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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Periódicos Científicos  



DUAS PRESENÇAS SIMULTÂNEAS NO MUNDO MODERNO:
a do açúcar e a do Brasil


O Professor Arnold Toynbee tem razão ao atribuir a imensa importância, que atribui, à viagem transhistórica de Vasco da Gama. Viagem da qual as conseqüências de caráter sócio-econômico e de sentido cultural foram, com efeito, múltiplas. Múltiplas e profundas. Extensas em termos de tempo tanto quanto de espaço. Extensas e revolucionárias.

Só o êxito científico dessa viagem de 1499, completado pelas significativas vitórias lusitanas no Oriente - as marítimas, de Francisco d'Almeida, em Duí, as de Afonso de Albuquerque, em Goa e nas suas adjacências, sobre os egípcios e árabes - bastariam para projetar a figura do português sobre o mundo moderno como um dos principais criadores desse mundo ainda hoje vivo: o moderno só agora em completa transição para outro, posmoderno. O português foi um dos iniciadores de toda uma nova e grande época de experiência humana, da qual o Oriente (quase todo descoberto por esse europeu mais-que-europeu), o Brasil - também por ele descoberto - e o açúcar de cana - por ele introduzido, com decisivo vigor, nos hábitos e nos mercados europeus, seriam elementos tão característicos, pelo seu impacto sobre uma até estão quase insular civilização européia. Três elementos, note-se de início, que, por meios transoceânicos, e através de "mares nunca dantes navegados" levariam a um sistema quase virginalmente europeu de convivência, impactos revolucionariamente não-europeus - principalmente tropicais - de presença humana e, sobretudo, de fermento cultural.

Se esse pioneiro português - pioneiros foi como denominou o historiador inglês Edgar Prestage em livro admirável, aos lusos desbravadores de mares e descobridores de terras - a princípio se deslumbrou, quase somente, com as riquezas do Oriente e se dedicou quase exclusivamente ao comércio europeu-oriental, não tardou, entretanto, que se voltasse também para e por ele o recém-descoberto Brasil. Um Brasil, aparentemente menos rico que as Índias faiscantes de pedras preciosas e de especiarias, porém capaz não só de fornecer à Europa madeira de tinta, a princípio tão explorada por franceses, como de produzir, melhor que as ilhas atlânticas sob domínio lusitano, certo alimento, até então vendido só em boticas como remédio, chamado açúcar. E com o açúcar, fabricado em engenhos, com a cana, plantada em bom massapê, com o canavial cultivado em largas extensões tropicalmente úmidas em Pernambuco e na Bahia mais que nas pioneiras terras de São Vicente, começou a haver no Brasil uma economia sistemática, uma sociedade estável, uma população miscigenada, uma cultura predominantemente européia enriquecida de valores ameríndios e negro-africanos, por um lado, e judeus e orientais, por outro. Valores assimilados pelo colonizador oficialmente Católico, oficialmente monogâmico, oficialmente branco, sem que a essas categorias oficiais correspondessem de todo realidades bio-sociais.

Pois, mais que o seu parente espanhol nos trópicos que descobriu e colonizou, o colonizador português foi, nas terras também tropicais com que passou a identificar-se um pragmático, recorrendo, em sentido por vezes contrário ao dos seus compromissos oficialmente Católicos, éticos, étnicos, à poligamis e à miscigenação e tolerando, mais que outros europeus, infiltrações pagãs no seu Catolicismo.Assim pragmático, ele fez do açúcar a principal base de sua estabilização econômica e bio-social no Brasil; a principal base da projeção do seu comércio americano com a Europa; o principal elemento de comunicação de sua aventura colonizadora numa parte rústica da América tropical - região povoada por ameríndios selvagemente nus e, nas suas culturas, primitivos - com algumas das principais fontes de requintadas civilizações européias e orientais. Foram civilizações, essas, desde o século XVI presentes, através de seus requintes - modas de trajo, adornos de mulher, alimentos e vinhos finos - nas origens daquelas sociedades de hábitos aristocráticos, elegantes, sofisticados que se desenvolveram nos centros ou focos, no Brasil colonial, de povoamento e de cultura, criados e favorecidos por uma bem sucedida agricultura de cana e por um fabrico de bom açúcar. Açúcar de aceitação entusiástica nos grandes mercados da época.

