DO BOM E DO MAU REGIONALISMO
Observou Lafcadio Hearn na Ilha de Martinique
que, entre aquele Ilhéus, isto é, entre os relativamente letrados, o interesse pelas
coisas estava na razão inversa de sua proximidade. A ilha pouco o interessava e menos
ainda o povoado que habitavam.
Em outras palavras: faltava aqueles Ilhéus, e
talvez lhe falte ainda, o senso, a consciência ou o sentimento local que os animasse para
o gozo e para o aproveitamento dos valores próprios, das coisas da ilha, das belezas que
ali se revelaram a Lafcadio Hearn com um tão estranho encanto.
Dominava-os essa tirania da distância que
alucina e perturba de tal modo a visão de certos homens e de certos grupos, que só o
remoto os interessa e os apaixona: as coisas de perto são como se não existissem. E
quando se preocupam com essas coisas é para as plasmar à semelhança do cartão postal
ou do figurino exótico.
Ora, não ha mal algum, antes grande bem ou
vantagem, em viver qualquer individuo ou grupo em contato com os cartões postais, os
figurinos, as fitas de cinema, as revistas, os livros e os jornais estrangeiros. Este
contato é fecundante, excitante, estimulante.
O perigo está na tirania mistica do exótico,
em prejuizo ou com sacrifício, ás vezes, de tão boas tradições locais, de tão boa
prata da casa.
Sob esta tirania do exótico, sob esse
absorvente prestígio mistico da distancia do Rio, sobretudo, cujos cartões postais
constituem para grande número de ideal estético - temos vivido, nestes últimos
anos, certos grupos do Nordeste do Brasil.
Por isto se me afigura tão feliz, ainda que
com um ar melancólico de trem atrazado, a reação regionalista, esta pequena onda que
ora se levanta em Pernambuco.
Menos forte, porém já sensível, será a
consciência municipal ou o espírito de Urbs, que no Recife temos procurado excitar
alguns esquisitões, inimigos do haussmanismo que nos ameaça.
O haussmanismo já reduziu o Rio aquela cidade
- Caravansarai, cuja repercussão sobre um temperamento fino vem agudamente fixada no
Romance do Sr. Moraes Coutinho: "Os Novos Bárbaros".
O Rio, no conjunto de suas avenidas novas e
dos seus Palácios Cosmopolitas, não passará dum amontoado inexpressivo de
construções: imitá-lo será para o Recife o sacrifício da personalidade própria a um
modelo que já em si é incolôr, indistinto, inexpressivo.
Não me parece que seja mau o regionalismo ou
o patriotismo regional cuja ansia é a defesa das tradições e dos valores locais, contra
o furor imitativo. Não me parece que semelhante corrente de sentimento ponha em perigo a
unidade brasileira nas suas raízes ou nas suas fontes de vida.
Cuido que as diferenciações regionais,
harmonisadas, serão no Brasil a condição para uma pátria independente na suficiência
econômica e moral do seu todo.
Escrevia ha anos, no crepusculo, ainda, do
império, o tumultuoso, Arrhythmico, mas ás vezes tão sagaz Sylvio Romero: "A
grandeza futura do Brasil virá do desenvolvimento autonomo de suas provincias. Os bons
impulsos originais que nelas aparecem devem ser secundados, aplaudidos... Não sonhemos um
Brasil uniforme, monotono, pesado, indistinto, nulificado, entregue à ditadura de um
centro regulador das idéias. Do concurso das diversas aptidões das provincias é que
deve sair o nosso progresso".
O bom regionalismo não encontrou ainda no
Brasil que melhor o fixasse ou interpretasse do que Sylvio nesta incisiva meia-página.
Regionalista no bom sentido de permitir a diversidade de aptidões dentro do seu seio, é
por certo a Igreja de Roma, sem que desta variedade resulte sacríficio ou prejuizo para a
sua unidade.
O bom regionalismo está longe, e muito longe,
do mau, que é o separatismo; que consiste na imposição dos interesses locais sobre os
gerais. Este mau regionalismo já tem feito na política e na economia brasileira, com os
mais lamentáveis efeitos.
Pernambuco ou, antes, o Nordeste, deve trazer
á cultura brasileira uma nota distinta, um impulso original, uma criação sua. Aqui, é
a própria paisagem, nos seus valores naturais, que é decorativo ao seu jeito, e a
arquitetura portuguesa adquiriu entre nós, nas "Casas Grandes" e nas
"Casas Fortes" dos engenhos, com a necessidade de defesa e a complexidade do
domínio semi-feudal, um ar próprio e inconfundível. Numa casa de engenho pernambucana
encontrou arquiteto brasileiro Sr. Armando de Oliveira - que é um tão alto e belo
talento - inspiração para o Pavilhão de Caça e Pesca na Exposição do
Centenário.
O Recife mesmo, está ainda cheio de
sugestões dessa ordem, ainda que os arcos sua melhor nota identificadora - tenham
desaparecido para satisfazer caprichos de simetria e de modernismo.
Mas assim como a Cidade do México, depois de
atravessar um período semelhante ao que atravessamos, volta, com Acevedo, Mariscal e
Rivera, ás tradições locais de Arquitetura e decoração, é possível que também o
Recife volta ao espírito e as sugestões do seu passado.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Do bom e do mau regionalismo. Revista do Norte. Recife, n. 2, p. 5, 1924.
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