ELOGIO DE GILBERTO FREYRE
Os homens não são feitos de uma só peça, como os anjos e os brutos - disse na Baía o nosso Padre Vieira para mostrar a escravos pretos de um engenho a liberdade do espírito.
Lembro estas palavras, velhas de três séculos, quando me inclino sobre a extensa obra de Gilberto Freyre, para entender a sua alma. Porque esse espírito vivificador de uma obra admirável, que paradoxalmente associa o rigor científico à leveza do ensaio, a graça e frescura do estilo à textura compacta do volumoso tratado, o impressionismo das sensações fortuitas à desenvolução lógica de uma idéia germinal, é verdadeiramente o espelho vivo de um universo transfinitamente variado e complexo, nas origens, nas formas, na teia das suas inextricáveis relações. Esse é o mundo dos horizontes que, através de uma vida existencialmente realizada, para além das ancestrais raízes biológicas e do ambiente onde se criou, lhe conformaram a personalidade, pelo ensino dos mestres, pelo estudo dos livros, pela observação atenta das coisas, pelo trato dos homens.
É certo que esses horizontes culturais só em parte nos explicam o homem e a obra, pois esta, nas suas antecipações ou intuições teúrgicas, aparece tocada de uma originalidade criadora que é Dom ingénito ou graça inexplicável. Porém, se não explicam totalmente, ajudam a compreender e amar essa obra, onde nem todos podem aceitar tudo, mostrando que é feitura de um autor em evolução e revisão constante: imagem de uma personalidade que não é feita de uma só peça, como o anjo, embora através dessa criação continuada se descubra sempre a unidade do espírito e o percurso da ideia geratriz.
Senhores. Não vou esmiuçar aqui uma carreira científica conhecida e julgada nas mais célebres Universidades do mundo, em muitas das quais Gilberto Freyre a professou, apresentando a estranhos as raízes e os frutos da nossa própria cultura. Nem seria possível, pois sobre o sociólogo, o historiador, o escritor, o artista, já se imprimiram em muitas línguas milhares de paginas. Para entender a vastidão do tema, bastaria considerar o grosso volume agora publicado, a comemorar o quarto de século da sua primeira obra de renome trans-naional - Casa-Grande & Senzala - onde mais de sessenta intelectuais brasileiros dissertaram sobre Gilberto Freyre: sua Ciência, sua Filosofia, sua Arte, analisando o seu estilo: investigando os métodos ,as fontes da obra, os fundamentos filosóficos da doutrina; discutindo no autor o seu tradicionalismo, os eu regionalismo, as suas posições superadoras em face do movimento modernista esclarecendo aspectos do seu contributo para a criação de um novo domínio científico - a Luso-Tropicologia - e para a integração das sociologias regionais na Sociologia Geral, de unificação progressiva e lenta; lembrando o que lhe devem os estudos de Antropologia e Geografia Humana, a estimação dos elementos integrantes da sociedade brasileira e dos valores rurais; indicando as suas influências na Literatura e na Arte, na formação sociológica dos médicos e dos juristas brasileiros, nas novas gerações e até na vida do povo e nos destinos do Brasil.
Nem tão-pouco vou desfibrar miùdamente uma vasta obra que ultrapassa meio cento de livros e opúsculos de tomo, fora os escritos dispersos e os artigo sem revistas e jornais. Analisá-la toda seria impossível, mesmo integrados nesse alongado, vagaroso tempo, revelado por Gilberto Freyre como elemento importante na formação das sociedades íbero-tropicais - tempo para o qual nunca há pressa de acabar. E, se não foi ainda realizado o estudo objectivo e construtivo da crítica portuguesa que esta obra reclama, apreciando alguns juízos ou pontos de vista muito discutíveis, sobretudo derivados de fontes historiográficas portuguesas que de preferência utilizou, não é, por certo, este o momento e o lugar de o fazer.
Vou, portanto, deter-me em alguns aspectos relevante que nos permitam reflectir sobre o sentido geral e o alcance da obra, de modo a compreendermos a razão profunda de havermos sido convocados a claustro nesta sala venerável para abraçar Gilberto de Mello Freyre como doutor da Universidade que foi madre e mestra da cultura luso-tropical.
Para quem conheça a vida e, atento, leia a obra de Gilberto Freyre, as primeiras impressões são dominadas por um mistro de sedução e de estranheza.
