O ESTUDO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS NAS UNIVERSIDADES AMERICANAS
O ano de 1934 marcou um dos mais corajosos movimentos intelectuais, levado a efeito por um inteligente grupo de estudantes - dentre os quais se destacavam Odorico Tavares e Aderbal Jurema - na Faculdade de Direito do Recife.
Foi graças ao esforço desses estudantes que essa Escola teve, no dia 24 de maio, um dos maiores acontecimentos intelectuais de sua vida: uma conferência pronunciada por Gilberto Freyre, pouco tempo depois de voltar de seu aventuroso e proveitoso exílio, sobre O Estudo das Ciências Sociais nas Universidades Americanas.
Essa conferência foi editada, em plaquette, por Momento - a animada revista dos rapazes de 34, revista que era filha de Rumo. Nesse mesmo ano foi esgotada a edição da plaquette. Agora, Rumo a divulga em suas páginas, com ligeiras modificações que fez o mestre Gilberto Freyre.
Só quatro anos mais tarde - em 1938 - houve outro movimento estudantil, realizado pelos que reiniciaram o trabalho daqueles rapazes vivazes e intelectualmente curiosos. Este, porém, infeliz. Pois foi mal interpretado e tolhido no seu mais puro e honesto amor pelo estudo, por uma figura improvisada de diretor de Faculdade, um verdadeiro mestre-escola alemão, que desceu de sua posição de professor de calouros para, quando não se diga disputar eleições, pelo menos apoiar e estimular um grupo pequeno de estudantes, que marcou época na Escola: a da pirataria acadêmica. Mas o fato é que tudo passou pela memória dos homens; porém para a história - essa julgadora impiedosa dos homens - não passou. Esse acontecimento será relatado um dia, como foi o da usurpação que sofreu Martins Júnior e seu animado grupo republicano, quando o futuro mestre de pince-nez da Faculdade de Direito do Recife era quartanista de ciências jurídicas e sociais.
Agradeço ao Diretório Acadêmico desta Escola, particularmente à sua Comissão Científica, presidida por Mário Lacerda, a oportunidade que hoje me oferece de falar aos estudantes de direito do Recife. Aqui nos encontramos à sombra de uma das casas mais ilustres de ensino superior do Brasil; velha Escola que por mais de um século tem feito sentir a ação de seu espírito sobre todo o país, dotando-o desde primeiros tempos do Império de alguns dos "leaders" mais capazes na administração e na política, de renovadores corajosos do direito e das letras nacionais.
Pareceu por algum tempo que a nobreza intelectual desta casa se deixara comprometer sob a influência ou, pelo menos o reflexo de circunstâncias que vêm atingindo outras instituições de cultura do país - sacrificando-lhes a função científica em benefício de um utilitarismo de todo indiferente ao valor do ensino e à dignidade do estudo, e atento só às vantagens dos diplomas. A onda mais grossa de semelhante utilitarismo talvez tenha passado: sente-se da parte de alguns professores e de vários estudantes a reação no sentido de um ensino mais puro e de um estudo mais desinteressado.
A Faculdade de Direito do Recife pode felicitar-se de ter hoje à sua direção uma figura de estudioso que é também um professor cheio de entusiasmo pelas coisas do ensino; e em sua congregação, mestres como Odilon Nestor, tão atual nos métodos e no saber. Pode igualmente felicitar-se no Diretório Acadêmico - um grupo de estudantes que insistem em enriquecer sua vida, e a dos seus colegas, daqueles estímulos e sugestões sem os quais o curso de bacharel perde o melhor interesse, a cor, a flama, as possibilidades de aventura intelectual, aquilo que outrora se chamou "alegria do saber", para acinzentar-se na peor e na mais tristonha das rotinas.
De uma adolescência passada quase toda nos Estados Unidos - em universidades, principalmente na de Colúmbia - e um pouco por toda a parte, até por "Greenwich Village", que é em New York o bairro de artistas e intelectuais mais ou menos neuróticos, vítimas do puritanismo das cidades do interior em busca de uma libertação que às vezes se resolve em pura libertinagem; em "revivals" de negro no Texas e em Kentucky; na Universidade Católica, entre dominicanos e beneditinos, ascetas magros, angulosos, estudando química e teologia; em Salt-Lake City, a cidade onde no tempo de Joseph Smith se praticou tamanho excesso de poligamia, cidade quase vizinha da de Reno, que vive ao contrário, de verdadeiro turismo de gente à procura de divórcio; de uma vida na América do Norte que me fez sentir o poema em que Vachel Lindsay - uma das maiores vozes na jovem poesia americana - vasou todo o lirismo da mobilidade transcontinental:
"They tour from Memphis Atlanta, Savannah, Tallahasse and Texarkana, They tour from S. Louis, Columbus, Manistee They tour from Pearia, Davenport, Kankakee Cars from Concord, Niagara, Boston, Cars from Topeka, Emporia and Austin Cars from Chicago, Hannibal, Cairo, Cars from Alton, Oswego, Toledo, Cars from Buffalo, Kokomo, Delphi, Cars from Lodi, Carmi, Loami, Ho for Kansas, land that restores us When houses choke us, and great books bore us"
e não só sentí-lo com relação às cidades e aos lugares, mas com relação às classes e aos grupos que às vezes numa mesma cidade grande, vertical, se distanciam mais que os continentes; sentí-lo com relação às distancias sociais - que ainda são enormes na suposta terra da democracia - conhecer poetas negros de Harlem, índios de Arizona, caboclos das Filipinas, John D. Rockefeller Júnior no palacete de New York em que mais de uma vez, no meu tempo de Colúmbia, ele recebeu os estudantes estrangeiros; Calvin Colidge na Casa Branca; e num segundo andar de subúrbio de Brooklyn tomar chá da Rússia com o romancista Leon Kobrin, judeu da Lituânia que foi companheiro de jornalismo de Trostky em New York; ver se matar boi e se fazer chouriço nos grandes matadouros de Armour e Swift e se imprimir o New York Times; e sobretudo conhecer a vida intelectual e artística na intimidade - poetas como Vachel Lindsay, com quem mais de uma vez jantei no Brevoort - ele sempre com um olhar triste que talvez fosse de saudade do mundo que ia deixar tão cedo, aquele seu país de fords rodando de norte a sul, de leste a oeste, onde tantas vezes viajou sem dinheiro, cantando seus poemas pelos povoados, pelas granjas, entre os negros dos algodoais, entre os montanheses, tomando banho nos rios, pendurando as roupas para secar nas arvores; como Amy Lowell, de quem fui hóspede na sua casa de Brokline, a velha casa dos Lowell onde ela vivia rodeada de livros raros, de jarros chineses e de caixas de charutos de Manilla; críticos como Mencken; escritores como Carl van Doren; cientistas como Boas; sábios como Giddings, Seligman e John Dewey; de uma vida de estudante que incluiu uma variedade de impressões e de contactos fora dos livros, das aulas, dos "seminários", dos laboratórios - recordarei hoje algumas experiências de possivel interesse para os alunos desta Escola e para os seus amigos aqui reunidos.
