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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Periódicos Científicos  



UM ESCRITOR BRASILEIRO RECORDA SEUS CONTATOS COM A ESPANHA


Em recente comunicação ao Pen Club abordei, de modo ligeiro, assunto que me parece tanto de crítica ou de história literária como de sociologia da literatura: a adoção, por escritores literários de uma língua, de modos de escrever que são antes característicos de outra literatura nacional que daquelas a que esses escritores nacionalmente pertencem. Lembrei Proust cujo famoso estilo chega a ser quase a negação do mais caracteristicamente francês - medido, lógico, claro -, para refletir influências inglesas. Em sentido contrário, George Moore, tão influenciado, no seu modo de escrever literariamente a língua inglesa, pelo gênio da estilística francesa.

O caso, até certo ponto, de Joaquim Nabuco, ao deixar-se influenciar de tal modo, na mocidade, pela expressão francesa de Renan que, sob essa influência, tornou-se um afrancesado e, através desse afrancesamento, deu novos ritmos aos português literário. Enriqueceu, com esses novos ritmos, a língua portuguesa, embora imitando puristas. Também o caso de Eça de Queiroz: em contraste com seu contemporâneo Camilo Castelo Branco, de todo fiel aos cânones do português literário, Eça renovou a expressão artística nessa língua, através de francesismos estética e psicologicamente válidos. Com eles deu à língua literária do seu país e do Brasil uma agilidade, uma graça, uma inovação musical, até, que faltava, aos modos de escrever de um Herculano, dos dois Castilhos, de um Latino Coelho, como continuadores de clássicos convencionais dos quais só tinham se afastado Garret e Oliveira Martins. Mas muito menos inovadora ou renovadoramente do que o afrancesante Eça. Ou do que no Brasil o - na mocidade - afrancesante Joaquim Nabuco. Um Nabuco que, na idade madura, a despeito de sua devoção quase religiosa por Camões, continuou a ser, no trato literário da língua portuguesa, menos um purista que um escritor aberto a sugestões vindas de língua diferente da sua: da inglesa acrescentada à francesa.

Essas influências literárias vindas de línguas estranhas sobre escritores que, recebendo e assimilando tais influências, não têm se desnacionalizado no essencial de suas identidades, têm ocorrido e continuam a ocorrer. São um aspecto do que se pode considerar uma expressão daquela espécie de pluralismo que as crescentes interligações entre culturas nacionais vêm favorecendo. No caso da Europa ibérica compreende-se que vários escritores tenham escrito literariamente em mais de uma língua de expressão desse complexo cultural. Especialmente, em castelhano e em português.

Dentro de uma perspectiva sociológica da literatura, acrescentada à estética ou à especificamente literária - no caso, a principal - é que o Professor Fernand Braudel, do Colégio de França, inclui o autor deste comentário entre ensaístas, em língua portuguesa de feitio espanhol. O que me leva a recordar meus contactos, tanto pessoais como literários, com intelectuais espanhóis, como parte de um back-ground que terá ocorrido para explicar essa minha afinidade, como ensaísta, com o ensaio espanhol.

O ensaio espanhol, parente do inglês, é espanholíssimo no seu modo de ser ensaio literário. Na sua maneira de ser filosófico sem resvalar em filosofia sistemática. Sutilmente poético. Nunca eloqüente. Nunca oratório. Numa sentimentalização capaz de ser veemente: nada anatoleana ou moldado em fria neutralidade. Com esses característicos, suponho que haja nítida afinidade de minha parte.

Recorde-se o caso de Camilo José Cela. Talvez o galego mais mesclado, em seu sangue e em sua formação, de influências trazidas por gente sua, à Espanha, de várias partes do mundo. Inclusive do Brasil, onde se fixou um Raimundo Cela como pintor de retratos de gente ilustre; e de onde um tio, José Cela, trouxe à Espanha um papagaio para logo depois voltar ao Brasil e aqui falecer. Esses Celas brasileiros parecem ter impressionado de algum modo o menino galego que se tornaria um tão incisivo e complexo escritor em língua espanhola. Mas já não era um puro galego nem no sangue nem, é evidente, na personalidade. Pois já se tornara, como ele próprio, esclarece em La Rosa - livro de memórias - "mescla de galego e inglês". E um inglês - da sua gente materna - presente no escritor que, no domínio literário sobre a língua espanhola, não é excedido por nenhum de seus contemporâneos. Se a crítica o considera "figura única en el mundo de las letras españolas", essa singularidade pode ser, em parte, atribuída à influência da literatura inglesa que em Cela se conjuga com o apego a castiças tradições pan-espanholas: castelhanas e galegas, principalmente.

