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Assinatura de Gilberto Freyre
Palestras  



A PRESENÇA DA MULHER NA OBRA DE GILBERTO FREYRE


Fátima Quintas
(pesquisadora Fundação Joaquim Nabuco/ Fundação Gilberto Freyre)

As horas consumidas - os olhos gastaram-se mirando vidas -- transportam-me a épocas outras. Ouço o tic-tac do relógio a avançar sem tréguas. Meus sonhos alados não se cansam de inventariar-me. Moro no ventre da noite./ Sou a jamais nascida/ E a cada instante aguardo a vida (Meireles, 1994, p. 286 ). Essa vida que não é só minha. Sim, de todas nós, mulheres, em busca do que fomos, do que somos, do que seremos. Qual a nossa biografia, o que vem de longe, de minaretes vistos por binóculos ou por memórias que nos antecederam? E depois da memória vem o tempo./ trazer novo sortimento de memórias (Drummond, 2001, p. 43). Serei eu uma ilha estampada neste vasto mundo drummondianamente poetizado? Tenho apenas duas mãos/ e o sentimento do mundo,/ mas estou [cheia de reminiscências],/ minhas lembranças escorrem/ e o corpo transige ( Drummond, 2001, p. 154). Não. Jamais me percebi como uma ausculta solitária. Sou síntese de tempos que se alojam nos escaninhos mais secretos da minha consciência ou da minha inconsciência. Tocar no que parece intangível substancia a grande ventura de Gilberto Freyre. Com paciência bíblica, astúcia de menino treloso à procura dos Caminhos de Swann, esconde-se por trás da cortina da casa-grande, escuta, vê de olhos abertos ou de esguelha, intui, foge de vez em quando do claustro protetor, recua, avança, ouve de novo, sente o cheiro dos temperos da cozinha, prova do doce de caju borbulhando nos panelões, percebe os sussurros clandestinos dos amores e dos feitiços praticados ao balanço da rede, acompanha o choro da vela queimando no santuário de luz votiva, solidariza-se com a sinhazinha deambulando sem destino, observa a sinhá-dona arrastando seu corpo pesado e molengo, aproxima-se do leito nupcial forrado com colcha de renda portuguesa... Por entre o véu transparente de voile, Freyre disseca a intimidade da família patriarcal. Nada lhe escapa. Ele está lá. Atento. Psicanaliticamente perscrutando: as tagalerices, as falas pausadas, os comuns desentendimentos, as brigas truculentas, os intermezzos, os silêncios... Não pestaneja. Empaticamente se imiscui na intercalação de um eu para ser outros eus. Um mimetismo que abriga a fonte inesgotável do subjetivar. Compreensão. Intuição. Percepção. E através desse olhar, nu de preconceitos, afaga a alma feminina. Mistura-se Freyre aos salões de dias findos. A mulher valsa timidamente, obscurecida na sua até então História de Silêncios.

Descubro um Gilberto aliado ao feminino, seguramente inquieto diante das cenas que vão desfilando à sua frente. Eis o patriarcalismo por inteiro, sem os eufemismos que porventura embacem as lentes de apreensão. Em Freyre cresce um sentimento de casa quase uterino, alguma coisa freudiana que o faz irmanado à intimidade, ao particular, ao espaço privado. (...) Aos seis anos fugi de casa para conhecer o mundo, voltando à casa vencido pela saudade. Saudade da mãe principalmente. Mas também do pai e dos irmãos, da casa e do próprio gato (Freyre, 1968, p. 43).

Apegado a um intimismo que lhe assegura fundas imersões, permanece no locus da casa-grande e, do foco recôndito, numa discrição aparentada com a noite, escancara a psiquê da mulher. A sua microscópica delicadeza consegue absorver os átomos da sociedade do passado. A vida privada à mostra, despida de paramentos ornamentais: sala, corredores, quartos, cozinha, alpendres, alcovas...

