O SOCIAL E A MEDICINA EM FREYRE
Sara Riwka Erlich [1]
Entrei onde não sabia
E assim fiquei sabendo
Toda ciência transcendendo
Juan de La Cruz
1562
As ciências sociais e suas relações com a medicina constituem assunto da maior importância e relevância no momento atual. O Journal Social Science & Medicine promoverá a sua XV Conferência Internacional sobre Ciências Sociais & Medicina em Outubro do corrente ano na Turquia, Antalya. O programa é dedicado entre outros aos médicos interessados na contribuição das ciências sociais. Continuamente fóruns internacionais, simpósios, congressos interdisciplinares, atualizam e revisam os achados de pesquisas e teorias em todas as áreas de interesse comum aos cientistas sociais e práticos da área de saúde e respectivas políticas.
A saúde, a partir do amplo espectro das disciplinas das ciências sociais (antropologia, economia, educação, ética, geografia, ciência política, psicologia, política social, sociologia, etc.) constituem um material relevante para qualquer das ciências sociais de qualquer das profissões relacionadas com a saúde física e mental e com a prática dos cuidados de saúde, sua política e organizações.
Em 1967, foi publicado um obra pioneira em língua portuguesa pela Fundação Gulbenkian, em Lisboa: "Sociologia da Medicina". Autor: Gilberto Freyre. Na Introdução é ressaltada a tradição antiga que vem de Garcia de Orta e de cultores, quase sociológicos. A obra do escritor Freyre dentro desta tradição, do clássico europeu e não apenas português ou Ibérico nesse setor é pois a primeira tentativa de introdução em língua portuguesa ao estudo dos problemas sociológicos da medicina no qual se procura dar ênfase a "possibilidades e conveniências de aplicação de princípios e de métodos sociológicos à situações médico-sociais peculiares à vivência e à convivência humana nas áreas tropicais". Como ressaltava o autor, sociologia da medicina e não socialização da medicina que é apenas um aspecto menor, talvez, da sociologia da medicina que daquela sociologia que hoje se especializa no estudo de relações entre o estado e as demais organizações que constituem uma comunidade. A especialidade dentro do complexo da sociologia da medicina pode analisar, elucidar, esclarecer, aspectos das relações da medicina com atividades sociais outras - inclusive as paramédicas de tanto interesse para o médico. Freyre acabara de estar então na Grã-Bretanha observando o que chamou "revolução à Inglesa", uma revolução silenciosa - a iniciação do estudante de medicina em ciências sociais, particularmente em antropologia e sociologia. Compartilhava Freyre do pensamento de que "em todo médico moderno parece a alguns de nós, médicos e sociólogos que deve haver um pouco de sociólogo, do mesmo modo que em todo sociólogo é preciso que haja preocupação pelo que na moderna medicina é social". Referia-se "a doentes e populações necessitadas não só de proteção sanitária e cuidados médicos como também socio-culturalmente condicionadas nos seus distúrbios de saúde". E mais ainda "humanitários e o quanto possível iniciados nos chamados estudos humanísticos". Mais profundamente, "dotados daquela amplitude de visão, de perspectiva e de sentido humanístico da vida e dos problemas médicos e sociais, possível pelas relações dos estudos humanísticos com os médicos, tendo como intermediários os cientificamente sociológicos ou antropológicos". Ressaltava Freyre a importância da pessoa humana social, cultural, ecológica, interpretada pelo critério humanístico acrescentado ao cientifico. Os objetos de estudo dos sociólogos e médicos são pensados e sentidos como psicossocialmente humanos, culturalmente humanos, complexamente socioculturais e psicossociais. Dizia então que sociólogos e médicos precisam ser capazes de sentir o mais possível o que sentem os seus "objetos de estudo que afinal não são objetos-coisas, porém sujeitos além de animais humanos. Além de psicossocialmente humanos, culturalmente humanos". Como psicanalista, não posso deixar de associar a visão Freyreana com a "psicologia do self" de Kohut e seus estudos sobre a empatia entre outros. Natureza lembrava Freyre, em grande parte cultura. A cultura a que pertença o indivíduo biológico, alongado na pessoa sociocultural que o médico e/ou sociólogo considere. Portanto a medicina e a sociologia como ciências que tenham o "homem" como seu centro de estudo. Ciências para-humanísticas nas suas preocupações e humanísticas nas usa projeções. A pesquisa do homem total, universal e do homem regional, doente ou são - produto da sociedade, da cultura (no sentido sociológico) do grupo sociocultural e as enfermidades consideradas no seu contexto sociocultural . Na visão de Freyre a sociologia e a medicina não deveriam fragmentar-se excessivamente em prejuízo do que denominou "compreensividade".
