FREYRE: AÇÚCAR FOI MÃE DE QUATRO OU CINCO CIVILIZAÇÕES CRIADAS NO BRASIL
Muito me honra José Mário de Andrade, líder tão atuante no Brasil de hoje, inteligência tão lúcida de homem de ação, figura tão brasileiramente simpática dentre aqueles bons plantadores de cana de Pernambuco que constituem a Cooperativa de Crédito - grêmio de homens solidariamente ligados à mais tradicional e mais nobre das atividades da sua gente - instituindo um Prêmio com o meu nome. Um Prêmio que visa "estimular os estudos sócio-econômicos sobre a zona canavieira". Ao mesmo tempo, outro Prêmio é instituído, este com o nome ilustre de Alvaro Tavares Carmo, Presidente do Instituto do Açúcar e do Álcool, destinado a estimular, entre aqueles plantadores, práticas racionais no plantio da cana.
Se existe sociologicamente o que Sylvio Romero, mestre admirável, chamou, certa vez, de açucarocracia, à base dessa operosa elite têm estado, desde os remotos dias em que Pernambuco começou a produzir açúcar, os plantadores de cana. Pois é evidente que sem cana plantada em massapê, Pernambuco não teria se tornado, como se tornou na própria madrugada do século XVI, o produtor do melhor açúcar brasileiro. O de mais fama na Europa pelo seu sabor. O que mais concorreu para dar ao Brasil um primado, que duraria longo tempo, entre os tropicais fornecedores a europeus de um açúcar já mais alimento essencial que simples remédio vendido em botica. Produto que, firmando-se como artigo de primeira qualidade, nos melhores mercados europeus daquele velho século, tornou possível a emergência, nestas terras tropicais, de uma civilização que se antecipou em primores de vida nobre a quantas se desenvolveriam no Brasil colonizado por gentes portuguesas.
Quatro séculos de cana
Não há nessa afirmativa nem retórica das vãs nem exagero bairrista, ou mesmo barrista, se se considerasse o que há de barro nos massapês avermelhados merecedores da melhor gratidão pernambucana. Pois é esse massapê de onde há quatro séculos brotam canas de um verde inconfundível: o chamado verde cana. O verde dos canaviais. O verde das bandeiras como são conhecidas aquelas inflorescências da cana que vêm sendo, em Pernambuco, uns como estandartes que anunciassem, brotando da terra, o próprio ânimo pernambucano de lutar, de resistir, de persistir contra todos os obstáculos. Pois outra não tem sido a história de Pernambuco: da sua economia, da sua gente, da sua cultura, senão uma história de persistência, dado o fato de que, para os pernambucanos, nunca têm sido fáceis os triunfos nem doces as vitórias nem sem esforço as conquistas em qualquer setor de atividade humana.
Se aqui madrugou uma, para os trópicos, tão precoce civilização abrilhantada de valores europeus, não surgiu ela como por mágica de terras e de rios selvagens que precisaram, eles próprios, de ser domados por portugueses e por africanos com o auxílio valioso do indígena aculturado do homem e, sobretudo, da mulher, da cunhã, desde cedo colaboradora dos civilizadores. Amantes e até esposas de vários deles, mães de muitos, avós de muitíssimos, e já com seus sangues misturados aos de europeus, senhoras de engenho, sinhás de pés alancariamente pequenos, iaiás fazedoras de tapiocas e de beijus, de vinhos de caju, de licores de maracujá. Ancestrais de militares ilustres, de estadistas famosos, de sacerdotes insignes, de eruditos sabedores de latim e escritores de português do melhor. Uma delas, tetravó do próprio primeiro Cardeal da América Latina, o pernambucaníssimo Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti, descendente de Maria do Espírito Santo Arcoverde.
Força de uma civilização
Esta a força da civilização eurotropical que se desenvolveu em Pernambuco à sombra de casas-grandes junto a canaviais imensos e a rios pequenos. Pequenos, porém aliados valorosos dos civilizadores. Foi uma civilização de início, ao mesmo tempo que importadora dos mais finos valores europeus, domadora mas não destruidora de valores selvagens. De gentes, de terras, de águas agrestemente fecundas e como que à espera de quem as fecundasse, domando-as mas também amando-as: amando mulheres, amando terras, amando águas. Não fosse esse amor e o domar de energias tão agrestes teria sido brutal, com os europeus dominando sozinhos do alto de casas-grandes gentes a que, entretanto, souberam se unir, tornando-as também participantes da civilização que a cana de açúcar tornou possível.
