HOMENAGEM AOS 70 ANOS DE OCTÁVIO DE FARIAS SESSÃO DEDICADA AO ROMANCISTA DA "TRAGÉDIA BURGUESA"
PRESIDENTE ADONIAS FILHO - Iniciando as homenagens ao Conselheiro Octávio de Faria, que permanece muito jovem, nos seus setenta anos, dia quinze, será inútil o Presidente dizer alguma coisa de quem é amigo seu diário, há quase quarenta anos, por nós designado, falará o Conselheiro Dom Marcos Barbosa, a quem dou a palavra.
CONSELHEIRO DOM MARCOS BARBOSA - Agradeço-lhe, Senhor Presidente, ter-me designado para saudar os 70 anos de Octávio de Faria em nome do Conselho, o que fazemos antecipadamente, como ocorre com as grandes festas religiosas, precedidas de tríduos, novenas e vigílias, quando não de todo um ciclo preparatório, como o Advento em relação ao Natal. Agradeço-lhe, Senhor Presidente, ter-me escolhido para tão grato mister por dois motivos.
Ao primeiro já aludi neste Plenário, quando contei que devo a uma alegada semelhança com Octávio de Faria a pronto amizade de Alceu Amoroso Lima, já tão pronto em simpatizar com as pessoas e em estimular em jovens ou adultos os mais vagos dotes literários. Esta amizade foi mais longe comigo, pois não apenas convidou-me para secretário como dispensou-me, muitas vezes, os cuidados de um pai.
Outro motivo pelo qual sou grato a Octávio de Faria aparecerá mais claramente dentro em pouco.
Se é exato, como afirma a célebre máxima oriental, que o homem se realiza quando planta uma árvore, escreve um livro ou transmite a vida a um filho, podemos dizer que Octávio de Faria chega aos 70 plenamente realizado.
Uma árvore. Quantas não terá plantado no seu jardim de Teresópolis, nas suas fugas de fim de semana, que seus amigos, gostaríamos, diminuíssem agora, em idade mais provecta, para não o sabermos tão longe e tão sozinho. Já plantou suas árvores. Talvez não tenham ainda a sua altura, mas podem lembrar-lhe a lição de suas irmãs mais velhas, tão oportuna e tão bem captada pelo soneto de Bilac:
Olha estas velhas árvores, - mais belas do que as árvores novas, mais amigas, tanto mais belas quanto mais antigas, vencedoras da idade e das procelas... ... Envelheçamos rindo! Envelheçamos como as árvores fortes envelhecem na glória e na alegria da bondade, agasalhando os pássaros nos ramos, dando sombra e consolo aos que padecem!
Mas passamos das árvores aos livros, o que é fácil, pois estes são talvez os mais belos frutos que nos vêm das árvores. Jamais o esqueci depois que Gustavo Corção certo dia, percorrendo comigo a Biblioteca do Mosteiro e detendo-se diante de uma estante onde velhos volumes de uma série esperavam ainda a restauração e sugeriam com as lombadas de couro estropiadas velhas cascas de árvores, acariciou-os de leve, dizendo: "Parecem transformar-se nas árvores de onde vieram..." E passemos, de novo, das árvores aos livros.
Neste ponto também Octávio de Faria deve sentir-se realizado, pois não escreveu apenas um, mas três. Ver-se-á depois porque me refiro apenas a três: Maquiavel e o Brasil, O Destino do Socialismo e Fronteiras da Santidade. Os dois primeiros, de grande impacto quando apareceram, voltam agora, livros proféticos que eram, a ser estudados com interesse e objeto de teses, como a de Maria Teresa Aina Sadek: Maquiavel e Maquiavéis. O último Fronteira da Santidade, tivemo-lo de novo, com alterações acidentais, servindo de Introdução, a já esgotada antologia de Léon Bloy, na coleção, creio que infelizmente interrompida. Profetas do Mundo Moderno (O Pensamento pelos Textos).
Se atribui apenas três livros a Octávio de Faria, os três ensaios ou teses, é porque seus outros livros - e ei-lo mais que nunca realizado - não são livros, mais filhos. Paul Claudel, quando renunciou à sua vocação monástica, ou melhor, percebeu que Deus não o chamava e lhe dizia Non, experimentou uma espécie de alívio, pois sentia dentro de si todo um mundo de personagens ("tout ce peuple en moi mouvant") que pediam para nascer, que queriam vir à luz, e às vezes mesmo dois povos em luta, como Esaú e Jacó no seio de Sara, ou como os soldados sob duas bandeiras - a do Bem e do Mal - dos Exercícios de Santo Inácio de Loyola.