E a fotografia revela: um patriarcalismo que, ao se insular numa concha de masculinidade, veta ao feminino patamares libertadores, porém não o abafa. A posição oprimida da mulher no mundo autoritário do massapê se desvenda, ao modo de Freyre, em um alongamento que incide sobre faces anônimas. Não tão anônimas assim. Mulheres que me são familiares. Seus retratos, no corredor da minha casa, fustigam-me persistentemente como que me cobrando alguma coisa. Apraz-me corresponder à expectativa de um retorno que se instala em mim com reivindicações afetivas e científicas. Mas confesso: tenho medo. Inclino-me a esconder o que não conheço. Afinal, qualquer revelação é temerária. Saber-me protegida por uma armadura, mesmo que artificial, não deixa de ser confortável. Esta atitude não me leva, contudo, a revolver-me por dentro. Rasgo, decidida, as falsas máscaras e me identifico com as estripulias freyrianas.

Da cortina da casa-grande nasce a Nova História. Freyre, principal personagem desse enredo autobiográfico, dispensa os heróis, as fantásticas vitórias, os surtos megalomaníacos, para exaltar a vida diária, os rituais assiduamente repetidos, a liturgia da intimidade. Uma história viva, palpitante, vértebra de circunstancialidades. A essência, o germe, a substância do fenômeno. O espírito da letra, e não a letra sem significados ou significantes. O passado patriarcal encobriu a mulher ou dela fez um objeto tão delicado que a "escanteou" da cena principal com o intuito de resguardá-la num isolamento árabe. Basta recordarmos o fato de que, durante o dia, a moça ou menina branca estava sempre sob as vistas de pessoa mais velha ou da mucama de confiança. Vigilância que se aguçava durante à noite. À dormida das meninas e moças reservava-se, nas casas-grandes, a alcova ou a camarinha, bem no centro da casa, rodeada de quartos de pessoas mais velhas. Mais uma prisão que aposento de gente livre. Espécie de quarto de doente grave que precisasse da vigília de todos (Freyre, 1966, p. 364). Para aquém da cancela do engenho, com portas fechadas a traves de ferro, o chamado sexo frágil "ocultou-se" na insipidez da rotina. Freyre não tarda em afirmar: Mais depressa nos libertamos, os brasileiros, dos preconceitos de raça do que dos de sexo. (...) Os tabus de sexo foram mais persistentes. A "inferioridade" da mulher subsistiu à "inferioridade da raça", fazendo da nossa cultura, (...) uma cultura com muitos de seus elementos mais ricos abafados e proibidos de se expressarem pelo tabu do sexo. Sexo fraco. Belo sexo. Sexo doméstico. Sexo mantido em situação toda artificial para regalo e conveniência do homem, dominador exclusivo dessa sociedade meio morta (Freyre, 1977, p. 127/128).

Da forte citação infere-se a sua angústia em face da submissão da mulher no circuito monocultor, no qual as diferenciações se extremaram para assinalar espaços sociologicamente delimitados. Homem e mulher, um dualismo claro, sem aproximações ou reaproximações que sugerissem factíveis analogismos. As ortodoxias foram bem defendidas nos tempos de outrora. A cana, no ápice do escalão fundiário, desprezou as culturas de sobrevivência, solapando pequenas e humildes lavouras, que não obtiveram sucesso na terra do massapê por completa subserviência ao império açucareiro. O patriarca, no ápice da hierarquia social e sexual, desferiu golpes de mando e de poder, não admitindo a menor das sinuosidades. Asseguraram-lhe uma inscrição indelével: a masculinidade. O corpo escravo para o eito, o pênis lusitano para o prazer, sinalizaram dicotomias fortalecidas por uma engrenagem a serviço do domínio europeu.

Sexo frágil. Sexo belo. Sexo doméstico -- o feminino. Ao se acentuarem as diferenças, gestavam-se culturalmente as desigualdades. E muito ajudava-se a erigir o jogo dos contrários. Foi a gangorra dos contrários que conferiu ao patriarcalismo o oxigênio das glórias. Vitórias de homens sobre mulheres. De homens sobre escravos. De homens sobre crianças - o Brasil patriarcal foi um Brasil sem infância. E a soberania dos homens começava em casa.

