GILBERTO FREYRE: INSURGENTE, CONTRADITÓRIO E SEMPRE ATUAL
Completados os estudos secundários no Recife, no Colégio Americano Gilreath, em 1917, Gilberto Freyre segue para os Estados Unidos, bacharelando-se em Artes Liberais na Universidade de Baylor, em Waco, no Texas. Em 1920, chega em Nova York, matricula-se na Universidade de Columbia, onde se graduou em Ciências Políticas e Sociais. Conhece e estuda com o Professor Franz Boas, judeu alemão, de quem declara ter recebido maior influência na sua formação antropológica. Percorreu, depois, alguns países da Europa em viagem de estudos, demorando-se em vários centros de cultura universitária, inclusive Oxford; visitou museus de Antropologia e de História; freqüentou cursos e conferências. Nos Estados Unidos, na Alemanha, em Paris e em Oxford conviveu com Imagistas, Expressionistas e Modernistas de várias tendências, a partir dos quais, adaptando valores e idéias ao Brasil, deu início ao seu próprio "Modernismo", em 1923, sem seguir o do Rio-São Paulo.
A quem conhece e estuda a vasta obra de Gilberto Freyre - iniciada na década de vinte com a dissertação de mestrado defendida na Universidade de Columbia e antecipadora de ensaio magistral e, ainda hoje, básico para a compreensão da formação cultural brasileira -, não poderá deixar de ocorrer que ela é uma vasta interpretação do Homem Tropical, do Homem situado nos Trópicos. Casa-Grande & Senzala é um livro germinal, como reconhecia seu autor, pelo que dele surgiram de pioneirismos, de descobertas, de antecipações; um livro desbravador e indispensável para a compreensão da infância do Brasil, do madrugar do Brasil como nação e civilização insurgentes. Uma das qualidades de Casa-Grande & Senzala, admiravelmente completado por Sobrados e Mucambos, Nordeste e Ordem e Progresso, entre outros, é a sua atualidade mesmo depois de quase setenta anos de publicado.
Em Casa-Grande & Senzala, conhecido internacionalmente pelas contribuições trazidas para a compreensão do Brasil e pelo novo e personalíssimo método, pioneiríssimo modo de abordagem sociológica, histórica e antropológica, há uma permanente juventude. Aquela juventude que apenas as obras-primas, os clássicos de todos os tempos conservam. Nele estão não só as sementes do que viria a ser a "luso-tropicologia" - que Gilberto Freyre desenvolveria em outros ensaios -, mas, também, as sementes do rurbanismo, do conceito de morenidade, de tempo tríbio, de meta-raça e de outras antecipações e pioneirismos.
Consagrada nos meios acadêmicos internacionais, a Tropicologia não é simplesmente uma especialidade científica a mais em um mundo no qual a multiplicação de especializações tem comprometido a possibilidade de visão do todo. Contrária às abordagens setoriais, a Tropicologia é, antes, convergência de saberes científicos, mas não apenas científicos, voltados para a compreensão interdisciplinar do "homem situado" nos Trópicos.
A Tropicologia remonta a idéias já muito defendidas por Gilberto Freyre, desde o seu Vida Social no Brasil nos meados do século XIX, dissertação apresentada para obtenção do grau acadêmico de Mestre pela Universidade de Columbia, passando por Casa-Grande & Senzala, Sobrados e Mucambos, Ordem e Progresso, Nordeste, Homem, Cultura e Trópico, até Ferro e Civilização no Brasil, entre tantas obras de um autor de produção tão múltipla e vasta.
Em toda a produção intelectual de Gilberto Freyre, perpassa a idéia nuclear do "homem situado", de vez que esta abordagem - a do "homem situado"- constitui uma das chaves não apenas da síntese gilbertiana da Ciência Social, mas, da própria visão do mundo do autor de Casa-Grande & Senzala.
Munido dos critérios das ciências sociais, pôde o autor de Casa-Grande & Senzala legar aos brasileiros o Seminário de Tropicologia, sendo ele o seu criador e idealizador. Um Seminário, segundo as suas palavras, que visa "não só estudar o Brasil e dentro do Brasil não só as considerações geofísicas, mas o sociocultural de sua formação. Não só uma lusotropicologia ou uma hispanotropicologia, mas uma tropicologia que se estenda a todos os trópicos culturamente compreendidos". O Seminário, hoje parte integrante do Instituto de Tropicologia da Fundação Gilberto Freyre, surgiu para completar um esforço de interpretação da sociedade brasileira e de outras culturas tropicais, esforço que já vinha da adolescência de Gilberto Freyre quando ele escrevia os seus artigos, enviados da América do Norte para o Diário de Pernambuco, e que desaguaria em ensaios notáveis que revolucionaram as ciências sociais do Brasil.
Gilberto Freyre foi também a mola mestra e impulsionadora do Centro, do Congresso e do Movimento Regionalista, Tradicionalista e Modernista do Nordeste. É fácil verificar nos seus artigos da época, publicados no Diário de Pernambuco a partir de 1918, e que por iniciativa do Conselho Estadual de Cultura de Pernambuco foram reunidos na coletânea Tempo de Aprendiz, organizada pelo excelente historiador José Antônio Gonsalves de Mello, que lá estão as sementes, as verdadeiras sementes do que viria a ser o chamado Manifesto Regionalista. Não apenas nesses artigos, mas, igualmente, na organização do Livro do Nordeste, editado quando do Centenário do Diário de Pernambuco, em 1925. Pode-se facilmente constatar nessas fontes que o seu polêmico e discutido Manifesto não surgiu de um improviso, ou, muito menos, do nada.