Grande a influência da mãe de Cela sobre o futuro escritor. Essa mãe fora, quando solteira, Miss Camila Trulock. Dela escreve Cela em La Rosa: "mi madre era una inglesa de verdade". Qual sua concepção de uma inglesa de verdade? Ele próprio que responda: "las inglesas de verdad... son escasas, românticas e espirituales". O que, a ser exato, levaria um intérprete do que em Cela é neo-romântico à conclusão de que, para esse seu modo de ser escritor, teriam concorrido a mãe inglesa e os Celas galegos. Uns e outros, entretanto, galegos e ingleses, conhecidos como gente também prática e realista. Mistos de sanchos e de quixotes. Contradição característica de vários dos que, no Brasil, somos hispanos nas nossas principais raízes e vocações. Existem, até, entre brasileiros, os de formação, como a de Camilo José Cela meio inglesa e meio hispânica, ou meio francesa e meio hispânica, sem que se excluam outros ingredientes. O afro-negro, entre eles. O ameríndio. O semita.

Se existem essas combinações, creio vir sendo, em grande parte, um desses escritores brasileiros nos quais predomina a combinação das duas influências: a espanhola e a inglesa. E toques de sugestões africanas e ameríndias.

Lendo certas páginas autobiográficas de Cela, encontro-me, por vezes, nesse Cela, misto de hispano e de anglo-saxão no principal de sua formação. Inclusive - ouso sugerir - no modo de sermos, os dois, escritores um tanto diferentes dos nossos vário compatriotas de feitio mais acadêmico. Ao que é possível nos tenha levado aquela necessidade de procurar compreender ao mesmo tempo que o comum, o único, em pessoas e em sociedades: tendência tão do ensaísta mais espanhol quanto do ensaísta mais britânico.

Pode-se atribuir a certos escritores brasileiros, nos quais à herança portuguesa ou à predominância francesa se juntem outras influências européias - inclusive a espanhola - faculdades das chamadas indisciplináveis. E que são faculdades salientes, como característicos literários ou intelectuais, tanto em anglo-saxões como, principalmente, em espanhóis. Tanto uns como os outros notavelmente personalistas em suas expressões de criatividade autobiográficas. Pio Baroja não falou por si só ao falar de "juventud, egolatria". Falou também por Unamunos e Ganivets.

Repito aqui conceitos, a esse respeito, que constam de ensaio aparecido em livros de minha autoria, vítima inerme - esse livro - de ter sido publicado, há anos, por imprensa universitária: a da Universidade de Brasília. Desse livro intitulado Como e Porque Sou e Não Sou Sociólogo consta o capítulo em que me apresento como escritor literário marcado por aquela tradição espanhola de ensaísmo, caracterizada pelo Professor Fernand Braudel, do Colégio de França, como inconfundivelmente espanhola; e à qual, segundo ele, eu pertenceria mais que a tradições portuguesas e até inglesas do mesmo gênero de expressão literária. Creio que, como Cela, pertenço um tanto às duas: à espanhola e à inglesa. Mas é possível que com a espanhola predominando nessa combinação. Combinação à qual, como brasileiro cioso de ser o bastante de extra-europeu para não vir sendo subeuropeu, viria acrescentando extra-europeísmos assimilados de fontes agrestemente tropicais: da afro-negra e da ameríndia.

Segundo tais conceitos, seria característico do escritor espanhol não despersonalizar-se nem desespanholizar-se em literato ou em letrado só de gabinete. E sim ser sempre pessoa; sempre indivíduo; quase sempre um tanto homem de ação. Brigão, até. Polêmico. A propósito do que recordo no referido livro, do próprio Cervantes, não se situar, de modo algum, entre os escritores de romances ou de novelas - gênero ao que não é muito dado o espanhol - como escritor requintadamente literário pelo que, nos seus escritos, seja, ou tenha sido, arte só de composição ou obra apenas de homem especificamente de letras; ou produção esmerada de literato ou de beletrista. Ou de acadêmico dos ortodoxos. Acrescente-se que, como já tem sido observado por vários críticos, o Don Quixote é obra que, pelas suas deficiências de composição, tem repugnado aos analistas ortodoxamente literários ou acadêmicos, isto é, mais bizantinamente literários - pensamos alguns a respeito desses analistas - no seu modo de ser críticos de outros escritores. Entretanto, já se tem salientado, a propósito de Cervantes, não haver romance de Flaubert, por mais literariamente perfeito em sua composição, que se aproxime em sabedoria, em humor, em poder poético, da obra imperfeita e, às vezes, relassa, do espanhol; nem a supera - pensam mestres de literatura comparada - romance inglês, algum, dentre os mais potentes: o Tristam Shandy, o Robinson Crusoe, o Tom Jones. Nem, ainda, o Wilhelm Meister, do alemão. Entretanto, Cervantes escreveu o seu livro muito ibericamente, à revelia de quase todas as convenções literárias: juntando a um pouco das velhas crônicas de feitos heróicos muito de pitoresco e até de vulgar e de chulo. O picaresco, o vulgar, o chulo colhido pelo autor da boca do povo e por ele, Cervantes, intensificado com efeitos sociologicamente simbólicos e psicologicamente representativos da realidade. Intensificação de que só são capazes os poetas que ao contacto direto com a vida juntem o poder, ao mesmo tempo analítico e lírico, de compreendê-la, de dramatizá-la, e de interpretá-la. O mesmo que, noutro tipo de literatura, fizera já menos genialmente o português Gil Vicente.

