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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Periódicos Científicos  



HOMENS, TERRAS E ÁGUAS NA FORMAÇÃO AGRÁRIA DO BRASIL: SUGESTÕES PARA UM ESTUDO DE INTERRELAÇÕES


Um estudo a fazer-se no Brasil é o que venha a fixar sob critério ao mesmo tempo psicológico - social, histórico - sociológico e econômico - ecológico, ou antes, sob critério interrelacionista, o que têm sido as relações dos homens e dos seus conjuntos de edifícios rurais, terras cultivadas e animais domesticados ou especializados no trabalho agrário, com as águas, lagoas, rios, mares e regiões agrárias ou potencialmente agro-pastorís. Principalmente com os rios de tais regiões.

É impossível chegarmos a idéias sôbre certos assuntos - sôbre qual a tendência dominante entre os senhores rurais quanto ao local e feitio de suas casas de residência e fábricas, por exemplo - sem nos fixarmos no estudo, quanto possível minucioso, das relações dos mesmos senhores, através de sua principais atividades industriais e esfôrço agrários, com as águas tantas vêzes - como no caso da cultura da cana - complementares essenciais das terras como ambiente agrário, tal a dependência dos agricultores-industriais das mesmas águas, para fins agrários, industriais, pastorís: para transporte dos seus produtos ou sua comunicação com mercados internos ou externos ou com centros de importância política ou social e não apenas econômica, e para ostentação do seu "status" através de canoas e barcos de luxo. Estende-se a mais a dependência daquêles homens, das mesmas águas: para alimentação e recreação: para higiene do corpo; para aceio doméstico.

A degradação de rios, de lagoas, do próprio mar, por efeito de uma industrialização cruamente paleotécnica, isto é, de técnica ainda rude, brutalmente privativista, sem consideração pelo bem-estar geral das populações ou pela necessidade de conservar-se o equilíbrio ecológico, o ajustamento, a harmonia entre homens, animais, matas, edifícios e águas que formem um conjunto ou um complexo regional, - é outro aspecto do complexo a ser estudado em suas interrelações. Um dos aspectos mais importantes do mesmo complexo que até em sua fase de degradação influe, ou vem influindo, sôbre a paisagem e a cultura da região.

A degradação de rios no Nordeste agrário do Brasil pelas caldas das usinas de açúcar da região, representa um dos problemas mais difíceis que o Brasil tem hoje a resolver: resultado de uma criminosa política de laissez-faire em proveito de poucos e com sacrifício ou prejuízo de muitos. A êsse problema se junta o da esquitosome de água do Nordeste e de outras regiões agrárias do Brasil: consequência, ao que parece, do contacto com águas outrora puras de portadores de um mal, segundo supõem vários estudiosos do assunto, africano. Os escravos importados da África para as plantações de cana do Brasil tropical teriam contaminado as águas brasileiras em grande extensões do País.

Sabe-se por ecologistas como o Professor Konrad Guenther que grande vem sendo a devastação de aves marinhas no litoral do Brasil devido ao óleo de vapores que se espalha lamentàvelmente pelas águas do mar. Guenther chegar a ser patético no apêlo que dirige às companhias de navegação para que evitem êsse abuso das águas oceânicas pelos vapores movidos a óleo. Pois, como diz êle, o mar deve ser mais do que simples água: deve ser vida e esta vida depende, como todo complexo ecológico, de uma coexistência harmoniosa de todos os seus elementos: harmonia que, partida, resulta em desajustamento e até em drama. O mesmo é certo dos rios, dos lagoas, das lagostas, dos açudes. Todos êles são complexos em si e em relação com as terras às suas margens, cuja harmonia ou equilíbrio pode ser quebrado de modo patológico intrusão do homem desvairado pelo furor econômico de exploração dos seus semelhantes ou de animais, vegetais ou minerais.