O ensaio de Gilberto Freyre, Nordeste, assinala, como em tantos outros ensaios que veio a escrever pioneiramente, o início de um novo critério de interpretação ecológica da relação do brasileiro como homem situado no Trópico. Tanto com o meio teluricamente tropical, como com o meio cultural. Trata-se de um ensaio, esse, que se associa às suas idéias relativas à Tropicologia, porque para a Tropicologia, como já tivemos oportunidade de dizer, converge todo o pensamento de Gilberto Freyre como autor que nos seus estudos do homem em sociedade soube, como poucos, conciliar harmoniosamente o saber do cientista com a intuição do artista, do escritor literário - como ele próprio gostava de se autodenominar - e do pintor. Convém acentuar que o ensaio Nordeste constitui a primeira denúncia no Brasil e possivelmente na América, em termos sociológicos, da poluição dos rios pela imoderação das indústrias.
A formação americana e européia de Gilberto Freyre, os seus encontros com Boas, Giddings, Seligman, John Basset Moore, John Dewey, Mencken, Armstrong, Yeats, Tagore, Vachel Lindsay, Amy Lowel, entre outras personalidades ilustres do mundo acadêmico e artístico, fizeram com que ele pudesse ver o Brasil com outros olhos. A sua dissertação universitária de mestrado à Universidade de Columbia, por exemplo, publicada em inglês, no próprio ano de 1922, em Baltimore, pela Hispanic American Historical Revue (v.5, nº 4, nov.1922), já demonstrava sua preocupação com esse problema tão delicado para a inteligência brasileira: a questão do caráter nacional, do sentido da experiência sócio-cultural do brasileiro; questão para a qual, apesar da sua importância, não havia, até então, análise rigorosamente científica, nem resposta intelectualmente consistente. Pode-se dizer, assim, que Vida Social no Brasil nos Meados do Século XIX (Social life in Brazil in the middle of the 19th Century) iniciou o fecundo processo de redescoberta do Brasil pelos brasileiros e Casa-Grande & Senzala, publicado em 1933, legou aos brasileiros a radiografia de um povo e da sua cultura; a síntese interpretativa do seu caráter, do seu modo particular de ser, de pensar, de sentir, a partir da sua formação histórica. Esse ensaio, com Sobrados e Mucambos, de 1936, e Ordem e Progresso, de 1959, constitui sua grande trilogia da interpretação sócio-antropológica do Brasil e dos brasileiros. São ensaios e estudos, pioneiros, de quem temendo o que chamou de "rotina pedagógica" dedicou a vida, principalmente, à atividade de escritor, por considerar essa a sua vocação máxima. Razão pela qual sempre recusou cátedras em universidades brasileiras e estrangeiras.
Foi ele que, desmistificando tabus, considerou o negro escravo como co-colonizador do Brasil e reconheceu que sem o negro, como homem de trabalho agrário, não teria se desenvolvido e consolidado no Brasil a complexa civilização canavieira que, a despeito de aspectos negativos os mais lamentáveis, afirmou-se em efeitos positivos e valiosos. E sempre destacou que a contribuição do negro para essa realização brasileira acrescentou ao esforço físico a inteligência criativa, tendo sido notáveis, nesse surto agrário-industrial, técnicos, peritos, operários de origem negra. Mas sempre lamentou que ao 13 de maio de 1888 "não tivesse sucedido o projeto magnífico de Joaquim Nabuco de integração imediata do ex-escravo na sociedade brasileira, através do seu preparo para o trabalho livre, em vários setores, nos quais teria tido expressão não só sua inteligência e capacidade técnica, como a cívica, para ativo desempenho de atividades de pleno cidadão brasileiro. Projeto transabolicionista que teria significado para o Brasil uma complementação de um 13 de maio inacabado, por mais festivo que tenha sido". Tenho certeza de que essa sua preocupação desaguou na realização, em 1934, no Recife, juntamente com o seu primo e amigo, o psiquiatra Ulysses Pernambucano e, entre outros, o pintor Cícero Dias, no I Congresso Afro-Brasileiro. E em 1939, na publicação do livro Açúcar, com receitas de bolos e doces regionais, através do qual procurava valorizar a arte e a tradição da culinária. Atitude, para a época, um tanto ou quanto corajosa. Ou pelo menos escandalosa, empreendida por um escritor também considerado sociólogo e antropólogo. A verdade é que com a publicação desse livro ele dava continuidade ao Movimento dos Regionalistas, Tradicionalistas e, a seu modo, Modernistas, do Recife.
Gilberto Freyre, inovador, criador, contraditório, sempre insurgente no seu modo de ser, de pensar, de fazer ciência e arte, foi um homem avançado para o seu tempo. Pode-se dizer que nele o Brasil amanhecia. E não constitui excesso afirmar que ninguém, mais do que ele, Gilberto Freyre, estudou, pesquisou e escreveu sobre o amanhecer deste país.
Fonte: FREYRE, Fernando de Mello. Gilberto Freyre: Insurgente, contraditório e sempre atual. In: Reunião Anual da SBPC-Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, 52, 2000, Brasília.
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