Na coreografia doméstica, na bisbilhotice de quem vigia com saudável curiosidade, Gilberto Freyre retalha as relações humanas. A anatomia da sociedade irrompe do lastro invisível do núcleo da família. Casa-Grande & Senzala é uma obra de intimidades, de cotidianos, de confissões guardadas em gavetas bolorentas. Um livro, por excelência, de retiros secretos. Nele o perfil feminino se mostra de dentro para fora e não de fora para dentro.

E o balé das raças ganha dosagens semelhantes de inferioridade. Índia. Branca. Negra. A opressão, a mesma, a depender de um fiel de balança com pesos para mais ou para menos. Uma variação tão-somente de intensidade, não de natureza. A mulher branca, apesar das regalias peculiares ao status superior -- e não foram poucas! --, sentiu-se abafada nas potencialidades existenciais. A índia sufocou os desejos étnico-culturais, quase totalmente usurpados pela mão enérgica do absolutismo açucareiro e da virtuose jesuítica. O sistema a nublou, embora a sua contribuição tenha sido mais valiosa do que a do homem indígena. A mulher índia compendiou o escudo maior da comunidade aborígine. Símbolo de valor econômico, peça fundamental da agricultura, brasão de continuísmo e de prevalência dos costumes atávicos. A negra, pela desfavorável condição de escrava, invalidou-se passivamente diante das nefandas influências do regime: a grande vítima do aparelho patriarcal.

A celebrar a empatia num processo translúcido de compreensão, Freyre submerge na saudade que lhe fez tanto bem. A saudade como método de análise. Uma saudade sem prazo fixo. Um tempo redimido. Um retorno frenético, uma necessidade ontológica de captar o espelho retrovisor, uma entrega completa à la recherche du temps perdu. Proustianamente à procura do tempo perdido feminino.

A complexidade dos subjetivismos da mulher só poderia ser entendida à guisa de uma saudade permanente e de uma renitente busca existencial capaz de penetrar nos labirintos enganadores. Freyre, alma feminina, percepção de criança, anima penetrante. Sem tergiversar, sentencia: Também é característico do regime patriarcal o homem fazer da mulher uma criatura tão diferente dele quanto possível. Ele, o sexo forte, ela, o fraco; ele , o sexo nobre, ela, o belo.

Mas a beleza que se quer da mulher, dentro do sistema patriarcal, é uma beleza meio mórbida. A menina de tipo franzino, quase doente. Ou então a senhora gorda, mole, caseira, maternal, coxas e nádegas largas. Nada do tipo vigoroso e ágil de moça, aproximando-se da figura do rapaz. O máximo de diferenciação de tipo e de trajo entre os dois sexos.

Por essa diferenciação exagerada, se justifica o chamado padrão duplo de moralidade, dando ao homem todas as liberdades de gozo físico do amor e limitando o da mulher a ir para a cama com o marido, toda a santa noite que ele estiver disposto a procriar. Gozo acompanhado de obrigação, para a mulher, de conceber, parir, ter filho, criar menino (Freyre, 1977, p. 93).

Meninas ingênuas, as sinhazinhas, recatadas, receosas de arquitetar brincadeiras infantis, tampouco de devanear amores intempestivos. A comer caldinhos de pintainhos, a deixar no prato um pouco de comida, de modo a evitar a mínima demonstração de gula. Aliás, a evitar qualquer manifestação de vontade. Tolhida, com medo de aparecer, escondendo-se entre as grossas paredes de pedra e cal do engenho. Sob o alvo de muitos olhos vigilantes. Pena que tão cedo se desfolhassem essas entre-fechadas rosas. Que tão cedo murchasse sua estranha beleza. Que seu encanto só durasse mesmo até os quinze anos (Freyre, 1966, p. 373).