Da civilização do açúcar, que teve sua base principal na capitania por excelência açucareira de Duarte Coelho e de Dona Brites - a primeira mulher governadora na América depois de descoberta por europeus - não há inexatidão em dizer-se que foi a mãe de quatro ou cinco outras civilizações que se desenvolveriam no Brasil tendo seus redutos em casas-grandes patriarcais com capelas, em sobrados também patriarcais, em conventos franciscanos, em colégios de jesuítas: a civilização do couro ao tornar-se estável; a civilização do cacau; a civilização do algodão; a civilização do ouro; a civilização do café a civilização da borracha. A civilização do café tornou-se rival da do açúcar, assimilando da do açúcar valores já desenvolvidos por uma açucarocracia, que ao novo império forneceria escravos já brasileiros para trabalharem nos cafezais e bacharéis em Direito e doutores em Medicina para se tornarem genros das grandes famílias patriarcais senhoras desses cafezais. A civilização do açúcar foi, em muita coisa, mestra da civilização do café. Mestra. Educadora. Modelo para essa outra grande e imperial civilização brasileira, com a qual se firmaria o prestígio do Brasil nos mercados mundiais.
A mãe, a mestra, a pioneira não pode senão orgulhar-se de vir tendo continuadoras tão valorosas. Não deixou de ser ativa. Não vive hoje só de um passado ilustre. Resiste. Persiste. Acompanha, agora mesmo, novos surtos de prestígio dos produtos de cana nos mercados mundiais: renovado o prestígio do álcool, entre outros. O prestígio do bagaço de cana como matéria-prima para o fabrico de tanto artigo civilizado, a começar pelo papel. O ampliado prestígio do próspero açúcar, inclusive em conexão com as indústrias de frutas tropicais em sucos ou em conservas.
Agradeço à Cooperativa de Crédito dos Plantadores de Cana de Pernambuco, particularmente ao seu líder, Dr. José Mário de Andrade, a honra que hoje me concedem dando o meu nome de simples escritor a Prêmio tão significativo. Que esse Prêmio cumpra do melhor modo a sua missão. Que desperte ânimos criativos entre jovens estudiosos de assuntos brasileiros fazendo-os pesquisar e interpretar aspectos ainda virgens da presença do açúcar na formação do nosso País. É preciso que não se abandone o estudo de matérias brasileiras à exclusiva curiosidade ou simpatia de inteligências estrangeiras por esses assuntos. Bom que essas jovens inteligências de além-mar colaborem com as nacionais nesse estudo, nessas pesquisas, nessas interpretações. Mas sem nos esquecermos de que há, nos assuntos mais brasileiros, particularíssimas particularidades que só os nascidos ou crescidos no Brasil conseguem - raras as exceções - captar ou aprender, além de interpretá-las brasilcentricamente. E não eurocentricamente. Ou ianquecentricamente. Ou nipocentricamente.
Um assunto fascinante
O Prêmio agora instituído pela Cooperativa de Crédito dos Plantadores de Cana de Pernambuco é iniciativa que vem concorrer para prestigiar estudos brasileiros de assuntos brasileiros. No caso: a presença do açúcar na formação e na atualidade do Brasil. Suas perspectivas. Suas implicações. Seus possíveis futuros.
Que assunto mais fascinantemente brasileiro? Ou mais germinalmente pernambucano? Ou mais ligado ao Nordeste em fase de reabilitação?
A iniciativa da Cooperativa junta, assim, ao que nela é sentido especificamente intelectual, outro sentido: o construtivamente brasileiro. O estímulo a estudos brasileiros por jovens - ou provetas - inteligências brasileiras.
Agora, uma pergunta: por que o nome de um estranho ou inclassificável escritor dado a Prêmio tão expressivo? O que sugere associação específica desse inclassificável escritor aos propósitos que animaram a criação do Prêmio e o motivaram?
