ASSOMBRAÇÕES DO RECIFE VELHO 2
Sylvia Couceiro Pesquisadora da Fundaj
"A casa da esquina do beco do Marisco"
Recife, início do século XX. Belarmino, comerciante português, caminha pelas calçadas do bairro de São José a procura de uma casa para alugar. De repente Belarmino "Mouco", como era conhecido em função da surdez que apresentava, pára numa esquina, diante de um belo sobrado. Tinha três andares, a construção era sólida e bem espaçosa. É verdade que estava um pouco abandonado: pintura escurecida e descascada, vidraças sujas, o papel de aluga-se já bem amarelado pelo tempo. Mas nada que uma boa limpeza e alguns reparos não resolvessem. Belarmino pensou: por que tal casarão estaria abandonado a tanto tempo?
A fama de mal assombrado explicou tudo. O povo dizia que por ali vagavam espíritos, almas do outro mundo que assombravam as pessoas fazendo estranhos e incríveis barulhos à noite. Belarmino, não se importou com as histórias, afinal, barulho de alma penada não incomodaria um surdo. Mas, não tardou para coisas estranhas começarem a acontecer. Na mesma noite da mudança, o sobrado fez jus a sua fama: A família passou a ver vultos, ouvir quedas de móveis, portas batendo, correntes arrastando pelo chão. Nem Belarmino "Mouco" conseguia dormir em paz. Acordava várias vezes assustado com os estrondos; corria para verificar o que havia quebrado ou caído, mas encontrava tudo na mais perfeita ordem; tudo nos devidos lugares. A família estava apavorada.
Um dia, apareceu no sobrado um empregado de Belarmino morto - enforcado - uma morte misteriosa, sem explicação; segundo a polícia teria sido suicídio. O caso ganhou fama na cidade; o povo comentava que o rapaz teria morrido vítima dos espíritos; morrera de pavor, assombrado pelas almas penadas que aterrorizavam o sobrado da "Estrela". Belarmino desiste e resolve se mudar.
Novamente abandonado, depois de muitos anos o prédio foi vendido. Reformado e reconstruído, foi transformado em cinema. Segundo Gilberto Freyre, "Como cinema desencantou-se", as almas desapareceram, os barulhos cessaram, a magia acabou. (Adaptação da história "A casa da esquina do beco do Marisco" do livro Assombrações do Recife Velho de Gilberto Freyre).
Diante do livro Assombrações do Recife Velho me peguei fazendo as seguintes indagações: Como será que Gilberto Freyre, ainda em fins da década de 1920, quando as ciências sociais eram marcadas por rígidos parâmetros positivistas, resolveu investigar e coletar tais casos?
Em uma das suas antecipações, Gilberto Freyre percebeu que a história, longe de se constituir em um saber que tem como responsabilidade única a narrativa e análise de fatos concretos, poderia caminhar no sentido de entender melhor as trajetórias da fantasia, do psíquico, do imaginário, buscando desvendar segredos do passado não revelados, significados não explícitos.
Caberia então ao historiador, o papel de tentar romper os mistérios e encantos em que se encerra o passado. Decifrar idéias, sentimentos, enfim, sintonizar épocas, tal qual sintonizamos a estação de uma rádio ou um canal de TV. Nesse esforço, o historiador procuraria conectar o presente com o passado, articularia vivências, restabeleceria os fios de identidades perdidas, permitindo que possamos, como em um espelho, ver a nossa época, o nosso tempo, refletido no passado. As semelhanças e diferenças se interpenetrariam, nos possibilitando uma intimidade sem precedentes com as experiências vividas pelas pessoas em outras épocas. Para que isso seja possível, é fundamental que o historiador enverede por caminhos do imaginário, da subjetividade.
Segundo o historiador Robert Darnton, só "Fazendo perguntas aos documentos e prestando atenção às respostas, pode-se ter o privilégio de auscultar almas mortas e avaliar as sociedades por elas habitadas. Se rompermos todo o contato com mundos perdidos, estaremos condenados a um presente bidimensional e limitado... achataremos {assim} nosso próprio mundo".