Inspirava-se então, entre outros, na obra do físico e pensador Dennis Gabor (entre outras, "Inventing the Future"). Pensava o físico que o futuro na nossa era tecnológica dependerá dos poetas, escritores, pensadores, artistas, místicos. O humanista científico como essencial à construção de um novo tipo de sociedade e cultura, servida pela energia nuclear e automação.
Buscou Freyre contribuir também no próprio setor médico-sociológico sob critério antropológico ou sociológico, para sistematização de estudos dispersos de várias especialidades sobre assuntos tropicais - numa necessária Tropicologia. No Brasil, nos últimos decênios não faltam médicos, sanitaristas e higienistas preocupados com problemas ecologicamente tropicais de medicina e saúde, lembrando o nosso Nelson Chaves e outros ilustres médicos e pensadores como Josué de Castro. Sem esquecer o cientista Oswaldo Gonçalves de Lima.
A Sociologia de Medicina é talvez, a mais jovem das sociologias especiais tendo como base a Antropologia Social. Como nos ensina Freyre não devemos nos esquecer de que "nenhuma tentativa de introdução à Sociologia de Medicina ou de Introdução ao estudo da Sociologia aplicada a problemas de higiene e Saúde Pública pode sequer esboçar-se senão à base de um conhecimento geral, não só de princípios e de métodos de Sociologia como de princípios e métodos de Antropologia. De Antropologia Social e Cultural mas também de Antropologia Física e de Seroantropologia".
É através dos processos sociais de interação "que os profissionais da medicina podem adquirir a perspectiva e os padrões de competência, além de técnica, pessoal, necessária ao exercício socialmente ou psicossocialmente satisfatório de suas atividades terapêuticas, clínicas, hospitalares ou à frente de serviços de Higiene e Saúde Pública.
Mencionou Freyre também as "reações" positivas e negativas de afetividade com relação a certos tipos de personalidades de doentes, conseqüência, em grande parte, segundo parece, "de experiências infantis do médico". Talvez, prosseguia Freyre, "fosse útil ao médico que se destine a clínica, submeter-se a exame senão psicanalítico, psicológico, em que fossem consideradas suas experiências infantis. Por aí se vê como a análise da própria figura psicossocial do médico precisa de ser uma análise, além da sociológica, psicossocial, que considere no desempenho, pelo médico, do seu papel profissional, a complexidade pessoal e social que caracteriza esse desempenho, contrariando convenções em torno do que seja, abstratamente a personalidade profissional do médico, numa sociedade civilizada moderna. Em contraste com a de um sacerdote ou a de um advogado, por exemplo, na mesma sociedade, ou em confronto com o que foi ou é o feiticeiro pré-médico, o mágico, o quase sacerdote em sociedade primitivas ou arcaicas, das estudadas pelos antropólogos" (1983).
O que faltaria então? A articulação dessas atividades e estudos médicos e médico-sociais com atividades e estudos antropológicos e sociológicos, ou seja, a interdisciplinaridade. Acrescentamos, a transdisciplinaridade hoje estudada e aprofundada em algumas Universidades.
Boaz considerado entre outros por Freyre como o maior mestre de antropologia de nossa época "foi um médico desdobrado em antropólogo para quem, no jogo de inter-relações sócio culturais - característico do desenvolvimento das sociedades humanas - arte, religião, economia, atitudes com relação à natureza, diferenças de temperamento - são forças que se influenciam reciprocamente. Alertava para o simplismo, o arcaísmo das especializações fechadas, que ignoram os componentes psicossociais de tais problemas - "nem o médico pode desconhecer as relações da arte ou da mesma ciência médica com as influências sócio culturais que condicionam doenças e particularizam doentes".
Freyre nos alertava para os desafio de uma nova e complexa situação do homem - o homem situado em espaços e tempos tecnológica e socio-culturalmente diferentes e do excesso de especialização. Do salto do especialismo para um inteligente "compreensivismo". Do "Doente Total" para o Homem Total. Para cujo alcance o médico precisa especializar-se assim como o sociólogo, por exemplo, na área ecológica, das relações entre grupos étnicos, da vida rural entre outros. Até certo ponto, se não generalistas, "compreensivistas".
Sabemos que os pacientes não existem à parte de uma unidade ou de um complexo sócio cultural que lhes condiciona. A Sociologia da Medicina de Freyre ressalta a necessidade de considerar o modo de ser doente, as manifestações que assumem as doenças, a maior ou menor dificuldade de readaptação, o crescimento da medicina psicológica, sociocultural, sociologia psicológica, histórico-cultural, e socioecológica. A pessoa social do paciente e as situações sociais particularmente opressoras, provocadoras de enfermidades, tão estudadas hoje pela chamada medicina psicossomática.