Sedução pelo encanto do prosador, cujo estilo desafectado é também, como certos mares dos trópicos que parecem coalhados de flores, um rio fluente, não de imagens literárias, no sentido retórico da expressão, mas de evocações do real concreto das quais se desprende para os sentidos e para o entendimento o clima recriador de situações vividas e tipos sociológicos. A originalidade do processo literário no domínio científico esta sobretudo em evitar a exposição teórica ou abstracta, em partir da figuração quase pictural dos quadros sociais para daí chegar à compreensão geral dos princípios e das leis. Por isso é que neste método empírico, servido pela arte de um vigoroso prosador, tem grande importância utilização de símbolos, quase sempre contrários mas complementares, alguns dos quais como que resumem os elementos genesiacos da sociedade brasileira. Com os sentidos sempre despertos para observar o que o rodeia, apreciador dos bons quitutes como o nosso Poeta de Oaristos, ao exprimir-se nessa prosa quase falada temos a sensação de que o escritor como que saboreia os temas que descreve. Foi essa arte de apreender saboreando, de descrever pintando, de construir sugerindo ,que tem levado a afirmar ser a obra de Gilberto Freyre, mais do que extracto científico, um novo e fecundo método, servidor por um original estilo de pensar e de expressar o pensamento.
Sedução ainda, provocada por antecipações daquilo que, depois de revelado, a todos parece simples; por valorizações, já vitoriosas, de elementos esquecidos ou sub-estimados; por intuições que iluminaram a compreensão histórica e sociológica do mundo que o Português criou.
Mas, além de sedução, estranheza. Estranheza pelos contrastes ente momentos de uma evolução espiritual longamente arrastada por via sinuosa. Estranheza ainda, p0or não estar a obra isenta de preconceitos. De sectarismo, sim. As de preconceitos, o próprio autor afirma, na Introdução ao 1.º volume da Sociologia, que as suas páginas não estão livres deles, nem de sentimentos e personalismos. Daí, alguns contrastes e até aparentes contradições. E como poderia deixar de apresentar contrastes uma obra em que os mesmos temas se repetem sob diversos ângulos de visão e cujo objecto por excelência - a sociedade brasileira e, por extensão, as sociedades luso-tropicais - é um objecto em si mesmo complexo, uma fusão de contrastes, uma coincidência de oposições?
Precisamente a nota dominante do espírito de Gilberto Freyre é o poder de associar, de fundir, de integrar, superando. Há espíritos geométricos para os quais as ideias se encadeiam em sistemas rígidos e fechados. Outros, porém, sem quebra de coerência e de originalidade criadora, recolhem e congraçam oposições. São estes, por certo, os mais fecundos, porque o progresso do saber vai-se gerando quase sempre po integrações superadoras. Gilberto Freyre é da linhagem destes espíritos: ninguém, como ele, soube entender tão justa e equilibradamente a sociedade brasileira como síntese superadora de elementos contrastantes - regiões diferentes, raças e línguas diversas, culturas distintas, tudo caldeado numa promissora civilização.
Caminheiro insaciável das grandes rotas do mundo, a casa onde descança e trabalha, a sua velha casa de Santo António de Apipucos é , ela mesma um símbolo desse espírito. Casa-grande de engenho, o nome evoca o mais universal dos portugueses, e fica situada no Recife, em Apipucos, topónimo que na origem ameríndia quer dizer: onde os caminhos se encontram. Pois a sua obra é precisamente e encruzilhada onde se encontram os caminhos culturais que Gilberto Freyre percorreu.
Descendente de antigas famílias de senhores de engenho, de origem portugueses, com uma avó de ascendência britânica, neste brasileiro nordestino, pernambucano do Recife, pode descobrir-se remoto toque de sangue ameríndio, mas não de sangue negro. Assim, no paladino da democracia étnica e da miscigenação, a valorização do negro e do mestiço tropical no pode atribuir-se a um apelo do sangue: é resultado de uma formação cultural voltada com realismo para a tradição da sociedade brasileira. Pois já no século XVII o Padre António Vieira - esse, sim, neto de preta - não dissera ao ver o Brasil invadido pelos holandeses, povo mais branco e loiro do que o nosso - não seremos tão pretos a respeito deles como os índios em respeito de nós? E não acrescentara: -- haverá maior inconsideração do entendimento nem maior erro do juízo entre os homens, que cuidar eu que hei-de ser vosso senhor porque nasci mais longe do sol, e que vós haveis de ser meu escravo, porque nascestes mais peto?.