Por se tratar de uma Escola de Direito procurei limitar-me, dentro de um assunto doutro modo vastíssimo, a esperiências e observações em torno do estudo das ciências sociais, que foi precisamente o da minha especialização nos Estados Unidos. Sucede porem que nenhuma outra especialização me levaria mais que esta, humana como nenhuma, àquela vida maior, cheia de nervos, fora da universitaria: as letras sociais - o romance, a poesia nova, o teatro, a crítica em termos de renovação social tão vigorosamente desenvolvida por Van Wyck Brooks e Waldo Frank e, antes deles, por um rapaz de vinte e tantos anos que, ainda estudante de Colúmbia, se revoltou contra a rotina acadêmica, contra o ensino exageradamente classicista, contra a estreiteza de valores morais e intelectuais predominantes. Refiro-me a Randolph Bourne, pensador como não teve igual sua geração nos Estados Unidos, mas que a morte levou tão cedo.
Quando cheguei à Universidade de Colúmbia encontrei ainda quente sua memória; alguns dos seus amigos foram meus camaradas; vários dos seus mestres foram meus professores. Tenho às vezes a impressão de ter conhecido Bourne. Ele era corcunda, troncho, andava de banda, sem nenhuma das qualidades que predispõe à vitoria num país onde se tem feito verdadeiro culto da eugenia e da beleza física; particularmente numa universidade como a de Colúmbia, onde o estudante que se matricula, depois de retratado mentalmente pelos "tests", é fotografado nu da cintura para cima, prestando-se atenção aos menores desvios da coluna vertebral e dos ombros. Bourne deve ter sofrido a dor do contraste de um corpo tão feio no meio de uma mocidade tão ostensivamente sã. Entretanto não deu para triste. Foi a alegria em pessoa. Alegria de viver. Alegria de compreender. Em suas idéias se refletiu sempre essa volúpia. Nelas se sente o gosto de pensar com os olhos abertos, à maneira ocidental.
Se a morte não o tem levado aos trinta e poucos anos, ele, que dos estudos de literatura se passara com a mesma intensidade para os de ciências sociais, teria sido talvez o maior "leader" da geração nova no seu país; o maior coordenador da revolta dos novos contra uma ordem econômica, social e intelectual que se vem rapidamente esfarelando aos golpes da política antiplutocrática do segundo Roosevelt. Porque nesta obra de Roosevelt não se deve ver o puro esforço de um homem nem a ação de uma política - sim a última fase, ou pelo menos a decisiva, de um movimento preparado, em grande parte, nas universidades, por professores de ciências sociais; animado pela voz revolucionária de um grupo de poetas que, desde 1915, com Edgard Lee Masters, rompeu com a tradição suave dos poetas da Nova Inglaterra para servir a de Walt Whitman, o velho agreste.
Nos fragmentos que Randolph Bourne deixou vamos encontrar por assim dizer racionalizada a revolução intelectual que se definiu em cores tão vivas no movimento dos novos críticos, quase ao mesmo tempo que no dos novos poetas e romancistas. Nos Estados Unidos ocorreu esta coincidência feliz: a de uma crítica capaz ao lado de uma poesia vigorosa.
Bourne pressentiu a América trans-nacional que se vai levantando em oposição à outra, escravizada pela língua, pelas tradições, pelas instituições legais, pelos métodos e estilos jurídicos, à Inglaterra da colonização puritana; a América de uma vida sexual e de família hoje ainda confusa, mas que procura tornar-se clara, franca, desassombrada, livre das repressões calvinistas que resultam nas pobres das Lulus Bett, tão esmagadas dentro da atual organização de família sob o nome adocicado de "titias".
A revolução nas letras americanas se caracteriza por uma série de antagonismos à ordem social estabelecida que podem ser resumidos nos seguintes: (1) - anti-colonial, isto é, anti-inglesa, procurando quebrar a exclusividade da influência anglo-saxônica no gosto, nas idéias, nos estilos e na expressão americana; procurando substituir essa exclusividade pela liberdade de inspiração e pela flexibilidade de expressão - servir-se das sugestões de cultura vindas de grupos de colonização mais nova que a inglesa e até da negra, que vinha se endurecendo num mundo à parte, porventura o mais rico e cheio de possibilidades artísticas; (2) anti-puritana - a revolta contra o moralismo que até Edgar Poe e Whitman abafara nos seus pretos e cinzentos todo o impulso de arte livre e criadora; (3) - anti-otimista, substituindo a convenção do "happy end", a crença no Progresso Indefinido (ainda hoje representada por essa organização caracteristicamente americana que são os Rotários), a antiga tendência para o conforto mental, para as idéias cadeira-de-balanço, em que o homem só faz engordar intelectualmente, por uma coragem nova para a instrospecção, para a crítica, para a dúvida, para o ceticismo; (4) - finalmente, anti-burguesa, na oposição, intencional ou não, às normas de vida criadas pelo industrialismo sob um "laissez taire" como nunca se viu igual ou mais desadorado; oposição violenta nos romances de Frank Norris - The Octopus, por exemplo - e nos de Upton Sinclair; e tambem nos de Theodore Dreiser, Sinclair Lewis, Sherwood Anderson, John dos Passos. Em quase todos os romancistas novos. E nos poetas como Master, Oppenheim, Vachel Lindsay, Claude Mckay, Carl Sandburg. Sandburg - o poeta de Chicago - a Chicago dos trens chegando das sombras com gente magra e suinos. Gordos dentro dos vagons; das prostitutas seduzindo os rapazes sardentos que vêm das cidades pequenas do interior; dos bandidos; dos meninos com fome. Mckay, o poeta da New York negra:
"In Harlem wandering from street to street."