Destaque-se desse bem sucedida lavoura da cana, realizada através do sistema das "grandes plantações", e desse fabrico de bom açúcar, de rápida colocação nos grandes centros consumidores da Europa de então - uma Europa, recorde-se sempre, revolucionada nos seus gostos e nos seus hábitos pelas descobertas ibéricas - que foram triunfos dos colonizadores portugueses do Brasil. Porém triunfos desses europeus mais-que-europeus para os quais concorreram dois elementos extra-europeus inseparáveis dos começos da presença, na Europa, do açúcar de cana como elemento vivamente característico de uma nova época na experiência humana. Experiência que afetaria em algumas das suas bases a Europa civilizada e civilizadora dos séculos XVI, XIX.

Esses dois elementos extra-europeus que o açúcar de cana ligou de modo particularmente efetivo à colonização portuguesa do trópico e dos subtrópicos americanos foram o negro africano, como escravo; o judeu, como capitalista e traficante de amplitude internacional. Isto sem nos esquecermos das contribuições nada despresíveis para o desenvolvimento, no Brasil, de um sistema sócio-econômico apoiado no cultivo da cana e no fabrico do açúcar, que foram o português de origem moura e o oriental de quem os portugueses, no próprio Oriente, assimilaram valores e técnicas que, já introduzidas ou não em Portugal, adaptaram ao Brasil: a telha recurva da arquitetura dos chineses, por exemplo; o cuscus norte-africano; o muxarabi árabe.

Sem essas contribuições não-portuguesas e, até, não-européias, o sistema não só sócio-econômico como, complexamente, de cultura, que, no Brasil, se apoiaria sobre a produção do açúcar, não atingiria a estabilidade, a amplitude, a projeção que atingiu, transbordando no mundo verdadeiramente novo que foi, para a Europa e para outras regiões, a partir do século XVI, o inesperado e até insólito conjunto de relações entre continentes, entre etnias, entre culturas, entre classes, criado pelas descobertas ibéricas seguidas de aventuras colonizadoras nas Áfricas, nos Orientes, nas Américas. O açúcar e o Brasil se tornaram presentes nesse mundo novo como que simultaneamente: O Brasil significando açúcar, o açúcar significando Brasil.

É certo que o pau-brasil já dera aos europeus um novo vermelho para a pintura de tecidos; certo que, desde os começos do século XVI, penas verdes, amarelas, azuis de pássaros brasileiros e peles de animais do Brasil tropical já eram conhecidas por europeus daqueles dias, mais sôfregos de coisas exóticas. O açúcar, porém, marcou o início de uma presença brasileira na Europa que excederia, em muito, em importância comercial, quer o pau de tinta, quer aqueles outros artigos naturais, pitorescos e exóticos, adquiridos ou cobiçados apenas pelos amantes do exótico em artes decorativas de trajo. Mesmo ao competirem com ele a mandioca, o tabaco, o cacau, a batata, o tomate, o açúcar continuaria a se afirmar, durante longos anos, a principal presença brasileira na Europa, só vindo a perder essa primazia na segunda metade do século XVII.

Mesmo, porém, depois de perdida essa primazia, em termos econômicos absolutos, o açúcar continuaria a ser, na Europa a noutras partes do mundo, uma expressão e um testemunho, quer em termos apenas econômicos, quer noutros termos, mais sutilmente culturais, de uma civilização brasileira criada principalmente pelo cultivo da cana e pelo fabrico do mascavo. Expressão e testemunho que nem mesmo a avalanche que seria, no século XIX, o café, como produto-rei, brasileiro, triunfante dentro do Brasil e transbordante noutros países, como afirmação de um vigor já nacional, destruiria ou anularia, para substituir de todo os valores pre-nacionais e nacionais criados, na América portuguesa, pela civilização agrária açucareira, por outra, baseada sobre o café; e que prescindisse da antecessora como modelo de força estabilizadora de sociedade de tipo civilizado e estável nesta parte do mundo. Não prescindiria: sob vários aspectos, a civilização brasileira do café seria uma continuação da do açúcar, da qual assimilaria, além do próprio complexo casa-grande-senzala, ritos sociais de feitio patriarcal por vezes aristocrático.