Dos próprios jacarés que viu em águas de mangues do Sul de Pernambuco, Guenther destaca a utilidade: onde o homem tem se extremado em destruir desvairadamente crocodilos, o resultado vem sendo o aumento alarmante de cobras venenosas e de ratos daninhos. É que - generaliza o ecologista alemão - nenhuma planta ou animal vive para si mesmo mas em comunidade com outras criaturas vivas. O que - a ser verdade - mostra a importância de se conservarem em harmonia as relações de terras com águas quando o homem, tornando-se agricultor estável - ou mais estável do que nômade - faz sentir sôbre uma região inteira a presença de uma nova economia, dependente às vezes - o caso da agricultura de cana no Brasil, especialmente no Nordeste ou no Norte do País - tanto de águas, tanto quanto de terras. O mal da monocultura, do ponto de vista ecológico, vem justamente disto: do que os ecologistas chamam "perversão da natureza" - natureza que, sobretudo nos trópicos, é vária, múltipla - pela introdução em vasta região, de uma planta única, à qual se sacrifica tudo o mais, numa subordinação que raramente se realiza através de cuidadosos ajustamentos. No Nordeste, dentro de um sistema para-monocultural de relação do europeu com a natureza, o Brasil agrário se definiu no seu primeiro século, em tentativas de ajustamento ecológico que honram o bom senso do português. Mas infelizmente êsse senso de equilíbrio ecológico nem sempre foi, através do desenvolvimento daquele sistema para-monocultor em plenamente monocultor, conservado, a não ser, num ou noutro aspecto. Na situação dos edifícios rurais em relação aos terrenos e às águas, o sentido ecológico dos primeiros agricultores em grande escala, da região, não chegou aos nosso dias sob a mesma saudável dos primeiros tempos coloniais. E da quebra dêsse sentido ecológico vêm resultando modificações de atitude da parte dos homens - ou de certas classes de homens - para com as águas de rio, que merecem estudo psicológico, além de consideração sociológica. A própria substituição do banho de rio como banho elegante das gentes de classe alta pelo banho de mar, ou banho salgado - fenômeno que se acentuou na segunda metade do século XIX - merece êsse estudo ao mesmo tempo psicológico e sociológico que se estenda a análises quando possível compreensivas sôbre a substituição da beira-rio pela beira-mar como zona de edificação elegante de residências rurais seguidas pelas suburbanas.

Em Gabriel Soares de Sousa - no seu Tratado descritivo do Brasil em 1587 - encontram-se informações valiosas sôbre as relações entre homens e edifícios rurais e rios nos primeiros trechos de território brasileiro ocupados por engenhos de açúcar ou fazendas de criação. Principalmente por engenhos de açúcar. Do engenho de Jerônimo de Albuquerque - o primeiro que se levantou em Pernambuco depois da chegada de Duarte Coelho - diz-nos o cronista que de sua ribeira desciam náos com assucares (ed. da Rev. do Inst. Hist. e Geog. Br., tomo XIV, p. 22); do rio Ipojuca descreve que "neste rio entram e saem caravelões do serviço dos engenhos" (p. 24); refere-se a uma enseada economicamnte estratégica do mesmo trecho do Norte, como de início ocupada por "uma povoação com grandes casas de sua vivenda e uma igreja de Nossa Senhora, mui ornada, toda de abobada"(p. 37); e referindo-se à barra de S. Vicente diz que: "entretanto por este rio acima está a terra toda povoada de uma banda e da outra de fazenda mui fresca" (p. 85).

