como já foi afirmado por alguns, um Brasil diferente daquele de Casa-Grande & Senzala, de Sobrados e Mucambos, ou seja de que as teses de Gilberto Freyre valem apenas no quadro e no contexto do Nordeste, e para o homem do Nordeste.
Não é isto verdade. A legenda do Brasil diferente encontra como seu principal precursor a Augusto de Saint-Hilaire, na primeira metade do século XIX. É preciso, contudo, que se diga, um Saint-Hilaire pinçado ao acaso, fragmentariamente, como ao afirmar que "seria um erro pensar-se que a maior parte dos habitantes dos Campos Gerais se compõe de mestiços. Encontra-se ali muito mais homens realmente brancos que em outras partes do Brasil." 2 Ou, quando ainda Saint-Hilaire disse "a criação do gado, a que todos geralmente se dedicam, requer poucos escravos . . ." 3. Ou, ainda, "Não vi em nenhuma parte do Brasil, tantos homens verdadeiramente brancos, como no distrito de Curitiba". 4
Assim, tiveram origem dois mitos: o da remota branquidade dos paranaenses, e o da inexistência do regime escravocrata no Paraná.
Mitos estes retomados e relacionados com a imigração e colonização estrangeira recentes. Retomados sobretudo na conjuntura que se seguiu à Segunda Guerra Mundial, o que se explica, a meu ver, primeiro pela persistência residual da propaganda nazista ariana, e, em segundo, pelo movimento paranista que se verificara em favor de uma definição e de uma presença do Paraná e do homem paranaense no cenário nacional, com vistas sobretudo à reintegração do Território do Iguaçu que lhes havia sido arrebatado durante o Estado Novo.
Desde modo, alguns intelectuais, nem sempre paranaenses de origem, e talvez mesmo inconscientes daqueles resíduos da propaganda nazista, mas desejosos de agradar às lideranças, também intelectuais, do movimento paranista que se encontravam na ocasião à frente da política estadual e mesmo do próprio Governo do Estado, esses intelectuais digo, colocaram-se em desacordo com as obras de Gilberto Freyre, as quais não refletiriam a totalidade da história social brasileira, muito menos aquela do Paraná, conforme explicava o principal deles que é Wilson Martins. Diz Wilson Martins: "É que existiram no Paraná elementos perturbadores. . .e que lhe atribuem um caráter todo diferente do da região especialmente estudada pelo Sr. Gilberto Freyre, mesmo que essa região seja, não apenas o Nordeste brasileiro, mas os vastos domínios da cultura luso-tropical: a presença do imigrante em primeiro lugar, e, depois, a ausência do português e a inexistência da escravatura, de tal forma que os dois últimos não chegaram a atuar como forças sociologicamente ponderáveis". 5
Esta posição, melhor, esta negativa da validade da interpretação proposta por Gilberto Freyre, sem dúvida, desde logo interessou à Universidade Federal do Paraná que realizava justamente, naquela ocasião da publicação do livro do professor Wilson Martins, seminário de revisão crítica da historiografia paranaense, com vistas a determinar os problemas da história do Paraná ainda não equacionados e ainda por resolver, a partir da renovação conceitual e metodológica que se operava na ciência histórica pelo movimento da Escola dos Annales.
Assim, de início, era necessário explicitar um novo instrumento de investigação e análise, aquele dos modelos.
"Os modelos - diz Fernand Braudel - não são que hipóteses, sistemas de explicação solidamente ligados segundo formas de equação ou de função: isto é igual a aquilo, ou isto determina aquilo".6 O modelo deve, pois, através do tempo e do espaço, aplicar-se a outros meios sociais da mesma natureza, fora daquele para o qual foi criado.
Os modelos, os sistemas de explicação, variam segundo o temperamento, os interesses e as finalidades dos seus utilizadores. Podem ser simples ou complexos, qualitativos ou quantitativos, estáticos ou dinâmicos, mecânicos ou estatísticos. Entre os modelos históricos já propostos, são bastante conhecidos aqueles de Marx, Schumpeter, Braudel, Diamond, Rostow e outros.
Na sua conceituação em História, "os modelos são - diz Braudel - como as embarcações. Devem flutuar e descer nas águas do tempo", 7 donde sua estreita conotação com a longa duração.