Tomando por base a citação de Darnton, podemos fazer um exercício rápido de reflexão tentando penetrar no "espírito" do Recife no início do século XX, através da história macabra de Belarmino e sua família, pois como disse Roger Chartier, "A elaboração de idéias-imagens de representação coletiva se constrói a partir de uma vivência ao mesmo tempo social e cultural".
Para começar podemos nos perguntar: o que estava ocorrendo na cidade na época? Afora os fantasmas dos velhos sobrados, quais os medos cotidianos que assombravam Belarmino e os habitantes do Recife neste período?
O Recife na virada do século XX
O Recife do início do século sofria uma série de transformações: dos cerca de 25.000 habitantes das primeiras décadas do século XIX, a cidade passa a concentrar mais ou menos 200.000 em 1910. Aos olhos dos seus habitantes e visitantes, começou a se construir, nesse período, uma imagem que vinculava a cidade à idéia de atraso, falta de civilidade e desordem. Suas ruelas e becos estreitos, sobrados antigos, as epidemias e doenças constantes, áreas alagadas, mocambos, e os hábitos da população começaram a aparecer como uma incômoda herança do passado colonial que se desejava a todo custo apagar.
Civilização, progresso, e sobretudo modernização passam a ser as palavras de ordem. Calcada nas reformas urbanas que ocorriam na Europa, sobretudo em Paris, as elites locais, aliadas aos investidores estrangeiros, partem numa cruzada no sentido de dotar a cidade de uma série de melhoramentos urbanos e equipamentos modernos nas duas primeiras décadas do século XX. A iluminação elétrica foi implantada (1905); cinemas inaugurados (1909); os automóveis (1903) e bondes elétricos (1914) circulavam pelas ruas; melhorias nos serviços de abastecimento d'água e o Plano de Esgotamento Sanitário foram implementados (1910); a reforma do Porto teve início (1909); e finalmente a grande reforma no Bairro do Recife começa a transformar a cara do bairro portuário.
A reforma do Bairro do Recife fora iniciada em 1909, com as primeiras desapropriações, e viria a mudar radicalmente a fisionomia do bairro. Demolições de residências, de estabelecimentos comerciais, igrejas e monumentos (como a Igreja do Corpo Santo (1913) e os Arcos da Conceição e de Santo Antônio1917), a abertura e alargamento de ruas foram realizados, tudo em nome de uma moderna urbanidade.
O Recife de outros tempos desaparecia aos olhos dos seus habitantes. Onde estaria aquela velha e conhecida rua? E o botequim que se costumava freqüentar? Para onde iriam agora as festas religiosas dos Arcos, ou as celebrações das missas da igreja do Corpo Santo? Apesar da sedução e do encanto que as transformações inspiravam em parte dos habitantes, a insegurança, o medo e a incerteza do que viria no futuro eram também idéias que povoavam a cabeça de muita gente. Além das transformações na paisagem da cidade, as pessoas também experimentavam, neste período, sentimentos mistos com relação às novas tecnologias que se incorporavam ao seu cotidiano: luz elétrica, bondes e automóveis, o cinema, o telefone, aviões, eram coisas inexplicáveis, misteriosas, difíceis de entender. Como funcionavam essas novas máquinas? "Invenções do demônio" para alguns, maravilhas da modernidade para outros, as novidades eram vistas com certa desconfiança pelos habitantes da cidade.
Assim como as almas penadas, zumbis, papa-figos, mulas-sem-cabeça, as transformações trazidas pela modernidade também geravam ao mesmo tempo fascínio e temor, também excitavam e apavoravam as pessoas da época. Como numa história de mistério e assombração, parecia que tudo agora era possível acontecer na cidade... Mudavam hábitos antigos e arraigados, lugares conhecidos desapareciam, novas ruas surgiam como por encanto, invenções e máquinas estranhas transformavam o dia a dia.
Essas eram as assombrações que apareciam no cotidiano da cidade. Palpáveis, concretas, bem visíveis, podiam até ser tocadas. Assustavam tanto quanto os fantasmas da casa de Belarmino.
Assombrações antigas X assombrações modernas
E por falar em Belarmino, que tal fazermos agora um exercício instigante, e tentar refletir sobre alguns detalhes da sua arrepiante história?