Citando o Prof. Deeds, dizia Freyre: "O médico precisa saber mais do que medicina; e de intuir e não apenas conhecer". Ao referir-se ao médico - physician - ou seja o que trata o corpo, este ou aquele órgão afetado cita Freud e seus estudos de doenças denominadas de "doentes dos nervos". Referia-se à Freud e à Psicanálise iniciada por ele como "um grande médico clínico durante anos e depois cientista e filósofo social". A contribuição para que a medicina ocidental se afastasse daquele exclusivismo para "começar a tomar em consideração, não só através de pesquisas bioquímicas como da chamada Psicanálise as relações entre os fatores emocionais e os mecanismos internos do corpo". Referia-se também ao surgimento da medicina psicossomática (Alexander - 1950), a obra de Cannon ( Bodly Changes in Pain, Hunger, Fear and Rage - 1929), pela primeira vez abordada no Brasil por Freyre em 1931. O surgimento do conceito médico e sociológico de haver da parte de pessoas socialmente desajustadas, reações protetoras capazes de passarem do medo, ansiedade, hostilidade, à alterações de funções orgânicas. O aparecimento de obras dedicadas ao estudo do Stress e as enfermidades, o médico buscando situar biograficamente a pessoa - não havendo fronteiras entre os processos orgânicos e a vida emocional e social do paciente - "o orgânico é pessoal, é social, é sociocultural" As ciências sociais, a antropologia, a psicologia social, a sociologia, como fundamentais ao médico moderno, constituindo o "focus" do cientista social mais moderno, a "Life History". Os estudos sociológicos de Malinowski e Margaret Mead. Malinowski, antropólogo sociólogo demonstrou que "os conflitos e angústias que nessa sociedade - a ocidental do século XIX - se associam às relações do filho com o pai identificados pelo estudo psicanalítico inaugurado pelo mestre de Viena dependem grandemente dos tipos de pressão sofridos pelo indivíduo socializado em pessoa, da parte de estruturas sociais e de configurações em família que variam de uma cultura para outra e ele próprio deu exemplos dessas variações". Para Freyre "são importantíssimos não só para o sociólogo como para o médico o ensaio de Bronislaw Mailnowski publicado em 1927, The Father in Primitive Psychology, e os estudos de Margaret Mead sobre adolescência em sociedades primitivas". Sendo assim "a personalidade neurótica que não é de modo algum nem abstrata nem condicionalmente universal mas diversificada e situada, tem que ser considerada em relação com um ambiente sociocultural específico e qualificada de acordo com condições particulares de tempo e de espaço". O que se pode considerar verdadeiramente normal no comportamento humano? Joyce McDougall no capítulo XII de "Em Defesa de uma Certa Anormalidade" levanta uma série de questões, e eis algumas delas: "Existem analistas normais? Existe uma sexualidade normal? Existem normas analíticas?". A Psicanálise sendo um processo criador no alerta para uma importante questão que é a de o analista se acreditar "normal" e "atribuir-se a si o direito de preconizar normas aos seus analisandos podendo tornar-se altamente tóxico para eles". Como dizia Freud citado por McDougall "ninguém conduzirá seus analisandos mais além do exercício de sua própria capacidade de questionar-se".
Os estudos autobiográficos dos professores Simons and Wolff foram também objeto da preocupação de Freyre e ao ler sua obra penso na inter-relação com os estudos sobre a psicologia pré-natal e peri-natal, as condições socioculturais de crianças e gestantes, em caráter interdisciplinar e mesmo transdisciplinar. Da puberdade das adolescências das diferentes culturas e sociedade. Da pessoa humana jovem e idosa, como indivíduo biológico, seu ambiente, meio cultural e social. Estudou Freyre também, Ruth Benedict e sua classificação socio-antropológica. As doenças do tipo das que Freud identificaria em membros da civilização ocidental, individualista e burguesa do século XIX, "sob a forma de reações individuais à repressões de ordem sociocultural"
As doenças sociais, conseqüências de situações mais sociais e políticas que biológicas e a preparação psicossocial dos médicos para lidarem psicossocialmente com doentes de diferentes categorias psicossociais. Tenho depoimentos pessoais alguns deles registrados em livros de uma já longa experiência em hospitais psiquiátricos estatais, sobretudo a velha Tamarineira, o Hospital Ulysses Pernambucano, Clínicas Universitárias diversas brasileiras e[ do exterior. A experiência pioneira iniciada na década de 1950, inaugurando a Filosofia da Reabilitação, física, psicológica, social, vocacional, profissional, implantada e difundida por Ladislau Porto no Centro de Recuperação do Nordeste. Ladislau Porto, médico, professor, psiquiatra e escritor, da Escola do mestre Ulysses Pernambucano. A experiência também de consultório e de clínica privada, experiência esta que vivi e vivo transitando numa experiência plural entre pacientes das mais diferentes categorias psicossociais e culturais, experiência extremamente enriquecedora para os médicos que a viveram e vivem.