Não os antecipemos, porém, na consideração deste ponto que envolve problema sociológico interessantíssimo: o da constância ou continuação de formas com substâncias ou conteúdos sociais diversos. Fixemo-nos ainda na anotação daqueles característicos gerais de transformação do ambiente europeu sob o impacto das descobertas ibéricas e da grande Revolução, além de comercial, cultural, que se seguiu a essas ocorrências revolucionárias para os contactos interhumanos e intercontinentais: toda uma série de mudanças, quer nas relações econômicas, quer nos hábitos culturais, dentro das quais o açúcar e o Brasil se integraram, o açúcar, como um alimento que, de artigo raro, passaria a ser, para muitos europeus, de indispensável consumo, o Brasil, como sugestão, transmitida, em grande parte por esse açúcar, a esses mesmos europeus, da existência de uma parte do mundo tão diferente da européia que era como se fosse fantástica. Tanto que Montaigne, numa França já intelectualmente na vanguarda da Europa, não tardaria a elaborar, à base dos primeiros informes a lhe chegarem, do Brasil, sobre os indígenas, toda uma para-sociologia romântica: a de uma sociedade primitiva sob vários aspectos, para ele, ideal, nas suas formas de convivência.

A verdade é que com esses indígenas de longe admirados e, mais que admirados, consagrados como modelos de homens sociais, pelo insigne Montaigne, fora possível a franceses abater árvores de madeira de tinta e capturar aves e animais tropicalmente brasileiros, que, na França encontraram compradores entre os volutuosos de valores exóticos, não conseguiriam os portugueses fundar seu sistema agroindustrial de produção de açúcar. Daí a necessidade, para o esforço imenso, quer daqueles técnicos de origem moura, transferidos pelos portugueses das suas ilhas atlânticas para um Brasil prestes a se tornar produtor, em larga escala, de açúcar, quer de vigorosos negros africanos capazes, como escravos de um trabalho mais sistemático, sedentário, contínuo, que o dos ameríndios. Trabalho que os "nobres selvagens" da concepção de Montaigne, nem como cativos, nem como livres, suportaram de modo econômico. De onde poder dizer-se que, sem o negro não haveria produção de açúcar, em larga escala, no trópico; e sem o açúcar, o Brasil não se afirmaria como cedo se afirmou, a grande colônia de plantação que, dentro de um conjunto de circunstâncias quase de todo ausentes noutras colônias de plantação - holandesas, inglesas, francesas - também cedo se faria anunciar como futura nação, quer autocolonizando-se, quer desenvolvendo maneiras tão suas de ser colônia, que a colônia de início abrasileirou os colonizadores, tornando eles próprios, colonizadores, precursores de autonomia do Brasil sob a forma não só política como sócio-cultural de nação. O que só foi possível, em grande parte, graças à estabilidade social que a produção do açúcar deu a colonos portugueses do Brasil, cedo abrasileirados em "senhores de engenho", lavradores, comerciantes, predispondo-os desde logo à futura condição nacional de brasileiros harmonizados com o seu meio e crescentemente apegados a hábitos e gostos diferentes dos europeus. Atitudes que se comunicariam, várias delas, aos próprios exploradores de ouro e de diamantes nas Minas Gerais.

A civilização do açúcar começou a desenvolver-se no Brasil favorecida pelo início de uma fase revolucionáriamente nova - acentue-se mais uma vez - de relações comerciais entre continentes, até o século XVI - o século desse começo ou desse início - quase isolados uns dos outros. O próprio comércio de escravos, - tão ligado à economia brasileira do açúcar - ao fazer-se de modo sistemático, das Áfricas para as Américas - precedido, aliás, por um tráfico nada insignificante no Norte da África e da Guiné para a Península Ibérica: tráfico, a certa altura, estimulado pelo próprio Infante Don Henrique, por motivos cristianisantes acrescentados aos de interesses sócio-econômicos - foi para o que, de algum modo, concorreu para beneficiar. Com efeito, de tal modo favoreceu esse tráfico um intercurso cultural, ao lado do étnico, entre regiões até então tão separadas como se não fossem parte do mesmo conjunto humano, que passou a significar novo período nas relações interhumanas, interraciais e interculturais. Daí não ser possível ao historiador-sociólogo ou ao antropólogo de hoje, mais esclarecido na sua visão de tempos sociais e de fenômenos culturais, deixar de ver, nessa época e nesse fenômeno, aspectos positivos, ao lado dos negativos, do ponto de vista do desenvolvimento humano através daquela variedade de contactos de diferenças e até de cruzamento de antagonismos que quase sempre resulta em vantagens para o mesmo desenvolvimento: mesmo quando se tem verificado em conseqüência de guerras de conquista ou de submissão de homens a outros homens por meio do trabalho escravo.

Mas não foi só essa variedade de contactos humanos que a Revolução Comercial - Comercial e já Industrial - favoreceu a partir do século XVI, alcançando, com esse favor, a civilização que desde então teve seu começo em terras brasileiras com o cultivo da cana e a indústria e o comércio do açúcar. Outros intercursos foram favorecidos ou estimulados ou ampliados.