1. O que poderia significar o estranho fato da família ouvir ruídos e estrondos, que indicavam que tudo estava sendo quebrado dentro de casa - móveis, louças -, e quando Belarmino ia verificar, tudo estava intacto, nada tinha sido quebrado, nada havia mudado de lugar?
Quebrar coisas, derrubar, mudar de lugar, abrir e fechar portas, tudo que os espíritos mal assombrados do sobrado da "Estrela" faziam, significavam atitudes de transformação, de mudança, de destruição. Mas, apesar do estardalhaço e barulheira provocados pelas almas, parecia que tudo não passava de simples brincadeira. No fim a casa permanecia na velha ordem: móveis e utensílios nos seus devidos lugares; tudo como antes. Parecia que, no fundo, o que as almas queriam era apenas dar um susto, apavorar um pouco os vivos.
Quem sabe Belarmino e parte dos habitantes do Recife não estivessem no íntimo desejando que, tal qual ocorria no casarão, todas aquelas mudanças que se passavam na cidade e nas suas vidas não fossem também como um caso de assombração? Poderiam estar torcendo para ao acordar constatar que tudo continuava como antes: casarões do largo do Corpo Santo nos seus devidos lugares, ruas do Bairro do Recife com seus vendedores ambulantes gritando conhecidos pregões, festas de Santo Antônio no Arco, enfim a vida no mesmo antigo e conhecido ritmo. Não haveria novas e desconhecidas avenidas, velhas igrejas sendo demolidos, máquinas perigosas e mortais como o automóvel circulando velozmente pelas ruas. Nada mudara, nada estaria quebrado, nada fora de lugar. Como numa história de mistério, tudo não passara de ilusão, uma visagem medonha e apavorante.
2. Por que será também, que quando o sobrado virou cinema desencantou, perdeu seu caráter sobrenatural?
Segundo Walter Benjamin, "o universo perceptivo do homem moderno parece ter perdido a sua capacidade de estabelecer mágicas". (In Walter Benjamin e o imaginário Social. Sandra Pesavento Rev. Cultura Vozes, 1995).
Seguindo o raciocínio de Benjamin, novos fantasmas teriam surgido, assumindo, assim, o lugar das antigas almas do outro mundo: a técnica, a máquina, a modernidade eram agora as assombrações que atemorizavam as pessoas.
Nos novos e modernos tempos, em uma sala escura, abafada, com um grande pano branco estendido, os fantasmas são projeções que saem de um mecanismo complicado que também amedronta e ao mesmo tempo encanta: o projetor de cinema. Charles Chaplin, Teda Bara, Mary Pickford, são as almas penadas dos novos tempos. Elas assombraram e quase conseguiram "matar" de medo os zumbis, lobisomens, mulas-sem-cabeça e papa-figos que povoavam o imaginário da cidade.
Eu digo quase, pois, há pouco tempo em conversa informal, duas amigas assustadas comentavam o enigmático caso de um apartamento em Casa Forte. Vidraças sujas, interior empoeirado e povoado por aranhas, uma placa amarelada de aluga-se na frente do prédio, sem candidatos a aluguel por vários anos. Lá, tal qual no sobrado da "Estrela", havia se suicidado uma pessoa de forma misteriosa. Fala-se que forças inexplicáveis e obscuras impedem que os inquilinos aluguem o imóvel. Esta conversa se passou em fevereiro de 2002, e uma das amigas era eu. Como enfatizou Gilberto Freyre, " O Recife(...) pelos seus mistérios, existe, subsiste, persiste(...) como uma cidade (...) onde o mundo não é só dos homens. Suas assombrações vêm sendo, mais que suas revoluções, parte do seu modo de ser cidade... (p.28). O Recife de hoje, donde a luz elétrica e o progresso mecânico não conseguiram expulsar de todo essas sombras e visagens, essas artes negras e essas bruxarias, ainda tem alguma coisa do [Recife] antigo. " (p.152).
Fonte: COUCEIRO, Sylvia. Assombrações do Recife velho. In: Semana Gilberto Freyre: Os vários Gilberto, 6, Recife, 2002.
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