Os poemas e romances novos dos americanos - verdadeiros auxiliares das ciências sociais na sua curiosidade pelo vivo, pelo atual pelo contemporâneo - escandalizariam no Brasil aqueles críticos fastientos que nem em livro de sociologia acham de bom tom falar-se em "carne ruim e cara" - tal como a consumida por varias cidades brasileiras do Norte. Upton Sinclair fez do problema de abastecimento de carne à população americana o assunto de um romance, hoje traduzido em quase tudo que é língua - The Jungle. Obra intencional, que as fortes qualidades de expressão do autor não deixaram que se dissolvesse em simples esforço de propaganda socialista. Apenas, quanto à sua mensagem, a que repercutiu no ânimo público não foi a proletária, ou melhor - para aceitarmos a feliz discriminação do sr. Aderbal Jurema - a revolucionária, a favor do proletariado miseravel no meio da qual Upton foi viver - homens de macacão azul, as mãos sujas de sangue, o corpo impregnado até à alma da inhaca das carnes podres. A mensagem que repercutiu foi outra: a imundície e a falta de escrúpulo que o livro revelou dominar nos matadouros de Chicago, no preparo das linguiças, dos chouriços, das conservas em lata. A burguesia alarmou-se; e do romance de Upton Sinclair, publicado no tempo do primeiro Roosevelt, resultou, não nenhum movimento de opinião a favor dos homens explorados pelos reis do chouriço mas um movimento caracteristicamente burguês no sentido de melhor fiscalização do preparo daqueles alimentos: as leis chamadas de "pure food". Tal é sempre o grande público: um egoista formidavel. O mesmo egoista que não se moveu quando em Chicago, primeiro que nas cidades da América do Sul, os operários foram espingardados pela polícia.
Moveram-se porem os romancistas como Upton Sinclair e Frank Harris; os poetas como Vachel Lindsay. E, primeiro que os estudantes, vêm se movendo contra as violências de exploração de classe e de raça nos Estados Unidos os professores de ciências sociais das universidades - alguns deles obrigados a deixar suas cátedras pela força ostensiva ou dissimulada da reação plutocrática ou puritana. Tais Veblen, de Stanford, e Charles Beard, de Colúmbia. Figura romântica, a desse velho Veblen - de quem fui encontrar em 1931 a tradição em Stanford, já outra Stanford, com os professores quase todos inimigos da política econômica de Herbert Hoover, embora o então presidente da República fosse filho querido da Universidade e o presidente desta, ministro do Interior. É que o ambiente se modificara profundamente. A transformação de espírito nos Estados Uniros é espantosa de 1920 para cá. Os homens novos parecem netos, bisnetos e não simplesmente filhos de seus país - tal a distância de uma geração a outra nos últimos anos.
No discurso em que tive a honra de agradecer a professores da Universidade de Stanford o almoço que ofereceram aos seus colegas de fora chamados a reger cursos na primavera de 31, salientei que uma coisa me impressionara nos meus dias de estudante nos Estados Unidos: ao contrário da América do Sul e dos paises latinos em geral, lá os radicais eram principalmente os professores, e os estudantes os conservadores ou, pelo menos, por sua "nom chalance", quase indiferentes aos problemas do dia. Olhando a vida com o ar mais "débonnaire" deste mundo. Compreende-se: o maior número de estudantes vem precisamente da classe plutocrática, que é a minoria satisfeita com a ordem atual; a minoria farta e godera.
A verdade porem é que nos últimos anos outra tendência vem se fazendo sentir. Eu próprio o verifiquei em Stanford, onde conheci, dentro e fora dos meus cursos, grande número de estudantes de tendências radicais; uns ansiosos por uma nova ordem social, outros, cépticos, vários com a coragem, outrora tão rara, de duvidar das verdades tradicionais ou estabelecidas. George Bernard Shaw notou uma vez que à coragem dos anglo-saxões de se arriscarem a quebrar o pescoço, correndo a cavalo ou voando de avião, correspondia um medo enorme de perderem a alma, o conforto ou a paz de espírito, duvidando das verdades recebidas dos seus maiores, entregando-se a aventuras intelectuais. Outra não me parece a função principal do ensino superior senão a de fazer o estudante pensar, estimulado por aquele cepticismo que pode tornar-se mórbido, mas que tem sua zona saudavel e propícia à re-interpretação, por todo o indivíduo e por toda a geração nova, dos valores e dos motivos da vida que lhes transmitiram seus antepassados. Os valores com qualidades verdadeiramente clássicas de permanência resistem à prova; não há que temer por eles. O que não é justo é que uma geração pense pela outra, transmita à outra idéias já servidas e ideias já vazios. Mesmo na religião, os que trazem vida nova aos credos são os grandes convertidos, os que por um esforço pessoal, muitas vezes doloroso, recompõem, juntam os pedaços do crucifixo que deixaram quebrar-se nas próprias mãos ou a fé ou ortodoxia que receberam já partida. Não foi outro o drama de Nabuco, que ele próprio recorda em Minha Formação; e recentemente o de Jackson de Figueiredo e o de Tristão de Ataide. Os grandes animadores intelectuais do catolicismo entre nós.
A vida universitária nos Estados Unidos - refiro-me às grandes universidades, que são oito ou dez, seguindo-se várias de segunda ordem e algumas de terceira e quarta - reflete hoje a tendência do estudante para aceitar menos passivamente a massa de fatos, valores e ideais que lhe transmitem os mais velhos. Essa atitude tem sido grandemente excitada pelo estudo mais intenso e generalizado das ciências sociais, segundo método, não só "genético" - que desfaz ilusões místicas sobre o passado - como o chamado "institucional", que se aproxima das instituições vivas sem referências nem timidez supersticiosas, mas com o espírito de indagação e avaliação desembaraçado quanto possivel de preconceitos.
É sabido que recentemente os estudantes americanos, como os ingleses, manifestaram-se, em grande número, contra o militarismo imperialista. A mística militarista, se não está em declínio definitivo entre a mocidade americana e inglesa, está em crise profunda; e com a mística militarista, a mística imperialista e a própria mística estreitamente nacionalista ou patriótica: aquela a que na geração passada sacrificaram-se na Inglaterra e nos Estados Unidos vidas de tão puro e alto valor. Explica-se um pouco por essa crise ou declínio de um idealismo que teve a sua última e infeliz vibração em 1914-1918 o movimento regionalista que, nos últimos anos, tem se desenvolvido nos Estados Unidos, procurando restituir as cores antigas de saude econômica e de alegria social a regiões desde a Guerra Civil devastadas pela estandardização industrialista, reduzidas a terras conquistadas pela uniformidade cultural criada por esse mesmo industrialismo e pelo seu desdobramento lógico, o imperialismo. Imperialismo exercido não só sobre os vizinhos mais fracos - as repúblicas negroides e caboclas da América Central - como sobre as populações do Sul, vencidas na Guerra Civil.