É considerável o número de vegetais e de animais úteis, valiosos, que, juntamente com colonizadores europeus e escravos africanos - também eles colonizadores - foram desde então, ou em anos posteriores, introduzidos no Brasil: sobretudo no Brasil econômico e socialmente mais apto a recebe-los e a deles se utilizarem e que era o Brasil açucareiro. Entre os animais, o boi, a galinha e a cabra, o carneiro, o pato, o cavalo - desde logo tão ligados à economia dos engenhos patriarcais de açúcar estabelecidos no Brasil. Também desde logo, ou em anos posteriores, foram transplantados para o Brasil a uva, o trigo, a cebola, a alface,a alfafa, a canela, a laranja, o dendê.

Pode-se sugerir ter sido principalmente à sombra das casas-grandes patriarcais dos primeiros engenhos brasileiros de açúcar que se iniciou o aproveitamento, para o que se constituiria no Brasil, em Portugal e na Espanha, com transbordamentos noutras áreas, numa opulenta culinária e numa opulenta e variada eurotropicais, da mandioca, do milho, da banana, do tomate, do feijão de corda, do peru, além de peixes e crustáceos de novos e, para europeus, exóticos - deliciosamente exóticos - sabores.

Não só a culinária e a doçaria assim começaram a se enriquecer, beneficiadas por toda uma variedade de novos intercursos humanos e de novos contactos culturais, à sombra da civilização desde o século XVI em desenvolvimento no Brasil: também outros requintes passaram a caracterizar o sistema sócio-econômico das casas-grandes completadas pelas senzalas nas terras de cana-de-açúcar. Daí as vantagens desse sistema autocolonizador das áreas de cana-de-açúcar se comunicaria a outras áreas: à do cacau, à do gado, à do algodão e, notadamente, à do café. Foram essas áreas beneficiadas pelo mesmo sistema, tornado possível pela bem sucedida economia do açúcar. Seriam, todas, numa América Portuguesa continuada por um Brasil precocemente nacional nas suas características de ethos, de vida e de cultura, formas de cultura de uma mesma origem. Entre elas, a própria arquitetura das casas-grandes que pode e deve ser considerada expressão básica e original da civilização brasileira do açúcar, representando um tipo arquitetônico ecológico, funcional, eurotropical a que ainda hoje recorrem arquitetos do feitio mais arrojadamente moderno como Oscar Niemeyer, para suas construções neste gênero - a arquitetura doméstica adaptada a constantes e preferências brasileiras de vida íntima e de convivência familiar e harmonizada com uma ecologia tropical. Mas também o móvel - a começar pela rede, logo adotada pelos senhores de engenho nos seus alpendres e hoje, como outrora, válida, higiênica, funcional; o móvel sólido - desde o mais decorativo, mas sempre funcional, de sala de visita e de sala de jantar, feito com as excelentes madeiras da terra - o jacarandá, o vinhático, o condurú - até o mais íntimo, como a gamela para o banho, tornado, na civilização brasileira do açúcar, diário, e realizada tanto nos rios, à maneira indígena, como dentro das camarinhas, com as mucamas lavando as sinházinhas e os meninos, perfumando-os, penteando-os, tirando-lhes os bichos dos pés, dando-lhes - nas sinházinhas como também nos próprios sinhôs e nas próprias sinhás - os cafunés que o sociólogo frances Roger Bastide ligaria, em páginas admirávelmente lúcidas, ao que a civilização patriarcal brasileira, iniciada com a lavoura da cana e o fabrico do açúcar, desenvolveria de volutuoso, sensual, de requintadamente erótico, na sua sexologia familial.