Voltando a Freud lembro que ele referiu-se ao social e à sociologia em vários trabalhos entre eles os seus estudos acerca de Sugestão e Libido, Uma Breve descrição da Psicanálise (1924[1923]); na nota do editor Inglês da obra de 1930, "Das Unberhagen in der Kultur", e na conferência XXXV. Estudou "o fato fundamental de que o indivíduo num grupo está sujeito através da influência deste, ao que com freqüência constitui profunda alteração em sua atividade mental". Cita autoridades em sociologia e em psicologia de grupo e "a palavra mágica sugestão". Entre os citados, Le Bon, para quem "a origem de todas as enigmáticas características dos fenômenos sociais remonta a dois fatores: A sugestão mútua dos indivíduos e o prestígio dos líderes". Tentou utilizar o conceito de libido "que nos prestou bons serviços no estudo das psiconeuroses a fim de lançar luz sobre à psicologia do grupo em sua função e relação com o amor sexual, o Eros do filósofo Platão. Coincide exatamente com a força amorosa, a libido da Psicanálise, tal como foi pormenorizadamente demonstrada por Nachmansohn (1915) e Pfister (1921) louvando "o amor sobre tudo o mais, certamente entendido no seu sentido mais amplo". Libido, expressão extraída da teoria das emoções "energia, considerada como uma magnitude quantitativa" (embora na realidade não seja presentemente mensurável). Instintos que tem a ver com tudo o que pode ser abrangido sob a palavra amor.
Numa Breve Descrição da Psicanálise (1924[1923]), Freud iniciou dizendo da necessidade de não desprezar a época e as circunstâncias que precederam a criação da Psicanálise que emergiu perante o mundo com a Interpretação dos Sonhos (1900), e que teve seu ponto de partida em idéias mais antigas que anteriormente desenvolveu. Freud dedicou-se na época as aplicações da Psicanálise e suas relações com a ciência da religião e a sociologia. Os estudos de Reik e Oscar Pfister. O estudo da parte criadora das grandes instituições da religião, do direito, da ética e de todas as formas da vida cívica. O objetivo fundamental para Freud era capacitar o indivíduo a dominar seu complexo de Édipo e desviar a libido de suas ligações infantis para ligações sociais e seus fins desejados. Referia-se aos avanços da civilização construída inteiramente sobre a renúncia ao instinto. Todo indivíduo em sua jornada da infância à maturidade precisa, "em sua própria pessoa recapitular esse desenvolvimento da humanidade até um estágio de criteriosa resignação". A Psicanálise demonstrou que foram predominantemente, embora não exclusivamente, os impulsos instintuais que sucumbiram a essa supressão cultural. Parte deles, contudo, apresenta característica valiosa de se permitirem ser desviados de seus objetivos imediatos e colocar assim sua energia à disposição do desenvolvimento cultural sob a forma de tendências sublimadas. Outra parte, porém, persiste no inconsciente, "como desejos insatisfeitos e pressiona por alguma satisfação ainda que deformados".
Alertava ainda Freud que não devíamos esquecer que "a Psicanálise sozinha não pode oferecer um quadro completo do mundo". Na nota do editor inglês da "Das Unbehagen in Der Kultur" é lembrada a obra de Freud terminada no outono de 1927: O Futuro de uma Ilusão. No verão de 1929 começou a escrever outro livro, mais uma vez, sob assunto sociológico, cujo título original foi Das Unglück in der Kultur". Unglück alterado depois para Unbehagen. Em português o tão divulgado Mal Estar na Civilização. Seu tema principal "o antagonismo irremediável entre as exigências do instinto e as restrições da civilização". A obra pode ter origem nos seus escritos à Fliess datados de 1897: "O incesto é antisocial e a civilização consiste numa progressiva renúncia a ele" (Freud 1950a, Rascunho N); um ano depois, em 1898a no artigo Sexualidade e Etiologia das Neuroses dizia Freud que "podemos com justiça responsabilizar nossa civilização pela disseminação da neurastenia" e o mais longo de seus estudos sobre o assunto foi o artigo "Civilized Sexual Morality and Modern Nervous Illness" de 1908.
O Mal Estar na Civilização é uma obra que ultrapassa bastante a própria sociologia.