Entende-se por estruturas de longa duração, "realidades que o tempo usa mal e transporta muito lentamente". 8
Deste modo, a partir das estruturas de longa duração, verificar-se-ia o modelo teórico da sociedade tradicional brasileira, proposto por Gilberto Freyre, sobretudo em Casa-Grande & Senzala e em Sobrados e Mucambos. Ou seja, investigar-se-ia se esse modelo teórico é também aplicável ao Paraná e ao homem paranaense.
O modelo de Gilberto Freyre, para a história social do Brasil, como convém a toda equação ou função, é meridianamente claro. O sistema social, econômico, político, seria enquadrado por quatro variáveis fundamentais atribuídas à sociedade tradicional brasileira: patriarcal, latifundiária, monocultora, escravocrata.
Assim, colocava-se para os estudiosos sociais da Universidade Federal do Paraná, mormente para os historiadores, a problemática: em que medida a sociedade do Paraná tradicional foi patriarcal, latifundiária, monocultora e escravocrata? Em que medida se verifica na sociedade paranaense o modelo proposto por Gilberto Freyre? Ou teria havido, de fato, um Brasil diferente, com um Paraná sem português e sem escravatura?
Ora, é sabido que, motivado pela procura de metais preciosos, ouro e prata, o início do povoamento do território paranaense, quer no litoral, quer no planalto curitibano, é devido à expansão da sociedade paulista. Dizem os documentos:
"Vão tirar esse ouro os moradores de São Paulo e mais vilas circunvizinhas, que têm cabedal de escravaria para o poderem fazer, porque os pobres de três, quatro e até de dez escravos, é impossível, pelas distâncias que se alongam de suas vivendas e dispovoações daqueles ermos..." 9
Estes escravos foram, primeiramente, Índios incorporados ao patrimônio dos povoadores, índios carijós e seus descendentes, os administrados, sem os quais era impossível a vida aos moradores de São Vicente, Santos e São Paulo, unânimes em afirmar., "... o que não tem gentio para o servir, vive como gentio..." 10 , ou que "... não nos podemos sustentar sem escravaria..." 11.
Por ora, é ainda impreciso informar o momento em que se verificou, no Paraná, a substituição do escravo índio pelo escravo negro. É certo, porém, que, em 1674, o Provedor das Minas de Paranaguá era convocado pelo Capitão-Mor de São Vicente para que o acompanhasse aos cerros e minas da vila de Paranaguá, "com sua esposa, filhos e negros de seu serviço, à sua custa", 12 para o efeito de se descobrirem minas de prata.
Ainda no século XVII, em 1696, as autoridades metropolitanas eram informadas da impossibilidade do descobrimento de minas pelos moradores de Paranaguá, como costumavam fazê-lo, "... por causa de lhes morrerem os negros de sarampo e bexigas". 13
De qualquer modo, é certo que, desde 1614, eram concedidas sesmarias a moradores paulistas, em território paranaense, atraídos pelas notícias e pelo próprio achamento de ouro que, em 1646, era oficialmente manifestado por Gabriel de Lara junto à Camara Municipal de São Paulo.
Paranaguá e Curitiba são vilas originadas dessa procura aurífera. O ouro, porém, não era abundante e, quando logo escasseou, muitos abandonaram a terra, e esta ficou em situação de miséria, entregue apenas a uma pequena lavoura de subsistência, antes que se estruturasse, no planalto curitibano, a economia campeira.
O Ouvidor Pardinho, em princípios do século XVIII, ainda encontraria os moradores de Paranaguá e Curitiba em estado de penúria, produzindo, apenas para o consumo, a mandioca, o milho e o feijão. Já observava, porém, a introdução de cabeças de gado vacum nos campos de Curitiba.
De 1614 a 1736 foram concedidas 64 sesmarias em território paranaense. A primeira metade do século XVIII é assinalada por grande movimentação fundiária, decorrente da ocupação dos campos de Curitiba e dos Campos Gerais pelo criatório.