Isto, sem termos destacado, até aqui, os aspectos menos materiais, ou menos ostensivamente físicos, das características de uma civilização de novo tipo como as que, quase sem se deter numa condição passivamente colonial, passou a tomar, no Brasil, a cultura aqui fundada pelos portugueses. Cultura desde o século XVI iniciada menos como reflexo de uma iniciativa estatal de reis ou teocrática, da Igreja ou de bispos ou de abades, que à sombra principalmente, das casas-grandes dos engenhos patriarcais de açúcar, com reis, bispos, abades, Jesuitas, Franciscanos, como seus valiosos contribuintes. Porque se considerarmos mesmo de passagem, esses significativos aspectos, tocaremos num mundo de valores que, através da repercussão da civilização brasileira do açúcar, das áreas por ela inicialmente dominadas - e de São Vicente, a de Pernambuco e adjacências, a do Recôncavo baiano e adjacência, a do Maranhão - noutras áreas, se tornaria parte da civilização brasileira gestaltianamente total: a já percebida, por observadores estrangeiros, dentre os mais argutos, desde o século XIX, como uma cultura diferenciada da européia. Civilização que já se apresenta neste fim de século XX, dotada de originalidades que antropólogos, sociólogos e historiadores brasileiros de agora vêm identificando e salientando em estudos reconhecidos como cientificamente válidos e humanisticamente valiosos por vários dos seus colegas estrangeiros, dentre os mais idoneos: um Roger Bastide, por exemplo. Um Helmut Schelsky. Um Roland Barthes. Um Silvio Zavala. Um Pierre Verger.

É uma civilização, a brasileira, saída dos grandes arrojos Bandeirantes, sem os quais não teria o Brasil adquirido sua vastidão em espaço físico, por um lado. Mas, por outro lado, resultado do ânimo, ao mesmo tempo pioneiro e consolidador, dos fundadores de economia e da sociedade açucareiras. Arrojos e ânimo, esses, que, desde o início, deram à formação brasileira o caráter de uma empresa colonizadora, de portugueses ou de hispanos, completada pela autocolonizadora, de prebrasileiros: os Bandeirantes e os fundadores - num litoral desde o século XVI em constante expansão para o interior mais úmido - de uma agricultura de cana e de um fabrico de açúcar que nunca tinham sido empreendidos e desenvolvidos em tão grande escala e com tão complexas conseqüências. Inclusive conseqüências - voltemos a este ponto - de ordem cultural não material.

Dentre essas conseqüências, saliente-se a de ter a civilização do açúcar criado, paradoxalmente, no Brasil, uma sociedade em que às tendências não só aristocráticas como hierárquicas, se juntaram - até certo ponto, anulando-os - processos democratizantes. Processos democratizantes representados principalmente por várias formas, de contactos como que românticos entre os componentes hierárquicos - classicamente hierárquicos - da mesma sociedade. Processos de miscigenação, no plano biológico, e de interpenetração de culturas, no plano sociológico. Daí conseqüências de ordem esteticamente cultural terem-se acrescentado às de caráter apenas biológico, ou físico, ou sensual criando, no Brasil, aquela tendência para a exaltação de um tipo moreno de beleza feminina - espécie de ressurgimento do mito portugues da princesa moura - responsável, desde o século XVI, por ligações como as do fidalgo Jeronimo de Albuquerque - um dos primeiros senhores de engenho pernambucanos - como a princesa ameríndia Maria Arcoverde. Ligações de brancos com ameríndias, às quais se juntariam, à sombra dos engenhos de açúcar, as de brancos com mulheres de sangue africano: algumas, no decorrer do tempo, elevadas a sinhadonas de casas-grandes.

Compreende-se que em torno do complexo sinhã, (sinhá, sinhadona, sinházinha) - criado pela civilização brasileira de açúcar - tenha se desenvolvido, no Brasil, e na língua portuguesa, um como culto cavalheiresco, trovaderesco, lírico, estético e não apenas sensual, da mulher; e dentro desse culto uma exaltação, muito expressivamente brasileira, da mulher morena, embora, ao lado dessa exaltação não tenham faltado homenagens líricas e estéticas às "virgens louras" ou às "pálidas donzelas". O lirismo em língua portuguesa - genero literário tão dessa língua - enriqueceu-se com expressões desse culto. Um culto característico da idealização e da romantização da mulher que se desenvolveu, quer à sombra das casas-grandes patriarcais ou dos salões dos sobrados das aristocracias açucareiras e, nesses casos, através da poesia erudita dos Maciel Monteiro e dos Castro Alves e do romance, também erudito, dos Macedo e dos José de Alencar, quer, plebleiamente, na poesia popular, na literatura oral, no folclore. É um culto, o da mulher, originário, em grande parte, no Brasil, da civilização do açúcar. Tal exaltação da graça, da beleza, da própria feminilidade da mulher é, ainda hoje, característica do ethos e da cultura total do brasileiro. No momento, esse culto revive com a tendência geral, no Ocidente, para corrigir-se o excesso de sexualidade apenas biológica ou animal que vinha se generalizando, entre ocidentais, com um como regresso à romantização do amor. De onde estar em voga nova onda de idealização da figura brasileira da sinházinha de casa-grande de engenho de açúcar.