Le romancier et ses personnages. Dizia Mauriac que ele, singe de Dieu, estava em todos os seus; mas que só os sentia viver, quando já não os podia conduzir a seu gosto, quando os sentia de repente autônomos, filhos pródigos, tomando as rédeas do seu próprio destino. Creio que em nenhum de nossos romancistas a união e o conflito entre a criatura e o criador aparecem tão vivamente como em Octávio de Faria. E por isso é que os seus livros não são livros, mas filhos. Pois não será a paternidade sobretudo dar a vida e ver os filhos, vivos e estudantes, escaparem ao controle paterno? Suas personagens, ele as acompanha como um pai, quase como um padre, e nos leva de roldão na sua aventura. É a "tragédia da burguesia", mas muito mais tragédia que burguesia. Pois o que focaliza não são os problemas sociais ou econômicos, as profissões ou ambientes, nem mesmo os costumes ou ideologias, mas sobretudo os dramas em que as personagens se debatem, contracenando com Deus. As personagens ou ele próprio? Se os pais sempre amam os filhos, e às vezes mais aos mais pródigos, é porque reconhecem neles uma porção de si próprios, e as personagens vivem às vezes destinos que, para nosso bem ou nosso mal, não tivemos a coragem de viver. E poderiam dizer àqueles que as criaram, ampliando o verso de Baudelaire: "Ó hipócrita autor,/ meu irmão, meu igual!"
Mas, sósias ou não do autor, esses personagens de um mundo sem paisagens e cenários vivem sobretudo aquele drama essencial da rejeição ou da busca de Deus entre gemidos, dramas de que tomamos consciência pelos seus reflexos nas admiráveis figuras de padre, que são por assim dizer como um fogo, um foco, um olho divino a vislumbrar nas trevas de Caim a difusa presença do inimigo invisível. Uma simples lista dos títulos dos romances de Octávio nos daria logo idéia dos profundos abismos em que descem suas criaturas, confirmando, como em negativo, a célebre frase de Santo Agostinho: "Inquieto está, Senhor, o nosso coração até que repouse em ti".
Dizia de início que era grato a Octávio de Faria por me ter valido a amizade de Alceu Amoroso Lima; sou-lhe mais grato ainda por ter vincado tão fortemente no romance brasileiro o drama da vida interior e da luta dos dois homens, que São Paulo sentia na própria carne: o homem velho e o homem novo. Numa época em que os nossos romances, talvez por quererem ser autenticamente brasileiros ou mesmo nordestinos, insistiam sobretudo nas desoladas paisagens da seca com seus retirantes, ou nos problemas do proletariado e da prostituição, dando-nos uma galeria de autores onde brilha sobretudo nossa imortal Rachel, optavam Cornélio Pena e Octávio de Faria, e um pouco Lúcio Cardoso, pela dimensão mais alta do homem, com seus dramas mais profundos e interiores. Mas enquanto Cornélio ficou sobretudo nas fronteiras da razão, e o seu primeiro romance se chamou justamente Fronteira, Octávio foi mais longe e mais fundo e mais alto, situando suas personagens nas fronteiras da santidade.
Mauriac chegou a escrever que "os santos não têm história", e não poderiam, se assim fosse, ser personagens de romance. Mas não existe o santo em estado puro, eles são justamente aqueles que procuram gemendo, "qui cherchent en gémissant", segundo o texto de Pascal que deparamos no pórtico da Tragédia Burguesa. E que de certo modo já encontraram, segundo a célebre frase colocada nos lábios de Cristo. "Tu não me procurarias, se já não me houvesses encontrado..." Porém, mesmo aqueles que mais se despojaram e libertaram, vivem ainda a noite escura de São João da Cruz, onde a claridade completa é apenas pressentida. Jesus está em agonia até o fim dos séculos, e agonia significa na verdade combate e luta. Jesus continua a combater nos seus. Como São Paulo dizia completar em sua carne o que faltava à paixão de Cristo, também devemos completar o que faltou ao seu combate com o Senhor do Mundo. Não porque a sua paixão e seu combate tenham sido insuficientes, mas porque devemos, em vários graus, reproduzi-los em nós: é a imitação de Cristo. E assim a santidade tem fronteiras onde às vezes oscilamos, e a grandeza e a miséria do homem decorrem dos erros e acertos, das opções de cada dia e momento.
Como sacerdote, e não apenas como cristão, sou grato a Octávio de Faria. Numa época em que os bispos e padres dão-nos às vezes a penosa impressão de se impressionarem exclusivamente com os sofrimentos materiais do homem (que estamos, é claro, longe d menosprezar), em que o padre aparece mais como político, sociólogo, educador, cientista, futurólogo, é providencial que Octávio de Faria nos tenha dado, sobretudo na figura do Padre Luís, um padre-padre, um padre-pai espiritual, padres impregnados daquela frase essencial "Da mihi animas, coetera tolle", "Dá-me as almas e fica com o resto". Ou daquela pergunta do Evangelho: "Que vale ao homem conquistar o mundo inteiro, se vier a perder a sua alma?"
Falei de Octávio de Faria como pai de seus livros, tão estuantes de sua própria vida que tornam secundária ou quase necessitam, como assinalou creio que Álvaro Lins, uma, pelo menos aparente, despreocupação de estilo. Ele é pai de seus livros apaixonadamente escritos, e das personagens Branco ou Preto, Padre Luís ou Ângela, carne se sua carne e sangue de seu sangue.