Ainda na conferência XXXV que faz parte das Novas Conferências Introdutórias (1933[1932]) abordou Freud a questão de uma Weltanschaung: "Estivesse alguém em condições de mostrar detalhadamente a maneira como estes diferentes fatores - a disposição humana geral herdada, suas variações raciais, suas transformações culturais - se inibem e se estimulam uns aos outros sob as condições de categoria social, profissão e capacidade de realização. Se alguém fosse capaz de fazê-lo teria suplementado o Marxismo, de modo que este teria se tornado autêntica ciência social. Pois também a sociologia, lidando, como é de seu ofício, com o comportamento das pessoas em sociedade, não pode ser senão psicologia aplicada. Segundo Freud existiram duas ciências: a psicologia pura ou aplicada e a ciência natural".
A Psicanálise no próximo milênio necessita urgentemente (Grotstein S. James - 1999) reavaliar os cânones fundamentais da teoria e da técnica psicanalítica em virtude da emergência de tantas escolas e conceitos novos. Reavaliação defendida por nós também em trabalhos apresentados em congressos nos quais abordamos o tema da Psicanálise do Século XXI. Um número cada vez maior de psicanalistas esta a favor de pontos de encontro cada vez maiores entre a Psicanálise e as ciências empíricas (Neurobiologia, Antropologia, Sociologia, Estudos do Desenvolvimento Infantil, Investigações sobre trauma, Estudos sobre o Gênero, etc). Assim como a Psicanálise e as Ciências Sociais incluindo a Lingüística, a Literatura, a Poesia, a História e estudo de filmes, etc. Disciplinas próximas como a Ontologia, a Filosofia, a Religião e os estudos sobre Misticismo. A Psicanálise aberta às Universidades, à comunidade e membros da sociedade.
Não podemos esquecer a grande contribuição do pensamento psicanalítico de Bion, da sua compreensão interna (insight) para dentro da mentalidade do "Grupo", estudos relevantes para as instituições sociais. O mesmo Bion que nos últimos dez anos de sua vida interessou-se pelos estudos do psiquismo fetal. Sua visão do futuro da Psicanálise, do sensório-sensível ao estético artístico, do mito-poético, da simbolização, da arte. Bion místico-religioso, nascido na índia e marcado pela presença do inconsciente cultural místico do mundo hindu habitado por Deuses.
Tal como os pluralismos em Freyre, pensadores psicanalistas, investigadores e psicanalistas clínicos buscam caminhos dignos dos pioneiros da Psicanálise. Freud absorveu grande parte do conhecimento da época e dos mais variados campos o que é sabido por todos os que lêem e estudam suas obras e famosas notas de rodapés de pé de página. Recentemente em 1998, foi publicada com o apoio da Sociedade dos Amigos do Museu Sigmund Freud, Vienna e da Osterreidische Akademie der Viscenschaften o livro "Freud e as neuro-ciências: Da pesquisa do cérebro ao inconsciente" contendo os ‘papers’ de conferências por ocasião do Simpósio organizado em 1997, pela Sigmund Freud Society e Academia Austríaca de Ciências. Buscavam o olhar mais próximo e profundo do mundo psicanalítico de Freud. O ponto de partida foi a pouco conhecida e precoce pesquisa científica em neuro-ciências, primeiro como estudante, subseqüentemente como médico do hospital geral de Viena. Seu Projeto para uma Psicologia Científica que antecipou-se à época e somente com a tecnologia do século XX são permitidas novas aproximações interpretativas da obra e por um grande número de disciplinas. Foi nos seus estudos sobre histeria que ocorreu a mudança de paradigma que marca a transição da Neurofisiologia para a Psicanálise. Não esqueçamos que Freud passou 20 anos de sua vida adulta como Neuro-Anatomista, Neurologista Clínico, Teórico da Neurologia e lançou os fundamentos sobre os quais a Psicanálise pôde surgir. Escritor, tendo sido o prêmio Goethe de literatura, seu único prêmio em vida. O prêmio Goethe da Cidade de Frankfurt concedido a Freud em 1930, era anualmente concedido a "uma personalidade de realizações já firmadas cuja obra criadora fosse digna de uma honra dedicada à memória de Goethe". O discurso que preparou foi, devido à sua doença, lido por Ana Freud. Ao falar sobre o Homem e "as forças da incultura que pesam sobre nossa cultura", concluiu que "todos adoeceram conosco e conosco unicamente puderam restabelecer-se" e que "não a cultura de um raça, mas a da humanidade inteira, de agora e do futuro tem que ser dada por perdida se não for a fé na regeneração de nossas forças". O fundamental é "o elemento básico da cultura".
