O FATOR RACIAL NA POLÍTICA CONTEMPORÂNEA
Não se tem de aceitar a fórmula francesa,
tornada famosa por Charles Maurras - Politique d'abord! - como expressão suprema
ou absoluta em Sociologia da Política, para reconhecer-se a importância do comportamento
político no mundo em que agora vivemos. É um mundo no qual a política está
desempenhando papel extremamente importante e, em alguns assuntos, realmente decisivo.
Muito se diz ainda sobre a importância da
economia tanto no mundo contemporâneo ocidental quanto no não-ocidental; e ninguém nega
a importância desse fator. Nem a religião deixou de ser força considerável entre os
homens contemporâneos por terem a ciência e a tecnologia atingido tão imenso poder
entre eles. Todas essas forças atuam, no momento atual, como fatores de influência nas
várias culturas nacionais a regionais, que estejam em diferentes estágios de
desenvolvimento. Cada força está em relação particular ou específica para cada um
desses estágios de desenvolvimento cultural ou de situação social ou regional.
Há, porém, um aspecto desses
desenvolvimentos, comum a todos eles: a direção política, ou o estilo ou a forma de
direção política, que está sendo dada não apenas a cada desenvolvimento nacional ou
regional, mas à sua crescente interdependência. Com relação a esse ponto, é difícil
para o sociólogo ou para o antropólogo social, não concordar que, numa cultura, em
particular, nacional, ou nas relações internacionais, em geral, possa ser esse estilo,
de algum modo, mais importante do que o conteúdo. Ou que a substância. Como diz, desse
estilo, moderno cientista político, ele "racionaliza um ânimo"; a esse ânimo
pode ser - e realmente está sendo em considerável número de casos contemporâneos - um
ânimo de "vingança".
Naturalmente essa racionalização pode ser,
em alguns desses casos, mais aparente do que real - a irracionalidade do conteúdo sendo
demasiadamente poderosa para ser facilmente dominada por qualquer tipo de racionalização
formal; mas se ela funciona como racionalização - pois mesmo uma racionalização pode
tornar-se, paradoxalmente, um mito - para a maioria dos povos que ela afeta, pode ser
aceita como sociologicamente efetiva. Para o sociólogo, como sabemos, os mitos podem ser,
em alguns casos, realidades: realidades sociológicas condicionadas por tempo específico;
e válidas em espaços específicos.
A raça tem sido, no passado, e continua a ser
- sem dúvida o é intensamente no momento atual - importante fator em política. Isto
não apenas por causa de sua importância como conteúdo social, mas por causa, também, e
em alguns casos, principalmente, do que nessa palavra, semanticamente vaga, contém de
sugestões ou implicações emocionais, psicológicas, econômicas, religiosas. Tais
implicações podem ser usadas e abusadas no que um perspicaz analista da natureza humana
projetada na política, o Professor James C. Davies, descreve como "as relações
estatísticas mais íntimas entre os governantes e o público". Tal não sucede
apenas com as "relações estatísticas" mais amplas, de caráter político, com
conteúdos sociais ou culturais gerais: parece ser verdade, também, daquelas relações,
do mesmo caráter, entre os governantes de um grupo nacional ou regional e outros grupos,
nacionais ou regionais. Nesse campo, pode servir e realmente tem servido de lógica não
apenas para promoção, dominação, competição, para propósitos nacionais ou
nacionalísticos, porém, como tem sido já sugerido, para vingança: aspecto dramático
do papel que a raça está desempenhando na política contemporânea.
Raça e vingança tornaram-se estritamente
associadas no política contemporânea. O mais notável exemplo dessa associação foi o
racismo dos governantes nazistas da Alemanha. Este foi um racismo que se tornou genocida
com relação aos judeus mas que incluía ainda eslavos e se dirigia, também, através da
retórica nem sempre puramente demagógica de Hitler, contra o que ele descreveu certa vez
como os "mestiços corruptos" da América Latina. Foi um racismo que chegou ao
ponto de tentar promover a glorificação de uma mítica "raça" superior
branca, ariana, nórdica, e condenar, como incapazes de autogoverno, grupos étnicos
não-arianos, incluindo nesses grupos incapazes, aqueles que se diz ter Hitler descrito
como governados por mestiços corruptos.
Exemplos mais recentes da associação de
raça a vingança são aqueles que nos vêm dos grupos étnicos do Ásia e África e
também dos Estados Unidos. Para estes um novo status político - aquele de estados
nacionais - em alguns casos, e a luta pela total cidadania, ou por separatismo, de grupo
étnico, em outros casos - está lhes dando oportunidade para a expressão de vingança
contra a tutelagem racial do passado e a antiga subordinação a grupos brancos. Essa
expressão é, se não sempre um comportamento político, um comportamento em parte
político. Em parte, porém, é não-político: sócio-psicológico mais do que político;
e, como tal, expressão, em alguns casos, do uma ansiedade, um medo, uma frustração, uma
insegurança tão crua, que muito pouco estilo de comportamento político o caracteriza; e
também muito pouca racionalização em plano político.