Mas creio não cometer uma indiscrição (pois quem poderia identificar tais pessoas?) trazendo o testemunho de que ouvi mais de uma vez, do outro lado da grade de um confessionário, que o filho pródigo voltava à casa paterna ou o errante descobrira um novo caminho, graças a um itinerário que passava por Mundos Mortos, Os Caminhos da Vida, O lado das ruas... A inquietação dos seus personagens, a sombra de Deus que perpassa em toda a obra de Octávio, e mesmo, por paradoxo, a difusa presença do Senhor do Mundo, acabavam como balizas ou degraus que conduzem ao Deus vivo, justificando o versículo de salmo que colocou no início do antepenúltimo volume da Tragédia Burguesa, O Indigno: "Foi na terra deserta, sem caminho e sem água, que te encontrei, Senhor".
Se um homem se realiza pelas árvores, os livros e os filhos, creio que Octávio de Faria verá cumprir-se, num dia que desejamos remoto para o nosso egoísmo, aquela frase sua que Ernani Reichmann colocou com tanta propriedade no início da obra com que comemora o seu 70º aniversário de nascimento.
"Quero poder chegar diante de vós, Senhor, tendo sido um homem, tendo sido alguma coisa com que possa encher as vossas mãos por um rápido instante".
E basta, caro Octávio, um instante. Pois os instantes, nas mãos de Deus, tornam-se eternos.
CONSELHEIRO SÁBATO MAGÁLDI - Sr. Presidente, Srs. Conselheiros: Ao prestar homenagem a Octávio de Faria, quando ele completa 70 anos, voltou à minha adolescência, nos idos da década de 40, recordando os dias apaixonados em que todo o meu grupo literário devorava a sua Tragédia Burguesa.
Éramos mais de uma dezena de jovens que encontravam na obra de Octávio a formulação e a resposta de suas angústias existenciais. Lembro-me das madrugadas de Belo Horizonte em que João Etienne Filho, Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Francisco Iglesias, Wilson Figueredo, Autran Dourado, Jacques do Prado Brandão, Octávio Alvarenga, Vanessa Neto e outros mais confrontávamos os nossos dramas religiosos e humanos à luz das personagens de Mundos Mortos, Caminhos da Vida, O Lobo das Ruas e os novos romances que se iam sucedendo.
Admirávamos Graciliano Ramos e José Lins do Rego (para só mencionar os mortos), mas tínhamos com Octávio de Faria aquela afinidade de vivermos os mesmos problemas urbanos da classe média. Os conflitos cariocas dos adolescentes de Octávio eram idênticos aos dramas que enfrentávamos no cotidiano, na família e na escola, na amizade e no amor. Sentíamos todos como nossos irmãos, cujo destino acompanhávamos solidários, torcendo para que encontrassem a verdade e a paz.
E havia um grande orgulho por Octávio desenvolver um painel gigantesco, equiparável na literatura européia apenas à Comédia Humana de Balzac ou Em Busca do Tempo Perdido de Proust. Fazíamos as contas, para calcular se no ritmo até então observado Octávio conseguiria chegar ao fim da empreitada. Ao mesmo tempo, acompanhávamos a sua inteligente aventura como ensaísta cinematográfico. E, no campo da política, mesmo se as nossas colocações divergiam, impunha-se o respeito pela coerência e honestidade com as quais Octávio defendia os seus pontos de vista.
Só mais tarde, tornando-me crítico de teatro, tomei contato com as Três Tragédias à Sombra da Cruz. Foi a mesma leitura aflita da obra romanesca, pela profundidade do mergulho nas personagens, pelo ritmo intenso do drama e pela grandeza das paixões desencadeadas. Imbuído dos conceitos vigentes de Dramaturgia, concluí que se tratava de boa literatura, mas talvez as Três Tragédias não respondessem com especificidade às exigências do palco. Não tive depois oportunidade de relatar o teatro de Octávio (e nem o pude fazer agora, colhido de surpresa por esta comemoração), para pôr em xeque teorias que provavelmente não passarão de preconceitos. Quem sabe as Três Tragédias à Sombra da Cruz se anteciparam na forma e apenas em nossos dias mostram uma legítima viabilidade cênica?
Além do mérito literário, Octávio de Faria sempre foi um exemplo como escritor e intelectual. Voltado inteiramente para a realização de sua obra, ele não transigiu, não tergiversou, não se perdeu nos caminhos menores que tantas vezes desviam autênticas vocações. Octávio se aplicou inteiro na tarefa que uma vida parece pequena para cumprir - e tem a felicidade, aos 70 anos, de ver que a Tragédia Burguesa está completa. Ainda mais, que os jovens de hoje, tão diferentes daqueles das gerações anteriores, se debruçam sobre os seus livros com o mesmo empenho da procura de um autoconhecimento. Porque Octávio lida com o que é permanente e não efêmero - eu diria eterno, em toda criatura humana.
