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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Periódicos Científicos  



SUGESTÕES EM TÔRNO DO DESAFIO AMAZÔNICO AO BRASIL DE HOJE


Sabe-se do extremo de empatia atingido - atingido de modo magnífico - por Miguel de Unamuno com relação à Espanha: o de a Espanha, quando em dias de crise ou de angústia, doer-lhe como se fôsse parte viva e até física do seu próprio ser. O imensamente maior parte do imensamente menor, seu simples veículo.

Se é possível a identificação de um escritor ou de um sociólogo com as dores ou as angústias do seu país, por que não com os grandes esforços nacionais animados de esperanças em futuros também grandes? Como os problemas nacionais a reclamarem grandes soluções possíveis? Como os também grandes desafios - como diria o Professor Arnold Toynbbe - de uma natureza ainda quase virgem a uma cultura já nacional empenhada em ser autênticamente nacional nas suas atitudes e nas suas criações?

Assim é o Brasil para muitos de nós, brasileiros de hoje: problema, inquietação, esperança. Assim é, dentro do Brasil, para não poucos brasileiros, a imensidade amazônica: desafio de trópico do mais cru - e ainda um tanto pré-nacional - a uma cultura já nacional.

Com seus vazios só aparentemente quase lunares - na realidade, há séculos, partes sensíveis, embora distantes e agrestemente verdes, infernalmente verdes, até, de todo brasileiro - a Amazônia reclama agora, dos brasileiros, esforços mais sistemáticos, no sentido de sua maior integração no todo nacional de natureza e de cultura. É uma imensidade que nos vem doendo, inquietando, preocupando e, ao mesmo tempo, nos fazendo pensar em grandes futuros. Êsses seus verdes, até agora, para o Brasil, quase estéreis - tão breve foi o episódio do esplendor da "borracha do Pará" -, são agora desafio imediato: já não se pode de todo dar tempo ao tempo.

A Amazônia não está deixando despertar em nós, brasileiros, ao lado de preocupações, entusiasmos pelo que o seu desafio contém de valioso e até precioso para possíveis grandes futuros brasileiros. É o momento de, com relação aos seus problemas, juntarmos às preocupações êsses entusiasmos pelas possibilidades. Isto sem nos iludirmos, é certo, com eldorados. Nada, porém, de deixarmos de considerar previsíveis acréscimos, ao todo brasileiro, de valôres de uma grandeza que só nos poderiam vir de uma virgem Amazônia, depois de fecundada. No que o tema adquire inteiro valor como objeto de todo merecedor da consideração da parte de uma novíssima sociologia surgida na França com o notável trabalho de Paul-Henry Combert de Lauwe, Pour une sociologie des aspirations. Elements pour des perspectives nouvelles em sciences humaines. Uma sociologia em que as "aspirações realizáveis" são consideradas como objeto de estudo, a parte das "necessidades", embora, em vários pontos, os dois objetos se confundam.

A Amazônia brasileira interessa, e muito, não só ao homem apenas moderno, como à humanidade já pós-moderna, como tema de caráter universal, sem deixar, entretanto, de ser uma preocupação ou uma responsabilidade principalmente brasileira: ou do brasileiro de hoje, que seja também um brasileiro de sempre; ou tríbio nos tempos - passado, presente, futuro - que simultâneamente viva. Uma preocupação nacionalmente brasileira, a que o sociólogo ou o antropólogo ou o psicólogo não pode conservar-se estranho. Pois é telúrica ou ecológica no seu modo de ser existencialmente, fisicamente, biològicamente brasileira. Brasileira sem que essa condição existencial de brasileiridade anule o essencial, mais abstrato que concreto, de sua universalidade.

A Amazônia - acentue-se - é alguma coisa de particularmente vital para o homem brasileiro de sempre, dentro do de hoje: o de hoje como tipo de homem vivente e convivente em têrmos que, sendo existencialmente nacionais, de vivência e convivência, não deixem de ser pan-humanos nos seus aspectos essenciais. São têrmos, êsses, que, por serem nacionais - repita-se -. não deixam de ser potencial ou essencialmente universais ou pan-humanos: mas que, para serem assim essencialmente universais, ou pan-humanos, nem precisam nem devem renunciar à sua condição existencialmente básica de nacionais ou de brasileiros.