A abertura, em 1731, da estrada que conduzia de Curitiba ao Viamão, por sua vez, propiciou a entrada de tropas de mulas do Continente de São Pedro do Rio Grande do Sul, rumo à feira de Sorocaba, para o abastecimento das Gerais, do Rio e de São Paulo. Ao longo dessa estrada surgiram os pousos, currais e invernadas que dariam origem às antigas vilas e cidades do Paraná.
A Relação das Fazendas, 14 de Afonso Botelho, de 1776, assinala a existência de 88 fazendas e 131 sítios, no Paraná.
"No correr das primeiras décadas de século XIX, a sociedade fundada nos latifúndios dos Campos Gerais apresentava-se estabilizada, com a grande família residindo nas fazendas, à base do trabalho escravo, e com a mocidade encontrando, nas atividades do tropeirismo, a sua forma de participação na ordem social". 15
Esta sociedade campeira, estruturada nos Campos Gerais, expande-se, com o criatório, até os campos de Guarapuava e aos campos de Palmas, configurando a ocupação do território do Paraná tradicional.
No início do século XIX, a partir sobretudo de 1820, abre-se o comércio de exportação da erva-mate para os portos do Rio da Prata e do Chile, passando a constituir o outro grande negócio do Paraná, ao qual se entregaria toda a sua população.
Tudo assim evidenciava que era necessário "reconstituir um quadro tão completo quanto possível da sociedade e economia paranaense, que possibilitasse traçar paralelos e contrastes com aqueles de outras regiões do Brasil..." 16
A via de acesso para tanto era, sem dúvida, a pesquisa e o estudo das estruturas demográficas paranaenses.
A revisão crítica da literatura existente desde logo propiciou evidências do maior interesse. Para, a título de exemplos, ficar apenas em dois ou três dos mais conhecidos autores, um referente à primeira metade do século XIX, o próprio Saint-Hilaire; outro, com importantes testemunhos da segunda metade do século, Thomas Big-Whiter; outro, finalmente, relativo à sociedade campeira do Paraná tradicional, as recordações familiares de Moysés Marcondes que esta revisão trouxe à luz, com depoimentos que poderiam exemplarmente figurar na própria obra de Gilberto Freyre.
Observe-se a descrição do complexo arquitetônico das fazendas dos Campos Gerais, feita por Saint-Hilaire:
"A casa do proprietário (da fazenda de Caxambu) ficava separada da casa dos negros e de outras construções, mas todas haviam sido construídas no mesmo alinhamento e estavam bem conservadas; eram cobertas de telhas e davam para um jardim murado, de mais ou menos 350 passos de comprimento... Um renque de roseiras próximas uma das outras, muito altas, sempre cobertas de flores - fora plantado defronte da casa-grande e das construções vizinhas... Junto da casa havia ainda, convenientemente cercada, uma horta; ali só vi couves, aliás em grande quantidade". 17
Seguindo viagem, a duas léguas adiante da fazenda de Caxambu, o viajante chegava à fazenda do Tenente Fugaça e descreve: "O proprietário achava-se ausente quando ali cheguei, mas fui muito bem recebido pelos seus negros. A maneira polida e as suas fisionomias alegres, fizeram-me supor, a princípio, que fossem homens livres, e, no entanto, eram escravos..." 18
Contudo, nem sempre a situação era de alegria na relação senhor-escravo. Pouco depois chegava Saint-Hilaire à fazenda Fortaleza do tenente-coronel da milícia José Félix da Silva, homem poderoso, senhor de muitos escravos e, como este "tratasse os escravos com igual dureza (dureza com que tratava a mulher e a filha), estes também o detestavam e em diversas ocasiões, tentaram matá-lo". 19