No verão de 31 tive o gosto de assistir às últimas reuniões do Congresso Regionalista que se realizou na Universidades de Virgínia, com a presença de sociólogos e economistas como o professor R. D. Mckenzie, da Universidade de Michigan, e o professor Howard Odum, da Universidade da Carolina do Norte, de poetas como John Gould Fletcher e do próprio Franklin D. Roosevelt, hoje presidente da República, que tratou, em discurso, da necessidade de planejar-se regionalmente a vida americana. Do ponto de vista econômico, planejar regionalmente a vida de um povo importa em sujeitá-lo à economia dirigida que Roosevelt vem pondo em prática de maneira tão decisiva. Do ponto de vista cultural e social, em por em contacto a energia, a substância, a realidade regional com a trans-nacional da idéia de Bourne; em reduzir à insignificância o ideal de uniformidade nacional, geralmente obtido e assegurado pelo recalcamento das diferenças de região e das diversidades de herança cultural e de raça.
É claro que nos Estados Unidos, a terra por excelência da mobilidade, com 25.000.000 de automoveis correndo de norte a sul, de leste a oeste, o regionalismo não pode ser o mesmo dos paises europeus ou sul-americanos, porem outro, mais flutuante e mais plástico. Ainda assim regionalismo, fundado em fontes e motivos de vida peculiares a regiões que se deixam definir pelo carater de suas possibilidades de especialização econômica e pelos seus antecedentes de cultura humana. O professor Odun define o regionalismo americano como uma reação do critério de qualidade contra o de quantidade. Nesse esforço de articulação regionalista, têm tomando parte saliente, por meio de sondagens e estudos regionais, professores e estudantes de economia e sociologia das universidades. Especialmente com relação ao Sul - a região mais interessada em reagir contra a estandardização que desde a Guerra Civil lhe paralisou os impulsos de originalidade criadora, reduzindo-a a um estado semi-colonial na engrenagem da economia americana.
Embora o Sul dos Estados Unidos não tenha hoje nenhuma grande universidade, convem salientar os trabalhos interessantíssimos sobre folclore, superstições, música e poesia popular dos negros que vêm sendo realizados por professores e estudantes de ciências sociais na Universidade de Carolina do Norte; e os de economia e literatura regional, na velha Universidade de Virgínia. De passagem recordarei que na Universidade de Virgínia se pode ver ainda o quarto em que morou, quando estudante, o poeta Edgar Allan Poe, aquele que se sentiu em tão acre antagonismo com a moral americana do seu tempo.
É nas universidades do Norte que o estudo de ciências sociais tem tomado maior relevo. Principalmente na de Colúmbia - o colégio de artes fundado nos tempos coloniais (1754) pelo rei Jorge II; a escola onde estudou Alexandre Hamilton, o mais tremendo adversário, na política e nas idéias econômicas, de Thomas Jefferson, fundador da Universidade de Virgínia. Recentemente tem-se procurado explicar pela psicanálise as idéias antagônicas dessas duas grandes figuras, de tão forte influência sobre a formação americana; e não resisto à tentação de dar aqui um resumo desses estudos. Eles representam um dos aspectos mais sugestivos da moderna orientação das pesquisas históricas e sociológicas nos Estados Unidos: sua base ou critério psicológico. Pode-se mesmo dizer que a cientitização da sociologia e das outras ciências sociais vem se processando em grande parte pelo maior emprego do método psicológico.
Para o professor Barnes, Hamilton e Jefferson ilustram de modo admiravel os característicos do extravertido e do introvertido. O extravertido seria Hamilton, que na vida política se salientou pelo seu amor exagerado à ordem e à autoridade e pelo seu persistente esforço de realização. Jefferson, o introvertido, pelo seu horror à autoridade e à centralização, pelo seu senso de inferioridade diante do público, por sua sensitividade mórbida à opinião dos outros. Examinados os antecedentes de família destes dois grandes homens e a sua vida de mennos, verifica-se em Hamilton a situação comum a grande número dos filhos ilegítimos - que parece ter sido realmente a sua - isto é, uma menor afeição do filho pela mãe e pouco ou nenhum domínio do pai sobre o filho. Hamilton fez-se quase por si: daí o desenvolvimento, em sua personalidade, de qualidades dinâmicas. Enquanto o outro nasceu e cresceu em ambiente rigidamente patriarcal. Seu pai, Peter Jefferson, sabe-se hoje que era um gigante de homem, desses de cabelo na venta, voz de capitão de brigue, temido por todos. Quando tinha raiva, era como os gigantes de história da carochinha. A casa toda tremia. Era como se o homem terrivel quisesse beber sangue, e o sangue dos próprios filhos e não apenas o dos escravos. Tomazinho cresceu um menino franzino e pálido à sombra de seu pai homenzarrão, de um senhor-pai-todo-poderoso. Quando o velho Peter morreu, ele tinha apenas quatorze anos; de modo que a imagem que lhe ficou para o resto da vida foi a do pai visto e temido pelos seus olhos de menino. Em Thomas Jefferson a imagem paterna nunca se elevou ao nível da idade de adulto. Daí o complexo que nele se desenvolveu, de libertário, inimigo da autoridade; complexo elaborado em suas teorias radicais de descentralização e democracia, sua revolta contra a autoridade estendendo-se ao próprio Deus.
Barnes salienta que Jefferson deve ter conseguido aliviar-se, em grande parte, do complexo que o oprimia através dos insultos em que tantas vezes e tão voluptuosamente se extremou contra os reis em geral e os monarcas contemporâneos em particular. E tambem através de sua defesa, onde há laivos de sadismo, de uma revoluçãozinha de vez em quando, a árvore da liberdade, segundo suas próprias palavras, precisando de ser refrescada uma vez por outra com o sangue dos tiranos. O professor Barnes, com a aplicação da psicologia de tipos ao estudo da história americana, não pretende diminuir o valor da análise do ambiente social e econômico que forneceu a "leaders" assim constituidos as forças apropriadas ao seu controle e direção; e que antes lhes afetara o desenvolvimento. O que ele procura é sugerir que, no caso de Hamilton e Jefferson por exemplo, aqueles dois tipos psicológicos, correspondendo a necessidades ou interesses antagônicos do momento - os industriais e os agrários, os de centralização e os de descentralização - deixaram impressão duradoura sobre as instituições políticas da República Americana. Foi, aliás, dentro dos mesmos limites que sugeri, recentemente, a possibilidade de expressão, com aspectos diversos, nesses dois grandes voluptuosos do poder que foram entre nós o bispo D. Vital Maria Gonçalves de Oliveira e Floriano Peixoto, do resíduo sadista que lhes teria ficado de sua meninice em engenho do Norte. Em estudo próximo pretendo me ocupar com mais detalhe da personalidade, aliás admiravel, de D. Vital Maria, em quem porventura atuou poderosamente o complexo da imagem materna, identificado com a imagem concreta da Virgem Maria e com a abstrata da Santa Madre Igreja. Pelos estudos modernos de psicologia, parece que os apegos formados na meninice alongam-se pela vida adulta, em identificações que exprimem reajustamentos ao antigo sentimento infantil com relação ao pai ou à mãe. É o que explica, segundo Barnes, o fato de padres católicos violentamente contrários à autoridade secular - como entre nós D. Vital - serem ao mesmo tempo defensores heroicos da autoridade da Igreja. A revolta contra a autoridade política representaria a rebelião inconciente contra o pai, enquanto na devoção pela Igreja e na subordinação à sua autoridade se prolongariam a devoção pela figura da mãe e a subordinação à autoridade materna.
