IMPRESSÕES DE UM VIAJANTE
O Professor Francis Butler Simkins, da
Universidade de North Carolina, Estados Unidos, veio passar no Brasil as suas ultimas
ferias de verão. Visitou o Pará, o Ceará e o Recife e alguns pontos do interior de
Pernambuco como a velha cidade de Igarassú, que muito o encantou e o engenho Japaranduba,
do Sr. Coronel Pedro Paranhos; do Recife, seguiu para Rio, demorando um dia na cidade do
Salvador. As impressões desta viagem, o professor Simkins, que é um cultor apaixonado de
assumptos historicos, fixou-as numa serie de artigos para um jornal do seu paiz.
Interessou ao professor Simkins no Norte do
Brasil, como Lafcadio Hearn em Martinique, o aspecto da nossa população mestiça com a
sua variedade de typos cruzados. Esta nossa população desde Wallace que divide em
opiniões radicalmente opostas os viajantes extrangeiros, alguns considerando-a
interessante e até de bonito aspecto, pela variedade de colorido e outros, como Agassiz,
confessando verdadeiro horror ante tamanha confusão de typos. O professor Simkins, ao
contrario de um seu compatriota que aqui esteve no meiado do seculo XIX e escreveu sobre
"the fearfully mongrel aspect of the population", não mostra nenhum alarme ante
os effeitos da miscigenação, por elle notados no Recife e em outros pontos.
Registra num dos seus artigos o encanto de uma
visita a Iguarassú - onde esverdinhadas ruinas lhe trouxeram á mente suggestões do
seu amado Pae. Descreve aspectos do velho convento de São Francisco, destacando o
trabalho em jacarandá do côro e as pinturas que lhe parecem dignas de cuidado.
Com um travosinho de humor, escreve o
professor Simkins que as bibliothecas publicas no Brasil não estão entre os primeiros
cuidados dos dirigentes. Exigencia, talvez, de americano acostumado ao luxo das Carnegie.
Da Bibliotheca Publica do Recife escreve que o
surprehendeu pelo seu ar de abandono logo no exterior. Pareceu-lhe que os recifenses
apenas leem jornaes ou periodicos. Pedindo ao empregado um trabalho de Rocha Pitta, foi
conduzido atravez de rumas poeirentas de livros, dispostos de acordo com o tamanho -
critério de disposição de livros que o espantou pela originalidade.
Espantou-o a familiaridade com que os morcegos
vôam pelas salas úmidas da Bibliotheca.
Visitou o professor Simkins a Faculdade de
Direito do Recife, onde o recebeu o Dr. Campello, "cavalheiro deliciosamente
provinciano". Pareceu-lhe o mobiliario no gosto do mobiliario dos hoteis de New York
de 1880 - de um luxo mais vistoso que elegante.
Olinda deu ao viajante norte-americano
preciosas sensações, que elle registra em paginas quasi lyricas, destacando a vista da
cidade e do mar a reluzir ao sol dos tropicos e do casario distante do Recife, do alto da
Misericordia. A mesma vista que tanto encantou Ramalho Ortigão quando esteve em
Pernambuco em companhia de Joaquim Nabuco.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Impressões de um viajante. Revista do Norte. Recife, n. 1, p. 1, 1925.
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