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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Periódicos Científicos  



O EMBAIXADOR INTELLECTUAL DO BRAZIL


Chamou Bjorkman ao Dr. Oliveira Lima "embaixador intellectual do Brazil". Não fez o grande sueco uma phrase á tôa. Cunhou a medalha de um elogio muito justo e muito proprio.

É relativamente facil, nos tempos que correm, ser embaixador. Era-o, em casos ordinarios, no proprio seculo dezoito. Bellas maneiras, finas rendas no peitilho, finos sorrisos na face, uns toques de "savoir faire", bastavam para fazer um embaixador. Ora, essas qualidades possue-as qualquer aristocrata que se preza; possuia-as a europea do seculo dezoito. Na ausencia ou pobresa dellas sobrecarregavam-se os enviados do presentes: são celebres os que ao papa levou da parte do rei de Portugal Andrés de Mello: papagaios, araras e loiça da India.

Para ser embaixador intellectual, porém, é preciso ser um James Bryce, um Lowell, um Joaquim Nabuco, um Garcia Merou. Ninguem faz um embaixador desse genero. É alguma cousa fóra da alçada desse semi-deus, creador de "ficções", rival de Julio Verne e de Mr. Wells, chamado "Direito Internacional". Chega-se ao posto por "direito proprio".

Attingiu-o triumphalmente o Dr. M. de Oliveira Lima. Prova-o sua actividade intellectual por vinte e cinco annos parallela á sua acção diplomatica, sem ter porém cessado com a sua jubilação na "carrière" que tanto honrou. Tracemos, em rapidas notas a lapis, o que tem sido até o presente essa actividade.

Em 1896, secretario de legação em Paris, publicou o Dr. Oliveira Lima, em francês, seu bello trabalho de mocidade, "Sept Ans de Republique au Brésil", no qual procurou explicar á opinião europea o novo regimen politico do Brazil.

No Congresso Scientifico de Vienna, poucos annos depois, obteve o nosso compatriota a inclusão do português entre as lingoas officiaes daquella conferencia mundial - notavel victoria para o Brazil. Isto na Europa. Sabemos de Congressos pan-americanos - aos quaes o português se impõe por direito proprio como idioma official - onde no entanto...

Na mesma Vienna, no Congresso de Musica Classica, alcançou o Dr. Oliveira Lima outra esplendida victoria para a sua e nossa patria, conseguindo que alli se executassem, com as de Haydn e outros mestres classicos, composições do nosso Padre José Mauricio.

Em 1910, na Sorbonne, produziu o então ministro do Brazil na Belgica, excellente conferencia sobre o mestre da novella brazileira, Machado de Assis, depois impressa sob o titulo "Machado de Assis et son oeuvre litteraire". No mesmo anno o Dr. Oliveira Lima publicou em "La Revue" (hoje "La Revue Mondiale"), conhecida revista dirigida por esse francês de largas sympathias humanas que é M. Jean Finot, uma serie de artigos sobre o momento litterario no Brazil: "Ecrivains Bresiliens Contemporains".

Em 1911 de nôvo occupou o Dr. Lima a tribuna de conferencias da Sorbonne, inaugurando um curso de historia do Brazil, com digressões sobre a litteratura. Nesta serie de conferencias revelou o erudito brazileiro notavel poder de synthese. São as mesmas um diagramma a côres vivas da evolução historica do Brazil, gisado por mão de mestre.

No mesmo anno, em Outubro, inaugurou o Dr. Oliveira Lima a cadeira de Português, estabelecida na Universidade de Liege, por influencia sua.

No anno seguinte, em 13 de Junho, por occasião da festa presidida por M. Jean Richepin, da Academia Franceza, em honra de Camões, cujo monumento então se inaugurou, fez o nosso patricio notavel discurso em nome do Brazil. A festa foi em Paris e a ella se associou a élite intellectual da Europa Latina.

Em 1913 veio o Dr. Oliveira Lima para os Estados Unidos, a convite do Dr. John C. Branner, da Universidade de Standford, California, realizando conferencias sobre a historia sul-americana em doze universidades americanas, numa "tour" que incluiu distinctas zonas universitárias: a do Oeste, a do Centro e a do Leste. Ás conferencias então proferidas pelo nosso patricio chamou o Dr. E. Zeballos "reinvidicação continental". A Universidade de Standford reuniu-as em livro, prefaciando-as o erudito Professor Martin.

Em 1914, em Londres, foi o Dr. Oliveira Lima, juntamente com a poetisa hindú Sarojini Naidu e a escriptora hungara Ilora de Gyoy Ginever, convidado de honra num banquete de gala da "Royal Society of Literature". Foi-lhe dado e ensejo de falar e em curto porém primoroso discurso mostrou o Dr. Oliveira Lima a influencia da litteratura inglesa sobre a brazileira.

Em 1918 visitou o eminente homem de lettras a Argentina, recebendo então da parte dos argentinos a hospitalidade mais carinhosa e as distincções mais altas de que ainda foi alvo naquella republica um brazileiro. E brazileiro sem coches faustosos nem papagaios nem loiça da India...

Devem os estudantes brazileiros em particular, e os latino-americanos, em geral, ter orgulho desse "embaixador intellectual" em cuja obra vibra não só o amor sincero pelo Brazil porém a nota viva de um largo patriotismo continental, tambem. E é opportuno salientar, nesta revista, que o Dr. Oliveira Lima é grande amigo dos estudantes, tendo sido o presidente de honra do Congresso de Estudantes reunido em Pernambuco em 1917. Para "El Estudiante" mesmo já teve o grande brazileiro uma palavra de sympathia. "Mande-me sempre ‘El Estudiante’, escrevia-nos elle recentemente. "Não sabia que havia tantos estudantes latino-americanos nos Estados Unidos. 4000! Serão uma grande força de união no futuro. Sua revista poderá ser muito util, approximando-os entre si, não os distanciando ao mesmo tempo dos Estados Unidos".



Fonte: FREYRE, Gilberto. Embaixador intelectual do Brasil. Revista El Estudiente Latino-Americano. New York, v. 3, n. 7, p. 25-26, 1921.

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