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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Periódicos Científicos  



A EXPERIÊNCIA AFRO-BRASILEIRA


Que o Brasil começou a ser pré-Brasil como humana e cultural da Europa - especificamente em Portugal - é o fato inconfundivelmente histórico. Mas não explica por si só nem o aparecimento do Brasil como nova entidade sócio-cultural no mundo que se considere "moderno" - dando extensão sociológica a adjetivo tão impreciso - nem a sua consolidação em sistema nacional de convivência e de cultura.

Essa consolidação se processaria através da confluência de outras presenças ou de outras contribuições, além da européia. Um processo complexo e abrangente. O lastro de cultura e de população ameríndias não pode ser nunca desprezado. Mesmo porque subsiste. Mas a ele se acrescentaria fortemente outra presença não-européia: a negra africana.

As culturas negras da África, juntamente com negros antropologicamente negros - considerados, quer como indivíduos biológicos, quer, mais do que isso, como pessoas sociais ou sócio-culturais - passaram, desde o século XVI, a fazer sentir sua presença na formação de um tipo miscigenado de homem paranacional e de uma configuração pré-nacional de cultura. Essa presença foi de tal modo ativa, dinâmica, influente, africanizante, que vez dos negros vindos da África para o Brasil, embora escravos, co-colonizadores desta parte da América, ao lado dos europeus - máximos fundadores da nova cultura - em face dos ameríndios aqui menos culturalmente desenvolvidos que aqueles negros africanos, tão presentes no Brasil desde o século XVI.

Biologicamente presentes. Culturalmente presentes. Presentes e marcantes, atuantes, influentes, contribuintes.

Contribuindo, através da mistura física, para a emergência de novos tipos de homens e de novas formas de beleza de mulher. E através da mistura cultural, para novas combinações culturais, como por exemplo valores ou traços de origem negra ou de procedência africana colorindo valores e traços de cultura não só indígenas ou ameríndios, como também vindos criativas e germinalmente não só da Europa mas de certas áreas culturais da África. Vindos principalmente da Europa ibérica: a colonizadora mais ativa do Brasil e ela própria já trocada, na Europa, por influências negras ou africanas.

Os condicionamentos ecologicamente tropicais de formações sócio-culturais como a do Brasil, euro-afro-ameríndio em suas bases étnico-culturais, incluem, é claro, os que se refletem sobre suas formas de economia ou de governo, quase todas ainda em fase de experimentação. Tal arrojo experimental não significa, no caso brasileiro, um Brasil anti-europeu e sim um Brasil apercebido de que, em vários aspectos do seu comportamento sócio-cultural, tem que ser extra-europeu. Para isso o advertem há meio século aqueles pensadores e cientistas sociais brasileiros, criadores de perspectivas sociológicas e antropológicas que, sem deixarem de ser ecumenicamente científico-sociais, são brasileiras, ecológicas, euro-tropicais nas suas aplicações ou projeções.

Às jovens repúblicas da África e do Oriente, como a outras nações novas, pode ser útil a experiência de um Brasil há mais de século independente e há quatro séculos em desenvolvimento - primeiro pré-nacional, depois nacional - como civilização a procura de suas próprias formas de expressão dentro de uma ecologia tropical e sem repúdio aos valores europeus ligados incisivamente à sua base nacional. E já com uma arquitetura, com uma música, com uma pintura, com uma culinária, com um cristianismo, com um estilo de convivência, com uma higiene, com um futebol - futebol mais brasileiramente dionisíaco que britanicamente apolíneo - com um samba, em que se exprime, sob esses vários aspectos, um novo tipo de civilização. Novo, sobretudo, por ser mestiço, senão sempre nos sangues, nas interpenetrações de cultura.