De sinhazinhas a sinhá-donas. Casadas, o impacto da realidade. Na missa, vestidas de preto, cheias de saias de baixo, com um véu ou uma mantilha por cima do rosto; só deixando de fora os grandes olhos tristonhos. Dentro de casa, na intimidade do marido e das mucamas, mulheres relassas. Cabeção picado de renda. Chinelo sem meias. Os peitos às vezes de fora. Maria Graham quase não conheceu no teatro as senhoras que vira de manhã dentro de casa - tamanha a disparidade entre o trajo caseiro e o da cerimônia (Freyre, 1966, p. 373). Nos lugares públicos mulheres exageradamente enfeitadas: (...) A julgar por Mrs. Kindersley, que não era nenhuma parisiense, nossas avós trajavam que nem macacas: saia de chita, camisa de flores bordadas, corpete de veludo, faixa. Por cima desse horror de indumentária, muito ouro, muitos colares, braceletes, pentes (Freyre, 1966, p. 370).

As sinhás-donas, ao garantirem o matrimônio, cumpriam a sua última conquista, e já não havia razões plausíveis para o culto à beleza. Aí começava o seu declínio: Ficavam gordas, moles. Criavam papadas. Tornavam-se pálidas. Ou então murchavam (Freyre, 1966, p. 372). Masculinizavam-se. O buço crescia. Perdiam os sueltos de sensualidade. Um ciclo vital perverso. Destruidor. Sem a clave da esperança.

O imperativo masculino destruiu a autenticidade do "frágil" sexo. Quebrou-lhe ilusões ao ovacionar a superioridade do macho. O Brasil consagrou o sêmen com absoluta empáfia. A civilização da cana adotou o emblema da erotização. Outorgou-lhe um valor fundamental, que se espraiou do engenho ao sobrado, do sobrado ao mocambo. O homem travestiu-se de patentes virilizantes com o fim de sufocar os possíveis desejos da mulher. E, assim, verteu impulsos de forma desregrada e autoritária.

Talvez pareça esdrúxula a afirmação de que a casa-grande viveu a síndrome da genitalidade. Mulheres para o prazer do patriarca, submetidas a um sistema autocentrado e falocrático. O português, ao pisar no litoral brasileiro, seduziu-se pelo exótico, indefinido, que o era, na sua bicontinentalidade étnica. Indeciso entre a África e a Europa. Plasticamente maleável diante da pluralidade de povos peninsulares. E o exótico eram a índia e a negra. Os séculos XVI e XVII aplaudiram o cenário de intoxicação sexual, pleno de fantasias e de delírios carnais. O europeu saltava em terra escorregando em índia nua; os próprios padres da Companhia precisavam descer com cuidado, senão atolavam o pé em carne. Muitos clérigos, dos outros, deixaram-se contaminar pela devassidão. As mulheres eram as primeiras a se entregarem aos brancos, as mais ardentes indo esfregar-se nas pernas desses que supunham deuses. Davam-se ao europeu por um pente ou um caco de espelho (Freyre, 1966, p. 103) .

Não mediu esforços o colonizador para exercer a sua função de procriador numa terra imberbe de gente. O Brasil carecia ser povoado. Que os rebentos espocassem no ermo populacional. O lusitano não se fez de rogado. Lançou-se galhardamente na aventura do sexo. Freyre chega a admitir que para cá vieram degredados com crimes relacionados a pequenas transgressões sexuais. Negra, branca ou índia, o corpo foi usado para o gozo e para a procriação. A sensualidade do massapê, escorregadio, vermelho, garanhão, acumpliciou a paisagem patriarcal, produzindo um quadro pulsante de lubricidade. O Nordeste do massapê, da argila, do húmus gorduroso é o que pode haver de mais diferente. A terra aqui é pegajosa e melada. Agarra-se aos homens com modos de garanhona. (...) O massapê é acomodatício. É uma terra doce ainda hoje (Freyre, 1985, p. 6). O nervo central de Casa-Grande & Senzala recai, pois, num doméstico banhado de sexo e de versões voluptuosas.