Se me permiti divagar, remontando à adolescência longínqua, em que Octávio foi um dos alimentos mais generosos e fecundos de uma geração provinciana que se inspirou em sua figura admirável, desejo também que esta seja uma homenagem oficial, da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, de que sou o primeiro titular. Por outro lado, como professor, testemunho que a imagem de Octávio só se engrandece com o tempo.
Não é surpresa: ao talento, alia-se em Octávio a paixão dostoievskiana dos abismos. À medida que o homem se torna mais insatisfeito e torturado com a sua melancólica finitude, mais ele se reconhece na obra grandiosa e duradoura de Octávio de Faria.
CONSELHEIRO CLARIVAL VALLADARES - Sr. Presidente, é estranho, bastante estranho, que, após duas tão brilhantes saudações, tão brilhantes registros do septuagésimo aniversário de Octávio de Faria, tenha eu, ainda, oportunidade de abordar a área do seu trabalho, a área da sua própria obra. Vejam bem que D. Marcos tomou vôo, num plano - diria - celestial, para observar este homem terreno, que parece meio anjo e - por que não dizer? - meio diabo, mas, de qualquer maneira, o ser humano, na grandeza extraordinária do seu desafio. Vejam, também, como Sábato Magáldi focalizou a seiva dos seus grandes romances, da série ou da sagrada Tragédia Burguesa, como prefere Adonias Filho. Entretanto, ainda me resta abordar parte da obra de Octávio, que considero, talvez, a mais grave que se tenha feito, em termos de crítica moderna, no Brasil, visando uma arte para a qual ele próprio, como ensaísta, lutou, na caracterização de sua corporeidade, com uma autonomia bem própria, bem distinguida, no tempo e na dimensão universal que lhe foi dado observar, no cinema.
Fosse Octávio um escritor de língua outra que não a portuguesa, estaria, hoje, mencionado, não somente na curiosidade, assim dita, universitária, dos novos doutores de letras no Brasil, sobretudo aqueles que visam a sua produção literária, mas, no conhecimento e na revisão das suas postulações, impressionantes, como acerto, vivificadoras e prenunciantes. Muitas das afirmações contidas nesse pequeno e grande, extremamente modesto livro, brochura do tipo simples massa de papelão, nesse grande livro, exemplo de crítica universal, para todos os tempos, de título incerto, porque nem chegou a ser, naquela exagerada humildade do seu autor, ao chamá-lo de Pequena Introdução à História do Cinema, pouco importando a denominação que lhe tenha dado para título, tem a grandeza dos tempos de cinema, com uma percepção que eu diria desafiante. Octávio de Faria existe para o cinema, em precedência à sua existência como escritor romancista que se consagrou. Faço esta cobrança, pelo natural direito de estar falando em nome da Câmara de Artes, falando, agora, da mesma denominação ou do mesmo apelido que lhe deu o Presidente deste Conselho, ontem, quando o caracterizou como homem de cinema. E não é outra coisa. E por esta trilha, apanho-o para dimensioná-lo entre 1926 e 1931, colaborando num dos grupos da renovação crítica brasileira, em nove números de uma revista que se publicou na época, chamada Fã. Era a revista do Chaplin Clube, de que Octávio de Faria foi colaborador nove vezes, nos números que se publicaram. É nessa revista que ele insere o seu extraordinário ensaio, depois aproveitado e publicado, com acréscimo de um capítulo bastante eloqüente, nos Documentos Brasileiros, do Serviço de Documentação do Ministério da Educação e Cultura, em 1952, com o nome de "Faroeste, significação filosófica e artística". A revista Fã cumpriu, na vida de Octávio, em período que lhe era próprio para marcar e densificar a presença desse extraordinário crítico. Escrevendo para a revista Fã, conheci-o, ainda nos tempos de minha vida em Pernambuco, através do que dele me ensinou Evaldo Coutinho, seu grande amigo, que foi, como você, outro grande ensaísta, que tem, na sua configuração de filosofia, em nossa modernidade, toda uma linguagem que diria, também, de cineasta, embora não seja o homem junto à máquina do cinema. Conheço Octávio, também ensinando a mim, através de Jules Levi, um leitor seu dos mais curiosos, com a agudeza extraordinária de advertir os mais jovens ainda, aquele quase menino que eu era. Já foi denunciado por Manuel Diégues Júnior que eu era uma criança naquele tempo, lembro que Jules Levi advertia de quanto se tinha de grave em interpretação do cinema, através dos seus artigos. A visão faroeste como grande significado da era do homem atual foi, de fato, uma abertura que você deu ao Brasil e - quem sabe? - a muitos que se apropriaram das suas idéias da época. Não conheço nenhum outro autor que tenha debruçado sobre o assunto do faroeste com a incisão que você abriu, a análise que fez, a advertência nesse caráter, já quase de ontológico, de mostrar o conteúdo ético que se entrevia naquela coisa desprezível, do ponto de vista dos intelectuais. Seria, então, a banalidade do cinema levado a um plano menor, fora das preocupações do cinemato, do formalismo. Octávio foi, exatamente, naquele momento em que o faroeste começou a ser redescoberto, que José Valladares também escreveu sobre você, advertindo