Cervantes - considere-se com algum vagar o caso do grande espanhol, pelo que há nele de sociologicamente expressivo - ao contrário de um Balzac, de um Zola, mesmo de um Scott, não foi homem de letras - observam alguns dos seus biógrafos - senão pelo que um deles considera um quase acidente: faltou-lhe - ao seu modo de escrever - sistemática intenção literária, embora não lhe faltasse vocação para exprimir, em amplitude e em profundidade, como escritor. Pois é certo que, ainda moço, garatujara seus versos, talvez mancos. Incorretos. Mas, no que veio, homem feito, o primeiro a afirmar-se foi no esforço militar em lutas que fizeram dele, depois de aprisionado pelo inimigo, escravo de mouros: os mouros que combateu no seu tempo como, em tempo mais próximo de nós, outros espanhóis combateriam outros invasores da Espanha ou inimigos das crenças ibéricas. Um exílio de cinco anos enriqueceu-lhe a experiência de europeu de sabores fortemente não-europeus. Fez-se até estimar por maometanos. Quisesse ter renegado o cristianismo e a gente ibérica e acredita-se que teria sido mais, entre mouros, do que fora, ou viria a ser, entre sua própria gente e os da sua própria religião, numa época em que as religiões definiam, para os europeus, as culturas, e caracterizavam as civilizações. Sobretudo as situadas em fronteiras, como as ibéricas: na vizinhança das gentes agressivamente islâmicas.

Preferiu Cervantes voltar da África à sua gente, que não era - para ele, bom hispano - só a espanhola, mas também a portuguesa. Foi ele - é outro dos seus exemplos - não apenas um espanhol, mas um espanhol pan-ibérico. Sabe-se, com efeito, de Cervantes que, de volta à península, depois de prisioneiro de mouros, viveu primeiro em Portugal, tendo se ligado à mulher portuguesa, de quem - informam seus biógrafos - teve até uma filha; e foi, ao que parece, sob o estímulo de um amor português que escreveu, quase aos quarenta anos, o seu poema pastoral Galatea. Após o que casou-se, como é sabido, com mulher da sua província: mulher de província - pormenor psicologicamente significativo - muito mais moça do que ele. Foi, então, um tanto prosaicamente, uma espécie de cobrador de impostos para ordens religiosas: o que lhe deu a oportunidade de numerosos contactos com o cotidiano da vida da sua gente.

Depois de muita aventura, alguma rotina. Depois do exótico, a província. Depois da experiência heróica, a anti-heróica. Por isto ou por aquilo, chegou, nesses seus dias de cobrador de impostos, a ser encarcerado na adega de uma casa de aldeia em La Mancha. Depois do exílio, a prisão. Experiências - o exílio e a prisão - que ninguém imagina atravessada por um Flaubet ou enfrentada por Anatole France: literatos quase exclusivamente de gabinete ou tão-somente de academia. Mas experiências tão comuns entre escritores hispânicos ou ibéricos, de Ramon Lulio a vários dos atuais, que chega a se tornar suspeito de pouco viril o escritor ibérico que nunca experimentou - como um Unamuno ou um Fernando de los Rios ou um Salvador de Madariaga - o exílio ou a prisão, para não nos referirmos aos de vida mais dramática, e até de fim trágico, como foi o caso, em nossos dias, de Frederico Garcia Lorca.

O exemplo supremo que Cervantes e escritores hispânicos ou ibéricos menos importantes, porém não menos significativos do que ele, nos deixaram é o de que não é fácil separar-se, dentro dessa tradição ibérica mais característica, de literatura, o escritor do homem; nem o artista as pessoa. Pessoa quase sempre personalidade, de que a arte é quase tão-somente uma expressão apenas apurada pelo exercício nem sempre acadêmico ou convencional, da mesma arte; quase nunca simples aquisição, através desse exercício tornado a angústia em que Flaubert se requintou e sob a qual o tão admirado pelos espanhóis Eça de Queiroz, ao afrancesar-se, perdeu a potência ibérica que, paradoxalmente, readquiriu ao envelhecer e ao desafrancesar-se, opondo a aventura do desafrancesamento à aventura inicial de afrancesamento.

Daí ser quase sempre o escritor de tradição espanhola um escritor mais de campo de que de gabinete: a negação mesma do típico literateur abstrato. Intelectual dado, por vezes, senão à vida de café, a contatos com o tumulto e até com a boemia da vida de rua, o fato é que do café ibérico se pode dizer que é uma instituição ainda mais democrática que o seu equivalente francês, sabendo-se de cafés ibéricos que têm sido ou são, ainda hoje, freqüentados pela gente mais diversa - toureiros, políticos, atores, artistas plásticos, compositores, além de escritores - e não apenas, um por intelectuais deste feitio, outro, por intelectuais daquele outro feitio, cada café com seu quê de aristocratismo literário e seu toque de clube exclusivo.