Quem toca na Amazônia brasileira de agora toca em todos êsses complexos, que de nacionais se estendem a pan-humanos. Toca em todos êsses tempos. Precisa de pensar em têrmos grandiosos sem esquecer-se, como é tendência de certos monumentalistas em questões de planejamento social, de necessidades aparentemente pequenas de parte de populações também aparentemente desprezíveis, comparadas com a mundial; ou de urgências imediatas que, para outros, não deveriam contar em confronto com as solicitações de futuros tidos por absolutos em sua importância, tanto no tempo como no espaço. Futuros a que as mesmas urgências devessem ser simplistamente sacrificadas, da mesma maneira que, segundo certos técnicos em planejamento, ao objetivo puramente econômico deveriam ser sacrificados outros aspectos dos complexos sociais e das suas ecologias; e à promoção do bem-estar físico de populações, sacrificada quanto seja menos físico e como que - para êles - mais platônico na condição humana. Inclusive o que nas ecologias socioculturais, sobrepostas às físicas, relaciona-se com os valôres de que passem a depender equilíbrios nacionais de convivência.

Nenhuma palavra hoje mais em voga, em autores europeus e, principalmente, norte-americanos que versem assuntos sociológicos ou sociais, do que esta: ecologia. Entretanto, no Brasil, é palavra que há anos empregamos, e da qual temos até abusado, autores voltados para os mesmos assuntos, no empenho de resistirmos a uma passiva adoção de soluções e de métodos estrangeiros no trato de problemas brasileiros de vivência e de convivência humanas, inseparáveis, para os ecologistas, das suas relações com ambientes totais e com espaços regionalmente condicionados em que se desenvolvem, como formas sociais, essa vivência e essa convivência. Daí a atualíssima expressão "política de ecologia" para definir a necessidade de serem encaminhadas as políticas nacionais para atitudes, métodos de ação e possíveis soluções que correspondam a situações ecológicas, em vez de se fazerem à revelia dessas soluções e conforme um abstrato universalismo, soar familiarmente a ouvidos brasileiros. No Brasil, essa orientação ecológica em assuntos sociais é contemporânea da de Mukerjee, na Índia, e da de Bews, na África do Sul, harmonizando-se antes com a dêles que com a da chamada Escola de Chicago - menos concreta no seu ecologismo - e talvez os excedendo, como já notaram antropólogos anglo-americanos, um dêles o Prof. Edmonds, na atenção dada ao aspecto telúrico das situações ecológicas. O livro Nordeste, de 1937, que sirva de exemplo dessa antecipação brasileira a um conceito não só espacial como temporal - telúrico - de ecologia, que é aquêle pelo qual principalmente procuram se orientar modernos sociólogos, antropólogos, cientistas políticos, adeptos de "política ecológica".

O mesmo, aliás, poderia dizer-se, de passagem, da antecipação brasileira a um hoje também muito em voga conceito de rurbanidade, como corretivo de excessos de entusiasmo, tão de dias ainda recentes, e já avelhantados, da parte de progressistas lineares. Progressistas quase absolutos na sua adesão a soluções vertical e maciçamente urbanas, ou urbanóides, para aquêles desenvolvimentos humanos tornados possíveis pela mecanização, quando não pela automação, de lavouras ou de atividades rurais.

Ninguém ignora quanto se vem acentuando, em nossos dias, a tendência para soluções de certos problemas de convivência humana que sejam soluções antes horizontais do que verticais, com o desafôgo de centros intensamente urbanos e a ocupação de espaços rurais através de formas rurbanas, isto é, mistas de rural e de urbano, de vivência humana e de relações de grupos sociais com a natureza. Com terras, águas, paisagens, resolvendo-se, em grande parte, por êsse meio, problemas de poluição de águas e de ar - outros problemas atualíssimos - favorecidos por descontroladas concentrações urbano-industriais em espaços angustiosos.