Filho de um humanista, magistrado e catedrático da Faculdade de Direito do Recife, Gilberto Freyre fez os estudos secundários num colégio americano da cidade natal. Aí, na adolescência, travou os primeiros contactos com a cultura anglo-saxónica e, através dela com a mística de pureza da raça, de superioridade do nórdico sobre os demais povos, e o desdém pelas terras quentes e gentes mestiças. Foi, então, para uma Universidade norte-americana, situada num dos centros mais vivos da mística etnocêntrica anglo-saxónica, aí permaneceu dois anos, em abiente cordial, onde se desenvolveram alguns preconceitos levados do meio em que nascera e se criara. Mas aí também, nesse meio, começou a reacção, menos sentimental do que científica, aos preconceitos dominantes que, sem o atingirem como indivíduo, o faziam pensar no futuro de um povo em grande parte mestiço - o seu povo, o povo brasileiro. E é curioso o que ele nos confessa: nessa fase de crise e transição quase não teve contacto com escritores e cientistas brasileiros empenhados já na reabilitação de valores tropicais. Dessa Universidade de Baylor, onde obteve o grau de bacharel, passou à Universidade de Columbia, onde se licenciou em Ciências Jurídicas e Sociais e onde, mais tarde, veio a ser doutor em Letras. Aí entrou em contacto com grandes antropólogos, sociólogos, historiadores, seus mestres, que verdadeiramente formaram o seu espírito científico. Foi esse o período em que alargou os horizontes culturais, pelas mais variadas e opostas leituras. Foi também nesse período que se inclinou para o estudo das coisas hispânicas, gosto desenvolvido em Oxónia, onde continuou a sua formação, depois completada na França e na Alemanha. Da Inglaterra passou a Portugal, através da França e Espanha, e regressou finalmente ao Brasil, para mais tarde se transformar num peregrino dos centros universitários americanos e europeus: um cigano de beca, na sua familiar expressão.
O contacto com grandes Universidades no período de formação foi decisivo. Elas lhe abriram horizontes para vera realidade brasileira, não só com objectividade científica, mas também com amplitude universal. E esse longo convívio com a cultura anglo-saxónica, que lhe permitiu utilizar a língua inglesa como sua própria, impediu salutarmente que neste apaixonado dos trópicos as criações literárias se transformassem em verbalismo retórico. Talvez por isso este brasileiro eloquente insista tanto em negar-se qualidades de orador.
Foi no período dos seus estudos na Universidade norte-americana de Columbia que Gilberto Freyre encontrou o grande tema da sua obra, pois a sua dissertação de licenciatura tratou da vida social do Brasil nos meados do século XIX.
Regressado ao Nordeste pernambucano, após quase seis anos de ausência, como que redescobre o Brasil, o Brasil, essa terra a que o Padre Nóbrega chamara a melhor terra do mundo. Mas esse novo achamento, se tem o mesmo alvoroço da carta de Pero Vaz, é também encarado, com espírito crítico, a uma nova luz. É esse o período em que, intervindo no movimento tradicionalista e regionalista do Recife, prepara a primeira obra de renome transnacional - Casa-Grande & Senzala - o mais erudito e literàriamente talvez o mais sugestivo dos seus livros, onde estuda a formação da família brasileira sob o regime de economia patriarcal, considerando as características gerais da colonização portuguesa, os antecedentes e predisposições do colonizador, o indígena ameríndio e o escravo negro na vida da família brasileira. Aí explica a gestação histórica e sociológica do Brasil, usando símbolos de polaridade que traduzem o equilíbrio de contrários, predominando sobre todos o mais geral e mais profundo: o senhor e o escravo.
Este é o primeiro painel de um tríptico. O segundo - Sobrados e Mucambos - estuda a decadência do patriarcado rural do Brasil, mostrando como se modificou a paisagem social durante o século XVIII e primeira metade do seguinte.