Supõe-se ter a idéia - ou a necessidade? - de escrever Don Quixote empolgado Cervantes quando ele se achava na prisão em La Mancha. Tinha - todos o sabemos pelos seus biógrafos - cinqüenta e oito anos quando publicou, já quase velho, a primeira parte da, para a época, estranhíssima obra, tão fora das convenções então dominantes na literatura de qualquer país europeu; tão inovadora; aparentemente mais de moço afoito do que de velhote prudente. Mas com todas essas contradições, obra de escritor caracteristicamente hispânico ou ibérico: presente nos seus escritos; concreto nas suas descrições. Deformadas, entretanto, para efeitos de síntese ou de intensificação simbólica da simples realidade; ou expressivas - expressionismo do mesmo tipo do de El Greco, em pintura, ou do de De Falla ou de Villa-Lobos, em música, ou do Aleijadinho, na escultura - deste ou daquele aspecto da realidade. Trata-se de uma atitude que distingue o escritor - o ensaísta, especifique-se - a la Fernão Mendes Pinto do repórter apenas objetivo de viagens, como distingue o historiador a la Oliveira Martins do cronista apegado às datas, o dramaturgo a la Valle Inclan ou a la Garcia Lorca dos teatrólogos apenas realistas.

Autobiográfico nas supostas invenções puras, que são, entretanto, experiências um tanto dessecadas ou purificadas através de um técnica literária muito ibérica, Cervantes como que se antecipou a Gide e a Pirandelo numa técnica especificamente literária de autobiografia projetada em literatura aparentemente do não-eu imaginado pelo eu; e em arte, em geral, aos cubistas quanto à substituição de uma perspectiva única por perspectivas empáticas e simultâneas da mesma realidade. Há nele qualquer coisa não só de ensaísta como de historiador e até de psicólogo social dentro de um ficcionista. Ficcionista nunca, no seu caso, apenas lúdico nos seus objetivos de inventor ou de contador de história que, não tendo acontecido tal como se apresenta, se baseia, entretanto, em intensificações de fatos, em misturas de pessoas e de tempos diversos e em novas combinações de relações reais e até históricas de pessoas com paisagens. Fatos e relações que não só aconteceram como se repetiram sob a forma sociológica de recorrências de comportamento humano, dentro de circunstâncias especificamente ibérica, isto é, hispânicas - ou especificamente espanholas - só possíveis, algumas delas, em época de dissolução de uns tantos estilos de vida, de conduta e de etiqueta e de sua incerta substituição por outras: a época de Don Quixote.

Não se caracteriza o escritor da mais castiça tradição ibérica - da qual Cervantes permanece o exemplo clássico mais alto - por aquela bizantinice na composição literária que resulta em obras rigorosamente bem cuidadas e em estilos dos chamados castigos. Daí um psicólogo inglês da sagacidade de Havelock Ellis ter observado dos escritores espanhóis - do próprio Cervantes - serem, por tradição, "aptto neglect the more minute graces of style".

Neste particular, creio, na verdade, pertencermos, alguns escritores brasileiros - e, dentro dos limites modestíssimos - antes à tradição ibérica que a qualquer outra, de escritor. No meu caso, me sinto, é certo, parente - sei que irremediavelmente pobre - de um Proust tido por alguns por muito pouco francês: parentesco descoberto em mim por críticos estrangeiros, principalmente por franceses. Mas o parentesco que porventura me prende a esse escritor francês - ao meu ver pouco castiço como escritor francês e até um tanto ibérico no seu modo de ser introspectivo e empático: espécie de jesuíta defroqué que, tendo perdido a fé, conservasse o melhor da casuística psicológica dos S. J. e até se mostrasse discípulo a seu modo dos Exercícios Espirituais como técnica de empatia aplicada à criação literária - estaria na tendência, desajeitada da minha parte, e, nele, magistral, para captar dos homens e dos grupos humanos que consideramos, mais as intimidades quase secretas, de tão sutis, características do seu comportamento, que os aspectos ostensivos desse comportamento. Estaria também na própria maneira um tanto relassa de procurarmos dar expressão a essas novas aventuras de recuperação não só de tempos como de homens perdidos em tempos desaparecidos.

Do psicólogo inglês - tão admirado dos místicos espanhóis - Havelock Ellis, é outra observação, perspicaz sobre o escritor ibérico: a de que é um escritor que, de ordinário, se tem afirmado mais na idade madura do que na mocidade. Isto por ser essencialmente - deve-se acrescentar a Ellis - um escritor autobiográfico. Nunca um inventor de personagens ou de mitos - o que faz que não seja um escritor de ficção no sentido vulgar de ficcionismo - tudo nele tende a ter por base sua própria e personalíssima experiência: a vida por ele pessoalmente experimentada, vivida, vista, ouvida, amada, sofrida, apalpada, sentida, observada. A vida por ele apreendida em todos os seus contrastes: desde os mais sórdidos aos quase angélicos; dos plebeus aos fidalgos; dos sensuais aos religiosos. Daí um misticismo de certos escritores ibéricos - Santa Tereza, entre eles - a que não falta sensualidade. Sensualidade sublimada, é claro.