Já há quem fale numa "nova era rural", como acaba de lembrar, em pequeno e lúcido ensaio publicado em Lisboa, o escritor português, tão atual nos seus conhecimentos de assuntos sociais, Antônio Quadros. Nas suas palavras, referindo-se principalmente a tendências da parte de consideráveis grupos de jovens de hoje, e países superindustrializados e superurbanizados, para viverem em pequenas comunidades rurais, "descobrem os filhos pródigos da civilização industrial que o regresso à era agrária (combatida pelos seus pais e repudiada pelos seus contemporâneos das nações menos favorecidas) é a única forma de manter o homem a sua "humanidade", como um ser livre, um ser solidário, um "ser personalizado e feliz". Assim é que, nos Estados Unidos, "proliferam hoje comunidades agrárias, constituídas por fugitivos da sociedade de produção-consumo e de ciência enfeudada aos técnicos e à tecnocracia, longe dos meios urbanos da exigências burocráticas diárias, do trabalho monótono da fábrica ou da emprêsa". E o comentário do ensaísta Antônio Quadros é êste: não significar tal tendência que "todo o progresso seja vão"; ou que "o desenvolvimento econômico" seja inútil. Nada disso, evidentemente: apenas apontar, "com exemplos à vista, que o desenvolvimento puramente econômico é insuficiente e carecente, engendrando constantemente problemas e crises.

Uma volta absoluta a condições puramente agrárias ou pastoris ou rurais de vida não seria a solução adequada - ou sequer possível - aos ideais de vivência e de convivência da maior parte daqueles jovens de hoje mais desencantados com os valôres, tão em crise, quer das formas puramente urbanas e verticais de vivência e de convivência, quer de bem-estar humano, apenas físico ou econômico. O bem-estar humano representado pela riqueza e pelo confôrto burgueses, contra os quais os chamados "hippies" vêm levantando protestos que, por serem caricaturescos ou burlescos, não deixam de ser significativos. Psicossocialmente significativos. Uma como revivescência do que foi o franciscanismo no século XIII.

A solução para considerável número de jovens de hoje, desencantados com os, para êles, excessos de civilização burguesa, urbana, industrial - jovens que não sejam do mesmo feitio radical nem dos "hippies" nem dos "agraristas edêmicos" - talvez esteja em buscarem, ou criarem para si - constituídos em grupos afins - formas rurbanas de vida. Formas rurbana de trabalho e de ócio.

Admitindo-se que a tendência nesse sentido se acentue, que espaço, no mundo de agora, mais propício, que o amazônico, a tais formas de vida; as procuradas pelos desencantados de confortos urbanos como que em busca de paraísos perdidos? Que o espaço constituído pela Amazônia brasileira? Que aquela imensidade de espaço tropical anfíbio - nada favorável, aliás, a formas convencionais de ocupação agrária?

A Transamazônica vai, talvez, começar a tornar crescentemente habitável, ou domesticável êsse espaço. Um espaço, além de susceptível de ser planejado pelos engenheiros sociais associados aos físicos, e, como tal, atraente para pioneiros animados do afã de desenvolverem, em áreas virgens da presença de civilizados, formas tecnològicamente ordenadas e pós-modernas de vida. Poderão dedicar-se mais a novas atividades de pesca ou de prospecção que às arcaicas, de caráter agrário, aliciante para seus contrários, isto é, para aquêles jovens de hoje desejosos de uma vida mais construtiva e saudàvelmente anárquica, neobarroca, assimétrica, que a representada por modernas formas de convivência urbana dirigida ou ordenada em extremo, nos países superindustriais.

Estas, duas das perspectivas mais ostensivas que se abrem na Amazônia de hoje, a jovens, quer brasileiros, quer não-brasileiros, de dois tipos de desencantados com estilos ou formas apenas modernas de convivência civilizada. Os brasileiros seriam autocolonizadores de um nôvo feitio.

Pode-se sugerir de técnicas de autocolonização do Brasil, a serem agora aplicadas, por uns tantos jovens, à área amazônica, que, revivendo, aliás, os primeiros rumos da colonização portuguêsa da América - primeiros rumos traçados por um intelectual insigne, Diogo de Gouveia, como assessor de um valoroso rei -, tendam a ser como que especìficamente neobarrocas em suas formas mais curvas do que retas. O trópico amazônico - inclusive o trópico amazônico, tão assimètricamente anfíbio - foi, pelas predominâncias de suas formas, como de início se apresentou àquele colonizador: e é como se apresenta na Amazônia, de modo incisivo, ao moderno e ao pós-moderno autocolonizador. É um conjunto de formas da natureza o seu, antecipado à arte, denominada barrôca, em ser, a seu modo, como que ecològicamente barroco. Barroco, ou parabarroco, pelo desordenado da sua ordem curvilínea diferente da clássica, predominantemente retilínea.