Mas é na segunda parte do seu trabalho - na que se refere com minúcia à sub-área bahiana do açúcar - que o cronista é mais abundante nas suas informações sôbre o assunto. Das margens do Pirajá destaca três engenhos movidos à água de ribeira (p. 122), das margens do Matoim, entre outros, o engenho de Sebastião da Ponte "que moe com uma ribeira que chamam Cotigipe" e o de Sebastião de Faria, movido por uma ribeira chamada Aratú: engenho com grandes edifícios de casas de purgar e de vivenda, e uma igreja de S. Jerônimo, todo de pedra e cal (p. 125); das margens do Paraguassú, salienta "o notável e bem assentado engenho de João de Brito de Almeida, que está senhoreando esta bahia com a vista, o qual engenho é de pedra e cal, e tem grandes edifícios de casas, e muito formosa igreja de S. João, de pedra e cal"(p. 133); das margens do Jaguaribe, não destaca o engenho de Fernão Cabral de Ataíde como "obra mui formosa e ornada de nobre edifícios de casa de vivenda... e de uma igreja de S. Bento" como escreve que "desde engenho para baixo vivem alguns moradores que têm suas roças e canaviais ao longo do rio que o aformoseam muito" (p. 136). Não só tais roças, canaviais, edifícios agrários aformoseavam os rios: eram aformoseados pelos rios. Mais do que isto: eram enobrecidos pelos rios. Juntava-se à vantagem econômica o elemento estético - ecológico de valorização da propriedade agrária e da residência rural pela vizinhança imediata do rio.

Além de oferecer pormenores concretos em que se apoie a sugestão, já feita por um moderno estudioso da história social patriarcal no Brasil - inclusive de sua economia - de que os rios pequenos foram auxiliares preciosos do colonizador agrário do Brasil, Gabriel Soares de Sousa nos dá informações não só de interêsse paisagístico - paisagístico no sentido estético - ecológico da expressão - como de interêsse econômico - ecológico, pelas relações que fixa ou sugere entre os edifícios, as terras e as águas. Relações quais sempre de edifícios patriarcalmente dominadores sôbre terras ou águas até certo ponto dominadas. O caráter feudal, ou semi-feudal, da propriedade parecia fazer-se anunciar sempre, no século XVI, não só pela qualidade mais nobre do material de construção - pedra e cal - à qual às vêzes se equiparava a taipa na própria solidez e capacidade de resistir ao tempo, como pela situação dos edifícios em relação às águas e às terras: situação de domínio.

E o que sucedeu no século XVI e no Norte do Brasil de colonização agrário - patriarcal parece ter acontecido noutras áreas, caracterisadas pelo mesmo tipo de colonização escravocrática e aristocrática em séculos posteriores. Na sub - área fluminense, por exemplo, que vem sendo objeto de bons estudos sistemáticos de um geólogo desdobrado em ecólogo e sociólogo, como é o Professor Alberto Ribeiro Lamego.

Um ponto interessante a ser desenvolvido pelo Professor Alberto Ribeiro Lamego, nesses seus estudos sôbre os brejos fluminenses em relação com a economia e com os demais aspectos da civilização brasileira daquela área de monocultura, e pelo Professor José Antônio Gonçalves de Melo, da Universidade do Recife e do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, no ensaio que nos promete sôbre as águas do rio Capibaribe em suas relações de quatro séculos com os canaviais pernambucanos e com as rasas e as populações e edifícios ligados principalmente à agricultura da cana e à indústria e ao comércio do açúcar, me parece que é o ecológico, da posição dos edifícios - inclusive de vilas, povoações e cidades inteiras - em face do comportamento das águas; e de alteração do comportamento das águas, em face da ocupação humana e da invasão de suas margens pela monocultura imperial ou pela indústria ansiosa de lucro fácil ou zelosa apenas de interêsses imediatos. Pois daí teriam resultado alterações profundas na paisagem brasileira.