Em voga estão também revalorizações de outras sobrevivências, na civilização brasileira total de hoje, da civilização do açúcar - algumas assimiladas e desenvolvidas sob novos aspectos pela civilização do gado, pela da mineração, pela ao algodão, pela do café. O móvel de casa de residência - assunto já considerado neste ensaio - que a civilização do açúcar desenvolveu, dando-lhe toques ou característicos ecologicamente brasileiros - a conversadeira ampla, por exemplo, o sofá também amplo, a ludica cadeira de balanço - estão sendo de tal modo revalorizados, por suas sugestões românticas, por certos artistas, nacionais e estrangeiros que, em certos meios, já há quem os contraponha - salientando, ao lado dessas sugestões imaterialmente românticas, suas vantagens fisiológicas, ecológicas, estéticas - ao móvel antiromântico, intitulado "moderno", com que se pretendeu, nos interiores de novas residências, em Brasília, desprender o brasileiro de suas ecologias e de suas tradições para torná-lo um vago e abstrato homem (ou mulher) de um vago tempo e de um abstrato universo não-brasileiro. Pretensão contra a qual se insurgiu Aldous Huxley, ao visitar o Brasil e ao conhecer Brasília, cujos requintes modernistas de arquitetura e de móvel o desapontaram. Entretanto, as constante da civilização brasileira do açúcar com que tomou contato em Pernambuco, lhe deixaram a melhor das impressões, como testemunhos de alguma coisa de romanticamente brasileiro a juntar-se às suas, para ele, evidentes, vantagens de ordem ecológica. Ao sentar-se, certa manhã, em casa de residência recifense, numa vasta cadeira de braços outrora de casa-grande de engenho - da casa, de Massangana, da meninice de Joaquim Nabuco - Aldous Huxley exclamou : "Isto é que é cadeira funcional. As de Brasília são inumanas".

As sugestões românticas que lhe comunicaram, em Pernambuco, o Recife e Olinda, neutralizaram, de algum modo, no grande escritor inglês, as impressões desfavoráveis que lhe ficaram de Brasília. Desse modo mostrou-se sensível a valores ideais, poéticos, imateriais, refletidos em edifícios e móveis, que são, como valores e como coisas sobreviventes, constante de uma civilização - a do açúcar - morta nas suas substâncias atuantes, validamente econômicas, porém, capaz, através de adaptações a novas circunstâncias sociais de tempo, a continuar a caracterizar, a identificar, a abrasileirar um estilo de convivência que se modernize sem desprender-se das formas que vêm envolvendo os valores por ela própria criada. Ou por ela própria desenvolvidas criadoramente através de tempos sociais não exatamente os mesmos.

Acentue-se dessa civilização que suas formas, quando ainda no seu segundo século de cristalização, encantaram - algumas delas, pelo menos - europeus do Norte Protestante da Europa, como o Conde Maurício de Nassau. Era uma civilização com aspectos fidalgos e cavalheirescos, com o culto da bravura, exigida ou esperada dos homens, completando o da sua galanteria em torno das sinhás. Tais aspectos contrastavam com as virtudes predominantemente burguesas daqueles nórdicos Calvinistas. Com o cinzento do calvinismo religioso e secamente moralista contrastava também a riqueza de cor de cores festivas e não apenas litúrgicas do Catolicismo tropicalizado, assinalador de sugestões míticas ameríndias e místicas, de negros africanos, e já característico, naqueles dias, da civilização brasileira do açúcar. Não é sociológicamente desprezível o fato de pintores nórdicos da época de Nassau governador do Brasil holandes - precisamente a maior parte da área brasileira dominada pela civilização do açúcar - terem se esmerado em fixar, nas suas telas, paisagens em que, de árvores tropicais, emergem casas-grandes, engenhos, capelas; e também figuras de negras, de mucamas, de mulheres de cor com seus turbantes e seus xales; ameríndios nús enfeitados de penas; caboclas das que, como cunhãs, vinham concorrendo com seus indianismos, seus nativismos, seus indigenismos para abrasileirar os europeísmos introduzidos nas terras do açúcar pelos colonizadores lusitanos: trajos, adornos, alimentos, bebidas, remédios, modos de criar meninos, maneiras de viajar, música, danças.