O critério psicológico no estudo das origens e do desenvolvimento social dos Estados Unidos, segundo o têm influenciado grandes personalidades de "leaders", aplicou-o a trabalho recente de Harvery O'Higgins, no livro American Mind in Action. Aí estuda a figura dolorosa de Lincoln, um caso de ciclotimia, causada por exagerado apego à imagem materna e rebelião contra a paterna; o complexo Jeová em Emerson, sua introversão mórbida resultando em amnésia profunda - fato que compromete a suposição de ter sido Emerson até o fim da vida um modelo de criatura eugênica; o complexo de inferioridade e a persistente censura da imagem materna que sempre atuaram sobre o humorista Mark Twain.
Deve-se acentuar que essa extrema liberdade de crítica aos vultos veneraveis do passado americano é conquista recente dos estudiosos. Em 1916 Paulo Haffer foi condenado a quatro meses de cadeia por ter afirmado que George Washington, o Patriarca da Independência, não desdenhava o seu vinhozinho e, nos ócios de homem de estado, entregava-se ao prazer de namoricar criadinhas da vizinhança. Com o que talvez pretendesse exercer menos platonicamente direitos de Pai da Pátria.
No sentido da liberdade de crítica e de opinião intelectual, convem salientar a influência que tem tido nos Estados Unidos, nos últimos vinte anos, uma figura que, por ser violentamente anti-acadêmica, não deixa de ser admirada e querida entre os estudantes e mesmo entre os professores mais jovens: Henry L. Mencken. Ninguem tem feito tanto, na verdade, para purgar e clarificar dos preconceitos mais grossos o ambiente intelectual e moral das novas gerações de estudantes americanos. Mencken, aliás, não tem sido apenas o crítico violento: é tambem o autor de um livro em que faz estudo profundo das correntes que vêm separando o americano de suas origens inglesas, para torná-lo trans-nacional; um estudo da "lingua americana", não só do ponto de vista filológico como do de psicologia social.
É sabido que o inglês que se fala nos Estados Unidos já não é o da Inglaterra, mas um inglês influenciado por outras linguas e refletindo outra vida e outro meio. E mais direto que o da Europa. Tendendo a abreviar-se em iniciais como o hoje universal O .K. Vários professores respeitaveis conheci nos Estados Unidos que os estudantes chamavam não pelos nomes, mas pelas iniciais. Exatamente o que se faz com alguns dos escritores mais célebres. Ninguem diz George Bernard Shaw, mas G. B. S.; nem Gilbert Keitk Chesterton, mas G. K.; nem Henry L. Mencken, mas H.L. Não é de admirar: o nome do próprio país quase ninguem o pronuncia por extenso: quase todos o conhecem pelas iniciais U. S. A . Assim tambem os nomes de algumas matérias e das mais graves, que se estudam nas universidades. O estudante americano como que retira dos nichos as diferentes deusas do saber, solenes e hieráticas, humanizando-as e fazendo-as viver entre eles. Nada de distâncias místicas nem de respeitos cabalísticos. Lembro-me da primeira vez que ouvi perguntar: "Are you going to Mat?" "Mat" soava-me como o apelido de alguem. De Mateus, talvez. Quem seria esse Mateus? Qual, o que! "Mat" é matemática. Como "Zoo" é zoologia. "Chem", química, "Lab", laboratório. O que nós fazemos nos colégios com os nomes próprios dos nossos colegas os estudantes americanos fazem com os nomes dos deuses e das deusas mais ilustres da sabedoria. Tambem os títulos universitários de bacharel, mestre e doutor são designados por iniciais: A . B., M. A ., Ph. D. L.L.D.
Essa humanização do saber e do estudo, que é a "gaya scienza" dos antigos atualizada e americanizada, contrasta com a solenidade de certos ambientes acadêmicos da Europa e da América do Sul. Imaginem-se os estudantes indo à aula nos Estados Unidos de cartola e fraque! Pois foi assim entre nós até outro dia. Nos Estados Unidos domina a "sweater" alegre, esportiva, com as cores universitárias, no tempo do inverno, e a camisa sem paletó no verão. No verão vários professores confraternizam com os estudantes, dando suas aulas de manga de camisa. Ninguem entretanto os exceda em solenidade por ocasião das cerimônias, quando desfilam de toga e murca pelo "campus", lembrando bispos e cônegos nas nossas procissões de Corpus Christi.
Em Stanford fui encontrar a instituição do "over-all", ou macacão, excelente para os trabalhos de laboratório. Esses mesmos estudantes de macacão azul ou de listras, encontrei-os muitas vezes à noite, nos jantares das "fraternities" - que são clubes de estudantes, alguns instalados em verdadeiros palacetes, mobilados com luxo, servidos por negros de dolman branco - muito elegantes nos seus "smokings" e nas suas camisas de peitilhos duros.
A muita humanidade do estudante americano ainda não lhe destruiu de todo os restos de esnobismo que guarda do inglês. As "fraternities" são instituições de carater profundamente anti-democrático, dividindo os estudantes pela origem social ou situação econômica da família. Outro esnobismo, este curioso, é o de estudantes de certas faculdades ou especializações com relação a outras que julgam menos nobres. Assim o desdem dos estudantes das várias faculdades da Universidade de Colúmbia - ciências políticas e sociais, minas, direito, medicina, filosofia - pelos estudantes do Teacher's College, que é a faculdade de educação. E dentro das faculdades é a mesma coisa. Os professores e os estudantes das matérias mais antigas não dsifarçam seu desprezozinho pelos estudantes e professores das matérias mais novas. James Harvey Robinson, professor de Colúmbia, que é um dos grandes renovadores do estudo da história, que socializou, pode-se dizer, o estudo da história americana e daquela parte da européia que interessa as origens americanas, faz de conta que nunca ouviu falar de sociologia - isto é, da sistemática. Quase o mesmo desprezo pela sociologia creio às vezes ter surpreendido em Seligman, professor de economia da mesma universidade. É que as ciências sociais se encontram ainda numa fase balcânica, de fronteiras mal definidas, umas invadindo o território das outras, e a sociologia tomando, esta é a verdade, uns ares de ciência imperial que as outras não querem reconhecer. Ciência ainda verde, com uma independência de território e de método que data apenas de um século, a sociologia como que procura vingar-se do fato de ter atravessado largo período espalhada israelitamente por territórios alheios - pela filosofia, pela política, pela ética, pelo direito - assumindo aqueles ares e aquelas pretensões imperiais. Autônoma, excedeu-se com Augusto Comte, Spencer, Tarde, L. H. Morgan, o próprio Ward, em "generalizações" e em "leis" (Excetuo Gustave Le Bon, porque este publicista está tão fora das ciências sociais quanto Ohnet "fora da literatura", no dizer de Anatole).