Esse tipo de comportamento não esteve
inteiramente ausente da Revolução Mexicana de 1910: de sua primeira explosão como
movimento não apenas político mas sociocultural e econômico - embora seu aspecto
político não deva ser desprezado. Foi a Revolução Mexicana um movimento no qual a
raça não se pode dizer ter sido fator insignificante: nem o ânimo de vingança,
condicionada ou estimulada pela presença desse fator, aspecto desprezível. Essa
Revolução - a Mexicana - ainda continua: apenas ela está deixando de ser mexicana e se
tornando peruana e boliviana.
O aprismo vem sendo a racionalização da
Revolução Mexicana num plano sociológico-político mais amplo: indolatinoamericano.
Deve ser ressaltado que a vingança de raça,
nessas revoluções indolatinoamericanas, quando associada com cultura, precisa de ser
interpretada como tendo significado, e significando ainda, protesto contra a ausência da
maioria dos nativos - dos mexicanos indígenas e agora, talvez, de um modo mais trágico,
de peruanos e bolivianos também indígenas, das vantagens de mudança tecnológica. Essa
ausência tem colocado, e ainda coloca, grande parte da população indígena do México,
do Peru e da Bolívia numa situação de não-participantes ou de participantes muito
secundários, não apenas do controle político dos negócios mexicanos ou peruanos ou
bolivianos por mexicanos ou peruanos ou bolivianos mas do desenvolvimento daquelas
sociedades como Estados nacionais modernos e civilizações modernas em regiões
não-européias. Daí serem, como estados nacionais, em grande parte, fictícios, como
cópias de modelos europeus ou anglo-americanos.
Uma dos razões pare a desmoralização dessa
"europeidade" fictícia ou aparente é um desenvolvimento biológico, em anos
recentes, afetando aquela parte do mundo, bem como outras populações não-brancas, de
conseqüências sociológicas que estão começando a alcançar expressão quase
política, de considerável importância no futuro humano: refiro-me à sensacional
expansão de população que está ocorrendo nos países latino-americanos de origem
não-européia, e, em alguns casos, de cultura não-européia, como sua cultura
predominante, força quantitativa e mesmo qualitativa tal, em países que não atraem mais
imigrantes europeus em grandes números, que se pode falar, agora, de um começo de
considerável deseuropeização, em certos aspectos sociais e culturais, da América
Latina, bem como de um começo de desarianização, em termos raciais, de sua população.
Realmente, pode-se falar de uma "preamar de cor" - pare usar expressão bem
conhecida - na população latinoamericana. O mesmo parece estar ocorrendo em outras
partes não-européias e agora quase inteiramente não-brancas do mundo, onde ocorreu,
durante o século XIX, através de imigração de europeus a dominação européia, forte
aumento de europeus e de brancos, como etnia, e de seus valores como cultura. O futuro se
anuncia o oposto desse passado ainda recente.
Dos latinoamericanos - artistas, escritores,
antropólogos, sociólogos, economistas, educadores, líderes religiosos, arquitetos,
agrônomos - muitos estão, agora, tornando-se crescente extra-europeus, em seus esforços
criadores, em suas análises e interpretações de suas situações naturais e humanas, em
sua expressão do que seja não-europeu em sua experiência, e em suas aspirações e
projetos para o futuro, embora sem repudiar, em numerosos casos, valores e técnicas
européias ou angloamericanas. Alguns desses valores e técnicas já foram assimilados
pelos seus antepassados ou são - pensam eles - de evidente vantagem para seu
desenvolvimento presente ou para seu futuro. Nessa atitude, raça - a consciência, da
parte de numerosos latinoamericanos, de serem descendentes de raça não-européias - não
mais está sendo sentida por eles como uma humilhação mas sendo aceita como vantagem, à
base psicológica, ou ideológica ou, talvez, em alguns casos, retórica, de que os
latinoamericanos podem estar criando o que o sociólogo mexicano, José Vasconcelos,
considerou, com excessiva ênfase "raça cósmica"; ou para o que um outro
latinoamericano, igualmente entusiasta da mistura racial, descreve, em ensaio recente,
como a "verdadeira raça sintética do futuro". Essa racionalização ou
idealização de mistura racial envolve uma concepção do desenvolvimento da América
Latina como comunidade multi-racial, continental, na qual a tendência seria para as
várias raças viverem, não vidas étnicas e culturais separadas, mas unidas. Unidos os
seus valores, e as suas tradições mais características, bem como misturados seus
sangues, para a formação de novos tipos de homens e de novas formas de cultura no mais
amplo sentido sociológico, ou antropológico de cultura.