Freyre declara sem rodeios que não há escravidão isenta de prostituição doméstica. A promiscuidade do sexo faz parte do jogo da dominação. Enquanto as pretas velhas ostentavam o poder ordenador e regulador da casa-grande, à mucama cabiam-lhe tarefas mais "assanhadas", menos virtuosas, principalmente menos "assépticas". Espalhava, com a sua brejeirice, toques de sexualidade por espaços muitas vezes abarrotados de tédio. Correspondeu, na verdade, ao grande amortecedor do doméstico. Tirou partido da ardilosa carabina que lhe presentearam: a fúria sexual do patriarca. A sua bússola de orientação resumiu-se num duelo vulcânico. O corpo foi a circunstância. A circunstância foi o corpo. O autoritarismo não respeitou qualquer regra humanitária. A situação de subalternidade afiançou o caráter da devassidão. O modelo escravista distorceu valores e corrompeu cânones de eqüidade. É absurdo responsabilizar-se o negro pelo que não foi obra sua nem do índio, mas do sistema social e econômico em que funcionaram passiva e mecanicamente. Não há escravidão sem depravação sexual. É da essência mesmo do regime. Em primeiro lugar, o próprio interesse econômico favorece a depravação, criando nos proprietários de homens imoderado desejo de possuir o maior número possível de crias. Joaquim Nabuco colheu num manifesto escravocrata de fazendeiros as seguintes palavras, tão ricas de significação: 'a parte mais produtiva da propriedade escrava é o ventre criador' . (...) Nada nos autoriza a concluir ter sido o negro quem trouxe para o Brasil a pegajenta luxúria em que nos sentimos todos prender, mal atingida a adolescência. A precoce voluptuosidade, a fome de mulher (...) que faz de todo brasileiro um Don Juan não vem do contágio ou do sangue da "raça inferior", mas do sistema econômico e social da nossa formação (Freyre, 1966, p. 341, 345).

Ora, num ambiente de ufanismo sexual, nada mais natural que excessos ocorressem. Ademais, o ócio representou a flâmula do patriarcalismo. O senhor de engenho não tinha muito o que fazer, a não ser dar ordens. O regime consagrou o descanso, a lerdeza, a preguiça e, conseqüentemente, o erotismo. Diga-se de passagem que o ócio, quando bem canalizado, é o melhor celeiro de criatividade. Quanto mais escravos do senhor de engenho, maior o ócio, e mais larga também a lúbrica imaginação. Uma relação de causalidade entre o poder econômico e o desadoro sexual. O homem era quase que apenas um "membrum virile". Mãos delicadas de nada fazer. Mãos de mulher. Pés bem tratados e poupados de tanto serem levados em rede, de um lado para o outro. Pés de menino. Só o sexo arrogantemente viril. (...) Cada branco da casa-grande ficou com duas mãos esquerdas, cada negro com duas mãos direitas. As mãos do senhor só servindo para desfiar o rosário no terço da Virgem; para pegar nas cartas de jogar, para tirar rapé das bocetas ou dos corrimboques; para agradar, apalpar, amolegar os peitos das negrinhas, das mulatas, das escravas bonitas dos seus haréns (Freyre, 1966, p. 465).

Nesses vagares, as conjecturas sensuais correram frouxas e construíram imensos castelos orgiáticos, até porque não puderam construir castelos pantagruélicos - a alimentação no período colonial e pós-colonial não adjetivou nenhum cerimonial gastronômico. A mesa da casa-grande foi farta em açúcar, não em nutrientes. Tudo concorreu para que a clandestinidade de encontros epidérmicos imperasse. Os casamentos eram encomendados, prevalecia a endogamia, casava-se para ajustar estruturas familiares em base de parentesco, de consangüinidade e de dotes econômicos. O patrimônio referendou um bem que deveria ser preservado. Isso fez com que mulheres e homens, de um modo geral, não se casassem com quem desejavam. Uniam-se de acordo com a malha endogâmica. O cerco consangüíneo ratificava o alicerce familiar e garantia o continuísmo do fausto econômico. A circularidade das mulheres girava em torno do coeso figurino endogâmico. Do casulo privado vicejaram todas as ramificações. O Brasil originou-se sob a hoste da família patriarcal, endogâmica, falocrática, cristocêntrica.