Lá estava, na fazenda Fortaleza, ainda presente o complexo da casa-grande e senzala na segunda metade do século XIX, conforme encontrado por Bigg-Whiter, em 1875, que descreve a sede da fazenda:
"Enquanto os escravos punham na espaçosa varanda a comida na mesa, de sólida estrutura e que, pelo seu aspecto, podia ter sido uma relíquia dos antigos tempos baroniais da Inglaterra... devo descrever sucintamente a fazenda Fortaleza como era então... Víamos um terreno quadrado grande, confinado dos dois lados em parte por casas baixas caiadas de branco - os alojamentos dos escravos, e, noutra parte, por muros sólidos, cobertos de telhas e caiados. O terceiro lado, em toda a sua extensão de umas 80 ou 90 jardas, era ocupada por um muro de taipa, de uma altura mais ou menos de 8 pés. Do lado oposto das casas baixas, havia uma série de postes, com as arestas redondas e devastadas. Eram os troncos de açoitamento, que nos antigos tempos haviam testemunhado cenas de gelar o sangue ... A casa era um edifício grande e maciço, de madeira e taipa, e coberto de enorme telhado de empena, de pequena altura e com a habitual e pesada telha de beiral, comum a todo Brasil". 20
Por toda parte, nas suas memórias de viagem à Comarca de Paranaguá e Curitiba, Saint-Hilaire está referindo-se aos escravos negros, ocupados em todos os ofícios; ora é o capataz da fazenda de Caxambu, que a administrava na ausência do proprietário, ou o negro domador da fazenda Jaguariaiva, com a sua perícia impávida, ou os negros da fazenda Fortaleza, trabalhadores nas plantações, carregando consigo armas de fogo para se oporem aos ataques dos índios, refere-se também aos negros domésticos da fazenda Carambei, ou, ainda, aos portugueses vindos de Portugal, e que, paulatinamente, saindo da indigência, compravam escravos e estabeleciam suas fazendas e gados e plantações de milho, feijão, arroz, fumo, trigo...
Recordando, aliás, as origens do Barão do Tibagi, Moysés Marcondes dizia que, por volta de 1820, o primitivo casinhoto de beiral baixo, "se foi convertendo na vasta casa, tipo português e solarengo, à qual nem faltaram leões de louça sobre as colunas do portão de entrada". 21
Com relação à vida familiar, Saint-Hilaire testemunha desde a extrema severidade do proprietário da Fazenda Fortaleza para com a mulher, a filha, os escravos; à sua admiração pelo fato de ser hospedado nas fazendas, embora os proprietários ausentes, e mesmo, o ser recebido pela proprietária da fazenda Carambei, na ausência do marido. Admirado porque "desde que saíra do Rio de Janeiro, eu vira apenas prostitutas e negras e, por isso, foi para mim deliciosa novidade passar o serão com duas mulheres honestas e amáveis". 22
Estas reiteradas observações acerca da ausência dos proprietários eram sem dúvida, devidas aos negócios do tropeirismo. Aliás, Moysés Marcondes com precisão, descreve a vida familiar nos Campos Gerais.
"Marido ausente no Rio Grande ou em Sorocaba, passando em casa dois ou três meses por ano, e ela tendo filhos de dois em dois anos; só, naquele sítio, trabalhando com algumas escravas, finando e tecendo a lã de suas ovelhas; cosendo para si e seus filhos; fazendo em casa o queijo, o sabão, as velas, o azeite e as torcidas para o grande candieiro de metal amarelo que iluminava a varanda, e o da cozinha; fazendo a roupa e o poncho dos escravos, a farinha, o polvilho, etc. As filhas logo que o puderam, faziam as rendas para os seus vestidos". 23
Este papel e estas funções de chefe de família, as mulheres dos Campos Gerais as desempenhavam, como de resto já observou Gilberto Freyre em outras regiões do Brasil, não como titulares de um matriarcado social, mas como representantes do patriarca ausente e tão somente em seu nome.