Se essa tendência está se tornando tão
significante sob a forma de tendência - apenas sob a forma de tendência - como alguns
analistas da situação racial e cultural da América Latina pensam que está se tornando,
então não é difícil compreender por que, no Brasil, o uso da palavra moreno,
agora muito flexível ou elástico, está se tornando um dos mais expressivos
acontecimentos semântico-sociológicos que já caracterizaram o desenvolvimento do
América Portuguesa como sociedade cuja composição multi-racial está, de modo
crescente, se constituindo no que um inventor de novas palavras poderia, com algum arrojo,
descrever como metarracial. Isto é, uma sociedade onde em vez da preocupação
sociológica com caracterizações minuciosas de tipos raciais ou de nuances
intermediários, entre asses tipos, - entre branco e preto, branco e vermelho, branco e
amarelo - começa a ser para aqueles membros do sociedade ou comunidade brasileira, não
absolutamente brancos, nem absolutamente de pele vermelha nem absolutamente amarelos, para
serem descritos, e eles próprios se considerarem sem outra discriminação de cor, como
"morenos". Essa palavra foi originalmente usada, na língua portuguesa, para
descrever homens e mulheres de compleição mourisca e, depois, especialmente aplicada a
morenos brancos em contrastes com louros ou ruivos. A mesma palavra, todavia, está tendo
agora um uso sociologicamente flexível ou biologicamente elástico - tão elástico que
mesmo negros retintamente pretos começam agora a ser descritos, no Brasil, como morenos,
não tanto porque a palavra negro ou a palavra mulato sejam palavras que,
para os brasileiros típicos ou castiços, soem como caracterizações puramente raciais,
como soam aos ouvidos dos europeus - especialmente dos anglo-saxões - mas porque a
palavra negro, aos ouvidos dos brasileiros, e mesmo a palavra mulato, ainda soam,
em numerosos casos, como equivalente de escravo: uma sobrevivência verbal daquele
passado, não tão remoto, quando se dizia que um proprietário de escravos no Brasil
possuía, não tantos escravos, mas tantos negros ou tantos pretos ou tantos cabras: mesmo
quando os escravos eram de uma cor mais clara do que a dos seus proprietários. O fato,
todavia, é que a palavra negro está começando a significar para numerosos
latinoamericanos algo que tem pouco a ver com escravidão: uma raça e uma cultura mais
antiga do que a América espanhola ou a portuguesa. Isto pode ser, em parte, o resultado
do que está ocorrendo na África negra: não no ex-Congo Belga, naturalmente, mas em
áreas tais como a Nigéria e o Senegal, onde os negros já revelam capacidade para
autogoverno, para originalidade nacional. Parece a alguns de nós que é tendência
saudável, essa, da parte de novas elites da África, da Ásia e da América
Latina, a de seguirem, e estimularem entre as populações sob sua influência, ou
liderança, o que os franceses chamam "un retour aux sources".
Esse "retour aux sources" pode
envolver orgulho racial exagerado da parte de povos que foram, por séculos, oprimidos -
ou se consideravam oprimidos pelos brancos e pelo seu etnocentrismo igualmente exagerado e
em alguns casos, brutalmente imperial. Porém dos novos líderes políticos, que se animam
a conduzir novas nações, ou quase nações, para novos caminhos de desenvolvimento
nacional e expressão nacional, alguns poderão agir de tal modo que lhes será possível
harmonizar extremos, usando o orgulho racial, ou cultural-racial, apenas na medida em que
posse estimular criatividade cultural ou originalidade política. Semelhante proceder se
baseava não apenas em "retour aux sources" mas no uso inteligente de modelos,
técnicas e métodos estrangeiros, brancos e amarelos, comunistas e capitalistas -
adaptados às necessidades e aspirações destas novas nações ou quase nações.
Nessa tarefa os líderes políticos
necessitarão da ajuda de cientistas sociais, de educadores, de humanistas, de líderes
religiosos. Tem de ser, predominantemente, uma tarefa de arte política, na qual o orgulho
racial-cultural poderá ser usado, mas não deve ser abusado. Ninguém, com um mínimo de
objetividade sociológica, deve negar a povos que, por séculos, foram feridos em seu
orgulho racial por um esforço sistemático, da parte de alguns de seus opressores, ou de
destruição ou de desmoralização de alguns dos mais íntimos valores culturais
associados com pretensas raças inferiores, a reação que agora se verifica contra
possíveis sobrevivências oblíquas de tais tipos de opressão. Reação através, por
vezes, de formas extremas de expressarem esses povos sua consciência racial à de valores
ou estilos culturais.
Gradualmente, todavia, esses mesmos povos
precisarão de ser conduzidos por líderes menos demagógicos que vários dos atuais
líderes mais objetivos que façam os seus liderados ver as coisas como realmente elas
são. Seus líderes políticos poderiam, mesmo agora, estar orientando sua ação
política de modo a minimizar a importância que tem sido recentemente dada, a ainda está
sendo dada, ao fator puramente racial; e a magnificar a importância que deve, de modo
crescente, ser dado ao fator propriamente cultural.
A raça estará, então - raça, não
no seu sentido justo mas como aquela super-realidade exaltada de modo mítico e místico
pelos nazistas como a força física e mental com específica missão política e cultural
- tomando o lugar de classe, como fator na política contemporânea? Possivelmente, em
não pequeno número de casos, sim. Por alguns líderes do Oriente, certamente, numa
evidente distorção do Comunismo e de tradicional pelo Comunismo do Proletariado,
qualquer que seja a raça do Proletário, como o grande gigante oprimido a ser redimido.
Isto também está sendo feito por alguns líderes políticos de alguns povos
não-Orientais e mesmo por uns tantos povos brancos.