As mulheres firmavam laços matrimoniais muito cedo, ainda verdes de juventude, aos 12, 13, 14 anos. E com maridos 10, 15, 20 anos mais velhos. Sisudos, circunspectos, empavonados de tantas magnificências. Bigodudos -- os homens sempre usavam barbas e bigodes no período colonial, sendo durante muito tempo adereço significativo de virilidade. Bacharéis de bigodes lustrosos de brilhantina, rubi no dedo, negociantes portugueses redondos e grossos; suissas enormes; grandes brilhantes no peitilho da camisa, nos punhos e nos dedos (Freyre, 1966, p. 364). Com filhas de 15 anos em casa, já era hora de rezar para Santo Antônio. Antes dos 20 anos estava a moça solteira. Nada pior do que uma filha encalhada, a chorar o seu malfadado destino. As promessas aumentavam. As exigências diminuíam. O olhar triste da sinhazinha agudizava-se. Quando Santo Antônio não atendia ao pedido, a sua imagem ficava de cabeça para baixo, penando dentro do santuário redentor. Ainda hoje nas velhas zonas rurais, o folclore guarda reminiscência dos casamentos precoces para a mulher; e a idéia de que a virgindade só tem gosto quando colhida verde. Diz-se no interior de Pernambuco: Meu São João, casai-me cedo,/ Enquanto sou rapariga,/ Que o milho rachado tarde/ Não dá palha nem espiga ( Freyre, 1966, p. 372).

Após a espaventosa festa do casamento -- que podia durar até 7 dias, ocorrendo, inclusive, o rapto da noiva -, advinha a expectativa de ser mãe. Um filho atrás do outro. Envelhecimento precoce, excesso de lipídios, matronas desleixadas. Ou morte prematura. Os partos se responsabilizaram em ceifar corpos ainda vibrantes de vida. A morte banqueteou-se entre mulheres e crianças, os anjinhos recém-nascidos. E o homem casava duas, três vezes. Com parentes próximos. Irmãs da falecida, primas ou sobrinhas. Sempre a acomodar o fantasma da endogamia.

O patriarcalismo não suportou solteironas nem celibatários masculinos. Nos sobrados, a maior vítima do patriarcalismo em declínio (com o senhor urbano já não se dispondo a gastar tanto como o senhor rural com as filhas solteiras, que dantes eram enviadas para os Recolhimentos e os conventos com grandes dotes) foi talvez a solteirona. Abusada não só pelos homens, como pelas mulheres casadas. Era ela quem nos dias comuns como nos de festa ficava em casa o tempo todo, meio governante, meio parente pobre, tomando conta dos meninos, botando sentido nas escravas, cosendo, cerzindo meia, enquanto as casadas e as moças casadouras iam ao teatro e à igreja. (...) Era ela também quem mais cuidava dos santos. Sua situação de dependência econômica absoluta fazia dela a criatura mais obediente da casa. Obedecendo até aos meninos e hesitando em dar ordens mais severas às mucamas (Freyre, 1977, p.126/127).

A Primeira Comunhão consignava o terrível distintivo da adultização. Um cruel rito de passagem. Aos nove ou dez anos estavam moças. Faziam então a primeira comunhão. E era um grande dia, o de vestir a meninazinha o vestido comprido de comungante, todo de cassa e guarnecido de folhos, o corpete franzino, a faixa de fita azul caindo atrás, em pontas largas, a bolsa esmoleira de tafetá, o véu de filó, os sapatos de cetim, as luvas de pelica, o livrinho de missa encadernado em madrepérola (Freyre, 1966, p. 160,161). Prontas para o matrimônio. Purificadas pelo sacramento. E ansiosas em arranjar, logo, logo, logo, um bom partido.

Meninos copulando igualmente cedo e orgulhando-se de exibir no corpo a mancha da sífilis, escudo de virilidade. A casa-grande se envaideceu de filhos sifilíticos, porque lídimos representantes de uma segura masculinidade. Indubitáveis machões, artificialmente preparados para se locupletar da honra de serem homens até debaixo d'água. Gostaria de frisar, embora não tenha tempo para me estender neste item, que a tirania sobre o masculino traduz-se numa intolerável violência, com requintes preconceituosos, às avessas, é claro. Enquanto à mulher se cobrou a sublimação, ao homem foi cobrada a louvação sem freios de uma tempestade libidinosa.

