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Assinatura de Gilberto Freyre
Palestras  



AINDA INSURGÊNCIAS E RESSURGÊNCIAS EM GILBERTO FREYRE


Humanismo pode significar desde os iniciais estudos clássicos literários, à metodologia filosófica nas Ciências Sociais e à culminação da mundividência, a cosmovisão.

Há humanismo nestes sentidos em Gilberto Freyre, bem como o que o termo contiver de sensibilidade e profundidade humanas. Vamos nos concentrar aqui agora no que há de humanismo em Insurgências e Ressurgências e Além do Apenas Moderno, textos nos quais mais se concentra e projeta-se explicitamente sua prospectiva, além das suas perspectivas.

O humanismo gilbertiano vai do Além do Apenas Moderno desde as raízes ecológicas, Casa-Grande & Senzala chegou a ser acusada de obra naturalista. Já em 1937, noutro dos seus pioneirismos, Gilberto Freyre trata da Ecologia com ênfase desde as primeiras páginas de Nordeste.

Vida gilbertiana quer dizer vida vivida e convivida, não só racionalizada, Gilberto Freyre considerava Ortega y Gasset em seu raciovitalismo muito "ratio" e pouco vitalista. Observe-se quando Gilberto Freyre trata de unidade de passado, presente e futuro, ele os sintetiza dialeticamente em tempo tríbio, isto é, com três vidas básicas em desdobramentos unitários articulados. Vida cultural gilbertiana tem assim raízes profundas e amplas na natureza, daí seu empenho até pioneiro na defesa ecológica. O vitalismo psicológico gilbertiano apresenta-se radicalmente existencial, ele sempre insistiu também nisto.

A dialética das antíteses do presente confrontando-se, não só se defrontando com o passado, não leva o presente a excluir no todo ou em parte o passado e sim a supra-assumí-lo. A dialética em expressão vulgar ideológica é que se pretende excludente, sobretudo em termos marxistas partidários de querer a burguesia eliminada pelo proletariado, como a aristocracia teria sido pela burguesia. O que Marx nunca afirmou e sim que a aristocracia tinha tido suas contribuições materiais e culturais supra-assumidas pela burguesia ao substituí-la mesmo pela força, bem como os valores (não os anti-valores, pois anti-humanistas) da burguesia receberiam idêntica supra-assunção pelo proletariado.

O que se apresenta lógico desde seu ponto de partida hegeliano. Sendo o espírito eterno, a antítese ideal nunca poderia destruir a tese ideal, porém com ela se fundir mesmo sob um novo impulso interno. O mesmo se diga da perspectiva mais marxiana, de Marx, que marxista de seus adeptos infiéis: a antítese é tão material quanto a tese, aquela também não pode destruir esta e sim com ela entrar em fusão, mesmo sob respectivo impulso interno mais forte no segundo momento. Esta a supra-assunção hegeliano-marxista em diversos planos e níveis, a "Aufhebung" do originário equivalente sentido em alemão da eternidade do espírito ou matéria.

A explicação exegética de Hegel nisto foi iniciada por Jean Hyppolite e Alexandre Kojève, ainda de Marx por Rodolfo Mondolfo ao traduzir "Aufhebung" ao italiano por "rovesciamento".

O passado, no caso da interpretação gilbertiana o brasileiro, é supra-assumido, não negado pelo presente e projeta-se no futuro. Por isso o patrulhamento ideológico até sub-marxista, além de anti-marxiano, tanto quis e quer eliminar o passado em proveito do presente dos patrulheiros em nome de um futuro que, além de não acontecer, quando acontece é contra os propositores desse tipo de explicação, como se viu no final desmoronamento soviético e transformação da China em rumos imprevistos pelos ortodoxos e até contra eles.

Gilberto Freyre em Insurgências e Ressurgências e Além do Apenas Moderno repele principalmente os idealismos e os tecnologismos apenas modernos, gerando ressurgências de supra-assunções das insurgências superados quando assim assimiladas em nível mais alto.

Ressurgências desde as ecológicas da natureza agredida pela História, ressurgências ecológicas cada vez mais visíveis e audíveis em movimentos do mundo inteiro; ressurgências também culturais do que parecia arcaico nas afirmações de progressismos ideológicos industriais e partidários em proclamações e ações contra os particularismos e às peculiaridades de culturas e até etnias supostamente superadas, mesmo com violência redivivas desde a órbita capitalista na África e América Latina, à do outrora marxismo-leninismo na ex-Iugoslávia e ex-União Soviética.

Ressurgências também regionalistas na própria Europa Ocidental, em esforços de coexistência dentro dos seus Estados nacionais mais modernos como Grã-Bretanha, Bélgica, Itália, Espanha e França. Diante da exitosa unificação brasileira pelos portugueses sob a dinastia dos Braganças, Gilberto Freyre advertia desde a Semana Regionalista de 1926 sobre a importância das regiões também no Brasil. A Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), de cujo Conselho Diretor Gilberto Freyre durante tanto tempo fez parte, e a da Amazônia (SUFRAMA), são em grande parte produtores daquele processo de conscientização regional.

A Questão Nacional brasileira ainda está longe de resolvida no quadro de estadualismos muito distantes do federalismo e também do regionalismo, regiões capazes de congregar estados atuais e futuros. Regionalismos da cultura, da economia, até ecológicas.

Além do Apenas Moderno em Insurgências e Ressurgências o Mundo e o Brasil vão superando outros ideologismos e tecnologismos cíclicos, inclusive tecnologismos se pretendendo ideologias tecnocráticas e ideologias proclamando-se tão científicas que cientificistas. Nada mais anti-gilbertiano que tais extrapolações. Gilberto Freyre passou a vida inteira a repetí-las contra os bem pensantes de outrora transmudados nos politicamente corretos de agora, seu equivalente atual, sempre unilaterais, portanto sectários.

Toda época é época de crise, no sentido etimológico grego que uma julga outra. O julgamento por Gilberto Freyre não tem o pessimismo cultural da Escola de Frankfurt, "Kulturpessimismus"; naquela Escola Gilberto Freyre tem afinidades mais com Marx Horkheimer - com quem se encontrou no Conclave dois Oito promovido em Paris pela UNESCO em 1948, conforme me disse pessoalmente – que, com Theodor W. Adorno tão esteticista, diante do mais completo Horkheimer em sua crítica da razão quando unidimensional. A repulsa às tentativas de unidimensionalizar a razão está no centro de toda meditação e ação de Gilberto Freyre.

O unidimensionalismo mutilador sempre teve de ser contra o humanismo, em especial o humanismo vital e existencial, o gilbertiano. Gilberto Freyre sempre assim o entendeu e cada vez mais, à medida que o tempo passava, outra das provas disto está nas obras da sua fase final: Insurgências e Ressurgências, Além do Apenas Moderno, entre os muitos felizes títulos de livros seus que falam por si mesmos e completam-se. Todo conhecimento do Mundo é no fundo conhecimento de si mesmo do sujeito pensante, o subjetivo conhece-se ao conhecer a objetividade, esta a riqueza maior do conhecimento humano e humanista.



Fonte: CHACON, Vamireh. Ainda insurgências e Ressurgências em Gilberto Freyre. Recife, 16 mar. 1999.

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