Dos invasores nórdicos, a civilização brasileira desenvolvida por moradores de engenhos e de canaviais, assimilou valores e técnicas; mas, ao mesmo tempo seduziu não poucos, dentre eles e dentre os próprios judeus, eficientes comparsas desses invasores. Fascinados, uns e outros, pelos lucros da agricultura da cana e da indústria do açúcar, deixaram-se, vários deles, prender para sempre ao Brasil através dos encantos de Marias de Melo - aquela com que se casou o Capitão Gaspar van der Lei - e de Anas Paes: a senhora do Engenho Casa Forte, com quem se ligou o holandes Gilberto De Witt. Não foi pouco o sangue, quer nórdico, quer judeu, que ficou para sempre no Brasil das casas-grandes e dos engenhos.

Enriqueceu-se essa civilização brasileira do açúcar, durante a ocupação, por europeus nórdicos - nórdicos auxiliados pela finança israelita - de suas terras e de seus próprios engenhos, pelo contacto que lhe proporcionou essa ocupação com estilos e com formas de vida diferentes dos ibéricos e Católicos: algumas dessas formas e desses estilos porventura superiores aos luso-Católicos. Foi um período durante o qual o Recife tornou-se a cidade, no continente americano, de mais avançadas e complexas formas urbanas de vida: com igrejas Protestantes e sinagogas de sefardins do melhor tipo, de judeus dessa espécie - do tipo que deu ao mundo o grande Spinosa - ao lado daquelas igrejas Católicas de cujos púlpitos pregou o genial Antônio Vieira; e também de um já notável convento Franciscano, irmão dos mais antigos, de Igarassú e de Olinda. Um Recife com jardim botânico, jardim zoológico, observatório a dar-lhe toques, para a época, moderníssimos, de cultura científica; com o seu crescimento regulado por um plano urbanístico - o primeiro, cientificamente moderno, no continente; com cientistas, médicos, homens de saber estudando a natureza da região brasileira do açúcar, sua gente, quer indígena, quer africana, quer européia, quer mestiça; seus costumes; suas doenças. Esses estudos, segundo os métodos então mais adiantados, na Europa, de ciência médica e de investigação antropológica e etnográfica de populações e geográfico, de terras, de plantas, de solos, de vegetações, de vida animal. Todo esse esforço sistemático de estudo por europeus do Norte - aliás já precedido, na região, pelo de Frei Cristóvão de Lisboa - de terras e de homens tropicais, tornado possível e estimulado pela já existência, nessas terras e com homens, de um tipo eurotropical ou de uma forma de civilização que não era outra senão a canavieira, a açucareira, a desenvolvida em torno de casas-grandes e senzalas, de engenhos e da capelas.

Foi à sombra desse sistema que, no Brasil, desenvolveu-se a magnífica instituição lusocristã de assistência social a pobres, doentes, viúvas, órfãos, constituída pelas Misericórdias ou Santas Casas; que começou a desenvolver-se, nesta parte lusotropical do mundo, e antes de pesquisadores nórdicos, uma medicina atenta a enfermidades desconhecidas por europeu e iniciadora do aproveitamento, com fins terapêuticos, de plantas nativas conhecidas por suas virtudes, pelos indígenas, tendo assim começo uma nova farmacopéia. Como as casas-grandes dos engenhos desempenharam, também, a seu modo, funções paramédicas e assistenciais, foi considerável a contribuição, nesse particular, das sinhás, donas dessas casas. Nesse particular, tanto quanto no desenvolvimento daquela culinária e daquela doçaria, também mistas, também lusotropicais, já referidas, e nas quais, como no preparo de xaropes e tizanas, foi sempre notável a presença do açúcar ou do mel de cana.

Compreende-se assim que palavras portuguesas tenham se tornado, através do prestígio alcançado no mundo de então, pela civilização brasileira do açúcar, palavras correntes nas línguas mais importantes da Europa: mascavo, chocolate, marmelada, entre elas. Palavras melífluas que, com suas doces, macias vogais, entraram a fazer parte de línguas endurecidas por consoantes.

Além do que, do Brasil, a civilização brasileira do açúcar, perdendo seu caráter de civilização, a princípio, prenacional, depois nacional, transbordou noutras áreas, levada por judeus sefardins que, depois da reconquista do Brasil holandes pelos portugueses ou pelos brasileiros, foram se estabelecer, alguns com engenhos de açúcar e como comissários no comércio de açúcar, noutras partes da América - inclusive em Nova Amsterdam, depois Nova Iorque - levando, por vezes, consigo, escravos negros já abrasileirados.