Por outro lado, a automação está reduzindo
tão rigorosamente, mesmo em algumas áreas não-européias, o tempo de trabalho normal,
entre os homens, que uma "Classe Trabalhadora", como tal, um Proletariado, como
foi glorificado até recentemente por oradores socialistas revolucionários, parece ser
cada vez menos uma realidade sociológica com específico significado dinamicamente
político. Enquanto a Praça, seja ela mito biológico ou não, até onde sua expressão
mental ou cultural se refira, está se tornando proeminente, na política nacional ou
internacional, como força atuantemente psicológica: e como tal, assimilando algum do
poder até recentemente ligado quase inteiramente à "Classe Trabalhadora"
revolucionária. Pode ser mesmo sugerido, como veremos adiante, que dos novos líderes
políticos na Ásia, África, América, alguns demonstrem, atualmente certa tendência,
não para pôr a Raça a serviço de uma ideologia de Classe rígida, com ênfase total
numa guerra de Classes, mas para por uma ideologia de Classe a serviço de uma mística
racial revolucionária, da parte de homens ou de grupos cujo principal interesse seja
lutar pela oportunidade de nações com populações pretas ou amarelas, ou
predominantemente de cor, desenvolverem "seus próprios sistemas econômicos e
políticos, inspiradas, em grande parte, em tradições racial-culturais e mitos, embora
super-racial na maioria de suas técnicas.
O aspecto moderno mais dramático na
política, nacional ou internacional, não é mais aquele de uma Burguesia que se
considerasse sob a ameaça de um Proletariado em revolta violenta contra ela, Burguesia,
como classe predominante ou privilegiada, mas aquele do mundo do Homem branco, agora em
posição defensiva, mais do que agressiva, em face de povos não-brancos. Pois é um
mundo, aquele do Homem branco, que se considera sob a ameaça de vasta revolta
multi-racial da parte de povos não-brancos. É através de uma tal revolta multi-racial
que populações nativas, em áreas não-européias, estão se erguendo, política e
subpoliticamente, contra o que essas populações - amarelas, pardas, pretas, mistas
-consideram ser, e terem sido, por anos, e mesmo por séculos, não apenas predominância
exagerada, mas exploração brutal, pelo Homem branco, de seus recursos, de sua energia,
de seu trabalho e, em algumas áreas, opressão sistemática e destruição até metódica
daqueles valores culturais mais ligados a suas situações ou condições raciais
não-européias ou não-brancas.
Logo após a Segunda Grande Guerra, o
Professor Herbert von Beckerath escreveu, em admirável ensaio sobre as possíveis novas
relações da civilização branca com novas situações em áreas não-ocidentais ou
não-européias: "O caminho do mundo do Homem branco de 1914 e mesmo da década de 30
está fechado". Ele expressava, então, seu ponto de vista de que a nova
"civilização poderia ser vital e poderia ser permanente apenas assumindo diferentes
cores nacionais" - e por implicação, ainda raciais e culturais - desde que
"não podemos suprimir as cores a manter o espectro".
O fato é que nas últimas duas décadas, as
cores nacionais têm se tornado, em considerável número de casos, cores raciais. O mundo
já não é um mundo do Homem branco com uma civilização branco imperial em face de
povos mais ou menos coloniais, porém, de modo crescente, toda uma combinação política,
mais ou menos pacífica, mais ou menos bem ajustada, de estados nacionais, alguns antigos,
alguns jovens, que são também caracterizados por suas situações raciais e pela sua
consciência, sobretudo da parte da maioria das populações destes estados nacionais
novos, de sua raça ou de sua cultura associada com sua raça. Mais, talvez, para suas
situações raciais ou culturais, do que para sua condição nacional, formal ou meramente
política.
Se é assim que o mundo tem se desenvolvido
nas últimas duas décadas, com um declínio, na segunda metade do século XX, do processo
de sua internacionalização - processo superado por outros desenvolvimentos, mesmo com a
mística poderosa e supernacional do Proletariado da teoria marxista ultrapassada pela
mística das raças a serem redimidas, através de soluções nacionais ou estreitamente
nacionalistas - é fácil compreender porque Raça, com R maiúsculo, tem tomado
largamente o lugar de Classe, com C grande, como força politicamente dinâmica e, em
alguns casos, revolucionária. A diferenciação estreitamente nacional, por um lado, e
seu contrário, isto é a unificação super-nacional, de grupos humanos, à medida que
esses grupos não atravessem fase de transição difícil de um status colonial
para um nacional, por outro lado, ambos vêm tomando a redenção racial e a guerra
racial, mais do que a guerra de classe, como sua principal motivação e como seu
principal instrumento de ação ou de luta.
Pois Raça, nestas últimas duas décadas, tem
agido de ambos os modos: contribuindo para a diferenciação - separando rigorosamente
não-europeus não só de europeus como entre si - e contribuindo para a unificação, do
grupos raciais afins, através de movimentos como o Pan-asianismo, o Pan-africanismo, isto
é, Pan-africanismo negro a Panlatino-americanismo. Este - o Panlatino-americanismo - é
movimento baseado na tradição de relação ibérica com ameríndios que, racialmente,
resultaria num tipo racial híbrido indolatinoamericano e, naturalmente, numa cultura
híbrida, indolatinoamericana, associada com esse tipo racial, com a cultura podendo ser
mais compreensiva do que o tipo racial híbrido. O Panlatino-americano, quando
indo-americano, vem tendo, porém, um tipo racial híbrido como seu símbolo, com
considerável tendência para glorificação do elemento índio, ou ameríndio, da
composição euroamericana. Glorificação por vezes mais retórica do que efetiva.