Nos últimos anos, porem, vem se fazendo a reação contra aqueles excessos. Aliás a reação não se limita às ciências sociais: estende-se às chamadas exatas. Em todas elas se acentua a tendência para substituir o antigo dogmatismo do século XIX pelo que Lindemann chama "perpetual tentativeness". Em todas - mas sobretudo nas sociais, em que o objeto de estudo escapa particularmente ao rigor das leis gramaticais da ciência. São ciências, como diz Ely da economia, de aproximação. Sua insistência científica deve ser mais no método do que nas leis - sabido que nas próprias ciências exatas as leis são precárias. Dos "seis princípios básicos que regulavam até fins do século XIX o mundo físico" lembra Millikan que nenhum está hoje inflexivel: todos têm sofrido restrições e críticas profundas, nos últimos trinta ou quarenta anos.
O perigo das generalizações faceis se acentuou particularmente na sociologia - sobretudo na sociologia de gabinete, gênero Comte e Spencer. Para contrariá-lo é que tem se desenvolvido ultimamente um como controle da sociologia pela psicologia e pela antropologia - ciências mais seguras nos seus métodos e na sua técnica. Outro controle dos excessos de qualquer das ciências sociais em particular é o que resulta do maior intercurso entre elas: a economia, a sociologia, a ciência política, a antropologia cultural.
Creio aliás que, diante dos conflitos de fronteiras e zonas de influência entre os estudos sociais, o melhor é o estudante fugir do excesso de especialização em determinada ciência social para adquirir, no contacto com as outras, maior riqueza de observações e maior variedade de pontos de vista. A organização universitária nos Estados Unidos, se por um lado favorece e anima a especialização, permite por outro ao estudante grande flexibilidade no seu programa de estudo. Passou, é claro, o tempo dos latifúndios intelectuais; ninguem hoje acredita nos Ruis Barbosas, enciclopédicos e tremendos, senhores de todo o saber humano e de um pouco do divino. Mas ao cientista em geral, e ao cientista social em particular, toca a responsabilidade de um mínimo de cultura generalizada indispensável às suas especializações. Sem esse mínimo, compreende-se talvez um grande físico ou um grande químico; mas não se compreende um grande sociólogo ou um grande economista. Harold Stearne lembra que durante a guerra de 1914-1918 foram os grandes físicos e os grandes químicos que nos Estados Unidos e na Europa mais se extremaram em patriotadas e vulgaridades, revelando-se uns criançolas fora de suas especialidades. Enquanto os cientistas que deram prova de maior equilíbrio, de tolerância e visão superior das coisas, foram os antropologistas, os biólogos, os psicólogos. Exatamente os menos especialistas naquele mau sentido de saber-se o mais possivel sobre o mínimo possivel: de morar-se num quarto sem janela para a rua ou mesmo para o quintal.
No estudo das ciências sociais nas universidades americanas uma matéria puxa a outra, até os cursos incluirem trabalhos de pesquisa e laboratório idênticos aos dos estudantes pre-médicos. Não se compreende o estudo da ciência política, da economia, da história social, da antropologia cultural, do direito, da sociologia sem o da antropologia física, o da geologia, o da biologia, o da psicologia. A coexistência de faculdades ou departamentos especializados permite ao estudante americano, nas grandes universidades, estudar as matérias correlacionadas com as de sua especialização, sob os cuidados de mestres ilustres e com todas as vantagens de recursos técnicos e de laboratórios; e não à toa, por esforço próprio, ou sob a direção de professores improvisados. Ao mesmo tempo permite ao professor de sociologia ou história social, por exemplo, a colaboração do seu colega de psicologia ou biologia. O 'Higgins escreveu o seu trabalho de interpretação psicológica da história americana com a colaboração de um colega, especialista em psiquiatria. Com possibilidades de tão facil intercurso intelectual entre os estudiosos das várias ciências evitam-se os perigos da especialização sem se prejudicarem suas vantagens.
Falei-vos da humanização do estudo e do saber nas universidades americanas; quero particularmente me referir à humanização dos estudos sociais. Essa humanização constitue mesmo o característico de um dos ramos da chamada Columbia School, isto é, do grupo de renovadores dos estudos de história saidos da Universidade de Colúmbia: Robinson, Beard, Shepherd, Shotwell, Hayes, Preserved Smith.
The Humanizing of Knowledge - intitula-se o livro em que o professor Robinson se insurge contra os cientistas que se fecham em torres de marfim. Acusação que outrora se fazia aos poetas. Robinson quer o cientista humanizado do mesmo modo que a ciência. Humanizado não no sentido de vulgarizado ou de achatado ao nivel das platéias mundanas ou dos proletariados ignorantaços, mas no de se deixar compreender por aqueles, ford de sua especialidade e em todas as classes, que muitas vezes se sentem repelidos pelos exageros de terminologia dos especialistas. Exageros que as ciências sociais mais novas recolheram, por um lado, imitando a física e a biologia, por outro lado servindo-se de tradições místicas de linguagem da jurisprudência e da filosofia sistemática. "Necessitamos - diz o professor Robinson - de uma nova classe de escritores e mestres, de que já existem alguns exemplos... dispostos a se entregarem com toda a conciência à aventura de humanizar o saber... indivíduos cujo esforço deveria ser menos o de aumentar a erudição que o de interpretá-la e esclarecê-la... capazes de desembaraçar o saber do "abstrato" e do "professoral". Escritores do tipo de Graham Wallas, de Lowie, de Goldenweiser. Porque na verdade - como acentuava ha anos um crítico do Dial e recentemente, entre nós, Roquete Pinto - muito erro comum nos publicistas, nos legisladores, vem do conhecimento de uma sociologia às vezes de termos arrevesados, mas sem fundamentos antropológicos e biológicos.