Na exaltação do falo o cristianismo em muito colaborou. Aceitou a superlatividade do homem sobre a mulher e, mais ainda, "legitimou" a clandestinidade, acobertando-a como uma prescrição de efeito indiscutível. Para grandes males, grandes remédios, já diz o provérbio popular. O mal maior era a falta de gente num país despovoado, cuja dimensão geográfica espalmava-se sobre áreas desabitadas. O certeiro antídoto estava na fecundidade desbragada. Para tanto, o cristianismo se soldou em argumentos tão contundentes que permitiu recrudescerem sofismas ilusionistas. A Igreja "aprovou" os desmandos sexuais. Que as mulheres se preparassem para atender a vontade de Deus numa terra de apelos à fertilidade. O cristianismo lírico e sensual anestesiou-se em receitas muito bem adequadas às reivindicações sociais.

Não diria que o cristianismo concorreu como elemento causal à exacerbação da libido, mas em muito favoreceu a linguagem da sexualidade. A trama é fácil de ser entendida. Se o Brasil precisava de gente, procriar era a ordem do dia. A ação colonizadora reclamava um laissez-faire sexual. E o cristianismo não se entronizou em dogmas clericais. Ao contrário, possibilitou a criação de ícones lascivos no imaginário de uma gente já propensa ao hedonismo. Arquitetou um clima de anuência aos intercursos sexuais. Tudo isso se deu dentro de convenientes ajustamentos. A religião estimulou os amores em alcovas proibidas. Colonizar foi sinônimo de povoar. Assim, urgia maquiar a libido com cosméticos fesceninos. O cenário realçou, de maneira subliminar, o erotizante: doces fabricados por freiras com nomenclaturas sedutoras (baba-de-moça, papo de anjo, manjar dos deuses, suspiros, beijos, olhos de sogra, barriga de freira, casadinho ... ); festas em Igrejas, quermesses, namoros, flertes, tudo com a bênção de Deus. Que melhor mensageiro do amor poderia haver? A sexualidade ganhou a dimensão do quase sagrado, afastando-se da pecha profana. O Brasil patriarcal se encharcou, com legitimidade "divina", do sêmen salvador.

Conclamada à tarefa de fecundar, a mulher viveu à margem do poder, acanhada num analfabetismo discriminador: o Brasil de ontem, por exemplo, foi um Brasil sem diários de mulher, o que em muito dificultou o seu estudo, queixa-se Freyre. Creio que não há no Brasil um só diário escrito por mulher. Nossas avós, tantas delas analfabetas, mesmo quando baronesas e viscondessas, satisfaziam-se em contar os segredos ao padre confessor e à mucama de estimação; e a sua tagarelice desenvolveu-se quase toda nas conversas com as pretas boceteiras, nas tardes de chuva ou nos meios dias quentes, morosos (Freyre, 1966, p. XLIV). O confessionário representou uma peça psico-sociológica inestimável na rotina da mulher. Em nome da bênção purificadora do pecado, muita loucura foi sanada. Confessando-se, desintoxicavam-se. Purgavam-se. Era uma limpeza para os nervos e não apenas para as suas almas ansiosas do céu onde as esperavam seus filhinhos anjos gritando "mamãe" "mamãe" (Freyre, 1977, p. 94). O confessionário catalisou um eficiente meio que a mulher patriarcal utilizou para descarregar a consciência e libertar-se um pouco da opressão do pai, do avô ou do marido sobre a sua personalidade. (...) Por ele teria escoado muitas ânsias, muitos desejos reprimidos que doutro modo apodreceriam dentro da pessoa (...) recalcada" (Freyre, 1966/1977, p. 120, 94).

Ainda que aprisionando um grito surdo na garganta, a figura feminina revelou-se de extrema importância na neutralização de um sistema autoritário e arrogante. O instinto de maternidade avantajou-se numa terra de muitas mães: a mãe branca, a mãe preta, a solteirona triste a embalar filhos que não eram seus. A mãe preta consignou a ama de leite por excelência. Incapazes de amamentar por dificuldades orgânicas, as portuguesas declinaram do gesto universal e gratificante de dar leite. E a mãe preta galgou posições de destaque na casa-grande. Lugares de verdadeira honra.