A integração do negro não é apenas biológica: é também sociológica. Note-se por exemplo, a forte africanização que vem fazendo do catolicismo, no Brasil, um culto repleto de símbolos, ritos característico que, sendo oficialmente os romanos, juntam à sua origem européia influências recebidas de crenças e de práticas religiosas do mais puro sabor africano. O culto da Virgem Maria que o diga, com suas assimilações do africano, de Iemanjá. Há, no Brasil, Nossas Senhoras, para os seus devotos, negras como a do Rosário ou pardas escuras como a de Guadalupe; e às quais se fazem promessas através de ex-votos que se constituíram, no Brasil, numa arte rústica de escultura em madeira e em barro, em sua maior parte muito mais africana do que européia no seu modo de ser brasileira. Essas promessas também envolvem, na sua sacralização de cores, significados simbólicos dessas cores, que serão, vários deles, mais africanos em suas implicações do que europeus. Ou do que ortodoxamente cristãos.

O maracatu é uma dança aparentemente recreativa e até carnavalesca que, nos seus significados mais íntimos, representa toda uma complexa infiltração africana na religiosidade brasileira. Essas infiltrações se encontram, através dos chamados sincretismos, em não poucos dos cultos de santos que caracterizam o catolicismo praticado no Brasil: o culto de São Jorge, por exemplo. O de Santa Bárbara. O dos Santos Cosme e Damião.

Os brasileiros que praticam esses cultos não se consideram menos católicos por seguirem em suas práticas religiosas assimilações de cultos ou de crenças negras ou africanas, que vêm colorindo, tropicalizando, deseuropeizando seu catolicismo, sem que para eles, devotos brasileiros assim penetrados de influências africanas na sua religiosidade cristã, tais infiltrações venham descristianizando ou degradando seu cristianismo. As infiltrações africanas na religião, assim como na culinária, na música, na escultura, na pintura de origem européia, representam não uma degradação desses valores mas um enriquecimento.

É evidente que a colonização européia deu a esse novo tipo de sociedade e a esse novo tipo de cultura um instrumento de intercomunicação que só uma nação européia já unificada e já literalmente desenvolvida lhe poderia ter dado: a língua. No caso, a língua portuguesa, herdeira da nobre, prestigiosa língua latina.

Mas é também evidente que nenhuma língua européia, das trazidas para os trópicos por europeus, vem se tropicalizando tanto como a portuguesa, no Brasil.

Mas a tropicalização que a língua portuguesa vem sofrendo no Brasil - tropicalização e, em parte, deseuropeização - vem resultando principalmente de infiltrações africanas. Só secundariamente das ameríndias. E essas infiltrações africanas na língua portuguesa do Brasil vêm se projetando no desenvolvimento de uma língua literária que já não é uma sublíngua literária com relação à consagrada como academicamente castiça pelos puristas portugueses mais intransigentes. Nela cada dia se afirmam com mais desenvoltura extra-acadêmica ritmos novos ao lado de expressões novas. E esses ritmos e essas expressões - quer na sua musicalidade, quer na sua expressividade - estão marcados pelo que há neles de origem africana e até há algum tempo estavam limitados à chamada boca do povo: plebeus, vulgares, "dizeres de negros", restos de dizeres de escravos, sobejos de senzalas.

Ao que nos levam as considerações aqui esboçadas em torno da importância da presença negra ou africana na sociedade e na cultura brasileiras e na língua portuguesa no Brasil? Levam-nos a sugerir que tal presença vem resultando na formação, entre os brasileiros, quer de uma gente crescentemente, embora não exclusivamente, morena nos seus característicos cromáticos, quer de uma cultura crescentemente extra-européia, sem prejuízo do essencial de sua europeidade. A místicas como a de um arianismo segregador ou de uma negritude também segregadora opõe-se, no Brasil, a tendência a sínteses, quer biológicas através da miscigenação, quer sociológicas, através da interpenetração de culturas, nas quais as presenças não-européias são, em certos setores, já tão marcantes como as européias.