Nestas duas obras, o centro de interesse para o estudo dos antagonismos e das acomodações que lhes atenuaram a dureza foi a casa - a casa maior, em relação com a menor, as duas em relação com a rua, com a praça , com a terra, com o solo, com o mato, com o próprio mar. Na primeira, mostra como o sistema casa-grande-senzala chegara a ser uma quase maravilha de acomodação: do escravo ao senhor, do preto ao branco, do filho ao pai, da mulher ao marido. Também uma quase maravilha de adaptação do homem, através da casa, ao meio físico. No segundo, mostra a necessidade que houve de procurar novas relações de subordinação, quando a antiga acomodação se quebrou, quando as casas-grandes se urbanizaram em sobrados e as senzalas quase se reduziram a quartos de creado, crescendo ao lado dos sobrados as aldeias de mucambos.
Ordem e Progresso é o terceiro painel desse tríptico, em que nos explica a formação do Brasil contemporâneo. Mas, entre o primeiro e o último desses quadros, que variados e sugestivos estudos publicou sobre a terra, a vida, a sociedade, a cultura, os costumes do Brasil! No Guia Prático, Histórico e Sentimental da Cidade do Recife e no de Olinda, faz-nos percorrer a paisagem e a história das duas capitais pernambucanas; em Nordeste, mostra-nos aspectos da influência da cana sobre a vida e a paisagem nordestina; em Açucar, com visão sociológica colige receitas de velhos e gostosos quitutes dos engenhos; no volume de ensaios A Propósito de Frades, ocupa-se do esforço franciscano em terras de Santa Cruz; e tantas outras obras aqui inumeráveis, de natureza histórica, biográfica, antropológica, sociológica, entre as quais sobressaiem Brasil, Brasis e Brasília e Interpretação do Brasil, dois livros em que desenvolve a ideia da unidade e pluralidade brasileira e condensa as linhas mestras do seu pensamento sobre as raízes, as formas e os destinos dessa grande nação e da sua cultura.
Estas obras, na sua multifária dispersão e na sua unidade intencional, só por si justificariam esta colação de Gilberto de Mello Freyre como doutor conimbricense. Porém, outra é a razão mais funda de termos sido convocados a claustro, pois não estamos reunidos nesta Sala Grande, que simboliza quase sete séculos de cultura portuguesa, só para aumentar com mais uma pedra branca o pedestal dessa estátua que se está esguendo em vida de Gilberto Freyre e que é a longa teoria de homenagens que tem recebido, tanto dentro como fora da Pátria; porque Gilberto Freyre representa para nós, universitários de Coimbra, alguma coisa mais do que um sábio investigador e um grande artista: como criador da Luso-Tropicologia é um dos intérpretes mais qualificados e, por certo, o mais original e sugestivo, da complexa realidade cultural a que pertencemos.
A visão trans-nacional da capacidade portuguesa para criar uma civilização luso-tropical foi para Gilberto Freire o resultado de um processo científico. Partindo do estudo da sua região - o Nordeste - para atingir a interpretação do Brasil na sua unidade e pluralidade regional, esta interpretação integrou-se depois numa visão mais larga - o luso-tropicalismo --, abrangendo o mundo que o Português criou, como forma específico e bem caracterizada de outra forma genérica, a hispano ou íbero-tropical. Para essa integração compreensiva e relacionadora contribuíu decisivamente o conhecimento que veio a adquirir de quase todo o mundo português, do Minho a Goa, que amorosamente descreve nessas aguarelas de sabor garrettiano, coligidas em Aventura e Rotina, diário de viagem depois completado pelo volume que intitulou Um Brasileiro em Terras Portuguesas.
Conferências na Europa, O Mundo que o Português Criou, Integração Portuguesa nos Trópicos, O Luso e o Trópico, eis alguns dos padrões com que assinalou o seu descobrimento do nosso mundo, com rigor de análise, pendor compreensivo, amplitude de interpretação. Porque essa interpretação não se confinou a simples análise fenomenológica, constituiu-se num sistema explicativo, numa especialização regional da Sociologia, com seus fundamentos filosóficos, seus processos científicos, suas consequencias metodológicas na acção.
Em síntese, qual a lição que poderemos colher do pensamento de Gilberto Freyre?
A primeira constante do seu pensamento é a de o Povo Português, como o Brasileiro, não ser uma raça. Com efeito, nunca o foi, mas sim mescla de raças, desde as suas origens peninsulares, pois a Península Ibérica foi um cadinho de miscigénese biológica e integração cultural.