A civilização brasileira do açúcar tomou assim projeções extrabrasileiras, sem ter deixado de ser, em pontos essenciais, brasileira. Não é desprezível o fato de ter se chamado "brasileiro" o cemitério dos judeus sefardins de Nova Iorque; nem passado a denominar-se brasileiro, nas Antilhas, o sistema de concessão a escravos de plantações de cana, dias de repouso e de trabalho em seu próprio benefício.

O destaque que aqui se dá à presença de Pernambuco nas origens e no desenvolvimento de uma civilização brasileira do açúcar, não deve ser interpretado senão como pura tentativa de justiça histórica. Essa tentativa, porém, não nos leva de modo algum a considerar insignificante quanto vem concorrendo para essa civilização, esforços vindos de outras áreas como o Rio de Janeiro, como o Recôncavo como o Maranhão. Apenas se acentua na contribuição pernambucana para o desenvolvimento, no nosso País, de valores e de estilos de vida favorecidos por uma economia - a do açúcar - um êxito que, desde os começos da mesma economia, ao fim do século XIX, se fez notar, principalmente na capitania de Duarte Coelho, na província do Conde da Boa Vista e no Estado da primeira República governado, de modo tão incisivo quanto a sua preocupação com o problema da indústria açucareira, pelo primeiro e ilustre Barbosa Lima. De onde ter o historiador Oliveira Lima identificado com Pernambuco prioridades e requintes brasileiros de cultura que a economia do açúcar, excepcionalmente bem sucedida nessa parte do Brasil e no Recôncavo Baiano, depois de iniciada pioneiramente em terras paulistas de São Vicente - é que tornou possíveis.

Esses requintes - inclusive jóias de fabrico brasileiro nas mais antigas áreas brasileiras do açúcar: entre outras, os célebres balangandans - entretanto, tendo se comunicado de Pernambuco e da Bahia a outras áreas do País, igualmente dedicadas à lavoura da cana e ao fabrico do açúcar, tornaram-se característicos, com maior ou menor vivacidade, de todo um complexo sócio-econômico ou cultural, susceptível de ser destacado de qualquer continuidade, no espaço, de caráter apenas geográfico. Além do que - salienta-se mais uma vez, agora, em conclusão - esta transcendência de caráter sociológico, do que se pode denominar uma civilização brasileira do açúcar: dessa civilização vêm se comunicando, no tempo historicamente social do Brasil, formas sociais que, desprendendo-se da base formada pelo açúcar, têm encontrada noutras substâncias - no couro, no cacau, no ouro, no café - outras bases sobre as quais se têm desenvolvido ou se prolongado. E, desse modo, contribuindo para a singular unidade de formas de quantas substâncias diferentemente regionais de economias e de sociedades, vêm constituindo uma tão saudavelmente diversificada civilização nacional no Brasil. Diversificada e una. Contrários que na civilização brasileira de açúcar representada, principalmente, na parte mais ostensiva do seu passado, veem se completando.

Diante dos vários exemplos de conciliação de contrários, que se vêm verificando em Pernambuco, é que se pode dizer desta velha mas sempre jovem província - ou Estado - que é - ou tem sido - contraditoriamente, dentro do complexo brasileiro, um reduto de tradição e um foco de modernização. O seu entusiasmo pela inovação o tem levado, por vezes, a atitudes revolucionárias - tal o seu ímpeto renovador - mas quase sempre os dois extremos têm se equilibrado.

Há quem pense, como o crítico Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde), ser Pernambuco, através de sua capital - o Recife - metrópole, aliás, do Nordeste - um ponto de encontro de "o Mundo" com o que chama, um tanto vagamente "O Sertão". E lhe atribua, várias precedências: inclusive a de ter sido "o berço do camoneanismo tropical'. O berço do "naturalismo no Brasil". A "ponta avançada da terra nova" que vem recebendo e transmitindo à nacionalidade brasileira "o espírito de universalidade".

O encontro que tem se verificado em Pernambuco e noutras regiões brasileiras marcadas pela civilização do açúcar tem sido de influências transoceânicas com as telúricas, representadas menos por um distante "sertão" que por um presente, envolvente e, ao mesmo tempo, receptivo - massapê: terra em que a cana-de-açúcar trazida pelo europeu, achou condições ideais para prosperar. Prosperou. Com a cana europeisaram-se essas terras. Mas, ao mesmo tempo, terras, homens e valores europeus tropicalisaram-se.

Fonte: FREYRE, Gilberto. Duas presenças simultâneas no mundo moderno: a do açúcar e a do Brasil. Brasil Açucareiro. Rio de Janeiro, n. 40, v. 2, p. 10-18, ago. 1972.

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