Da posições dos engenhos - ou fábricas - casas de vivendas e capelas, em Pernambuco são várias informações que possuimos, colhidas por Pereira da Costa, numa época em que tais engenhos eram ainda vivos e nítidos característicos da paisagem regional; característicos anotados também pelo pintor Teles Júnior que foi por excelência o paisagista dessa subárea do Norte agrário do Brasil e nessa obra de documentação, continuador de Fraz Post. O bom e pachorrento cronista que foi Pereira da Costa chegou a caracterizar em daquêles grupos de edifícios rurais como "triângulo" - "perfeito triângulo" -, o que fez alguém dizer recentemente que a idéia do complexo - complexo sociológico - Casa grande & Senzala -, não é sinão reflexo ou desenvolvimento daquela caracterização dos edifícios mais expressivos do sentido de ocupação da terra brasileira pelos fabricantes brasileiros de açúcar como "triângulo" rural ou agrário, acrescentando-se êstes dois edifícios - como a capela considerada parte da Casa-grande -, o edifício industrial, do engenho de fabricar açúcar. Da caracterização de Pereira da Costa, referindo-se a um dos primeiros engenhos levantados em Pernambuco e que estaria, aliás, esquecida si não fôssem os novos estudos brasileiros sôbre o assunto - evidentemente não se pode dizer que tenha o menor significado ecológico - social ou o mais remoto sentido sociológico: nem mesmo intuito de generalização.

Nada tem que ver com o complexo "casa-grande, senzala, engenho", a não ser com impressão da superfície da paisagem regional. Mas, vindo essa impressão de cronista - e bom cronista - ainda do século XIX, não deixa de apresentar-se interessante, do ponto de vista histórico ou histórico - ecológico, para os estudiosos modernos da posição dos engenhos brasileiros de açúcar no Norte, em contraste com a posição do Sul, em face da natureza diversa dos terrenos e da presença de maior ou menor volume dágua nas terras de cana.

Pereira da Costa nos fornece numerosas informações concretas sôbre a posição dos conjuntos que podemos denominar "triângulos", pois, a seguirmos suas descrições do "triângulo perfeito" formado pelo engenho levantado por Diogo Gomes, essa configuração repetiu-se noutras terras e - o que particularmente nos interessa agora - em face de outras águas. Daí o sentido de generalidade sociológica que se pode hoje atribuir à expressão "triângulo rural" - expressão simbólica, e, como tal, de criação recente - para caracterizar ou definir constante ecológica da paisagem agrária de Pernambuco - ou do inteiro Norte açucareiro do Brasil - durante fase interessantíssima do desenvolvimento dessa paisagem

O pesquisador pernambucano examinou muito documento referente a terras de engenho na capitania de Duarte Coelho; e dêsse exame de documentos é que colheu, entre outras informações, as que interessam aos estudos de ecologia social das áreas de cana do açúcar. Principalmente aos estudos sôbre as relações do planador de cana e fabricante de açúcar com a água: relações essenciais.

O primeiro documento de importância para tal estudo é o Regimento de 17 de Dezembro de 1548 dado a Tomé de Sousa quando veio de Portugal investido do cargo de governador geral do Brasil. Foi aí ordenado que se dessem sob certas condições, terras vizinhas das ribeiras às pessoas que tivessem posse para levantar engenhos de açúcar. Terras vizinhas das ribeiras, note-se bem.

Dentro dêsse critério, foram doadas pelo primeiro donatário de Pernambuco a Diogo Gonsalves, "casado com D. Isabel Froes, senhora de ilustre origem, que viera de Portugal em 1535 em companhia do mesmo donatário e de sua mulher D. Brites de Albuquerque", as terras de Beberibe, "conjuntamente com as da Casa Forte e uma parte das Várzea". Uma vastidão de terras beneficiadas pela presença de muita água.

Segundo as pesquisas de Pereira da Costa, Diogo Gonsalves não tardou em levantar engenho. Levantou-o "à margem direita do rio Beberibe e no próprio lugar em que hoje campêa a povoação do mesmo nome". E acrescenta, sugerindo a caracterização de triângulo que foi depois por mim generalizada sob a denominação de "triângulo rural": "A casa de vivenda ficava junto ao rio, à direita de ponte atual, e pouca distância, um pouco para o Norte, na entrada da praça, foi situado o edifício da fábrica, ficando de permeio a capela, porém mais afastada para o este, de forma que, traçando-se uma linha de união sôbre essas três construções teremos um perfeito triângulo".