Decerto, por haver nele um já antigo estudioso de temas ligados à civilização brasileira do açúcar de base principalmente pernambucana. Mais: por vir procurando dar a esses estudos a configuração de uma Sociologia do Açúcar.
É ele um sociólogo um tanto diferente dos convencionais. Que admite, ele próprio, ser antes um saciólogo que um sociólogo no sentido de seguir, no versar de temas sociológicos e antropológicos, intuições pessoais e observações diretas; e de combinar métodos nunca dantes combinados de preferência a seguir teorias já estabelecidas, métodos inteiramente puros, técnicas de todo ortodoxas. Um escritor que vem quase criando uma sociologia adaptada à sua condição de escritor. Poderia até repetir Unamuno: "No quiero engañar a nadie en dar por filosofia lo que acaso no sea sino poesia e fantasmagoria, mitologia en todo caso". Mais poderia repetir também do inclassificável espanhol de Salamanca: "Nunca pasaré de un pobre escritor mirado en la republica delas letras como intruso y de fuera por ciertas pretenciones de cientifico y tenido en el imperio de las ciencias por un intruso también a causa de mes pretenciones de literato".
O que espero é, uma vez desaparecido, encontrar um Julian Marias que surpreenda nos meus pobres escritos um pouco do que Marias vem surpreendendo nos de Unamuno: a presença de alguém que através de um método talvez mais essencialmente poético que convencionalmente científico de interpretação da realidade humana, viu, sentiu e pensou coisas novas, ou insuspeitadas, sobre a mesma realidade, tendo sido, portanto, a seu modo e dentro dos seus limites, um criador; e viu, sentiu e pensou, além disso, de nova forma, coisas antigas; e não somente viu, sentiu e pensou tais coisas, umas novas, outras de modo novo, como fez que outras as vissem, as sentissem e as pensassem.
Sou dos que pensam que é possível desenvolver-se uma história sociológica - existencialmente sociológica - através de métodos empáticos com que o autor participe, ou tente participar, de vidas, porventura simbólicas, de umas tantas figuras já desaparecidas nas quais se teriam encarnado de modo mais típico tendências ou situações ou idealizações - mitos, até - características de uma época ou de uma cultura. Sob esse critério, creio ter sido o primeiro a destacar, - no remoto ano de 1925 - como figuras simbólicas de longos e significativos períodos de existência brasileira, o menino de engenho; a sinhá de casa-grande; o bacharel mestiço ou pobre, em ascensão social; o "amarelinho" - este um mito feito carne. Isto para citar três ou quatro exemplos e para sugerir as possibilidades do método empático quando utilizado em obras de história existencialmente sociológica.
Se acabei resvalando, neste desajeitado discurso de quem procura agradecer uma tão inesperada honraria, em plena e talvez inoportuna autobiografia, falando deselegantemente do meu próprio modo de vir observando, pesquisando, procurando aprender, captar - inclusive pelo desenho auxiliar da escrita - realidades tanto obscuras e até secretas como ostensivas, é que tanto fui provocado pela própria honraria que desde hoje me enobrece: iniciativa dos plantadores de cana de Pernambuco. Gente que sinto ser profundamente minha. Dos antigos da minha família, quer dos maternos, quer dos paternos, vários é o que foram: plantadores de cana. Lembro-me, menino, ter brincado mais de uma vez de plantar cana. O verde dos canaviais é o mais querido dos meus verdes. O mais lírico. O mais telúrico. Mais de uma vez tenho procurado, sem o conseguir, reproduzi-lo em pobres aquarelas e em deficientes óleos. Longe do Brasil, quando saudoso, é o que vejo ao fechar os olhos de quem, ao muito ver, ao muito observar, ao muito procurar compreender, vendo com os próprios olhos, tem juntado um muito sonhar acordado.
Inclusive sonhar acordado com um Brasil cada vez maior é melhor, sem deixar de ser, no essencial, Brasil. Sem repudiar suas tradições. Sem rejeitar o que há de bom e de belo nos seus passados. Sem desviar-se dos seus rumos. Sem deixar de plantar; de lavrar, de colher para apenas levantar grandes e, decerto, necessárias fábricas ou indústrias.
