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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Periódicos Científicos  



FOLCLORE E ESPORTE


Será possível falar-se de uma associação de esporte em folclore? Parece que sim, definido folclore em têrmos sociológicos que incluam o que Fairchild chama "the so called wirdom of a folk".

Estamos, entretanto, tão habituados a supor o esporte atividade essencialmente civilizada e burguesa, nos esquecemos desta sua outra ligação: com as sub-culturas primitivas; com as sub-culturas iletradas; com as sub-culturas populares opostas às sub-culturas burguesas ou aristocráticas, dentro de um complexo nacional ou transnacional de cultura. Dai haver até uma sociologia especializada no estudo da chamada "folk society".

O esporte, por vêzes parente de danças primitivas ou populares, faz parte, no segundo caso, do folclore ou das "folkways" característicos de uma cultura nacional. A capoeira afrobrasileira, por exemplo, é como poderia ser sociològicamente classificada dentro da cultura nacional do Brasil como um esporte folclórico. E é pena que não se valorize mais, no nosso país, êsse esporte folclórico de origem primitiva, dando-lhe a categoria de um esporte castiçamente nacional que fôsse adotado - inclusive - pelas Fôrças Armadas.

É aliás, o que parece ter acontecido a outros esportes folclóricos que, de folclóricos, têm passado a nacionais e a modernos, e, nessa categoria, a expressões mais amplas do ethos de um povo ou de uma nação.

Discutiu-se recentemente, em reunião do Seminário de Tropicologia da Universidade Federal de Pernambuco, o tema ESPORTE E TRÓPICO. O conferencista foi o Professor João Lyra Filho, Reitor da Universidade da Guanabara e conhecida autoridade em assuntos de Sociologia do Esporte. Trabalho ricamente sugestivo, o seu. E interessantíssimas as discussões que provocou, os problemas que pôs em foco, as interrogações que suscitou. Inclusive as que, como participante do mesmo Seminário, eu próprio me animei a fazer ao conferencista - mestre na matéria - procurando atrair a atenção dos demais participantes da reunião para os aspectos mais sociológicos do tema, ao lado dos mais telúricos: no caso, tropicais.

Isto depois de ter lamentado duas ausências na importante reunião: a de Mário Rodrigues Filho, autor do excelente O NEGRO NO FUTEBOL BRASILEIRO e a de Nelson Rodrigues. Nelson Rodrigues vem escrevendo, últimamente, crônicas esportivas - sôbre futebol brasileiro - com um vigor literário que lembra o de Hemingway com relação às touradas espanholas; e com igual sensibilidade aos aspectos folclóricos do já abrasileirado esporte "inglês".

Será o trópico - perguntei naquela reunião - um conjunto de regiões como que por natureza ou por ecologia hostil ao esporte, de modo a só terem suas modernas populações esportes importados? Serão seus jogos nativos - os primitivos e os folclóricos - de tal modo inferiores aos importados que devemos nos envergonhar dêles e substituí-los todos pelos esportes burgueses ou aristocráticos, vindos das regiões temperadas ou frias e por vêzes, talvez, anti-ecológicos, se se admitirem no homem tropical, um sistema de sudação ou de transpiração - com o chamado Schmaedel "poder químico da luz" a afeta-lo - uma relação de pigemento com clima e com luz, um metabolismo, até, que não seriam precisamente idênticos aos do homem das regiões temperadas a das regiões frias? Serão a capoeira afro-brasileira, o como que "jôgo debola" a cabeçadas com bola de borracha - e a borracha tropical tem desempenhado papel saliente no desenvolvimento dos sports civilizados - de indígenas da América tropical, a pesca submarina com uns como óculos de feitio primitivo, tradicional entre nativos do Timor, esportes indignos de atenção, de valorização, de recuperação?

Estarão frutas, alimentos e refrescos tropicais - e lembro o caju; a pitanga, o mate, o guaraná - sendo cientìficamente estudados com o fim especial de serem utilizados - ou não - na alimentação ou na dieta de jogadores destes ou daqueles esportes praticados nos trópicos? Não devem merecer nossa consideração sugestões como a que me fêz John Dos Passos, quando estêve no Recife, no sentido de ser aproveitada a folclórica e tropicalíssima jangada do Nordeste do Brasil para um sport?

Note-se na natação como esporte moderno - data, como tal, de 1837:ano de seu comêço oficial na Inglaterra - que muito deve a inspirações ou sugestões além de tropicais, primitivas e folclóricas. Os estilos esportivos de natação adotados pelos inglêses desde aquêle ano foram em 1893 modificados notàvelmente pela aplicação, aos mesmos estilos, de observações com os nativos da América do Sul, feitas por Mr. Arthur Trudgen, tendo resultado, dessa tropicalização, o doublé overarm, com os braços do nadador sendo levados para a frente alternativamente. Nova tropicalização ocorreria algum tempo depois com a substituição do chamado "golpe de tesoura" das pernas pela agitação, das mesmas pernas, em plano vertical: cópia do estilo de natação dos indígenas da Austrália tropical. Acredita-se que êste estilo - o de natação mais rápida e, por conseguinte, mais esportivo - fôsse praticado também pelos indígenas de algumas das ilhas dos Mares do Sul; e é possível que estilo semelhante de nadar se encontrasse entre ameríndios, inclusive brasileiros.

Entretanto, o Brasil, que poderia vir se inspirando em modelos tropicais - nativos, folclóricos, - de natação dos seus próprios indígenas para o desenvolvimento do esporte de natação, que entre nós, quer em escala internacional, vem sendo, no assunto, apenas, ou principalmente, imitativo; e segundo um especialista da matéria, aplicando métodos de treinamento de seus nadadores "depois de muito uso noutros países", isto é, depois de já arcaicos nesses países. Países frios e temperados que se têm inspirado, para o aperfeiçoamento dêsses métodos, em técnicas de indígenas de regiões tropicais: inclusive do próprio Brasil. São técnicas que constituem, nesse setor, a chamada "folk wisdom", a "folk" compreendendo tribu ou grupo primitivo ou a massa iletrada ou menos letrada de uma população.



Fonte: FREYRE, Gilberto. Folclore e esporte. Brasil Açucareiro. Rio de Janeiro, a. 36, v. 72, n. 2, p. 24-25, ago. 1968.

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