Dos engenhos que foram depois se levantando nas terras da várzea do Capibaribe, generaliza Pereira da Costa, num ensaio escrito em 1905 sôbre as origens históricas da indústria açucareira em Pernambuco, que "iam surgindo nas situações mais vantajosas aos trabalhos agrícolas como uberdade do solo, abundância d'água para as moagens e matas para a extração de lenha e madeira"(p. VI). Á varzea do Capibaribe, sucedeu-se, como zona de canaviais e engenhos, a "ribeira" ou "vale do Jaboatão"; e em ambas as zonas, vários engenhos se erguiam à beira de riachos ou rios pequenos como o engenho Suassuna, que "moía com as águas do riacho Suassuna; em engenho Madalena, acima ao rio Cedros, depois "Passagem da Madalena, cuja casa-grande transformou-se depois no chamado sobrado grande da Madalena - em posição dominadora; o engenho Monteiro movido com águas que vinham de Apipucos, chamado ora riacho, ora açude, enquanto o engenho de Apipucos, pròpriamente dito, se erguia à margem esquerda do rio Capibaribe sendo que a capela e a casa-grande, em terreno elevado e posição dominadora. Convém atentarmos no fato de que, estabelecidos os primeiros engenhos na ribeira do rio Jaboatão, várias pessoas foram afluindo para lá afim de levantar, casas de moradia "na parte situada" - especifica Pereira da Costa - "entre os rios Una e Jaboatão e na confluência dêste com aquêle", tendo um dos primeiros senhores de engenho daquela sub-área de terras férteis e águas abundantes, Bento Luiz de Figueirôa, concedido "os necessários terrenos para semelhantes construções, a título de aforamento perpétuo"(p. X). daí surgiu a povoação e depois cidade de Jaboatão.

Para o Sul da Capitania, a ocupação do solo pelos plantadores de cana e fabricantes de açúcar fez-se por processo ecológico semelhante: à margem de rios pequenos e úteis à indústria, isto é, à margem de águas capazes de mover as fábricas de facilitar o transporte do açúcar para a beira-mar. O fidalgo João Paes Barreto, de Viana do Castelo, vindo para Pernambuco em 1557, uma vez de posse de "grandes lotes e terras", foi onde fundou engenho e instituiu morgadio: "á margem do rio Arasuagipe nos brejos do Cabo de Santo Agostinho"(p. XII).

A posição dominadora das antigas casa de vivenda dos engenhos - "casas de vivenda", chama-as eruditamente Pereira da Costa, enquanto "casas-grandes" é a denominação adotada pelo estudiosos mais modernos do assunto (denominação que é, aliás, a corrente entre a gente do povo dos antigos meios feudais, principalmente ao Norte do País) - parece ter sido geral no Norte: dominadora de terras e do próprio rio, e por essa situação senhoril, afirmação às vêzes feudal do status também senhoril e a seu modo feudal, dos donos, dos proprietários, dos moradores brancos. Mais alto que ela, erguia-se, às vêzes, a capela, como no quadro da galeria pernambucana do conde Maurício de Nassau oferecida ao rei de França Luiz XIV, e cuja legenda ou descrição é reproduzida por Pereira da Costa no seu referido e minucioso trabalho: "La revière (sic) se nomme Bibarabe (sic); de delà o'est un moulin à sucre avec la demeure du seigneur et plus haut la chapelle". Pois não nos esqueçamos de que antes de fixadas paisagens agrárias de Pernambuco ou do Norte, dominadas pela presença de casas-grandes próximas de águas e matas, por Teles Júnior e Lassailly, quasi nos nosso dias - que foram também os dias de declínio dos "triângulos rurais" - fixou êsses triângulos rurais com admirável rigor nórdico o pintor holandês do século XVII, Franz Post, em vários quadros e desenhos de interêsse ecológico-social e não apenas histórico. E por essa documentação se conclue ter sido a tendência geral, nas vastas regiões açucareiras ou agrárias do Norte do Brasil, para os triângulos rurais se fixarem em altos ou culminâncias de paisagens, quer por conveniência de ordem econômica ao mesmo tempo que ecológica, quer para afirmação ou ostentação de status. Também havia a tendência para as casa-rurais se distanciarem do solo, tornando-se assobradadas, o que talvez representasse, aqui e noutras áreas tropicais, defesa do homem contra aquêles insetos rasteiros e daninhos que pouco se elevam à superfície do solo e aos quais se refere Albro Gaul em seu recente estudo do assunto. Defesa inconsciente contra a própria malária da parte de europeus instalados em terras tropicais.