As ciências sociais nos Estados Unidos, mais do que na Europa - principalmente na Alemanha, onde é volúpia antiga, vinda dos filósofos do século XVIII, o requinte da terminologia, requinte que encontrou entre nós cultor tão esmerado no eminente jurista e sociólogo que todos admiramos, professor Pontes de Miranda - vêm-se humanizando tanto em orientação como em expressão. Não para se subordinarem ao imediatamente prático, ao humanitário ou ao sentimental, mas para se ligarem melhor e mais profundamente à vida.
Os que em assuntos, vamos dizer de história ou antropologia social, procuramos nos exprimir de modo que nos compreenda todo o leigo inteligente sujeitamo-nos, é certo, à crítica, algumas vezes inepta, daqueles que, por nos entenderem as palavras, pensam que estão senhores de nossas idéias. Raros, na verdade, entre esses, os que têm a coragem do adolescente de Oxford, o qual, depois de ouvir a conferência de Mallarmé, confessou com todo a candura: "entendi todas as palavras, não compreendi uma só sentença".
Escrevendo-se e falando-se com o máximo possivel de simplicidade e o mínimo de terminologia arrevesada, ganha-se o contacto com aquelas inteligências fora da nossa especialidade que ficariam sem nos compreender as idéias, por não nos entenderem as palavras. A compreensão destes vale bem o desconforto que possa trazer a escritores mais sensitivos o fato de serem criticados com desembaraço pelos que só lhes compreendem as palavras.
O mesmo critério de humanização da linguagem vamos encontrar em Franz Boas, professor de antropologia de Colúmbia, e nos seus discipulos, já hoje mestres: Goldenweiser, Wissler, Kroeber, Lowie. Quem ler Are We Civillised? de Lowie é quase como se lesse um Chesterton. Não é um cientista à antiga, fechado na sua terminologia dura e seca, mas um escritor que interpreta e esclarece da maneira mais viva e humana o material de sua ciência`b.
É curioso que no país onde o mito da superioridade de raça branca projeta ainda tão larga sombra floresça a escola de antropologia mais franca no seu critério de oposição do fator cultural ao racial: a escola de Boas. Logicamente, o centro dessa escola deveria ser a França - dos países mais cultos, o mais avançado na prática da democracia social que necessariamente se estende ao intercurso dos brancos com gentes de cor. Foi entretanto a pátria do famoso conde de Gobineau, o teorista que mais do que ninguem animou a mal-assombrado moderno da miscegeneação e o complexo, agora mesmo tão forte na Alemanha, da pureza da raça.
Boas não se limita a opor à interpretação racial, no estudo das sociedades, a interpretação cultural. Retifica a teoria do materialismo histórico na sua insistência sobre o predomínio exclusivo do fator econômico, ou antes, quebra-lhe o exclusivismo, incluindo o fator econômico nos complexos de cultura, dentro dos quais alternam os predomínios. Obedecendo a pontos de vista diversos do de Boas, vamos encontrar a mesma oposição ao critério do prodomínio exclusivo do fator econômico em Seligman, Ely, Giddings, Ellwood; pode-se mesmo generalizar, em todos os grandes mestres de ciências sociais dos Estados Unidos. Desde Ward a radicais do tipo de Veblen, Robinson, Barnes. Dentre as teorias de interpretação sociológica e da história, saidas das universidades americanas, que opõem restrições ao determinismo econômico, umas profundas, baseadas em divergências inconciliaveis, - tais a de Shailer Mathews (The Spiritual Interpretation of History) e a de E. D. Adams - outras só aos exageros de intérpretes mais marxistas que Marx, recordarei, alem da cultural, de Boas e Wissler, a tecnológica, de Veblen, a psicológica (Ogburn, Tead e outros) e a "intelectual" de Robinson. A teoria econômica de interpretação de história foi aplicada com profundo senso crítico ao estudo da história política dos Estados Unidos pelo professor Beard no seu trabalho An Economic Interpretation of the Constitution of the United States, que julgo ser vosso conhecido velho. Tambem no seu The Economic Basis of Politics. O primeiro é dos melhores livros que se têm escrito naquele país sobre um assunto que de algum modo nos afeta, nossa primeira constituição republicana tendo se inspirado na dos Estados Unidos. De William F. Ogburn destaca-se o estudo The Psychological Basis for the Economic Interpretation of History (American Economic Review, supplement, March, 1919).
O direito nos Estados Unidos, outrora estudado rigidamente pelo critério dos "casos", vem sendo socializado na sua orientação e aplicação, tanto quanto na técnica do seu estudo. Em 1897 já o juiz Holmes indicava, em conferência que ficou célebre, pronunciada na inauguração da Faculdade de Direito da Universidade de Boston, a necessidade de ligar-se de maneira mais íntima ao estudo do direito o da história social, o da economia e o da jurisprudência. A socialização do direito nos Estados Unidos - o desenvolvimento do direito substantivo em linhas sociais, pela incorporação de novos valores, reconhecendo-se novas necessidades a atender, criadas pela complexidade do sistema industrial - é tendência certamente vossa conhecida. Representam-na hoje, na sua expressão mais avançada, juristas como Rosenberry e B. N. Cardozo e o sábio professor de jurisprudência que é o deão da Faculdade de Direito da Universidade de Harvard, Roscoe Pound, autor de Interpretations of Legal History. Precisamente em Harvard e em Colúmbia é que a técnica no estudo do direito se tem modificado mais sensivelmente no sentido de um maior contacto com as ciências sociais mais novas e com os seus métodos de interpretação e pesquisas. No sentido de sua maior identificação com experiência social. "Os problemas do direito" - escreve Pound, em palavras que revelam a influência sobre ele da sociologia e da economia - "são problemas sociais": a ordem legal é "uma forma especializada de controle social". E "são problemas econômicos": o controle social implica a "direção daquelas atividades humanas que procuram satisfazer desejos ilimitados valendo-se de material limitado". Ha que harmonizar aqueles desejos como esse material.