do que significava a intimidade do faroeste, como um território da própria ética, da visão do novo capítulo do homem, o que você chamou de Diálogo entre o Bem e o Mal, posto em termos daquela imutabilidade do próprio roteiro que o faroeste costumava ter, como uma das passagens mais firmes da própria história do cinema. "O americano lançou, um belo dia, a cavalgada livre, desenfreada, num deserto cheio de sol. Todo um mundo novo em que se podia respirar". É um dos seus trechos. E um outro: "Todas as épocas de fartura conheceram esses desconhecimentos de valores médios que não sobressaem e que, às vezes, se combatem, porque, juntamente, são médios, medíocres, em relação aos outros". Nesse momento é que você faz uma advertência aos tempos atuais, aos nossos dias. Todos sabem da minha mania, de há alguns anos, sobre a teoria da comunicação e o que isso significa, seja bruxa ou seja musa. Tenho essa antevisão de Octávio, quando escreveu aquelas palavras para aquilo que significava o faroeste. Por que não o conteúdo da procura do herói que não existia em nosso tempo, pela inaceitação de todos aqueles aparentemente heróis que pudessem ter existido? Por que não o encontro do arquétipo, se não no artifício, na coisa banalíssima dessa mídia, desse meio, desse medíocre que você indicou e precisou e que estaria no conteúdo da própria aventura do faroeste? Ainda citado Octávio: "A luta entre o bem e o mal, com a conclusão constante do bem sobre o mal". A validade da história do faroeste, este detalhe, "a conclusão constante do bem sobre o mal", é essa a grande mensagem, mantendo os personagens num meio termo humano, que não sejam inteiramente passivos, nem inteiramente perdidos. E depois: "conservar o legado do cinema primitivo milagrosamente intato, enriquecido de toda uma visão do mundo e da criação de um herói". Não são palavras, apenas, do conteúdo de uma crítica cinematográfica. É uma transcendência para os nossos tempos e para o nosso amanhã. Entre 1950 e 1952, ele faz um comentário para justificar a reedição: "Na antiga fusão de D. Quixote e Parsifal, herói de faroeste, há um novo elemento. Não direi que seja Hamlet, mas seus primos distantes, de quando em quando". É perfeita a observação. A maneira com que atinge o teatro shakespeariano estava já dentro da própria história do cinema e antevê a formação de arquétipos dentro de uma linha comum. Eu poderia continuar citando tantas coisas que Octávio trouxe para o conhecimento da crítica, no sentido da estética que envolve, também, o cinema. Devo concluir. E, neste ponto, farei economia daquilo que seria a melhor parte da minha locução, isto é, a leitura dos trechos do próprio Octávio. Mas o tempo já avança. É fácil adquirir esse livro pequeno e baratíssimo, o grande livro sobre o cinema que Octávio escreveu. Não há nenhuma dificuldade. Do mesmo modo que Pedro Calmon ontem aconselhou que todos vissem um certo filme, eu aconselho que todos comprassem esse moderníssimo e grande livro de todas as eras. Recentemente, Ernani Reichamann, da Universidade do Paraná, com acréscimo de Clementino Schiavoni Putti, dedicou à obra literária de Octávio um excelente ensaio. É uma matéria, portando, ensaística, que não abordarei. Quanto à de Octávio, permitam-me, apenas, a leitura de um trecho assinalado pois não ficarei com minha moção concluída, se não tiver possibilidade de ler, pelo menos, este pequeno trecho: "Impossível prognosticar, difícil limitar esta ou aquela possibilidade. (É referente ao progresso do cinema). O que se pode afirmar...
... depende todo o futuro do cinema como arte".
Todos adivinham. Não estou me referindo a que o cinema seja necessariamente a grande tela das antigas construções colossais, a competir com catedrais em termos de espaço de arquitetura. Não estou me referindo a nada que não seja o veículo atual do cinema que se tem casa, a mágica da comunicação que também é cinema e pode ser, como a própria história filosófica do cinema, essas grandes aberturas que Octávio de Faria já assinalava nessa altura. Mas, dentro de tudo isso, mesmo para coincidir com as expressões dos seus principais críticos em literatura, a sua linguagem estética, do homem que se entendeu e dialogou com a própria sigilosidade, a própria situação muito recôndita da imagem, como objeto da idéia estética, eu me valho, não de uma situação declarada, quantas vezes está no seu ensaio o estudo da imagem a partir da própria filosofia nietscheana, onde anteviu que, naquele tempo, a música romântica de Wagner continha a imagem que não podia ser substituída pela imagem literária, mas, necessariamente, pela imagem abstrata, na eloqüência da organização musical, o que corresponde, antes de Nietscher, ao próprio Kant. Mas eu diria, repetindo um dos seus críticos, mais um trecho e me permitam-me mencionar o nome desse crítico, ao findar a leitura:
"Não são novelas, em conseqüência, para essa espécie de gratuidade, que sempre diminui a ficção, como base de uma literatura. Octávio de Faria as situa em seu tema e problema, reafirmando o poder da sondagem acima dos debates, retirando da vida o que necessita para configurar...
por que é a humanidade que está em sua força".