Sabemos que a pluridisciplinaridade e a interdisciplinaridade surgiram da indispensável necessidade de vínculos entre diferentes disciplinas. Ultrapassam as disciplinas, mas sua finalidade também é inscrita na pesquisa disciplinar na qual Freud também foi mestre. O que pensadores como Freyre argumentavam resultou na hoje reconhecida e buscada evolução interdisciplinar. Acrescento, transdisciplinar, inclusive adotada nas Universidades e abordada em eventos marcantes como o Congresso de Lucarno em 1997. A transdisciplinaridade como indica o prefixo "trans" dizendo respeito ao que está entre as disciplinas, através das diferentes disciplinas, e além de toda disciplina. A compreensão do mundo atual é a sua finalidade e a "unidade do conhecimento" é um dos seus imperativos. Espaço vazio, entre e além das disciplinas e cheio como o "vazio quântico é cheio de todas as potencialidades".
O transhumanismo do qual fala Nicolescu e ao qual apelamos como nova forma de humanismo, oferece a cada ser humano a capacidade máxima de desenvolvimento cultural e espiritual, não visando uma homogeneização fatalmente destrutiva, mas a atualização máxima da "unidade na diversidade" e da "diversidade pela unidade". Onde ficaram perdidos os vínculos entre reflexão e ação, praxis e logos? Onde? A Terra é nosso lar - eis um dos imperativos transdisciplinares. Pertencemos a nossa própria nacionalidade, pertencemos a Terra e à dimensão cósmica. Metas da pesquisa transdisciplinar.
O Amor já dizia Martin Buber, é a responsabilidade de um Eu por um Tu. Amor como ação cósmica.
Alerta e aberta a desafios e ciosa de estabelecer relações com outras culturas tentando compreender o homem e seu modo de Habitar Humano, no mundo. Indicando como nos alerta a filósofa Miranda (1986) o paradoxo da situação humana a fazer o seu caminho até uma verdade sobre o Humano do Homem, a ciência articulada com todas as suas dimensões. A transdisciplinaridade como fruto do seu exercitar-se recebendo o que se refere a verdade do homem. A contínua busca, a desocupação e o que fica ignorado, oculto. Como exemplo, lembra Maria do Carmo Tavares de Miranda, as expressões culturais e as relações transcendentais. Abertura do espírito, a educação transpolítica, o espaço territorial substituído pelo "informal" de natureza quântica e planetária. Acrescentamos, o tempo "local" pelo tempo mundial, a voz da ética, os poderes desvendados na modernidade, a força Faustica que pode voltar-se contra nós e tudo destruir.
Freyre, pensador e escritor reuniu num grupo de ensaios, a abordagem de uns tantos aspectos de possíveis futuros humanos em geral, e brasileiro em particular. A sua obra Alem do Apenas Moderno (1973), em torno de uma possível Filosofia da Futurologia expandiu o seu pensamento e falou-nos das relações saudavelmente ecológicas entre o Homem e a natureza regional - problema de engenharia física, de engenharia social e engenharia humana, antes de ser de Futurologia. Dizia então na "quase conclusão" - "se cientistas sociais de hoje, dos Estados Unidos e da Europa se apresentam como cientistas sociais modernos, menos acadêmicos e mais do mundo, e em tal modernidade de atitude foram igualmente antecipados, os sociólogos - antropólogos e pensadores brasileiros, das ciências sociais chamadas românticas". Vasta e complexa, dizia Freyre, "revolução neo-romântica". Sociologia acrescentada ao existencial, ao vivido, o imaginário, o só possível ser captado intuitivamente, e de abordagens semelhantes à poética.
Ainda em Sociologia da Medicina creio valioso lembrar as referencias às parteiras, às comadres, aos boticários do interior, ervas medicinais indígenas, a homeopatia e ao vasto sistema transnacional de cultura a que nosso país pertence. Os substitutos de médicos e medicina mágica, as benzeduras, os patuás, os curandeiros, os mediadores de sessões espíritas, os babalorixás, as mães de santo, os curandeiros, os benzedores.
Em 1913, Freud iniciou uma série de estudos e contribuições para o conhecimento dos fatores mentais das situações coletivas inaugurando o que podemos chamar a vertente social de sua obra. La Porta denomina Psicanálise social, principalmente suas teses, sobre religião e cultura. E estudou entre outros autores, as contribuições de Freud à antropologia e sociologia. Totem e Tabu é considerada uma de suas mais importantes obras, um estudo da pré-história da humanidade. Nele, aborda inclusive interesse da Psicanálise para as ciências não psicológicas, por parte dos filólogos, filósofos, os que estudam a ontogênese, a história da civilização, a ciência da estética bem como o interesse sociológico e educacional. A base emocional da relação do homem com a sociedade.