Há no mundo moderno crescente desenvolvimento
de um tipo mestiço, sob diferentes expressões ou nuances e através de um número já
considerável de culturas também mestiças que torna a simples divisão étnica, cultural
ou política do mundo, entre brancos e pretos, amarelos ou vermelhos, puros, divisão
inadequada. Mesmo alguns campeões de certos movimentos racistas em favor de uma raça
preta pura ou de uma cultura negroamericana pura, são mestiços. Mestiços são alguns
dos mais capazes líderes de algumas das novas nações. Pode-se sugerir mesmo que os
mestiços estão, talvez, se tornando a força decisiva, política e cultural, em parte
considerável do mundo; e que os gostos estéticos humanos com relação à forma humana
e, particularmente, à beleza feminina, estão sendo grandemente afetados pela crescente
mistura racial que está se processando não apenas em grandes áreas continentais como é
a do Brasil, mas, também, em várias outras. Esse processo está produzindo combinações
de forma e de cor, às quais não mais se está dando ênfase nos seus possíveis efeitos,
em alguns casos, cacogênicos e negativos, mas aos seus efeitos às vezes
impressionantemente eugênicos; e, daí, fisicamente estéticos e positivos. Sou dos que
pensam que esse aspecto estático não deve ser subestimado: sua crescente valorização
entre diferentes grupos étnicos e diferentes culturas e até por parte de povos dos
chamados etnicamente puros, pode contribuir grandemente para dar nova dimensão aos
processos de interpenetração cultural e de mistura racial em áreas do mundo onde esse
processo tem sido lento ou quase ineficaz.
Como disse recentemente (1963), eminente
americano branco dos Estados Unidos, o bem conhecido sociólogo Professor Everett C.
Hughes, em mensagem presidencial à Associação Sociológica Americana, a maioria dos
americanos dos Estados Unidos "apparently go about tacitly accepting the cliché
that whites and Negroes don't want to marry each other and that white women are never
attracted sexually by Negro men, without considering the circumstances in which it would
no longer be true (if it is indeed true now)". E acrescenta, a esse respeito, que
certos novelistas, - referindo-se a novelistas americanos dos Estados Unidos - já
trataram deste tema "not merely frankly, but with penetration and some sense of the
aesthetics of it". O "aesthetics of it" parece a alguns de nós de
crescente importância, desde que o último argumento poderoso contra a mistura racial,
agora que as teorias da inferioridade mental dos não-brancos em relação com os brancos,
perdeu muito do seu prestígio, era o suposto aspecto cacogênico e repulsivamente
híbrido e do maioria dos mestiços.
Esse argumento está, também, perdendo
rapidamente seu prestígio e observa-se, no momento, atual decidida tendência dos
criadores de modas femininas de Paris e de Roma e, mesmo, da Alemanha, para
reinterpretarem as características raciais das mulheres não-brancas, como traços
esteticamente positivos, além de eugênicos, nos quais eles se estão inspirando para
modas de vestidos, penteados e joalheria a serem adaptados ao próprio mundo branco. Essa
adaptação, todavia, está se tornando possível, em grande parte, por tipos mestiços
que estão se tornando, no plano estético, uma espécie de mediadores plásticos entre os
extremos. E o que está ocorrendo no plano estético está ocorrendo, de algum modo, no
plano político. Num número de áreas onde novos estados nacionais estão se
desenvolvendo, novas formas políticas - formas políticas mestiças - estão sendo
encontradas. Não se trata, por um lado, de retorno passivo a sistemas - se podemos
considerá-los sistemas - de governo, tribais, não-brancos e rudes, e nem, por outro
lado, de imitações passivas, pelos não-brancos, de modelos puramente europeus ou
puramente anglo-americanos. E sim de combinações capazes de atender a situações que
sendo pós-tribais não devem ser subeuropéias.