Ao escritor caracteristicamente ibérico repugna a arte de escrever levada àqueles requintes que a torne uma arte de escritor para escritores, tal o seu refinamento. Ou composição fechada e até esotérica. A tendência do escritor hispânico é para um realismo vizinho de um expressionismo desdenhoso, em seu modo de ser expressão ou interpretação ou intensificação literária de vida vivida ou de experiência experimentada, de quanto lhe pareça bizantinice estilística ou chinesice artística. Daí ser um escritor a quem não faltam incorreções na composição das frases; descuidos na gramática; plebeísmos - inclusive obscenos - os mais inacadêmicos e os menos de salão, na caracterização de fatos vivos e até em movimento; ou na redução desses fatos a símbolos também vivos e atuantes.

Data dos meus dias de estudante em Colúmbia - onde conheci Don Ramon del Valle Inclán - e de scholar meio boêmio em Oxford, em Paris, na Alemanha e em Coimbra o fervor de adolescente com que me entreguei à leitura de autores espanhóis e hispano-americanos - entre estes Ruben Dario - e ao estudo de artes espanholas e hispano-americanas - moçárabe, a manuelina, a cusquenha, a mexicana - sentindo nesses autores e nessas artes mistas, de um modo muito ibérico, não autores e artes estrangeiros, de encanto ou sabor exóticos para meus olhos, meus ouvidos e meu paladar de brasileiro, porém expressões - inclusive na culinária e nos vinhos - de uma cultura, para mim, toda ela, que, sendo hispânica ou ibérica, era materna; familiar; fortemente endogâmica, a despeito de suas aventuras com o exótico. E nada mais natural que, nessa minha identificação, em fase ainda tão plástica da vida, resultasse que a muita leitura de místicos, de dramaturgos, de ensaístas, de poetas espanhóis, e o muito convívio com artes e artistas ibéricos, me levasse a um modo de ser escritor - quando comecei a ser, se não escritor, arremedo de escritor - decisivamente orientado por tal identificação como os espanhóis e seus descendentes e continuadores, tanto quanto com os portugueses e com alguns de seus outros descendentes e continuadores, além dos brasileiros.

Se estou aqui a repetir-me, com acréscimos e, por vezes, em palavras de todo diferentes das antigas, o que consta de ensaio, pela sua quase nenhuma divulgação quase inédito, é pelo fato de tais conceitos corresponderem a meu modo mais atual de sentir assunto por mim recorrentemente tão vivido e tão sentido. O tempo, cada vez mais, parece confirmar o reparo de Braudel a propósito de pertencer eu, como talvez nenhum outro brasileiro, no modo de ser escritor, à tradição ou à configuração espanhola de ensaísta. É evidente que acrescentada a essa espanholidade - repita-se sempre - considerável abrasileiramento. Considerável tropicalização. Considerável deseuropeização. Considerável, até - vá o paradoxo - desliteralização. Alguma gana de ser, como escritor brasileiro, tocado por influência ou sugestão espanhola, muito espanholamente, tudo, menos um subespanhol. Se estivesse ao meu alcance: um ultra-espanhol.

O que me teria predisposto a uma tão marcante identificação com o espanhol? Já me referir à minha experiência como estudante brasileiro no estrangeiro: aí passei a sentir que minha origem cultural não era só a luso-brasileira mas a hispano-americana, a de Inca Garcelazo, diga-se simbolicamente. Antes disto, porém, houve em minha formação, ainda de menino e ainda no Brasil, o fato de ser o Freyre do meu nome com y, à espanhola, e não com i, à portuguesa. Soube, nesses verdíssimos dias, tratar-se de opção de meu pai, cioso do fato de ser a origem dos seus Freyres galega, de Santiago de Compostela; e entender esse retrospectivo, espanholamento enfático - Alfredo Freyre - que o nome dele e dos seus devia proclamar, através de y, essa origem espanhola. O que vem acontecendo: são já muitos os descendentes de Alfredo Freyre que só escrevem Freyre à antiga maneira espanhola ou galega: com y.

Poderia juntar-se a esse fato outro, também ancestralmente significativo: o de, pela origem materna, descendente, por via da chamada natural, daquele espanholíssimo fidalgo, Don Francisco Ponce de Leon, que, no século XVII, estando o Brasil sob o jugo da Espanha, fixou-se em Pernambuco. E aqui juntou-se, um tanto ao modo de Jerônimo de Albuquerque, com Maria do Espirito Santo Arcoverde, com outra talvez filha de cacique da terra. De onde os Ponce de Leon pernambucanos.

Isto quando ao sangue. Quanto a influências mais atuantes que a do sangue, recorde-se ter sido Don Quixote o primeiro livro que me prendeu a atenção quando, já com oito anos de idade, aprendi a ler em língua inglesa. O que se verificou com certo Mr. Williams, inglês e anglicano, já que me vinha recusando, de modo intransigente, a aprender a ler e a escrever em português. Só fazia desenhar. Enchia de desenhos, cadernos e cadernos, inquietando a família com meu renitente analfabetismo. Até que o tal do mister anglicano interessou-se pelos meus desenhos. Elogiou-os. Ganhou minha confiança. E convenceu-me a aprender a ler e a escrever. Mas em inglês: sua língua. Aprendido, entretanto, o inglês desalfabetizante, fácil me foi lançar a ler português. A ler português com avidez. Descontando o tempo perdido. Li então, Don Quixote, com olhos de menino. Tanto um Don Quixote ilustrado a cores com certo Gulliver's Travels, que eu já folheara com mãos de analfabeto, ouvindo de minha mãe a história do herói inglês entre liliputianos. O herói espanhol foi, porém, o primeiro herói descoberto pelo meus próprios olhos de menino recém-alfabetizado. Outra predisposição ao que seria, em mim, um crescente espanholismo literário.