O Brasil de hoje tende a considerar sua independência, quer política, em particular, ou apenas econômica, quer sócio-cultural, em geral, o resultado menos de uma súbita descolonização que de uma precoce autocolonização: autocolonização sendo outro neologismo sociológico criado por brasileiro. Tal autocolonização ter-se-ia processado em face de um poder europeu colonizador menos forte ou menos tentacular nas suas expressões oficiais que os demais poderes europeus colonizadores. Menos capaz de impor sua vontade e seu cânones à gente colonizada. Mais inclinado a transigir com essa gente, deixando-a sabiamente autocolonizar-se. Deixando o africano agir a seu lado como co-colonizador do Brasil.

Função - a de colonizar - a que ao português já se associara, por vezes superando o europeu puro, o mestiço, euro-ameríndio: daí a grande ação bandeirante na formação brasileira. A do negro já ladino ou abrasileirado não seria menor, quer ao lado do português, quer, sob vários aspectos, superando-o, dada aquela sua fácil adaptação de nativo do trópico africano ao trópico brasileiro. Adaptação que lhe permitiu, em terras palustres do Brasil, uma atividade ou um esforço difícil de ser desenvolvido pelo europeu colonizador, quando puramente europeu.

Isso explica certos característicos da formação brasileira que a distinguem das de outras populações, que de coloniais passaram a nacionais. Que lhe permitiram ser mais criativamente extra-européia, quando ainda era sob todos os aspectos oficiais, colônia de Portugal.

Essa criatividade se exprimiu de modo veemente na escultura do chamado Aleijadinho: uma escultura ecológica e, no seu estilo, mais extra-européia que passivamente subeuropéia. Com arrojos esteticamente tropicais. Arrojos esteticamente brasileiros.

Brasileiros e africanos negros têm, neste setor - o estético - especialíssimas afinidades que os situam à parte do comum das relações que prendem latino-americanos (mesmo os das regiões tropicais da América: as mais marcadas pela presença africana) à África negra. Lembremo-nos de que chegou a haver na Nigéria - por exemplo - um estilo brasileiro não só de arquitetura como de decoração, com figuras de bichos e de plantas tropicais, para não falar nos brasileirismos que ali se comunicaram à culinária, às danças, aos folguedos, às devoções religiosas, ao folclore.

Em certo artista jovem da Nigéria de hoje, Jacob Afolabi, críticos estrangeiros têm encontrado parentesco com o espanhol Miró. Amor com amor se paga - poderia dizer-se. Pois não é exato que outro grande da pintura espanhola, Picasso, desenvolveu sugestões de arte africana, comunicando-as a outros artistas europeus e de outras partes do mundo? Mas não só com os Picassos serão, por sua vez, as afinidades desse e de outros artistas africanos: também com artistas brasileiros, a seu modo Picassos por sua sensibilidade a sugestões africanas ou negras.

Porque parece evidente que o artista nigeriano de hoje encontra em grande parte da arte brasileira mais autêntica algo que lhe é familiar, fraterno e aparentado com o que é a arte para ele. Explica-se pela ação dessas heranças psicoculturais sobre não pouco brasileiros, que artistas negros africanos, como atualmente Afolabi, tenham, para esses brasileiros, mais ainda que semelhanças com Mirós espanhóis, parentesco com os brasileiríssimos Cíceros dos Santos Dias, Emilianos Di Cavalcanti, Lulas Cardoso Ayres. Daí encontrar-se num Adebisi - que deliberadamente revive na sua arte o chamado estilo brasilo-nigeriano - semelhança também com a cerâmica brasileira pintada: a de Francisco Brannand, por exemplo.

O ambiente, criado por essa sensibilidade de modernos artistas brasileiros às raízes africanas das artes brasileiras de pintura, de escultura, de música - para não falarmos na culinária - será favorável a uma "negritude" que separa, no Brasil de hoje, aquele brasileiro descendente principalmente de negro africano, dos brasileiros de outras origens étnicas e culturais, tornando-o "negro brasileiro" semelhante ao "negro americano"? Significativamente, de modo algum. Apenas, da parte de uns poucos, retoricamente. Insista-se em que aumenta no brasileira esta consciência: a de ser um povo, quase todo, moreno - a palavra moreno, para designar nuances de cor escura de pele, tendo hoje, entre os brasileiros, uma elasticidade tal de sentido, que inclui os próprios pretos. Daí o também brasileiro conceito de metarraça, ou de além-raça, segundo o qual não interessa ao brasileiro, como tipo nacional de homem, apurar exatidões de origem ou de situação étnica, dado o fato de tais exatidões não afetarem nele sua condição nacional.