Na Psicanálise clínica em consultório é evidente e concordamos com La Porta, a presença e importância das idéias religiosas inconscientes e que se manifestam na prática diária não só das pessoas crentes, mas também de outras que se consideram não religiosas mas que vivem intensamente, sem se darem conta disso, ritos, práticas e temores do tipo religioso. As categorias religiosas do mundo interno, formando parte de um continuum com as religiões existentes no meio sócio cultural, sendo a religião uma parte muito importante da cultura vigente do mundo externo.
Freyre inspirado em Reader acreditava ser possível ao médico iniciar-se na ciência sociológica e ao sociólogo iniciar-se na ciência médica, tornando-se o sociólogo indispensável às faculdades médicas. Além de possíveis consultores de governos e empresas particulares. O Homem pós-moderno, necessitando ser educado médica e sociologicamente mais para o lazer que para o trabalho, a importância de estudos livres humanísticos, de história, filosofia, religião, sociologia, antropologia, economia, ao lado dos exclusivamente técnicos e/ou científicos. Não faltou à Freyre a preocupação com os que sofrem distúrbios mentais, os conflitos entre gerações, os conjugais, os domésticos, entre pais e filhos, jovens e idosos, os problemas do após-guerra. As transformações tecnológicas, as agudas transições socioculturais, os doentes como "membros de família", e a necessidade de "pontes psicossociais". Dos carentes, dos portadores de doenças crônicas e também dos superdotados de origem proletária com vocação para carreiras tidas como que quase exclusivamente burguesas. A diminuição das horas de trabalho, lazer, a criatividade e o grave problema do desemprego.
Teríamos muito mais a dizer sobre o pluralismo de Freyre, mas temos que respeitar os limites da presente apresentação. Desejo apenas lembrar o Freyre do passado Recifense tocado pelo sobrenatural. Sensível aos mistérios da vida e da morte. Centro de encontro de forças místicas, a mágica européia juntando-se as Ameríndias (O Caboclo) e as Negras (O Negro Velho). Dizia não haver contradição entre a sociologia e a história, mesmo que a história deixe de ser de revolução para tornar-se de assombrações como no seu envolvente livro "Assombrações do Recife Velho" no qual a sua incursão nos domínios da assombração causou impacto nos arraiais da "erudição bem comportada" segundo o prefaciador de sua obra, numa das edições, a segunda, José Geraldo Moutinho. As páginas Gilbertianas, elaboraram um roteiro de um Recife mágico, relacionando-se com o reino dos mortos e seus elementos de sociologia cultural. Recife da israelita Branca Dias, perseguida pela Inquisição que deitou muita prata em águas de Apipucos e desde então ficaram mal-assombradas. Freyre amigo de Zefinha-Minha-Fé que contava histórias e estórias mágicas do tempo dos "Framengo" e seus Diabos Vermelhos...
Recife segundo Freyre, a cidade por excelência dos bons psicólogos, e do ensino cientifico da psicologia, inclusive do estudo psicológico das seitas africanas. Recife da Escola de Ulysses Pernambucano pioneiro da psiquiatria social do Brasil e de seus ilustres discípulos. Dos Babalorixás visitados também por Roger Bastide na própria companhia de Freyre. Do Pai Adão do Fundão. Atento aos fenômenos ditos "sobrenormais" no qual era experimentado o grande escritor Aldous Huxley que o visitou em Recife.
Roger Bastide tem um livro que todos conhecem, "Sociologia das Doenças Mentais" no qual estuda a formação e desenvolvimento de uma sociologia das doenças mentais, os problemas de método inclusive interdisciplinar, o lugar da sociogênese, na patogenia dos distúrbio mentais, a ecologia e o estudo das comunidades. A psiquiatria da sociedade global, das profissões e classes sociais, à sociedade industrial, a psiquiatria dos grupos sociais, dos grupos religiosos, dos grupos étnicos, do grupo familiar, do que seria o mundo da "loucura", o "louco e a sociedade".
Freyre, cidadão do mundo, habitou o Recife onde o natural e o sobrenatural se misturam, os mares do Nordeste, as águas do Mar e as águas dos Rios, os Riachos, os Alagados. Em Apipucos, águas habitadas por uma Mãe-d"água, que alguns acreditam ser o fantasma de Branca Dias. Recife, sua ecologia, das árvores mágicas, gameleiras, jaqueiras, plantas que dão felicidade. Os tesouros enterrados. Cidade de influências contraditórias, Européias, Africanas e Indígenas.
Freyre via os problemas brasileiros tendo por centro esse "Homem Nacional" com problemas projetados crescentemente sobre o futuro. Problemas plurais, marcados pela singularidade, de um tipo singularmente nacional de homem. Constituído por uma crescente síntese, de vários sub-tipos étnicos, etários, regionais, socioeconômicos, psicossociais, bio-sociais, todos brasileiros ou em processo de abrasileiramento.