Viriam, na adolescência, os místicos: Ramon Lulio, Santa Tereza e Juan de la Cruz me empolgaram. Viriam os ensaistas. Viria Vives. Viria Gracian. Viria Unamuno. Viriam Ganivet, Baroja. Ortega.

Na Universidade de Colúmbia, repito que vi Dom Ramon del Valle Inclan. Impressionou-me. Em Oxford meu amigo Esme Howard Junior, filho do então embaixador do Reino Unido em Madrid, me levaria ao Oxford Spanish Club, que muito freqüentei. O então professor de Oxford de Literatura e Língua Espanholas, Don Francisco de Arteaga - antecessor de Salvador de Madariaga - adotou-me quase como a um filho intelectual. Deliciava-se com meu português de brasileiro. Dizia-me: "o seu português de brasileiro, eu entendo. O dos portugueses, não".

Anos depois, Guerra Civil na Espanha. Eu, um dos raros brasileiros nessa Espanha terrivelmente em guerra. Meu companheiro, Paulo Inglês de Sousa. Fomos a Santiago de Compostela. Valladolid. Burgos. Salamanca. Teria um romance. E anos depois, outra vez na Espanha, agora com Magdalena, minha mulher, nos encontramos, certa tarde, diante de um adolescente mais parecido comigo do que qualquer dos meus filhos. Os mesmos olhos. As mesmas mãos. Os mesmos gestos. Magdalena impressionada. Era até de supor-se - suposição apenas - que eu, talvez, tivesse retribuído, sem o saber, o ato de Don Francisco Ponce de Leon, deixando filhos no Brasil, de mulher nativa.

Inesquecível, a Espanha em guerra. Pensei em escrever um livro a respeito. Era a Espanha de De Falla e Garcia Lorca: a criatividade espanhola em duas expressões vibrantemente modernas. Mas a ela me parecia faltar uma terceira força que se exprimisse em prosa literária também renovadoramente espanhola. Uma coisa aprendi nesse contacto com a Espanha: o precário da classificação "esquerda" oposta à "direita". A Espanha que resistia à invasão brutalíssima do totalitarismo russo-soviético, valendo-se essa resistência até de auxílio mouro e de auxílio italiano, se, em parte, podia ser classificada como de "las derechas", em parte se apresentava de um "esquerdismo", além do convencionalmente socialista: o anarco-sindicalista. Um vigoroso e espanholíssimo anarco-sindicalismo.

Compreende-se que Unamuno tenha optado - opção que deve ter sido dolorosa - pela resistência chefiada por Franco à avalanche do totalitarismo russo-soviético: a pior expressão de "direitismo" no sentido de representar um misto de maior estrangulamento que o capitalismo da liberdade individual, tão cara à gente mais castiçamente espanhola. Em contactos posteriores a essa minha presença na Espanha em guerra, com Fernando de los Rios, Americo Castro, Salvador de Madariaga, Francisco Garcia Lorca, encontraria por parte deles uma repulsa de espanhóis autênticos ao totalitarismo russo-soviético: para esses "esquerdistas", expressão de um "direitismo" que repugnava à sua espanholidade. Assunto recentemente abordado, de modo retrospectivo, em opúsculo por mim recebido dele próprio e com um seu autógrafo, por Fredo Arias de la Canole.

Após o contacto com a Espanha "nacionalista", não me foi possível ter acesso à Espanha chamada então "republicana". Um coisa me impressionou: o afã dos russo-soviéticos em destruírem os anarco-sindicalistas espanhóis. Os anarco-socialistas, já da minha simpatia através dos discípulos de Georges Sorel que eu conhecera em Paris. Com os quais convivera tanto quanto com os discípulos federalistas ou regionalistas de Maurras e de Mistral.

Em Nova York não tardaria a vir a ser convidado pelo Professor Garcia Lorca, diretor do Instituto de las Espanhas, e irmão do grande poeta trucidado na guerra, para proferir conferências nesse Instituto. Já conhecera o sogro desse Garcia Lorca; o Professor Fernando de los Rios. O autor de El sentido humano del socialismo só faltara pedir-me de joelhos que o trouxesse ao Brasil. Igual pedido, da parte de Américo Castro: o insigne Américo Castro. Empenhei-me junto ao então Ministro Gustavo Capanema. Mas em vão. No Governo Getúlio Vargas havia dois ministros cujas influências se cruzavam junto ao flexível Getúlio: Gustavo Capanema e Francisco Campos. Francisco Campos contra quem não pensasse exatamente como ele. Ou como os fascistas. E tendo por aliado certo jesuíta ilustre, tão influente junto a governistas de então como junto ao Correio da Manhã.