O mesmo é certo de interrelações de grupos
distintos da raça branca. Que sirva de exemplo a atual revolta de considerável número
de franco-canadenses contra canadenses anglo-saxões. Alguns desses franco-canadenses se
consideram, politicamente, o único povo branco colonizado do mundo, e, mais do que isso,
um dos poucos povos colonizados, branco ou de cor. Não poucos deles, muito
caracteristicamente, vão tão longe, de acordo com o escritor canadense, Mr. Mordecai
Richler (Encounter, dezembro, 1964), ao ponto de se identificarem com africanos
ressurgentes da África e com os negros americanos - especialmente, talvez, com os
pretensos "muçulmanos" dos Estados Unidos - e a se verem como "negros
brancos do Canadá". Tal atitude parece indicar que, atualmente, em movimentos
políticos com aspecto racial, alguns brancos estão imitando os negros, enquanto alguns
negros estão imitando as brancos com relação a formas demagógicas de controle
político ou de oposição política. Mr. Richler nos informa ter ouvido de certo
intelectual franco-canadense, aparentemente do movimento político separatista: "Foi
quando eu vi pela primeira vez na TV todos aqueles africanos, com seus trajos flamejantes,
nas Nações Unidas que pensei: por que não nós também?". "Negros
brancos" ou "'brancos negros", de outras áreas do mundo, poderiam, de modo
semelhante, vestir-se e agir servindo-se de estilos não-europeus de trajo, para se
expressarem politicamente através desses trajos, de gestos e de atos correspondentes aos
mesmos. Não seria idéia inteiramente extravagante se os delegados das nações
latinoamericanas, brancos, mestiços, ameríndios ou negróides, na Organização das
Nações Unidas, seguissem, neste particular, alguns dos africanos ou asianos. Eles
contribuiriam, assim, com seus ponchos coloridos, para dar aspecto mais pitoresco às
assembléias gerais daquela Organização, bem como para atribuir significado político à
sua presença lá, que seria uma espécie de demonstração de sua independência, num
assunto tão importante como o trajo, de padrões europeus ou angloamericanos, por um
lado, e convenções de raça como expressão física, por outro lado. Pois o
"poncho" não é símbolo racial mas cultural.
Alguns franco-canadenses separatistas estão
insistindo agora, à base de uma mística racial semelhante àquela agora encontrada entre
africanos de novas nações negras, em formar um Estado nacional para si, no qual se daria
grande ênfase romântica - ou pseudo-romântica - a valores populares, poéticos,
tradicionais franceses; e também, a uma assimilação realista de modernas técnicas
industriais e urbanas de origem anglo-saxônica. O fato parece ser que os
franco-canadenses já são, sociologicamente, uma cultura dinamicamente mestiça, como os
próprios negros dos Estados Unidos e alguns dos negros politicamente conscientes da
África e da Ásia são já expressões de culturas mestiças. Todas essas culturas
mestiças têm, também, como alguns de seus portadores, considerável número de
mestiços biológicos: num caso, de latinos e anglo-saxões, em outros casos, de
anglo-saxões e africanos ou de europeus e africanos ou de europeus e asianos e de
europeus e ameríndios.
Se aparecesse agora novo Marx, ele poderia se
dirigir ao crescente número de mestiços, dinamicamente culturais bem como dinamicamente
raciais, do mundo, dizendo-lhes: "Mestiços do mundo inteiro, uni-vos!". Essa
união hipotética possivelmente significaria, se ela se desenvolvesse de mera ficção
sociológica em algo mais, nova a efetiva presença anti-racista na política
internacional. Tal presença poderia, com efeito, expressar-se como corretivo vigoroso a
extremos de conflito racial na política contemporânea e como amplo substituto
sociológico para uns Pax Romana ou para uma Pax Britannica - formas clássicas de
equilíbrio internacional baseadas no domínio de uma raça única, pura ou aparentemente
pura - de qualquer modo, enfática no seu etnocentrismo - ou de um tipo singular de
civilização - também enfática quanto à sua suposta pureza ou superioridade - sobre
todas as outras raças de homens e sobre suas diferentes culturas, vistas como inferiores
por essa ou por aquela cultura imperial com pretensões a superior. Significaria
interpenetração - sociológica e biológica. E, possivelmente, resultado dessa dupla
interpenetração, longe de ser uniformidade, seria saudável combinação de diversidade
regional com unidade universal.
É a visão de uma humanidade que, através de
crescentes possibilidades para a mistura de seus mais divergentes tipos e para a
combinação de seus vários valores culturais, se erguerá acima de ódio racial e
preconceitos de casta, de cor e de cultura, visão puramente utópica de um futuro
impossível? Está a pretensa "imaginação sociológica" indo longe demais, a
esse respeito, num tipo do competição com o pretenso realismo político que insiste em
soluções de rígido desenvolvimento paralelo dos grupos étnicos dentro de sociedades
multi-raciais? Permanece a Organização das Nações Unidas dividida pela consciência de
raça, e mesmo pelos símbolos de raça, entre seus membros, contribuindo assim para um
racismo latente, ou potencial, na política contemporânea?
Como alguém que, estando de algum modo
comprometido com a política, é, principalmente, ou se considera principalmente, com
relação a tais problemas como os de raça e cultura, cientista social e, possivelmente,
também pensador social e, principalmente, escritor militante, posso estar muito, neste
particular, sob a influência da chamada "imaginação sociológica" e mesmo da
humanística. Porém minha convicção é que está dentro da responsabilidade dos
líderes contemporâneos, tanto de política nacional como de internacional, de favorecer,
tanto quanto possível, através não apenas de meios políticos, mas educacionais,
religiosos, artísticos e outros, soluções capazes de concorrerem para interpenetração
racial, bem como para a cultural. Será o corretivo às tendências, norteamericana ou
sul-africana, de segregação politicamente sistemática e legalmente ou sociologicamente
efetiva de raças e de culturas, dentro de sociedades bi ou multirraciais.