Era a mãe de família, a mantenedora do culto doméstico:
"Todas as noites, filhos e crioulos repetiam em torno dela, as orações que lhes ensinava. Aos sábados, abria-se o grande oratório e rezava-se o terço. Aos domingos, toda a família ia à Missa, seguindo do sítio, ela, os filhos, e uma escrava, a cavalo; as outras a pé, carregando crianças ou balaios, onde ia o jantar que se fazia na freguesia". 24
Aliás, Saint-Hilaire já observara que Curitiba não era menos deserta, durante a semana, que outras cidades do interior do Brasil, pois "quase todos os habitantes. . . são lavradores, que ocupam suas casas somente aos domingos e dias de festa, atraídos pela obrigação de assistirem ao ofício divino". 25
Salvador José Correia Coelho, em 1844, ainda notava com respeito a Castro que "os cidadãos moram pelas estâncias de criar, pelo que suas casas da cidade só se abrem aos domingos, dias santos ou de festa, em que concorrem e fazem-na regorgitar". 26
Nos sítios e fazendas, passavam a vida na criação ou invernagem de gados no plantio e colheita de roças, por algum tempo na lavoura do trigo, na fabricação de laticínios, com os escravos. As escravas, na sede, fiavam e teciam panos rústicos, fabricavam baixeiros, coxinilhos, rendas de bilros e até charutos. 27
O pão de trigo, no final do século XVIII e início do século XIX, era alimento até de escravos. Assim também a manteiga. Foram provados por Saint-Hilaire que disse: "os lacticinios são muito bons e constituem o principal alimento dos pobres e dos escravos". 28
É tempo, contudo, de referir, com a Professora Altiva Pilatti Balhana, diretora do projeto de pesquisa Histórica Demográfica do Paraná, desenvolvido a nível de pós-graduação na Universidade Federal do Paraná, que:
"Uma análise mais completa da população paranaense, no período colonial, quanto ao seu número, distribuição e composição, pode ser efetivada por meio de algumas fontes primárias pouco utilizadas até o presente, constituídas sobretudo pelos registros paroquiais e pelos recenseamentos coloniais, realizados com maior regularidade e precisão nas últimas décadas do século XVIII, e primeira metade do século XIX". 29
COMPOSIÇÃO DA POPULAÇÃO DA 5ª COMARCA DA CAPITANIA DE SÃO PAULO.
| ANOS |
1800 |
1822 |
1836 |
| VILAS |
Bran. |
Mulat. |
Pret. |
Bran. |
Mulat. |
Pret. |
Bran. |
Mulat. |
Pret. |
| Antonina |
1.607 | 695 | 864 | 1.484 | 2.193 | 795 | 3.140 | 1.719 | 965 |
| Castro | 2.447 | 721 | 791 | 3.250 | 1.342 | 1.256 | 2.478 | 1.303 | 1.327 |
| Curitiba | 4.931 | 1.285 | 2.754 | 6.484 | 3.998 | 1.385 | 9.806 | 4.823 | 1.026 |
| Guaratuba | 102 | 33 | 264 | 237 | 601 | 160 | 520 | 402 | 140 |
| Paranaguá | 3.673 | 732 | 914 | 1.175 | 846 | 4.898 | 4.898 | 2.667 | 1.326 |
| Príncipe | - | - | - | 1.907 | 617 | 380 | 2.053 | 1.304 | 1.309 |
| TOTAL | 12.760 | 3.466 | 7.587 | 17.618 | 9.926 | 4.821 | 33.395 | 12.218 | 6.093 |
Fonte: Mapa de Habitantes da Capitania de São Paulo, A.N.
Mapa de Habitantes da Província de São Paulo, A.N.
Ensaio de um Quadro Estatístico da Província de São Paulo, de Daniel Pedro Muller.
Resultados preliminares desses estudos já permitem dizer que à época do primeiro censo completo da série relativa à Capitania de São Paulo, a população escrava da Comarca de Paranaguá representava 28,8% do total dos habitantes, sendo que na vila de Paranaguá, os escravos alcançavam proporções mais elevadas, ou seja, de 44,2%. 30
O censo de 1772 não registra, porém, a composição da população da Capitania, segundo o quesito da cor, nem tampouco se refere aos administrados que, certamente, os havia.
Examinando, de dentro, a composição da população da 5ª Comarca, na primeira metade do século XIX, contudo, é possível classificar tal composição quanto a cor, bem como verificar a entrada de escravos nas fazendas paranaenses.
Em 1800, os pretos constituiam 31,86% da população da 5ª Comarca, e os mulatos 14,55% totalizando 46,41% a presença de africanos e seus descendentes no Paraná.
Tal proporção se mantém, em 1822, com 45,56%. Observe-se porém que se invertem as posições dos pretos e mulatos, respectivamente com 14,90% e 30,66%, o que denota, além da miscigenação, a menor entrada de escravos novos. Estava organizada a empresa fazendeira, sobretudo agora nos Campos Gerais, com base nas atividades de invernagem, não requerendo, pois, a introdução de alto número de escravos novos.