Algum tempo depois, Américo Castro que tanto desejara curtir o exílio no Brasil, onde nasceria - nascera em Catangalo - já na Universidade de Princeton, como professor, fez-me ir a essa universidade para aí proferir conferência. Proferi em inglês, na sua presença, a conferência-ensaio sobre "Conceito hispânico - ou ibérico - de tempo" - publicada em inglês, na excelente revista que é The American Scholar e em alemão, pela Universidade de Munster, onde a repeti. Está a aparecer no Brasil, no livro a ser organizado pelo Professor Edson Nery da Fonseca, da Universidade de Brasília, Palavras repatriadas.

Recorde-se a amizade que me vem ligando a Julian Marias, de quem, a seu pedido, tive o gosto de prefaciar um de seus sugestivos livros de pensador e ensaísta, em tradução portuguesa. Lembre-se a tradução ao espanhol, de Além do apenas moderno, de minha autoria, publicada há dois anos por Espasa-Calpe: prefácio de Julian Marias. E, também, solicitação da mesma Espasa-Calpe para traduzir e publicar Um brasileiro entre os outros hispanos. E mais: a publicação, em Madrid, da tradução à língua espanhola de Seleta para jovens, seleção de trechos de ensaios de minha autoria, por Maria Elisa Collier. Registre-se o curso de conferências que, a convite do Reitor do Colégio Maior Herman Cortez, da Universidade de Salamanca, tive o gosto de proferir nessa Universidade - a de Unamuno - que me recebeu com honras excepcionais. Conferência em Madrid, no Instituto de Cultura Hispânica, presente seu então Presidente, o Duque de Cadiz. A já recordada conferência em Nova York, no Instituto das Espanhas da Universidade de Colúmbia, a convite do seu então diretor, o professor Francisco Garcia Lorca. Em Nova York, a Sociedade Hispânica da América elegeu-me seu titular.

Ainda outra ligação com a Espanha de quem escreve este comentário para Cultura: ter tido o seu conto "À procura de uma mantilha dourada" consagrado por filho ilustre do Blasco ibañes, editor em Valência, como representativamente hispânico; e, nesse caráter, incluído na Antologia por ele organizada, selecionada e editada, do conto hispânico.

Lembrarei, ainda que Casa grande & senzala foi traduzida à língua espanhola e publicada em Buenos Aires por sugestão - imagine-se de quem? - de Ortega y Gasset. Um Ortega y Gasset que não cheguei a conhecer pessoalmente.

Estes, alguns dos vários contactos pessoais que me vêm prendendo à Espanha. E que se juntam ao fato, de início mencionado, de ter sido eu considerado, pelo Professor Fernando Braudel, escritor literário do tipo espanhol de ensaísta. Para ele, uma singularidade no Brasil. Ignoro se com essa caracterização do meu modo de, bem ou mal, vir sendo ensaísta na língua e, por vezes, um tanto desajeitadamente na inglesa, concordaria o Professor Jean Roche: erudito francês tão conhecedor das letras brasileiras.

Informes de caráter demasiadamente pessoal, esses. Personalíssimos. Só cabem num ensaio mais que à espanhola já à brasileira - no seu modo de ser informal. Autobiográfico. Desconexo.

Sou dos que supõem tocar ao Brasil a oportunidade de desenvolver o que, na literatura espanhola, ainda mais do que na inglesa, sua parenta, vem sendo expressões de uma criatividade mais espontânea que acadêmica, sistemática ou oficialmente dirigida. Ou regulamentada.

A literatura em língua inglesa não teve nunca, nem tem agora, academia a selecionar-lhe ou consagrar-lhe os valores. Na Espanha, academia que reúne escritores denomina-se significativamente da língua, como se, para os espanhóis, as letras precisassem de uma autonomia quase anárquica para se expressarem artística, psicológica, culturalmente, à revelia da gramática embora dentro do gênio da língua. Seria possível estudar-se academicamente a língua. Mas não, de igual modo, a literatura.

Não se forma escritor espanhol - ou à espanhola - através de ensino acadêmico. Nem através desse ensino se disciplina rigidamente a ligação do escritor com a língua, literalizando-o de fora para dentro. Ou requintando-o no chamado beletrista. Influenciado pelo ensaio assim espanhol, o poeta brasileiro João Cabral de Mello é o que se revela: um poeta que nunca assume atitude de mestre da arte poética; e sim de seu renovador pelo experimento criativo.

George Santayana levou para o ensaísmo dos Estados Unidos - e o mesmo fez John Dos Passos, o mesmo pretendeu fazer Hemingway - alguma coisa de anarquizantemente espanhol: comunicou ao ensaio um modo de ser filosofia sem ser filosofia hirtamente, germanicamente, sistematicamente professoral. Foi muito espanholamente que, certo dia, belo e de sol, Santayana, de repente, disse a seus alunos de Harvard que, naquele momento, deixava de ser professor da universidade. Não queria ser mestre. Nem catedrático.