No que hoje se denomina "Retour aux
sources" há tendência, da parte de não-europeus, agora organizados politicamente
em estados-nações, ou em busca desse status, de profunda significação
política. É algo que desenvolve uma consciência racial no qual os cidadãos desses
novos Estados precisam basear suas reivindicações à efetiva nacionalidade. Os
franco-canadenses é que estão fazendo como já foi assinalado, não apenas através de
movimentos tradicionalistas - volta às origens francesas - mas através de movimento
folclórico, que dê ênfase a suas diferenças culturais, dos anglo-saxões: diferenças
culturais não inteiramente à parte de diferenças raciais, embora diferenças entre
brancos. Movimento semelhante se processa entre os judeus, agora organizados em Estado
nacional através de idealização folclórica de uma imagem atlética um tanto remota de
juventude judaica racialmente eugênica: a negação do moreno. Movimentos
semelhantes têm se processado entre os indoamericanos com relação a um passado
ameríndio romanticamente heróico cuja lembrança tem sido mantida através do folclore
mais do que através da história. Os povos da África e da Ásia estão agora ocupados em
tais movimentos, nos quais a idealização de um futuro não se apresenta inteiramente
livre do desejo, da parte de cidadãos de novos Estados, de glorificar virtudes que, sendo
culturais, são, no entanto, glorificadas como raciais.
Como ressaltam o Professor Georges Ballandier
em seu "Messianismes et Nationalismes en Afrique Noir" (Cahiers
internationaux de Sociologie, Paris, XIV, 1953) e o Professor G. M. Sundkler, em Bantu
Prophets in South Africa (Londres, 1948), em algumas dessas idealizações, nas quais
uma mística racial está associada com aspirações políticas, mesmo os símbolos
cristãos têm sido usados ou abusados em reivindicações de caráter étnico-cultural. A
crescente tendência de povos de cor não-europeus, cristianizados, para pintar e
representar em escultura Cristo, a Virgern Maria, santos, anjos, como pretos, amarelos ou
morenos, embora seja tendência saudável do ponto de vista de um Cristianismo
universalista e, portanto, pluralista, pode, no entanto, ser abusada para efeitos antes
políticos do que religiosos. Essas novas imagens de figuras sagradas podem tornar-se
símbolos raciais com propósitos antes predominantemente políticos do que religiosos.
Porém não será verdade dessas expressões políticas de racismo, mesmo através de
símbolos religiosos, serem resposta a uma apresentação estreitamente etnocêntrica e,
predominantemente burguesa e capitalista, do Cristianismo, pelos europeus e não-europeus
de cor, com propósitos raciais igualmente políticos e até sócio-econômicos, atrás
dessa distorção de uma religião universalista? Não é verdade que para a maioria dos
europeus a maioria dos povos de cor era, até recentemente, racialmente inferior, não
merecendo ser esses povos tratados como iguais porém como subordinados e inspirando,
assim, em alguns desses não-europeus de cor, atitudes, com relação a europeus,
derivadas de sentimentos e de contra-motivações de raça, que afinal explodiriam num
contra-racismo, por algum tempo defensivo e, mais recentemente, agressivo?
O "comportamento racialmente
discriminador" tendo sido, por considerável período de tempo, a política da
maioria dos europeus com relação a não-europeus, não é para ser considerado senão
humano, embora não racional ou justo, que o comportamento político da maioria dos
não-europeus, agora organizados em estados-nações, esteja sendo aumentado por exagerada
consciência de raça. Como poderia ser diferente sua reação, a não ser que, por alguma
mágica sociológica, se revelassem homens do pretenso tipo social "daltônico",
indiferentes à presença de raça como fator na política? O fato é que, por não pouco
tempo, eles e algumas gerações de seus antepassados viveram sob o impacto da dominação
política, racial e não-racial, dos europeus sobre não-europeus. Dominação política e
em alguns casos exploração econômica. Não devemos nos esquecer de que o próprio
conceito de raça, antes como símbolo político ou expressão de ideologia política, do
que termo usado pelos antropólogos físicos, é - como nos lembra o Professor Everett C.
Hughes em seu ensaio sobre "New Peoples" -"very much the creation of the
national movements of Europe in the nineteenthy century". Isto é, invenção
política européia.
Os povos que não prezam, de qualquer modo
significativo, a pureza racial, porém fazem da miscigenação quase uma política
nacional, idealizam um tipo físico nacional? Idealizam. Numerosos brasileiros, por
exemplo, idealizam o "Amarelinho" quase ao ponto de fazer dele, de modo um tanto
jocoso, não de todo solene, um herói nacional. Quem é o "Amarelinho"? É um
mestiço rural, rústico, intuitivo, porém pequeno, pálido, aparentemente o oposto do
bruto saudável, embora, de fato, forte, resistente, ágil quanto preciso - espécie de
japonês dos trópicos, pela sua glorificada capacidade de vencer, não só a fadiga, a
malária, o cansaço, como qualquer competição com gigantes brancos ou europeus ou
ianques atléticos: em lutas, em esportes e no amor físico. Pois é parte do mito
brasileiro do "Amarelinho" que o mestiço que disfarça seu vigor híbrido em
aparência débil é, de fato, um David capaz de derrotar qualquer Golias branco em
qualquer contenda: inclusive batalhas sexuais. O mito o torna o Romeu favorito das
mulheres: herói discreto, porém que, segundo a lenda, não falha.