A Segunda constante é a de que o Português, pela ausência de preconceitos racistas, mas do que qualquer outro europeu e sobretudo mais do que o nórdico, criou e continua a poder criar nos trópicos uma civilização com características novas e estáveis. Assim, o segredo da obra colonizadora dos portugueses, facilitada pela maleabilidade da missionação católica, diversa do cristianismo bíblico e rígido de outros colonizadores, está radicada nas suas possibilidades bio-psíquicas de fixação e integração nos trópicos. Esta integração funda-se na mistura das raças e na fusão das culturas, quer dizer, no aproveitamento dos vários aspectos sócio-culturais, que formam o todo, e não simples aniquilamento por uma forma cultural superior de todas as outras formas mais ou menos primitivas de civilização; no domínio das normas de convivência, dos costumes, da evolução da língua, da arte, da habitação, até da culinária e das modas de trajar. O que não significa que nesse caldeamento a evolução não obedeça a ideais regulativos de aperfeiçoamento e realização de uma escala de valores, pois de contrário a síntese integradora ficaria reduzida a um tradicionalismo sincrético estagnante, não atingindo a forma de autência aculturação viva, em movimento catártico de progresso e ascenção. Para nós, o exemplo do Brasil é precioso, pois a grande nação brasileira tem como nós, ainda hoje, os mesmos problemas de assimilação e aculturação de povos silvícolas, os mesmos problemas de auto-colonização de um território imenso do interior ainda inexplorado, os mesmos problemas de equilíbrio entre desenvolvimento agrícola e desenvolvimento industrial, adaptados à exigências de uma comunidade que se estende, na sua maior parte, em regiões quentes dos trópicos.
A terceira é a de que, numa autêntica integração, há há incompatibilidade entre a unidade do todo e a diversidade regional das partes. Ora, se o Brasil é um continente composto de diversas regiões naturais, ecològicamente diferenciadas, e uma autêntica civilização brasileira foi a deve ser costeira e bandeirante, talássica e telúrica, sem que uma região imponha às outras a sua própria caracterização, também nós temos os mesmos problema. Porque também nós temos regiões as mais diversas, desde a faixa europeia da Península às praias de Timor. Também nós temos continentes, não no Portugal da Europa, como por anacrónica perspectiva se continua a dizer, mas no interior de Portugal em África. E, por isso, também nós temos de persistir na construção de uma civilização moderna, a um tempo talássica e telúrica, portuguesa, sem dúvida, mas transcontinental por excelência.
A saudade e a esperança são dois sentimentos polares dos portugueses. Se a primeira nos faz desenterrar as fundas raízes do passado para nos temperara fortaleza, a Segunda nos incita à realização do terceiro milagre português. Pois, se o primeiro foi a descoberta das novas terras e dos novos mares, a que fomos arrastados pelo génio do Infante e pelo sonho da Índia, e o segundo foi a gestação grandiosa do Brasil, o terceiro será a construção de uma outra grande nação moderna, na pluralidade e dispersão dos nossos territórios, na unidade de uma Pátria, na comunhão fraternas das raças que constituem o Povo Português, na integração promissora de uma nova e esperançosa cultura.
Se de Coimbras partiram, desde Nóbrega e Anchieta, tantos daqueles que conformaram a alma brasileira, o Brasil nos paga generosamente com a lição do mestre que hoje se abeira destes doutorais.
A nobre figura de diplomata que é o Embaixador Negrão de Lima aqui nos trouxe, em nome de maior criação do génio português, um brasileiro dos mais universais, e ao mesmo tempo , dos que melhor têm sentido e amado a nossa paisgem, a nossa vida, a nossa História, as nossas energias criadoras, não só confinadas à pequena casa lusitana, mas por todos os continentes repartidas. Tais presenças nesta Universidade, tão estreitamente ligada à História do Brasil - à aculturação do povo, à formação do escol, à própria unidade da Nação Brasileira - têm força de um apelo e alcance de um símbolo.
Quando os sinos da torre daqui a instantes repicarem, ouçamo-los como quem ouve a voz do próprio tempo em que nos alongámos por esses vastos espaços tropicais que descobrimos, como quem sente a voz que chama, acorda, incita a prosseguir, contra todos os ventos, a empresa de cria uma nova e grande civilização luso-tropical: de formar com os pedaços do nosso corpo, divididos por quatro do mundo, mìsticamente ligados por uma só alma nacional - um grande, um novo, um segundo Brasil.
Fonte: BARBOSA, A. de Miranda. Elogio de Gilberto Freyre. Coimbra: Universidade de Coimbra, 1962. 13p.
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