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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Periódicos Científicos  



MESTRE AFONSO ARINOS NO SEMINÁRIO DE TROPICOLOGIA DO RECIFE


Ao Seminário de Tropicologia, da Universidade Federal de Pernambuco, abrilhantou a presença, numa de suas reuniões mais interessantes do ano de 70, do brasileiro múltiplo pelas atividades e pelas realizações que é Mestre Afonso Arinos de Mello Franco.

Mestre universitário, o Professor Afonso Arinos é - ou tem sido - também parlamentar, também diplomata, também homem de govêrno e, político de oposição, além de intelectual igualmente vário, e sempre admirável, no seu modo específico de ser clérigo: historiador, jurista, internacionalista, sociólogo, escritor literário, crítico, memorialista, jornalista, poeta. Um generalista mais do que um especialista, atende superiormente àquela necessidade de lúcidos generalistas que, senão mais do que especialistas, tanto quanto especialistas, o mundo de hoje experimenta, para sua orientação, ou reorientação, em face de problemas crescentemente complexos. É, assim, uma felicidade para o Brasil dispôr, para sua orientação ou reorientação, de inteligências e de saberes amplos; e não apenas de saberes valiosamente especializados.

Somos, o Professor Afonso Arinos de Mello Franco e eu, além de constantes companheiros de estudos, amigos, desde os dias da nossa mocidade, quando, nos meus primeiros anos de contacto com o Rio, meu grupo intelectual jovem foi o seu grupo, juntamente com Rodrigo Melo Franco de Andrade, Prudente de Morais Neto, Sérgio Buarque de Holanda - para recordar os principais. Os mais expressivos de uma nova tendência intelectual e, num alto sentido, política, com relação a assuntos brasileiros.

Temos divergido mais de uma vez. Somos por vêzes mais angulosos do que redondos, como diria Ganivet. Inteiramente antagônicos, nos nossos choques de opinião. Mas a mim nunca faltou pela sua pessoa e pelas suas letras aprêço ou admiração. E dêle, se tenho recebido críticas, ao meu ver, injustas - como a que dirigiu à linguagem nova, em ensaios, como que surgi com o livro Casa-Grande & Senzala, linguagem pelo seu culto à elegância verbal classificada de "chula" ou a de me ter julgado "jurìdicamente despreparado" para participar da Constituinte de 46, esquecido de minha condição de discípulo, na Universidade de Columbia, de grandes mestres em assuntos de jurisprudência - não me têm faltado estímulos valiosos e louvores generosos.

Foi brilhante sua conferência no Seminário de Tropicologia: uma conferência particularmente memorável no que já é uma série de preciosos contactos do Recife intelectual com personalidades marcantes em vários setores de cultura e de ação ligados à consideração, quanto possível científica, de problemas tropicais de ecologia e de antropologia. Mestre Afonso Arinos de Mello Franco fêz-nos ouvir como mestre. Como rara combinação de intelectual e homem público.

Seu trabalho magistral foi sôbre "Ciência Política e Trópico", comentado por mestres ilustres: um dêles, Gilberto Osório de Andrade, que, sendo pessoa de casa, nem por isto deixa de ser sempre nôvo nas perspectivas que, ao esclarecimento de problemas tropicais, sua alta inteligência e seu opulento saber vem abrindo, no Seminário de Tropicologia, como geógrafo mais que geógrafo que é: como senhor, até, de sutilezas de uma econogia tropical que, considerada por estudioso tão sábio, transborda de limites convencionalmente biofísicos para afirmar-se, sempre sôbre sua base biofísica, realidade sócio-cultural.

Realidade a que também se mostrou sensível como comentador da conferência do Prof. Arinos, o Coronel Clovis Wanderley, que deveres de militar transferido para Brasília afastaram do seu convívio com o Recife, onde já habituara seus colegas do Seminário de Antropologia a estimar e admirar suas intervenções, sempre perspicazes, nos debates do mesmo colégio. Foi uma contribuição, a sua, na reunião de que foi conferencista o Prof. Arinos, de internacionalista admiràvelmente em dia com os problemas políticos e não-políticos do mundo de hoje. Problemas dos quais o Prof. Arinos, numa notável coincidência de idéias com objetivos que vêm orientando o Seminário de Tropicologia, salientou serem, de ponto de vista brasileiro, em particular, tropical em geral, problemas que pedem soluções como que ecológicas.

("Diário de Pernambuco" - 1.5.1971).



Fonte: FREYRE, Gilberto. Mestre Afonso Arinos no Seminário de Tropicologia do Recife. Boletim do Conselho Federal de Cultura. Rio de Janeiro, a. 1, n. 2, p. 63-64, abr./jun. 1971.

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