Nenhum ensaísta castiçamente espanhol doutrina à maneira dos mestres sempre solenemente togados. Ao contrário: é como se fosse renovadamente um aprendiz. Assim se comunica com o leitor. Comunica-se com o público. Convidando-os a juntos aprenderem, criticarem, analisarem, pensarem. A lição de Ramon Lulio. A lição de Gracian. A de Vives. A de Cervantes: tão dialogante com o espanhol analfabeto através de ditos tradicionais vindos da boca desse próprio intuitivo. A lição da própria Santa Teresa com relação a assuntos religiosos ligados ao cotidiano. A de Ganivet. A de Unamuno. A de Azorin. A de Baroja. A de Ortega. A de Madariaga.

Uma atitude, a de todos esses, de quem, escrevendo, sempre considerasse, ao tratar de assuntos humanos, aquela "realidade impura" a que há pouco se referiu, em admirável pequeno ensaio, o, além de sociólogo, jovem ensaísta brasileiro Roberto Mota. Impura e até, como me notava em Princeton Américo Castro, obscena. Pois, no ensaio espanhol, o palavrão surge, quando justo, como palavra digna de ser literária. De ser escrita ou impressa. Como parte potencialmente literária da língua espanhola. E como o palavrão, a própria incorreção capaz de escandalizar a puristas, como o palavrão a moralistas.

A moralistas convencionais, acentue-se. Pois uma das argutas observações sobre o caráter do espanhol, o já citado Havelok Ellis, mais confirmadas pelo comportamento personalíssimo da gente espanhola, é a sua preocupação pela "moral" em seus aspectos práticos. Uma moral em que a pessoa ou o indivíduo avulta sobre a arregimentação coletiva. Daí o mesmo Ellis ter reparado a tendência do espanhol típico para atitudes anárquicas, tornando difícil a difusão, entre espanhóis assim típicos, de concepções marxistamente coletivistas de organização social. Ou fascistamente cooperativistas, acrescente-se, ou sovieticamente totalitárias.

O que se reflete no ensaísmo espanhol de modo incisivo. Que escritores europeus mais anarquicamente literários ou filosóficos que os ensaístas - ensaístas pensadores - mais caracteristicamente espanhóis? Que os já destacados Ganivest, os Barojas, os Unamunos? Isto desde Ramon Lulio. Anárquicos e existenciais. Existenciais mas também animados por aquela "fuerza madre" - a resistência a obstáculos através do próprio comportamento cotidiano - consagrado por Sêneca mas que, segundo o hispanófilo-francês Maurice Legendre, esse filósofo não inventou: já estava inventada pelos preespanhóis. Dos ensaístas mais tipicamente espanhóis talvez se possa dizer que antes reinventam do que inventam, tanto há neles daquela "fuerza madre", vinda de dias velhíssimos. E que, como "fuerza madre" vem contagiando, de tal modo, descendentes de íberos, fora da Europa ibérica mais ligados às letras e aos saberes espanhóis, que, ampliando o reparo de Fernand Braudel, pode-se identificar esse contágio em ensaístas e poetas brasileiros das mais diversas tendências: tanto num Euclydes da Cunha como num Gustavo Corção; tanto num Eduardo Prado como num Nélson Rodrigues. Escritores espanholamente autobiográficos e, ao modo de cada um, moralistas. O que, sendo certo, também, de Ariano Suassuna.

Sabe-se quanto as traduções à língua espanhola, realizadas na Espanha e publicadas em Madrid, de obras técnicas, científicas e até filosóficas, de procedência germânica, têm beneficiado estudantes e estudiosos brasileiros pouco versados em língua alemã. Traduções a que já me referi como aprensentando obras alemãs em "confortáveis visões espanholas". E é bom que se assinale ter a revista por algum tempo dirigida em Madrid pelo insigne Ortega y Gasset - e tão atenta a atualidades intelectuais germânicas - alcançado no Brasil considerável repercussão e concorrido para despertar o interesse de brasileiros tanto para obras de novos e renovadores autores espanhóis em setores de literatura, de filosofias e de história como, dentro outros, Eugenio d'Oro, além das do próprio Ortega - como dos de mestres no Brasil ainda pouco conhecidos, da grande geração de Unamuno, de Ganivet, de Azorin. Tão imperfeitamente conhecidos que, ao mencionar eu - insisto, neste depoimento, em ser mais que espanholamente pessoal - no decorrer da década de 20, em pequeno ensaio, Angel Ganivet e um seu reparo sobre certo mau efeito da luz elétrica, chegou-me às mãos carta indignada em que o autor - um anônimo - me acusava de, à sombra de nome inventado, divulgar blagues de minha própria invenção. Acusação que, é claro, muito me desvaneceu, embora me fazendo sorrir da surpreendente interpretação de Ganivet: a de um blagueur. Estava-se, então, num Brasil em que o autor de língua espanhola mais lido era Blasco Ibañes e o pensador, o argentino Ingenieros, havendo também entusiastas de Vargas Vila.



Fonte: FREYRE, Gilberto. Um escritor brasileiro recorda seus contactos com a Espanha. Cultura - MEC. Brasília, n. 10, v. 35, p. 103-112, jul./dez. 1980.

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