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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Periódicos Científicos  



CULTURA BRASILEIRA


CONSELHEIRO GILBERTO FREYRE - Sr. Presidente, Srs. Conselheiros: Sou dos que consideram João Ribeiro, cuja obra está merecendo a inteligente atenção do diretor da coleção "Dimensões do Brasil", Híldon Rocha, coleção que acaba de reeditar um dos livros desse mestre admirável, mais completa figura de scholar que já abrilhantou a cultura brasileira. Ninguém que tenha juntado, como João Ribeiro, ao saber profundo e abrangente, uma tão aguda percepção de valores humanísticos, dos filosóficos aos históricos, sem que lhe faltasse sensibilidade aos esteticamente literários. Daí o singular da sua presença em nossa cultura como crítico, além de letras e artes, de idéias, como intérprete da história brasileira, como conhecedor de orientações filosóficas, inclusive as ligadas às ciências do homem, como sabedor de literaturas estrangeiras, como intelectual que, versado em clássicos, conservou-se até ao fim da vida, atualíssimo e em dia com novas teorias, novas pesquisas, novas estéticas, novos artistas, novos escritores. Destaque-se o interesse, que conservou até à velhice, nele sempre verde, por trabalhos de jovens, de desconhecidos, de ignorados. Fui um desses ignorados, ao surgir ao Rio, vindo de velha Província e vindo também de estudos no estrangeiro e ignorado e desconhecido audaciosamente inovador num livro que foi acolhido por João Ribeiro do modo mais lúcido, mais compreensivo, mais inteligente, ele ao lado de Roquette Pinto, a quem devo igual reconhecimento, isto numa época em que tal livro de um provinciano e por alguns chamado "meteco", por Ter estudado no estrangeiro no momento em que esse livro era desprezado por figuras as mais prestigiosas das letras e dos saberes brasileiros. Por Oliveira Viana, por exemplo, a quem muito respeito e cuja obra é para mim uma das mais notáveis já realizadas no sector no Brasil, mas que devolveu imediatamente ao editor o exemplar que este, não o autor, lhe enviou. Igual atitude foi a do igualmente na época muito prestigioso e anos depois meu amigo, Padre Serafim Leite, que considerou que o livro era um ataque aos jesuítas, até que um seu ilustre colega, na revista Études, de Paris, acolheu o livro, quando publicado em francês, acolheu o livro de uma forma não só generosa, porém entusiástica. Igual atitude hostil foi a de prestigioso intelectual baiano, Homero Pires, que se julgou no dever de defender a memória, que eu não ataquei, de Nina Rodrigues, contra ataques meus. De modo nenhum ataquei Nina Rodrigues, trabalhador intelectual digno do maior apreço.

CONSELHEIRO PEDRO CALMON - Não era baiano, era do Maranhão. Não nasceu na Bahia mais lá ocupou um cadeira na Escola de Medicina, que foi a de medicina legal.

CONSELHEIRO GILBERTO FREYRE - Mas se tornou intelectualmente baiano. Ademais, há um equívoco, porque não afirmei que Nina Rodrigues era baiano, eu sabia que ele era maranhense.

CONSELHEIRO CLARIVAL VALLADARES - Permita um aparte, para um pequeno esclarecimento a respeito de Nina Rodrigues. Ele era do Maranhão, por nascimento, em sem a menor dúvida de formação baiana, como muitos dos nortistas, inclusive pernambucanos, formados na Escola de Medicina da Bahia, sede da formação de grande parte da intelectualidade brasileira, como Recife foi para os intelectuais formados na tendência da carreira de direito. Ainda sobre Nina Rodrigues, um outro esclarecimento: o prestígio dele logo se fez e ele prontamente foi endereçado à medicina legal, onde desenvolveu brilhantíssimo trabalho de ordem científica, de formação mais alemã que de outra origem, e com relacionamento muito aprofundado a um outro talento excepcional da Bahia em medicina que foi Alfredo Brito, de quem era cunhado. Por essa aproximação com a Bahia, cresceu Nina Rodrigues como sendo, na sua personalidade, verdadeiramente um baiano.

CONSELHEIRO GILBERTO FREIRE - Muito agradecido pelos esclarecedores apartes.