Esta não parece ter sido a ecologia dominante na paisagem agráriamente semi-feudal do Sul do Brasil, na qual, mais de uma vez, as casas-grandes parecem ter como que se escondido quanto possível da vista dos viajantes que se aproximassem delas, por terra ou pelos rios. Infelizmente, as informações que tenho até hoje recolhido sôbre o assunto, através de estudos de campo ou de informações de terceiros, não me permitem verificar até que ponto deve ser dada com exata a generalização de João Vampré ("Fatos e festas na tradição", Rev. Inst. Hist. São Paulo, vol. XIII): "... enquanto os habitantes do norte procuravam para habitações os logares altos, os pendores das serras, os paulistas, pelo comum, preferiam as baixas, as depressões do solo para a edificação de suas vivendas..."

Em sua Memória sôbre a Fundação e Custeio de uma Fazenda na Província do Rio de Janeiro (2ª ed., Rio de Janeiro, 1863), escreveu o Barão do Paty do Alferes que conquanto a arquitetura rural não tivesse ainda constituído entre nós, no meado do século XIX, "regras fixas", já se podia afirmar que sendo um dos inconvenientes do clima brasileiro a umidade, o lavrador devia procurar "situar a habitação no lugar mais sêco e enxuto do estabelecimento" (p.15). Parece que, dêsse ponto de vista, considerava os lugares relativamente altos preferíveis aos baixos. Talvez seguisse a orientação já traçada por Carlos Augusto Taunay no seu Manual do Agricultor Brasileiro (Rio de Janeiro, 1939) que considerava "o local preferivel (para "a habitação do proprietário" rural) huma elevação mediocre, no centro da planicie, com hum declive suave da parte da frente e quasi insensivel da banda dos fundos collocação das dependencias". (p. 20). Êste talvez tenha sido o critério generalizado de edificação de "habitat" rural em grande parte do Brasil mais feudalmente agrário. Em estudo geográfico - "Paisagens e problemas rurais da região de Santa Isabel" - publicado no nº 10, de Março de 1952, do Boletim Paulista de Geografia, o Professor Aziz Nacib Ab'Sáber particularisa essa preferência, lembrando que "na vertente do Tietê, de modo geral o "habitat" rural se liga às várzeas enxutas e aos flancos suaves dos outeiros cristalinos". Entretanto, na vertente do Paraíba, a tendência vem sendo para o povoamento dos "terraços fluviais e flancos baixos dos morros", (p. 59). Tendência significativa embora já não se trate de casas senhorias. Em Neigbbors on our Earth - Latin America and the Mediterranean (New York 1950), Gertrude Whipple e Preston James assinalam notar-se ainda ao Norte do Rio de Janeiro a preferência dos grandes agricultores para situarem suas habitações de tipo evidentemente senhoril - nos vales, enquanto suas lavouras se acham nos morros e as estradas passam pela "upland"(p. 197). Precisamente o contrário do que parece ter ocorrido de modo geral no Norte feudalmente agrário, embora não de maneira absoluta. Nem sempre foram os altos absolutos os preferidos para as residências senhoris no Norte mas às vêzes os medíocres.