A estabilização da empresa, bem como as proibições do tráfico, conduzem ao decréscimo das proporções da presença de pretos e mulatos. Assim, em 1836, Daniel Pedro Muller 31 encontra apenas 11,78% de pretos e 23,63% de mulatos, totalizando 35,41%.
O Mapa Estatístico da População da recém-criada Província do Paraná, apresentado pelo Presidente Zacarias de Goes e Vasconcellos, em 1854, consigna a presença de 16,36% de escravos na Província, sobre o total da sua população. Contudo, a proporção de mulatos era de 24,80% e aquela de pretos subira a 17,82%, totalizando a presença de 42,62% de africanos e seus descendentes, na composição da população paranaense.
Aliás, nessa conjuntura, deve ser assinalada a movimentação do tráfico ilícito que objetivava a introdução de escravos novos no litoral paranaense.32 Basta lembrar apenas o célebre incidente do Cormorant, na baía de Paranaguá, em 1850.
Por esse tempo já estava regularmente estabelecido o fluxo das exportações da erva-mate para o Rio da Prata e o Chile, e os escravos também incorporados às atividades da economia ervateira: na coleta e preparo das folhas, nos trabalhos dos engenhos de soque, nos transportes, e nos carregamentos do porto.
Kidder, em suas reminiscências da viagem ao Brasil, relata: "Quando estive em Paranaguá observei muitas peles de couro cru, que os pretos estavam descarregando das mulas ou transportando para os navios ancorados...". 33 Por sua vez, em suas memórias de infância sobre a erva-mate e os seus engenhos de beneficiamento, João de Mio relata: "... os operários, semi-nus, cobertos de pó verde, sendo eles, na maioria, gente de cor, pareciam demônios movimentando-se naquele turbilhão de pó e barulho ensurdecedor de pilões e do rodar das peneiras." 34
Os grandes comerciantes exportadores de erva-mate eram também senhores de mais de 50 escravos e já os proprietários dos sobrados das cidades, haja vista em Paranaguá o exemplo do Barão, depois Visconde de Nacar.
O cronista Antônio Vieira dos Santos observa o progresso das construções, referindo que, em Paranaguá, em 1810, existiam apenas doze casas de sobrado, ao passo que, em 1850, já contavam 48 sobrados.35 Com os seus gradis de ferro, eram mobiliados como os da Corte.
As notícias, os anúncios, os a pedido dos jornais paranaenses, estão repletos do cotidiano da escravidão na Província e Gilberto Freyre foi justamente o primeiro, entre, nós, a apontar a riqueza destas fontes e a metodologia para a sua exploração.
Márcia Elisa de Campos Graf, da Universidade Federal do Paraná, em tese de doutorado apresentada à Universidade de São Paulo, teve oportunidade também de verificar pela análise da imprensa periódica, a presença da escravidão no Paraná. 36
Tudo isto, afinal, evidencia que a sociedade paranaense:
"... foi uma sociedade heterogênea, composta por índios e africanos, e marcada também pela escravidão. A participação econômica e social de escravos na formação do efetivo populacional paranaense foi bastante significativa e persistiu durante um largo período, imprimindo-lhe características que o identificaram com aquelas do modelo clássico da população brasileira. Entretanto, estas características de identidade e aproximação tornaram-se menos visíveis à observação qualitativa, porque o quadro demográfico do Paraná foi substancialmente alterado, durante a segunda metade do século XIX. Pelas transformações econômicas da sociedade tradicional paranaense. A desagregação da sociedade campeira ocasionou, de um lado, a evasão da força-de-trabalho, representada pelos escravos, vendidos em grande parte no mercado interno e, de outro lado, a entrada de novos contingentes populacionais, representados pelos imigrantes. Estes indicadores, aliados a outras ocorrências havidas na sociedade global brasileira, contribuiam de modo ponderável para transformar a estrutura demográfica dominante no Paraná..."