CONSELHEIRO GERALDO BEZERRA DE MENEZES - Permita-me um aparte, pois eu desejaria de público dar um testemunho, em face à referência há pouco feita por V.Exa. a Oliveira Viana. Fui discípulo de Oliveira Viana, quero afirmar a V.Exa., com absoluta honestidade, que mal egresso da Faculdade de Direito, de cuja turma fui orador, um ano após fui convidado para dar aulas de sociologia no curso complementar, que era obrigatório em todas as unidades de ensino superior, da Faculdade Fluminense de Medicina e de uma outra unidade de ensino superior do meu Estado. Procurei Oliveira Viana, pois o futuro professor da cadeira não tinha nenhum conhecimento aprofundado da matéria, e dou a V.Exa. este testemunho com toda a pureza dos meus sentimentos, Oliveira Viana me indicou então cinco obras básicas para o estudo da formação brasileira, lembro-me bem, "O Brasil Social", do grande Sílvio Romero, escudado nas idéias de Lepleye, que foi o primeiro no Brasil, "Os Sertões", de Euclides da Cunha, a "Organização Brasileira" e "Casa Grande & Senzala", com um entusiasmo extraordinário do Mestre Fluminense por sua obra. E V.Exa. não pode imaginar a alegria com que, faz quinze dias, no máximo, tive oportunidade de ler, estou quase terminando, por incrível que pareça, os dois grossos volumes dessa sua notabilíssima obra, uma das maiores contribuições culturais ao Brasil de hoje, os "Prefácios Desgarrados", e anotei pelo menos seis referências generosas de V.Exa. ao Mestre Oliveira Viana. De forma que eu gostaria de prestar a V.Exa., em nome daquele Mestre fluminense, este depoimento. Talvez esse fato possa ter ocorrido, a que V.Exa. aludiu, mas ele se corrigiu em tempo. V.Exa continua a ser o meu mestre no pensamento sociológico brasileiro e, tenho convicção absoluta, como o aplauso, se vivo fosse, de Oliveira Viana.

CONSELHEIRO GILBERTO FREYRE - Acolho este depoimento do nosso eminente colega com a maior satisfação e também com emoção. Da minha parte, como V.Exa. constatou, lendo os vários prefácios meus, nunca deixei de admirar Oliveira Viana, como nunca deixei de admirar Nina Rodrigues, pois ambos realizaram trabalhos fundamentais para a cultura brasileira. Apenas tive que discordar dos dois quanto a orientação básica, que afetam o próprio futuro brasileiro, quanto à miscigenação. Tanto Oliveira Viana como Nina Rodrigues desconfiavam da miscigenação brasileira. Mais do que isso, pretendiam que o negro fosse biologicamente inferior ao branco. Foi neste sentido que aquele meu livro, na época inovador, e até revolucionário, recebido de maneira tão lúcida por João Ribeiro, foi neste particular que aquele livro representou de fato uma pequena revolução intelectual no Brasil. Novamente, meus agradecimentos ao seu aparte, que é um depoimento valioso.

Concluo salientando, mais uma vez, no grande Mestre, no mestre de mestres e mestre de jovens, que foi João Ribeiro, essa sua virtude de dispensar uma particular atenção aos autores jovens, aos ignorados que apareciam, aos desconhecidos que se revelavam.

Era o que tinha a dizer.

CONSELHEIRO DEOLINDO COUTO - Sr. Presidente, quanto a Nina Rodrigues, quero dizer que esse grande maranhense nasceu na cidade de Vargem Grande, que visitei para conhecer as origens desse notável legista, por quem eu tinha grande admiração, sobretudo depois que Afrânio Peixoto o exaltou como chefe dos legistas brasileiros. Nina Rodrigues, maranhense de origem, chegou à Bahia, em cuja Escola se formou e foi professor, mas ensinando clínica médica e somente depois se tornou legista, pois a essa altura era possível exercer simultaneamente essas duas atividades, que aliás vimos exercidas por outros legistas, como Estácio de Lima, na Bahia. O que se passou com Nina Rodrigues foi alguma coisa de semelhante àquilo que ocorreu com o nosso alagoano Artur Ramos, que foi meu colega de turma de turma e, sendo alagoano, se tornou um grande legista na Bahia. De modo que, quando falamos na escola baiana de medicina, devemos incluir Nina Rodrigues e Artur Ramos.

(Notas taquigráficas da sessão plenária de 8.3.1979)



Fonte: FREYRE, Gilberto et alii. Cultura Brasileira. Boletim do Conselho Federal de Cultura. Rio de Janeiro, a. 9, n. 34, p. 95-98, jan./mar. 1979.

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