Para um antropólogo ou sociólogo, esses conceitos são interessantíssimos: ilustram a realidade de não ser a raça nem a cor que fazem especificamente de um homem isto ou aquilo, mas o que há de íntimo nos gostos, nas tendências, nas motivações - inclusive as artísticas - desse indivíduo, seja ele branco ou preto, africano ou europeu de origem.

Quanto ao folclore brasileiro, não faltam idealizações ou caracterizações de figuras africanas, das que se incorporaram à sociedade patriarcal brasileira - principal chave para a interpretação do ethos e da formação brasileira - como a "mãe preta", a "bá", a mucama, a "baiana", a "mulata inzoneira", o "negro velho", o malungo, o "moleque", o "crioulo", o "negrinho do pastoreio": inspiração, esse negrinho do pastoreio, de uma das obras-primas da literatura. Inspirações de obras-primas da literatura foram a "escrava Isaura" (Bernardo Guimarães), "o mulato" (Aluísio de Azevedo), "o bom crioulo" (Isaias Caminha), o "moleque Ricardo" (José Lins do Rego), o "Balduíno" (Jorge Amado), "essa negra Fulô" (Jorge de Lima). Isto sem nos esquecermos das "mulatas" - por vezes negras das chamadas puras, tão raras há anos no Brasil sempre miscigenado - do pintor Emiliano Di Cavalcanti.

Da presença africana na música brasileira - presença que se constituiu numa influência tão atuante - já muito se tem dito. Mais do que de qualquer outra influência africana sobre expressões brasileiras de sensibilidade e de arte. Não se faz sentir apenas sobre a música popular - na qual viriam a se notabilizar nos nossos dias o pretíssimo Patrício, Donga e Pixinguinha - mas sobre a erudita em alguns dos seus mais altos aspectos. Sobre Heitor Villa-Lobos sugestões ou inspirações musicais africanas se projetaram, ao lado daquelas ameríndias por ele tão valorizadas como germinalmente brasileiras, nas suas criações. Menos, talvez, no seu caso, atuaram as sugestões africanas que as inspirações ameríndias, mas de modo algum foram as africanas recusadas por ele.

É por afinidades psicoculturais que o Brasil e a África apresentam semelhanças em várias expressões de cultura que as caracterizam. Isto sem nos esquecermos de que vem favorecendo essas semelhanças, além de experiências históricas, tanto de brasileiros como de africanos, sua comum ecologia: a tropical. São uns e outros, gentes situadas em áreas tropicais hoje sob impactos modernizantes. De modo geral, africanos e brasileiros vêm sabendo conciliar, através de configurações nacionais diversas, a ecologia tropical e a modernização em que se vêm empenhando. É preciso que a modernização não os torne antiecológicos, separando-os das fontes naturais das suas culturas nacionais - inclusive dos seus desenvolvimentos - ou artificializando suas expressões nacionais de cultura em puros arremedos de modernismos triunfantes em áreas econômica e tecnologicamente avançadas e inclinadas a dominarem culturas ainda em desenvolvimento. Nada de se repelirem europeísmos e até ianquismos culturais susceptíveis de serem adaptados a condições não-européias. Mas nada de se tornarem brasileiros de origem tanto européias como não-européias, em suas culturas, subeuropeus ou subianques. Orientação particularmente válida, também, para as novas nações africanas que porventura encontrem em antecipações brasileiras exemplos a serem aproveitados em suas novas situações sócio-culturais.



Fonte: FREYRE, Gilberto. A experiência afro-brasileira. O Correio - UNESCO. Rio de Janeiro, n. 5, p. 10, p. 13-18, out./nov.1977.

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