Estas palavras são do trecho escrito, nesta orelha, que vale como um capítulo magistral da crítica, da autoria de Adonias Filho, para o seu livro "Três Novelas da Masmorra". Eu as colocaria na linguagem necessária à crítica do cinema, ou seja, à crítica da estética, em função da própria imagem. Essa é a imagem que se procura, seja ela veiculada no romance, no cinema, em qualquer área. A imagem é uma vivência abstrata do homem, mesmo que seja referida pela contingência física de uma definição mecânica ou ótica.
Peço perdão, se tanto demorei, mas o meu ímpeto, ao falar de Octávio, era falar de um mestre, de alguém que me tocou a quase infância, de alguém que, por casualidade e bondade de Deus, tenho como companheiro e, continuadamente, um mestre, quase todos os dias, neste Conselho.
PRESIDENTE ADONIAS FILHO - O Conselheiro Clarival Valladares procura ficar moço à sombra de Octávio de Faria (risos). Com a palavra o Conselheiro Miguel Reale.
CONSELHEIRO MIGUEL REALE - Sr. Presidente, os ilustres colegas D. Marcos Barbosa, Sábato Magáldi e Clarival Valladares já puseram em evidência as características de Octávio de Faria. Bem pouco posso acrescentar ao que foi dito. Mas, não posso deixar de prestar o depoimento de minha geração, quando, em São Paulo, chegaram os primeiros exemplares da obra de Octávio de Faria - "Maquiavel e o Brasil". Era todo um novo caminho que se abria àqueles que se dedicavam ao estudo dos problema brasileiros. Não obstante a pequena diferença de idade, ele se punha na vanguarda como um líder e um guia, líder inconteste de uma geração do Rio de Janeiro, que reunia jovens que iriam projetar-se, tão altamente, na cultura brasileira, como San Tiago Dantas, Chermont de Miranda, Antônio Galloti, Américo Jacobina Lacombe, Thiers Martins Moreira e outros mais. E nós, em São Paulo, com Almeida Sales, Roland Corbisier, Ernâni da Silva Bruno, Ângelo Simões de Arruda e outros, nos reuníamos para ler os ensaios de Octávio de Faria. Que trazia ele de novo, com os seus escritos? Ele libertava a Política e o Direito Público brasileiro de pressuposto meramente formalistas, de um simples cotejo de idéias, para reclamar a infra-estrutura de nossa própria sociedade. Ele, na realidade, mostrava o Estado e a sociedade, em função dos seus valores fundantes e, ao mesmo tempo, apontava para a nova metodologia. Era uma nova concepção da Teoria do Estado, ma nova consciência política que se descobria e se revelava através de suas páginas. Essa mesma nova consciência política sentimos no seu segundo livro, "O Destino do Socialismo", que mereceria ser relido hoje, porquanto muito daquilo que ele afirmou está se verificando em nosso tempo. O terceiro dos seus livros, sempre na área político-social, "Cristo e César", já marcava, de certa maneira, uma transição do mundo da política e da sociologia para o da literatura. Octávio de Faria, que, no arroubo da sua mocidade, tentara teorizar para tentar modificar, social e politicamente, o mundo, preferia constituir e criar o seu próprio mundo, através da magia da arte. Não houve deserção. Houve, apenas, uma mudança, a mudança de um criador que, na própria obra literária, ia realizar os seus sonhos de teorizador do Estado, da sociedade e da política. Não desejo encerrar estas minhas palavras, sem fazer uma referência a um outro aspecto. É que Octávio de Faria deu uma grande lição aos juristas e aos políticos. Tenho horror do jurista e do político que têm medo da temática do poder. Não concordo com Hans Kelsen, quando se atemoriza ao afirmar que, cavando-se o direito, descobre-se a figura hedionda do poder. É afrontando a problemática do poder que nos prevenimos contra o arbítrio. Foi esta a grande lição de realismo político que nos deu Octávio de Faria. É a razão pela qual também não concordo com aqueles que, hoje em dia, estão abusando de uma dialética maliciosa de contraposição entre teoria autoritária e teoria democrática, colocando a obra de Octávio de Faria, ou de Tristão de Athayde naquela época, entre os portadores de idéias autoritárias. Não se trata e não se tratava de idéias autoritárias contraposta a idéias democráticas. Mas, ao contrário, de uma compreensão realísta e concreta da vida brasileira, na sua história e na sua perspectiva de futuro. É esta contribuição inovadora de Octávio de Faria que a minha geração, através da minha palavra, neste instante, deseja interpretar.