Deve-se observar que o assunto - situação de casas rurais - tem sido objeto de estudos deveras interessantes, do ponto de vista da predominância de temperamentos ou biotipos, em certas regiões e em certas épocas sociais. O Professor W. Berardinelli, em estudo de "antropologia diferencial aplicada", Os tipos humanos na vida e na arte (Rio 1954), recorda a observação de Sheldon de não gostarem os longilíneos (ectomorfos), de casa "em colinas e em lugares altos", pois a tendência do longilíneo é para "se abrigar em lugares mais protegidos, em grotas ou recantos de pomar"... "casas pequenas". Enquanto a preferência dos normolíneos (mesomorfos) é por "casas grandes... numa praça ou no alto duma colina". (123). A generalização de Sheldon presta-se a ser aplicada - sem se desprezarem, é claro, outros fatores - à tendência, parece que dominante, entre paulistas e fluminenses antigos, para, nos espaços rurais, se abrigarem em lugares protegidos, em contraste com o pendor de numerosos senhores rurais do Norte para edificarem casas senhoris no alto de colinas e desabrigadas até de árvores. Fator de ordem psicológica a ser considerado juntamente com os de ordem ecológica e econômica, cuja importância aliás se modificou em várias regiões com o tempo e sob a influência de novas situações ou relações de espaço.

É certo que a atitude dos grandes monocultores para com as situações e formas de terra preferidas para edificações modificou-se, no Sul do Brasil, quando à cana de açúcar começou a suceder o café como base da monocultura; e dessa modificação podem ter resultado alterações na posição das residências senhoris em sentido contrário ao da generalização de Vampré. Por um "Parecer da Sociedade e Medicina do Rio de Janeiro sôbre a enfermidade que grassou em 1830 na vila de Magé e seu têrmos" temos notícia de modificações trazidas à vida ou a convivência humana pelo "abandono da cultura das várzeas e mais terrenos baixos pela maior facilidade e lucro que os habitantes achão na cultivação dos terrenos altos para as plantações do café, gênero comercial que sendo atualmente o mais cultivado nesta província tem dado uma nova direção á cultura principal dêste solo, fazendo abandonar lugares que antes exercião a industria e o trabalho dos lavradores, os quais abrindo valas e rêgo tornavão as terra mais enxutas" (Annaes Brasilienses de Medicina, Rio de Janeiro, tomo XXIV, nº 6, 1872).

Sabe-se ainda, por estudos médicos da segunda metade do século XIX que as terras entre o rio Itabapuana e Paraíba, e as margens do Paraíba ao Macaé - terreno todo cortado de côrregos, lagoas e pântanos - eram então consideradas "febrígenas". Campos era tida por cidade de "paludismo eNdêmico"; e o mal era havido por assustador nas terras vizinhas às 'águas lodosas do lento e sinuoso Macabú e do Imbê, junto à sua foz", tendo um médico da época, certo Dr. Lacerda, observado o fato de não ter sido possível desenvolver-se nas proximidades do Macabú e do Imbê "nenhum estabelecimento importante da lavoura". E Arraes junta ao depoimento de Lacerda o seu, destacando como zonas que se tornaram desfavoráveis à lavoura o brejo do Imburú, os pântanos às margens do rio S. João, os terrenos banhados pelo que chama "o célebre pestífero Macacú e pelos rios Magé, Pilar, Iguassú, Quandú e seu afluentes, entre os quais o rio S. Pedro que produz os pântanos tristemente afamados de Belém" (Therapeutica Brasileira, I, p. 38). Rios pequenos inimigos da lavoura; e não amigos como os de outras áreas do Brasil.