E conclui Altiva Pilatti Balhana: "Assim à tríade étnica fundamental, índio, português e negro, vieram somar-se novos elementos, principalmente europeus, modificando a composição do quadro demográfico paranaense". 37
Foi essa modificação que transparece nos cabelos que se tornam louros, nos olhos que se tornam azuis, nos nomes de família que trazem mais consoantes do que vogais, na mesa que serve polenta ou repolho azedo, que faz parecer a muitos que, nas fazendas do Paraná, não houve casa-grande e senzala, e que nas suas cidades imperiais, ainda que modestas, não houve sobrados e mocambos, que não houve troncos de açoitamento, que o paranaense não plantou e não comeu couve, nem saboreou baba-de-moça e arroz doce, nem houve carapinha de negro e gingar de mulata... Não compreenderam que a Maria Polaca apenas substituiu a Mãe-Preta, e sairam por aí dizendo que no Paraná não houve português e nem escravo.
Hoje que se fala tanto em modelos, sobretudo modelos econômicos distanciados das realidades históricas que foram ou que são, é preciso ressaltar que Gilberto Freyre foi, sem dúvida, o construtor do primeiro modelo teórico de interpretação da sociedade brasileira, portanto, de um modelo social que faz do seu autor um dos primeiros nomes da História Social do Brasil.
Os estudos de demografia histórica que têm sido realizados na Universidade Federal do Paraná, até aqui, todos eles têm confirmado o modelo de Gilberto Freyre.
A sociedade do Paraná tradicional, nas suas estruturas sociais e econômicas, em nada difere das grandes linhas da sociedade tradicional brasileira. Foi patriarcal, latifundiária, monocultora, escravocrata.
O homem paranaense é o mesmo homem brasileiro de Gilberto Freyre.
As estruturas demográficas mudam, mas bem mais tarde, sobretudo quando proibido o tráfico, a escravaria do Paraná foi transferida para a lavoura de café e que a crise de braços para a lavoura de subsistência determinou a importância de colonos "laboriosos e morigerados". 38
Aí sim, começamos a ter cabelos louros, olhos azuis e consoantes em demasia.
Hoje, não creio que haja brasileiros que mais sintam, na obra de Gilberto Freyre, o reencontro com as raízes luso-brasileiras, do que nós do Sul. Nós temos desse passado uma saudade - como já afirmei em certa ocasião - que é mais sentida quando desfolhamos Casa-Grande & Senzala, Sobrados e Mucambos, porque atrás de nossas consoantes estão os mesmos brancos e pretos, as mesmas instituições, as mesmas fraquezas, os mesmos triunfos, as mesmas esperanças.
Para nós, do Sul, é esta a importância, é esta a significação da obra de Gilberto Freyre: é estarmos também identificados pela mesma herança cultural luso-brasileira.
REFERÊNCIAS.
1. FREYRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala. 6ª edição Rio de Janeiro, José Olympio, 1950. v. 1 p. 61.
2. SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem à Comarca de Curitiba. São Paulo, Ed. Nacional, 1964.
3. SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem à Comarca de Curitiba. São Paulo, Ed. Nacional, 1964.
4. Ibidem p. 119
5. MARTINS, Wilson. Um Brasil diferente. São Paulo, Editora Anhembi Ltda. 1955. p. 6
6. BRAUDEL, Fernand. Écrits sur l´Histoire. Paris, Flammarion, 1969, p. 64
7. Ibidem, p. 71-72.
8. Ibidem, p. 50
9. Carta ao Conde de Atouguia. Ms. do Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa. Cópia Fotostática do I. H. G. E. P. - Doc, nº 200
10. Carta de Bartolomeu Lopes de Carvalho. Ms. do Arquivo Histórico Ultramarino. Lisboa. Cópia fotostática do I. H. G. E. P. Doc, nº 201.
11. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, Vol. 20. p. 715.
12. VIEIRA DOS SANTOS, Antonio. Memória Histórica da Cidade de Paranaguá e seu Município. Curitiba, Ed. do Museu Paranaense, 1951. v. 1 . p. 46.
13. Cit. por Júlio Moreira. História da Medicina no Paraná. Curitiba, Ed. da Associação Médica do Paraná, 1953. p. 60.
14. Relação das Fazendas, de Affonso Botelho. Ms. Arquivo Histórico Ultramarino. Lisboa. Cópia Fotostática do I. H. G. E. P. - Doc. Nº 251.