CONSELHEIRO JOSUÉ MONTELLO - Sr. Presidente, considero do meu dever, e o faço - Octávio de Faria sabe disso - com a maior alegria, na minha qualidade de Presidente da Câmara de Letras, trazer a palavra do meu pequeno grupo às homenagens que estão sendo prestadas ao nosso colega. Já Dom Marcos Barbosa, falando por nós, disse uma parte do essencial. As outras foram ditas pelos nossos companheiros do Conselho Federal de Cultura. Todos esses pronunciamentos convergiam para exalçar, em Octávio de Faria, uma multiplicidade de caminhos, o crítico de arte, o crítico de cinema, o crítico de literatura, o crítico da vida política brasileira, o homem de teatro e, sobretudo, o criador de romances. É precisamente para desenvolver um dos temas, aqui abordados pela oração de Dom Marcos Barbosa, que desejo expender breves considerações, em torno da originalidade do romance de Octávio de Faria.
Para todos nós, que nos inserimos nessa tradição, como seus continuadores, o romance de Octávio de Faria apresenta, em face da realidade romanesca do Brasil, uma originalidade que marca com nitidez a sua presença nesse largo painel. Os romancistas, que vieram antes dele, inspiraram-se, sobretudo, na realidade objetiva do Brasil. Inspiraram-se nos seus conflitos, nas suas adaptações, nas suas paisagens, no seu heroísmo. Mas Octávio trouxe uma dimensão, que continua uma outra linha do romance brasileiro. É o romancista em face dos mistérios do próprio homem. Já Machado de Assis havia seguido por esse caminho, abrindo-nos uma nova estrada, aquela em que o homem se defronta com a sua realidade interior e procura, para esta, encontrar a definição adequada. Podemos dizer, repassando o romance de Machado de Assis, que essa realidade subjetiva é uma realidade sem Deus. Falta o problema marcadamente religioso, em virtude do qual o homem fica perplexo diante de si próprio e procura encontrar, para essa perplexidade, uma definição, em termos de criação romanesca. É precisamente essa a contribuição de Octávio. Quando ele começa a construir a sua Tragédia Burguesa, essa construção tem uma dupla dimensão. De um lado, é criação como unidade. De outro, como conjunto. É isso que faz, também, uma outra linha nova do romance de Octávio de Faria. Quando retrotraímos nossa observação crítica, a fim de encontrar um símile para sua obra, defrontamo-nos com a própria obra de José de Alencar, mas que só é conjunto a posteriori, porque é no prefácio de Sonhos de Ouro que Alencar procura dar à sua obra, a exemplo do que fizera Balzac o sentido de uma unidade, o que alcança de um lado a realidade brasileira no seu sentido horizontal e, também, procura alcançar a realidade brasileira, no seu sentido histórico. Essa realidade, que aparece no romance de Alencar, é uma realidade que aconteceu quase que por aluvião. Quer dizer, é uma ilha que se formou com as terras trazidas pelas águas. De repente, Alencar sente que esse obra tem o sentido de uma unidade. Em Octávio de Faria, essa é uma unidade premeditada. A criação não é uma iluminação parcial. É uma iluminação global. Vemos, desde o primeiro livro, Octávio de Faria anunciar sua majestosa criação romanesca, como não se fizera outra em literatura de língua portuguesa. Isso é importante assinalar.
Lembro-me um romancista português - Francisco Costa - pouco lido no Brasil - que num pequeno trabalho sobre a essência do romance, assinalava, precisamente, a importância de Octávio de Faria nesse domínio.
Ora, Sr. Presidente, vemos que Octávio de Faria, que chega aos seus setenta anos, faceiramente sustentado por uma bengala é, em verdade, na modéstia do seu feitio, no seu modo de ser, quase como um desses companheiros que a gente, ao encontrar na rua, tem logo ímpetos de segurar pelo braço e ir caminhando junto com ele. Octávio de Faria, nesses cinqüenta anos de vida literária, tem sido um dos provocadores mais intensos de soluções de problemas no Brasil, porque se defronta com nossa realidade política e faz sua denúncia. Ele se defronta com a nossa realidade social e a denuncia. Ele se confronta com a realidade artística e traz a sua denúncia. Mas a grande denúncia de Octávio de Faria é o homem diante do seu pecado, o homem que busca aquela fronteira de santidade, que está na essência do nosso ser. Todas as vezes em que nos debruçamos sobre nós mesmos, indagando, não apenas materialmente, os nossos mistérios, a nossa procedência, a essência da nossa existência, nós imediatamente nos encontramos com todos aqueles problemas que criaram o lado das ruas e que fizeram aquela Ângela magnífica e inesquecível entre as grandes personagens femininas da literatura brasileira.