É grande a insistência que se faz em todo o estudo universitário de ciências sociais nos Estados Unidos, inclusive no de direito, na familiaridade do estudante com as fontes, ou as "primary sources" de cada especialização. Com os documentos. Com a matéria bruta, original, virgem, de que se fazem livros às vezes deformadores. Essa insistência é maior nos cursos de "seminário" e de "graduate work", cabendo ao professor guiar o estudante na descoberta, na seleção e na crítica das fontes. Lembro-me do trabalho enorme que tive na Universidade de Stanford para familiarizar-me com a secção da biblioteca consagrada a documentos e MSS relativos à escravidão nos paises americanos - toda a massa de correspondência dos cônsules, de relatórios de comissões extraordinárias nomeadas pelo Parlamento Inglês para investigar as condições de trabalho nas plantações de cana e de café nos paises escravocratas, de cartas e diários de viajantes estrangeiros. Na mesma Universidade fiz parte da comissão examinadora de um candidato ao grau de doutor em ciências sociais, que deixou de ser aprovado por não revelar a familiaridade com as "primary sources" na forma rigorosa julgada essencial pela maioria da comissão. Devo dizer que esses exames se fazem com uma grande sem-cerimônia, o candidato muito à vontade, numa sala sóbria e suave de "seminário", sem a presença de estranhos, os examinadores fumando pachorrentamente os seus cachimbos como no "fumoir" de um "club" e conversando com o candidato mais do que dirigindo-lhe a palavra em tom solene de discurso. Entretanto as perguntas iam às vezes a detalhes que aqui nos pareceriam absurdos. Por exemplo: que edições conhecia o candidato de determinada obra, suas datas, outros caraterísticos.
Sem ser livresco, o ensino das ciências sociais nos Estados Unidos se apoia fortemente nos livros. A quantidade de leitura, chamada colateral, exigida do estudante, durante um curso mais avançado de economia ou sociologia, haveria de vos deixar assombrados. Essa leitura é controlada pelo professor ou por seu assistente. Na Universidade de Stanford, os resumos das conferências do professor são mimiografados e distribuidos entre os estudantes, acompanhados de uma nota bibliográfica. Não uma vaga bibliografia, mas indicada exatamente a parte do livro - tal ou qual capítulo - que o estudante deve ler em conexão com a conferência que acaba de ouvir. No fim da semana ou da quinzena, o estudante deve entregar ao professor um resumo da leitura feita, acompanhado de comentários e observações próprias, confronto de um autor com outro, etc.
Naturalmente, a importância do estudo das "primary sources" é maior nos cursos e seminários de história. Ouvi Robinson - creio que foi Robinson - dizer uma vez que a história, ao contrário da crença geral, não se repete: os historiadores, estes sim, é que vivem se repetindo. Nenhum professor criou nos seus discípulos maior gosto de contacto com as fontes do que Robinson; nem maior horror ao conhecimento de oitiva. E precisamente com este fim: evitar a repetição de erros, colhidos às vezes de segunda e terceira mão. É claro que em muitos casos o estudioso da história não tem outro jeito senão repetir o antecessor. Mas deve ter sempre a preocupação de autenticar as afirmações que repete e de que vai fazer a base de interpretações novas.
Mas o estudo das ciências sociais não fica nos livros. O de sociologia e o de antropologia social, principalmente, incluem o chamado "field work" ou trabalho de campo; o "social survey" ou sondagem sociológica limitada a certo grupo ou área social; as entrevistas sociológicas; o levantamento e interpretação de estatísticas; e, ainda; a chamada "social case history", que é o documento humano colhido no vivo, com toda a objetividade possivel e todo o escrúpulo ciêntifico. Essas pesquisas, como as visitas a fábricas, a penitenciárias, a serviços públicos, a hospitais, como a colheita de dados antropométricos em bairros caraterísticos, escolas, oficinas; essa variedade de experiências e de contactos humanos, por assim dizer dramatizam o estudo das ciências sociais nos Estados Unidos, dando aos estudante o gosto de descobrir ele próprio os fatos, o sabor quase físico de aventura entre os elementos básicos da vida social. Aliás, esses estudos de campo têm seu risco físico: ha poucos anos morreu assassinada por índios, creio que de Arizona, uma moça, discípula de Boas, que se excedera na sua curiosidade científica.
Neste lidar com fatos e com a interpretação dos fatos, isto é, sua generalização em idéias, é possivel que o professor e o estudante de ciências sociais nos Estados Unidos fiquem sem tempo e disposição mental para ter ideais. É a acusação que se faz à revolução empreendida por Franklin Roosevelt no seu país: a de estar se processando sem um grande ideal ou sem uma grande mística. Os russos, dizem, tiveram uma; os espanhóis, tambem; os alemães, a sua, e terrivel, a mística hitlerista; os italianos, a mística fascista; e nós, no Brasil, não nos podemos queixar da falta de ideais e de idealistas, de místicos e de místicas revolucionárias e conservadoras. Mas principalmente revolucionárias. As "revoluções" entre nós quase sempre têm trazido ao poder homens de ideais grandiosos, mas de idéias tão pequenas que ninguem as percebe. As do eminente sr. Assis Brasil, por exemplo, ficaram escondidas por trás do rótulo enorme de idealismo que assinalou sua passagem pela alta política e pela alta administração: "Representação e Justiça".
A revolução econômica e social que hoje se opera nos Estados Unidos é talvez a menos mística das que agitam o mundo e, digamos mesmo, a menos idealista. Mas é de todas a maior no esforço de procurar recriar uma ordem econômica e social tão cientificamente e tão humanamente quando possivel. É uma revolução, repito, preparada em grande parte nas universidades e pelos professores de ciências sociais; e dentro e fora das universidades por um grupo de poetas, críticos e romancistas novos, que por sua influência se assemelham aos da Rússia no século XIX.
Roosevelt tem procurado apoiar-se menos em políticos do que em professores: um dos seus principais auxiliares é hoje o professor Besle, que propõe simplesmente a abolição dos bancos particulares. Dentro desse plano de nacionalização da indústria bancária o Estado já se tornou co-proprietário de grande número de bancos. Outro colaborador saliente de Roosevelt é o professor Tugwell - sub-ministro da Agricultura e dizem as más línguas que o verdadeiro ministro.
Por tres séculos, a energia do americano esteve fixada, como salientam Van Wyck Brooks e Waldo Frank, no esforço de desbravar o continente, estender as fronteiras, acumular furiosamente riqueza. A civilização material realizou-se com tão espantosa rapidez que tirou da terra quase toda a virgindade de seiva e do homem a virgindade dos instintos criadores mais puros e humanos, substituindo-os pelos que Tawney chama de "aquisição" e Bertrand Russel de "posse". Adquirir, possuir, ganhar, em vez de criar e de viver. Em religião, o Metodista; em política, o Republicano ou Democrata; em idealismo social o Rotariano. Um menino espiritual dentro de um corpo de técnico gigante. O que hoje ocorre é a recuperação da força criadora e da saude econômica que o homem perdera dentro do industrialismo individualista; o equilíbrio entre seus instintos criadores e sua ânsia abafada de beleza e a técnica super-desenvolvida a serviço dos "instintos de aquisição" ou de "posse".
Fonte: FREYRE, Gilberto. O estudo das ciências sociais nas universidades americanas. Rumo. Rio de Janeiro, n. 1, v. 1, p. 4-24, jan./mar. 1943.
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