O Prêmio agora instituído pela Cooperativa de Crédito dos Plantadores de Cana de Pernambuco, com o nome do fundador do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, deve ser considerado homenagem muito menos a esse indivíduo, em particular, que a essa instituição como um todo. Instituição já conhecida e, em alguns meios já consagrada, dentro e fora do País, como pioneira, no Brasil dos nossos dias, da valorização do trabalhador das áreas agrárias, principalmente as canavieiras, do Norte e do Nordeste brasileiros. Como valorizador do homem que continua a tornar economicamente válida a produção do açúcar nessas regiões.
Pesquisas do Instituto Nabuco
É matéria sobre a qual o Instituto Nabuco já promoveu pesquisas que se tornaram notáveis e até clássicas. Entre elas, a relativa ás migrações, no Nordeste, para o Recife, cidade por isto mesmo, como já foi classificada, antes inchada morbidamente que desenvolvida saudavelmente. Várias outras pesquisas, de igual importância, poderiam ser recordadas pelo que nelas tem sido lúcida antecipação, cabendo ao Instituto Nabuco a não sei se diga glória intelectual de ter dado o primeiro clamor contra a poluição de rios brasileiros. Á glória de ter pioneiramente salientado a importância, para o Nordeste e para outras regiões do Brasil, dos desequilíbrios ecológicos. Foi no Instituto Nabuco que começou-se a falar no Brasil em ecologia como tema científico-social. E ainda este ano foi do Instituto Nabuco que partiu a articulação do primeiro esforço da comunidade pernambucana para analisar-se, recuperar-se, preparar-se contra possíveis futuras desgraças, em face da terrível experiência da supercheia de julho.
Antecipou-se o Instituto Nabuco em procurar atrair atenções oficais e de particulares e das Igrejas, para as precárias condições de vida e de trabalho das populações nordestinas engajadas em atividades agrárias. Foi por vezes mal compreendido nessa sua atitude. Promoveu a já famosa Semana durante a qual reuniram-se personalidades e de grupos tão diversos ligados á lavoura de cana e à indústria do açúcar. Não tem cessado em clamar contra abusos de particulares e omissões de governos com relação ao Homem da Zona canavieira do Nordeste: a assistência a que esse Homem tem direito. Que lhe é devida. Que não lhe deve ser dada como caridade ou graça ou favor.
Novo vigor
O Prêmio agora tão oportunamente instituído pode dar novo vigor a causas que o Instituto Nabuco vem defendendo com o seu melhor afã. São causas que o Instituto Nabuco vem defendendo à base de estudos esclarecedores. De pesquisas cientificamente válidas. De interpretações em que à ciência se vem juntando o humanismo. Compreende-se assim que, ao desentranhar-se o Museu do Açúcar do Instituto do Açúcar e do Álcool, o Presidente Tavares Carmo, sempre tão esclarecido, tenha sido dos que pensaram, no que seria apoiado pelo eminente Ministro Severo Gomes, que deveria ser integrado ao Instituto Nabuco. Integração que só depende agora do Congresso nacional, o complexo canavieiro, tão ligado ao futuro quanto ao presente e ao futuro do nosso País, continua a precisar de esclarecimentos, de pesquisas, de interpretações. Tornou-se evidente que o Instituto Nabuco não surgiu nem vem sobrevivendo como um luxo intelectual. Ou como um organismo apenas burocrático.
É um centro de onde vem irradiando vida: ciência ligada à vida. Ciência a serviço da religião e do País. Ciência reclamada pelo desenvolvimento brasileiro. O qual não deve ser apenas mecanicamente econômico ou tecnológico. Precisa de ser principalmente humano. Com o homem valorizado acima das coisas. Ponto tão importante no programa de governo do Presidente Ernesto Geisel. E com razão. Sem a valorização, a defesa, a promoção do Homem brasileiro, de que vale o desenvolvimento só das coisas? Ele é a alma do desenvolvimento brasileiro. E como dizem, com sua sabedoria, as Escrituras: de que vale conquistar-se o mundo, perdendo-se a alma?
Fonte: FREYRE, Gilberto. Freyre: açúcar foi mãe de quatro ou cinco civilizações criadas no Brasil. Brasil Açucareiro. Rio de Janeiro, n. 45, v. 2, p. 11-15, fev. 1976.
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