Sentiu-o o fitopatologista alemão Konrad Guenther, ao interpretar, como o cientista-poeta que era, as formas da paisagem tropical brasileira como expressões de uma oposição, por vêzes violenta às formas simétricas e clássicas de paisagem européia. E onde essa oposição se revelaria mais forte que na área amazônica? Pois é onde o barroco da natureza brasileira se apresenta mais, não só ostensivamente, como irredutìvelmente, barroco. Como que exige do homem civilizador de suas asperezas agrestes que seja, também êle, barroco no seu modo de procurar realizar essa civilização sem com suas técnicas civilizadoras desnaturar a natureza, destruir o seu eros, estraçalhar os seus ventres geradores. Modo que, para que o masculino fecunde o feminino sem masculino êsse feminino a ponto de destruí-lo, teria que ser o curvilíneo, respeitador do essencial de formas eróticas e de conteúdos maternos. O essencial da ecologia física a ser aproveitado pelo existencial de uma civilização que procure ser socialmente e biològicamente ecológica.

Coincide, de certo modo, com a interpretação, além de científica, poética, de trópico brasileiro mais salientemente representado pelas florestas equatoriais há anos oferecida pelo sábio alemão, a observação, mais recente, de escritor brasileiro tão notável pela sensibilidade como pelo senso crítico: Aleceu Amoroso Lima. Segundo êsse escritor ilustre, o barroco, desenvolvido nos trópicos, viria se fazendo notar não só pela "predominância de côr e de folhagem luxuriantes" como pela preponderância da "linha curva". Interpretação recordada, ainda mais recentemente, por outro escritor também ilustre, do nosso País, o Professor Ariano Suassuna, ao responder, no Seminário de Tropicologia da Universidade Federal de Pernambuco, a pergunta que lhe foi dirigida, sôbre o assunto, pelo coordenador do mesmo Seminário, isto é, se a Amazônia vinha tendo, na cultura nacional, repercussão estética à altura da pujança das formas, que podemos caracterizar como insólitas, de sua natureza. Formas nas quais se extremaria, pelo próprio caráter de sua tropicalidade, definida por Guenther como contrária às noções européias de ordem e de simetria, a presença daquelas linhas barrôcamente curvas, irregulares, por vêzes anárquicas. Precisamente as linhas - note-se bem - que espanhóis e portuguêses, ao acentuarem, durante a Contra-Reforma, sua condição de europeus um tanto não-europeus, se antecipariam em desenvolver, tanto nas suas artes plásticas como na suas concepções gerais de relações dos homens com as naturezas, tendo daí resultado, em Portugal, o estilo manuelino, na arquitetura, e, no Brasil, um sistema socialmente barroco - ou joanino - de colonização, com a predominância de linhas curvas sôbre as retas, no trato de situações humanas e naturais diferentes das européias. De onde o flexível de relações entre governos gerais e governos regionais; entre tropicalismos e europeísmos; entre formas de natureza e formas de cultura. Entre pedras simplesmente pedras, e as "pedras vivas" de que falava no século XVI Diogo de Gouveia: o primeiro intelectual - repita-se - convocado por um govêrno, a fim de orientar êsse govêrno sôbre o futuro brasileiro.

Flexibilidade, essa, antes barrôca do que clássica, de formas interpenetrantes de natureza e de cultura. Interpenetrantes e dionisíacas, formam um como ballet dançado em espaço e tempo extra-europeus de que viria resultando a singular combinação de diversidade com unidade, característica da formação - ainda incompleta nos nossos dias - do Brasil como grande nação de amplitude continental. É uma amplitude, essa, mais que continental, sob aquela forma de arquipélago cultural fixado, em admirável estudo de sociologia da literatura brasileira a, pelo escritor Viana Moog - aliás, note-se de passagem, um dos três brasileiros de origem nórdica mais seduzidos pelas vivências do Brasil, além de caboclo ou mestiço, especìficamente amazônico; os outros dois tendo sido o Raul Bopp de Cobra Norato e o Gastão Cruls de Amazônia Misteriosa e, posteriormente, de A Amazônia que eu vi e Hiléia Amazônica.



Fonte: FREYRE, Gilberto. Sugestões em torno do desafio amazônico ao Brasil de hoje. Cultura - MEC, Brasilia, 1(2): 116-120, abr./jun. 1971.

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