Com essa situação não se terá defrontado o geólogo-sociólogo Ribeiro Lamego nos seus estudos das terras de Campos, onde a monocultura não teve sua base deslocada do açúcar para o café; mas terá encontrado alterações na paisagem e na posição das habilitações ribeirinhas, devidas ao que o autor do referido parecer médico chamava "mudanças topográficas acidentais que resultão pelo entupimento de valas, vertentes de rios e de lagoas, etc." e que teriam sido a causa de alarme "enfermidade" ou epidemia, ocorrida na vila de Macahé no reinado de d. João VI. Verificou-se então que "o desentupimento de um lugares onde vedava o desaguamento no mar de uma lagoa, o abrimento de uma vala e a construção de um caes fizeram cessar a "enfermidade" ou epidemia. Seria aliás supérfluo acentuar, a esta altura, o fato da vizinhança de águas nem sempre vir sendo benéfica ao homem agrário no Brasil. Em interessante trabalho que acabo de ter o gostô de ter no original, o médico Humberto Nóbrega, da Paraíba, salienta o que chama "os reflexos da hidrologia sôbre os fenômenos biológicos e sua importância na geografia humana e física do Nordeste do Brasil". A propósito do que, citando palavras de outro pesquisador médico brasileiro, recorda que a água, por um lado benéfica ao homem agrário, por outro é maléfica: "promove a erosão do solo, causa inundações destruidoras e pode tornar-se fonte e veículo de doenças diversas". A esquitosome, por exemplo. E a própria malária, da qual acentuam tropicalistas que é, em grande parte, responsável pelo atraso de regiões quentes ou úmidas em relação com as temperadas.

Sôbre os aspectos histórico-social do problema das relações do homem com a água dos rios e lagoas, com os brejos e com os altos e baixos dos terrenos explorados pela monocultura escravocrata e latifundiária ou não, quisera eu que se encontrassem em estudos como o do ecólogo Ribeiro Lamego informações cuja ausência lamento. Tomo a liberdade de sugerir a consideração de tais aspectos àqueles pesquisadores, que, como o Sr. Gonçalves de Melo, em Pernambuco, o Sr. Diegues Júnior, em Alagoas, os srs. Wanderley de Pinho e Godofredo Filho, no Recôncavo, vêm estudando, do mesmo modo que o sr. Ribeiro Lamego, no Rio de Janeiro, a história social ou simplesmente econômica do açúcar ou, mais amplamente, da economia agrária, no Brasil. Eu próprio pretendo me ocupar de tais "mudanças topográficas" em estudo sôbre a transição da monocultura do açúcar para a de café no Brasil; do trabalho escravo para o livre; e da casa nobre ou dominadora do rio para a casa nobre - ou rica - de costas para o rio. Aspectos diversos da mesma fase de transição social que atravessou entre nós, a monocultura: processo de exploração da terra do qual não se pode separar estudo nenhum, nem da história social nem da paisagem cultural do Brasil.

Note-se, aliás, que antes mesmo de iniciada no Brasil a fase atual de comêço de estudos sistemáticos em tôrno dessa história e desta paisagem - estudos de que foram antecipações algumas das melhores páginas de sentido sociológico de ensaistas ou historiadores como Joaquim Nabuco e Oliveira Lima, Capistrano e João Ribeiro, Sílvio Romero, Alberto Tôrres, Euclides da Cunha, Teodoro Sampaio. Alfredo de Carvalho, Alberto Rangel, Artur Orlando, Delgado de Carvalho e Pereira da Costa - já alguns estudiosos brasileiros de assuntos nacionais ou regionais vinham se preocupando, de modo específico, com as relações entre homens ou populações rurais e águas. Entre êsses estudiosos, na época em que apareceram quasi ignorados, o alagoano Otávio Brandão, que dedicou ao exame das águas dos canais e lagoas de sua província, ensaio ainda hoje digno de atenção, pelas sugestões de interêsse ecológico e sociológico que nele se encontram.



Fonte: FREYRE, Gilberto. Homens, terras e águas na formação agrária do Brasil: sugestões para um estudo de interrelações. Boletim do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais. Recife, n. 3, p. 3-12, 1954.

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