15. PINHEIRO MACHADO, Brasil, & BALHANA, Altiva Pilatti. Campos Gerais - Estruturas Agrárias. Curitiba, Univ. Fed. do Paraná, 1968. p. 39.
16. BALHANA, Altiva Pilatti. História Demográfica do Paraná. Boletim do Departamento de História da Universidade Federal do Paraná," nº 10. Curitiba, 1970. p. 27.
17. SAINT-HILAIRE, Auguste. Viagem à Comarca de Curitiba. São Paulo, Ed. Nacional, 1964, p. 51-53
18. Idem, p. 56
19. SAINT-HILAIRE, Auguste, Viagem à Comarca de Curitiba. São Paulo, Ed. Nacional, 1964, p. 59
20. BIGG-WHITER, Thomas, P. Novo caminho no Brasil Meridional: a Província do Paraná. Rio de Janeiro, José Olympio, UFPr, 1974, p. 367-368.
21. MARCONDES, Moysés. Pae e Patrono-Jesuino Marcondes de Oliveira e Sá. Rio de Janeiro, Typ. Anuário do Brasil, 1926, p. 21
22. SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem à Comarca de Curitiba. São Paulo, Ed. Nacional, 1964, p. 85.
23. MARCONDES, Moysés. Pae e Patrono - Jesuino Marcondes de Oliveira e Sá. Rio de Janeiro, Typ. Annuario do Brasil, 1926, p. 232.
24. MARCONDES, Moysés. Pae e Patrono - Jesuino Marcondes de Oliveira e Sá. Rio de Janeiro, Typ. Annuario do Brasil, 1926, p. 233.
25. SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem à Comarca de Curitiba. São Paulo, Ed. Nacional, 1964, p. 108.
26. CORREIA COELHO, Salvador José. Passeio à minha terra. São Paulo, Typ. da Lei, 1860, p.75.
27. MARCONDES, Moysés. Pae e Patrono - Jesuino Marcondes de Oliveira e Sá, p. 19.
28. SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem à Comarca de Curitiba, p. 18.
29. BALHANA, Altiva Pilatti. Formação da População Paranaense. Boletim, do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico Paranaense, Vol. VIII, nº 10, Curitiba, 1969, p. 41.
30. BALHANA, Altiva Pilatti. Formação da População Paranaense. Boletim, do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico Paranaense, Vol. VIII, nº 10, Curitiba, p. 42.
31. MULLER, Daniel Pedro. Ensaio de um Quadro Estatístico da Província de São Paulo. 2ª edição, São Paulo, 1923.
32. WESTPHALEN, Cecília Maria. Introdução de Escravos Novos no Litoral Paranaense. Revista de História, nº 89, São Paulo, p. 139-154.
33. KIDDER, D. P. e FLETCHER, J. C. O Brasil e os brasileiros. São Paulo, Ed. Nacional, 1941. v. 2 p. 22.
34. MIO, João de. Notícias históricas sobre a erva-mate e os seus engenhos de beneficiamento. Boletim do Inst. Hist. Geog. e Etnol. Paranaense. Vol. 5, fasc. 3/4, Curitiba, 1951, p. 57.
35. VIEIRA DOS SANTOS, Antônio. Memória Histórica da Cidade de Paranaguá e seu Município. 1850. Curitiba, Ed. Museu Paranaense, 1952, p. 13
36. GRAF, Márcia Elisa de Campos. Imprensa Periódica e Escravidão no Paraná. Tese de doutoramento (mimeo), São Paulo, 1979. 412 p.
37. BALHANA, Altiva Pilatti, História Demográfica do Paraná. Boletim do Dep. de Hist. da Univ. Fed. do Paraná. Nº 10, Curitiba, 1970, p.28-29.
38. BALHANA, Altiva Pilatti. História Demográfica do Paraná. Boletim do Departamento de História da Universidade Federal do Paraná, nº 10. Curitiba, 1970. p. 29.
Fonte: WESTPHALEN, Cecília Maria. Um modelo de história social: o de Gilberto Freyre. In: Seminário de Tropicologia: Trópico & Gilberto Freyre, antecipador, antropólogo, escritor literário, historiador social, pensador, político, tropicológico, 1980, Recife. Anais... Recife: Fundaj, Massangana, 1983. p. 233-251.
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