Este Octávio de Faria, que recebe do Conselho Federal de Cultura, nesta tarde, pelos seus setenta anos, esta homenagem, sente coincidir os setenta anos com a conclusão de sua obra. Isso representará o silêncio do escritor? Não, porque ele continua a projetar-se através dos seus artigos de jornal, da exemplaridade da sua conduta humana, daquilo que ele conseguiu levantar, como a mais bela e majestosa criação romanesca que se realizou em língua portuguesa e no nosso País.
CONSELHEIRO VIANNA MOOG - Sr. Presidente, não vou falar do autor de Maquiavel e o Brasil que fez sensação com a minha geração; nem do autor de "Cristo e César" nem do "Destino do Socialismo:, nem da "Tragédia Burguesa". Esses assuntos foram maravilhosamente versados por Dom Marcos Barbosa, Clarival Valladares, Josué Montello, Sábato Magáldi e Miguel Reale. Quero ser o irmão pobre da confraria. Quero saudar, em Octávio de Faria, o meu companheiro de sofrimento, aos domingos, de futebol. Esse é o grande companheiro de sofrimento, do qual suas filosofias e especulações não livram, que se preocupa em ver como está o nosso time, que sofreu com o nosso selecionado... Esse homem é capaz das maiores especulações, é o companheiro que, por escrito, dá o seu parecer sobre o nosso selecionado, com os quais concordava em gênero e número. É a ele que apresento o meu abraço, em nome de todos os sofredores do futebol brasileiro que somos solidários com ele e simpatizamos com ele. Muito obrigado.
PRESIDENTE ADONIAS FILHO - Meus companheiros, creio que a homenagem foi mais do que justa. E tão sincera quanto justa. Octávio de Faria agradece por mim a todos vocês. Muito obrigado.
CONSELHEIRO GILBERTO FREYRE - Venho lamentar não ter podido estar presente à reunião com que este Conselho comemorou nova idade d Octávio de Faria o qual, tendo se tornado, o mês passado, homem de setenta anos, me dá direito de considerar-me matematicamente seu companheiro de geração.
Digo matematicamente porque, no essencial, já o considerava, em termos orteguianos de geração, meu irmão mais moço porém irmão. Nascido para as letras brasileiras sob os mesmos estímulos e sob inquietações afins. Ele mais introspectivo, eu, talvez menos, sem que o afã de introspecção, passando de pessoal a social, tenha deixado de ser tão característico de minha chamada sociologia como é, de modo tão pungente, de sua, por vezes, tão sociológica novelística. Tão sociológica, tão filosófica, tão religiosa, tão mística, tão espiritual. Isto sem se falar ao que no homem é carne, nem sempre de todo capaz de sublinhar-se em verbo e definir-se em alma.
Não sei de obra, na história da cultura brasileira, mais importante, mais significativa, mais perdurável que a, não só literária como metaliterária, de Octávio de Faria. Sua presença, neste Conselho, ao mesmo tempo que honrosíssima para quem o nomeou, engrandece este colegiado; e permita que o Brasil atual responda aos que levianamente o acusam de degradado por julgo militar, ostentando: temos um Conselho Federal de Cultura que conta, entre seus membros, Octávio de Faria como contou, até há pouco, com Guimarães Rosa. Exemplos esses e outros, escritores brasileiros modernos de uma qualidade moral, de uma superioridade intelectual, de uma independência de pensar, de uma arte no escrever, como não há, em outro país, quem os supere nessas virtudes.
O que se podia dizer de mais expressivo sobre Octávio de Faria foi, com certeza dito, aqui mesmo e na Academia Brasileira de Letras, de que Octávio é igualmente membro ilustre, como sucessor de Joaquim Nabuco, em reunião comemorativa de sua nova idade. Minha retardada participação nessas comemorações é a quem não deseja estar ausente de alegria, experimentada por este Conselho e por aquela Academia, de aproveitar oportunidade tão aliciante, para renovar por Octávio de Faria uma admiração que eleva, honra, dignifica, exalta, extasia até o admirador. Pois desgraçado é aquele que não sente a volúpia de admirar o admirável.
Ao mesmo tempo, congratulo-me com Octávio de Faria por ter provocado do crítico ainda jovem e já magistral, como é Nogueira Moutinho, na Folha de São Pulo, artigo tão efusivamente comemorativo do acontecimento que foi, aqui, e na Academia de Letras, celebrado de modo fraterno. A crítica literária e de idéias vem atravessando, na imprensa brasileira, uma espécie de crise, da qual entretanto, começa a reerguer-se de modo o mais expressivo. Com relação a Octávio de Faria, ela acaba de manifestar-se, pela palavra de Nogueira Moutinho, com uma animadora veemência, tal o seu desejo de ser justa para com um mestre que, sem cotejar discípulos, encontra repercussão na melhor inteligência jovem do País.
(Notas taquigráficas das sessões plenárias de 5.10.1978 e 7.11.1978)
Fonte: FREYRE, Gilberto et alii. Homenagem aos 70 anos de Octávio de Faria. Boletim do Conselho Federal de Cultura. Rio de Janeiro, a. 8, n. 33, p. 9-28, out./dez. 1978.
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