Freyre plural, cujo "Eu" era "um conjunto de Eus" . Sociólogo, Antropólogo, Escritor, Freyre que não sabia definir-se. Que amava sua província, "sedentário e nômade", "conservador e revolucionário". Dizia-se "sensual e místico", voltado "para o passado e preocupado com o futuro", tendo concebido a idéia de um tempo "tribio". Escritor, ou como dizia, "constante aprendiz de escritor". Escritor que se servia de sua formação e do seu saber científico, de cientista sem cátedra universitária, sempre recusada, mas próximo das Universidade do Brasil e do exterior. Freyre Poeta, que aos 11 anos em 1911, escreveu Jangada Triste e anos após a Menina e a Casa para a sua Sônia "e a melhor das mamães..."
"Minha Soninha Maria /
Nesta casa /
Neste mato /
Quero ver Sonia crescer..."
A mesma Sonia hoje Presidente da Fundação Gilberto Freyre, que assina o convite para o ano do centenário do nascimento de Gilberto Freyre, e para a atual IV Semana Gilberto Freyre e a Fundação Joaquim Nabuco presidido pelo Dr. Fernando Freyre, semana coordenada pela antropóloga Dra. Fátima Quintas.
A criatividade de Freyre expressou-se também através das artes plásticas.
Sobre Gilberto Freyre, pintor, assim escreveu Almeida Salles, ressaltando antes o "visualismo forte" de Casa Grande e Senzala. O mundo visual retido na memória do sociólogo - "a imagística de Pernambuco - ficou soterrada debaixo da literatura interpretativa de Gilberto Freyre. O sótão visual foi escancarado e as imagens irrompem, tortas, ingênuas mas, autênticas". Sugeria Salles uma reedição das obras de Freyre ilustradas por essa "imagística agora evaporada depois de tanto tempo retida".
Freyre, como ele próprio declarou em uma de suas entrevistas, era um pensador "desligado de ideologias sistemáticas ou fechadas mas sempre em atividade pensante, analítica, crítica".
Daí a importância da presente Mesa Redonda, certamente inspiradora de possíveis desdobramentos e pesquisas médico-psico-sociológicas, inter e transdisciplinares na virada do século e após o ano 2000.
Sara Riwka Erlich 18 de Março de 1999
Fundação Joaquim Nabuco & Fundação Gilberto Freyre IV Semana Gilberto Freyre Mesa Redonda: "Sociologia e Medicina em Freyre"
Recife, 18 de Março de 1999
Referências Bibliográficas
Basarab, Nicolescu
Bastide, Roger
Bion, W. H.
Erlich, Sara Riwka
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Interdisciplinaridade e Ética
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· A Criança e o Adolescente num País em Desenvolvimento na Virada do Século.
Cumbre Psicanalítico de América Latina, Cartagena, Colômbia, Agosto, 1998.
Freud, Sigmund
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Resumo
Referências Bibliográficas. Nota: MEDICINA E SOCIOLOGIA EM GILBERTO FREYRE. 1. Sara Riwka Erlich - Entrei onde não sabia | E assim fiquei sabendo | Toda ciência transcendendo Juan de La Cruz 1562. As ciências sociais e suas relações com a medicina constituem assunto da maior importância e relevância no momento. A autora estabelece pontes entre as ciências sociais em Gilberto Freyre e outras ciências e arte. Freyre e outros pensadores inclusive contemporâneos, à luz da inter e transdisciplinaridade.
Summary
Bibliographical References. Note: Medicine and Sociology in Gilberto Freyre. 1. Sara Riwka Erlich – I have entered where I didn’t know | and so I began to know | all science transcending. Juan de La Cruz 1562. Social science and its relations with medicine are subjects of important and relevant studies at the moment. The author estabelish connections beetween social sciences in Freyre and other sciences and art. Freyre and other scientist and writers including those who contributed to contemporary thought, under light of inter and transdisciplinary.
Nota:
1 Médica Psiquiatra e Psicanalista
filiada à International Psychoanalytical Association. Membro da Academia Pernambucana de
Medicina. Membro da União Brasileira de Escritores Reg PE e da Sociedade Brasileira de
Médicos Escritores Reg PE. Trabalho apresentado na mesa redonda 'Medicina e Sociologia em
Freyre' na IV Semana Gilberto Freyre promovida pela Fundação Joaquim Nabuco e pela
Fundação Gilberto Freyre (Recife, 18 de Março de 1999 ).
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Fonte: ERLICH, Sara Riwka. Medicina e sociologia em Gilberto Freyre. Recife, 18 mar. 1999.
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