A negra patenteou o fiel da balança de uma estrutura doméstica em formação, ou seja, ainda fragilizada nas suas estacas de sustentação. Dotada de excepcionais habilidades domésticas, soube consolidar a esfera familiar com uma sensibilidade muito sua. Amaciou as palavras reduplicando as sílabas, de dói para dodoi, de Antônias para Toninhas, de Teresas para Tetés, de Albertos para Bebetos.... Suavizou o imperativo na invocação à súplica. Do dê-me para o me dê. Do tom autoritário para a quase prece do me faça isso. E mais: amolegou a comida, arrebatando-lhe as espinhas para ofertar ao ioiô ou à sinhazinha uma comensalidade de fácil degustação. E não ficou por aí: foi a imbatível contadora de histórias que, no ambiente patriarcal, se vestiram de uma quase legalidade. O Akpalô é uma instituição africana que floresceu no Brasil na pessoa de negras velhas que só faziam contar histórias. Negras que andavam de engenho em engenho contando histórias às outras pretas, amas dos meninos brancos ( Freyre, 1966, p. 355)

Toda essa ternura se cruzou com a feminilidade num xadrez cromático de sentimentos e emoções. A mulher amornou o que havia de ebuliente no caldeirão despótico. E o Maternalismo abrandou as durezas do patriarcalismo. Não é sem razão que o culto à Virgem Maria foi e continua sendo, no Brasil, exageradamente reverenciado, visando a mitigar a ortodoxia de paradigmas monocórdicos e intransigentes.

À derrota histórica da mulher, como se pode deduzir, Freyre reagiu vigorosamente. Entendeu-a como resultado de distorções sugadas da ação discriminadora do sexo já antecipadamente apelidado de frágil. A mulher ressurge, na análise freyriana, de um vazio antropológico injustificado, um silêncio lamentavelmente validado pela omissão de estudos que não a contemplaram. Ignorada durante séculos, o seu papel, estranhamente esquecido, é resgatado ainda na década de 30 pelo escritor pernambucano. Mesmo no ostracismo, a voz feminina não se cansou de balbuciar uma ode muda. A obra de Gilberto Freyre resulta numa bela partitura de feminilidade. De exaltação à mulher. De brinde à sua inarredável vontade de existir.

E o olhar de Gilberto, agora confortavelmente sentado na vetusta sala do engenho, atravessa o tempo e chega até nós. Diáfano como as suas palavras. Às vezes doces, edulcoradas. Às vezes fortes, com tintas carregadas. Mas exuberantemente calorosas na significação e na re-significação do modo de viver das mulheres de antigamente.

Não é difícil com ele enxergar. Então eu vejo. Vejo a cancela do engenho se destravando para a passagem do patriarca. Vejo os lustres se acendendo para os jantares pomposos. Vejo os leques abanando mulheres enfeitadas, longos e rodados vestidos, espartilhos a adelgaçar a cintura, cabelos presos em penteados engenhosamente sofisticados... Vejo rostos refletidos nas conversas corriqueiras. E entre a multidão de rostos, vejo o meu. Um tanto atordoado pelo cativeiro que serviu para emudecer a vida de nossas tataravós, de nossas bisavós, de nossas avós...

Uma ancestralidade que não pode ser negada porque carrega o tálamo da nossa identidade. Sou parte do fio de uma meada que vai se deslindando lentamente. Um novelo acolhedor e imbricado de heranças, legados, biografias. A tecelagem continua a enlear a sua trama. A coreografia do bordado reclama que os bilros da malha acompanhem o desenho do passado. Não basta apenas prosseguir. Mas prosseguir com a consciência da temporalidade que nos habita.

E, como Cecília Meireles, concluir: Que procuras? Tudo. (...) Não ando perdida. (...) Levo o meu rumo na minha mão (Meireles, 1994, p.252,253)

Casa-Grande das Ubaias
Recife, 10 de março de 2002

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Fonte: QUINTAS, Fátima. A presença da mulher na obra de Gilberto Freyre. In: Semana Gilberto Freyre: Os vários Gilberto, 6, Recife, 2002.

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