Deve ser notado que esta idealização
brasileira do "Amarelinho" - idealização curiosa de uma quase caricatura do
mestiço - não é "retour aux sources" no plano racial não-europeu - pois isto
significaria a idealização de antepassado ameríndio ou negro. Pelo contrário: é
glorificação não da pureza racial, mas de raça mista, aparente glorificação,
através desse tipo, de um processo dinâmico: o de contínua miscigenação. É um
processo que está criando no Brasil e em outras nações, toda uma variedade de tipos
racialmente mistos, intermediários do puramente nórdico - há brasileiros que
racialmente são nórdicos - ao negro puramente preto ou ao puramente ameríndio ou ao
puramente amarelo. Pois a unidade do Brasil - que é admirável num país tão vasto -
não depende da pureza racial, como culto ou mística nacional de uniformidade real ou
idealizada. Depende antes da lealdade de brasileiros, etnicamente diversificados -
amarelinhos ou, mais amplamente "morenos", embora não faltem à população
brasileira louros e nórdicos - a certos valores essencialmente pambrasileiros que são de
importância comum a todos. Isto, e não um ideal de pureza racial, parece ser a força
decisiva no moderno desenvolvimento do Brasil: ela forma o que é socialmente democrático
nesse desenvolvimento e está começando a inspirar, no campo de atitudes internacionais,
tendência para os brasileiros serem particularmente simpáticos a outros grupos nacionais
racialmente mistos. Atitude política inspirada não pela raça mas pelo crescente
desprezo pela raça.
Cerca de 40 anos atrás, o branco
angloamericano dos Estados Unidos, Mr. Roy Nash, num dos seus mais penetrantes livros já
escritos por observador estrangeiro sobre o Brasil, antecipou-se a outros observadores ao
ressaltar que "Portuguese, Negroes and Indians, with a nineteenth century increment
of Mediterranea peoples, Central Europeans and Asiatics, have fused into a Brazil thirty
million strong". Para esse futurólogo lúcido, a visão de um povo - agora com
oitenta e cinco milhões de habitantes - que surgirá acima de ódio racial, casta e cor,
já se tornara realidade - ou começara a se tornar - no Brasil, meio século atrás. Era
fusão não reprimida nem por lei nem por costume. "More than in any other place in
the world" - acrescentava Mr. Nash -"ready-mixture of the most divergent types
of humanity is there injecting meaning into the égalité of Revolutionary France
and the human solidarity of philosophers and class conscious proletarians". Mais:
para Mr. Nash o destino edificou no Brasil "a social laboratory which shall reveal
the significance of 'race' and either confirm or give the lie for all time to the
superstition that the admixture of widely different stocks spells degeneration".
Ao tempo em que Mr. Nash - um anglo-saxão -
se expressava de modo tão enfático sobre a miscigenação no Brasil, o uso, pelos
brasileiros, da palavra "moreno", não tinha atingido a extensão e o
significado social que vem atingindo em anos recentes. Seu uso contemporâneo deixou para
apenas um número muito pequeno de esnobes brasileiros a atitude de se considerarem eles
próprios, e muitos dos seus patrícios, puramente brancos, biológica e sociologicamente,
e portadores, no Brasil, de cultura puramente européia: a atitude do Boer da África do
Sul aplicada por esses esnobes já arcaicos no Brasil.
Multirracial na composição étnica de sua
população, porém, em extensão considerável, meta-racial na sua consciência, mesmo em
seu comportamento - inclusive seu comportamento político - pode se dizer ser a atual
situação da sociedade brasileira à medida que ela está se tornando dinamicamente mais
extraeuropéia. O que não significa - repita-se - ânimo antieuropeu, ou inteiramente
ex-europeu, em sua forma geral, ou em suas formas gerais, da parte do brasileiro de hoje,
com relação ao seu ideal de ser sociedade ou civilização.
Se tal está ocorrendo no Brasil, então, seu
estilo ou sua técnica de desenvolver novo tipo de civilização, com evidentes
implicações políticas, pode oferecer umas tantas sugestões valiosas, ou
antecipações, se não para todas, para algumas das outras sociedades multirraciais que
encaram problemas de integração semelhantes àqueles que o Brasil tem encarado, e está
encarando, sem tornar-se vítima de ódio racial ou de preconceito racial em suas
expressões extremas ou violentas. Esse estilo envolve interpenetração de culturas, no
plano sociológico e, no plano biológico, miscigenação. Envolve também o repúdio a
ideologias tais como "negritude", no seu sentido político-racial mais estreito
e, ao próprio indo-americanismo, no seu sentido igualmente político-racial estreito.
Pois a tendência do brasileiro é para a suplantação ou o desprezo da
"Raça", como fator decisivo, ou poderosamente condicionante, do comportamento
político, pelo de metarraça. O que em tal implica a crescente extensão, entre a gente
brasileira, do uso do adjetivo "moreno" para qualificar quem, na população
nacional, não for branco.
Fonte: FREYRE, Gilberto. O fator racial na política contemporânea. Ciência & Trópico. Recife, v. 10, n. 1, p. 19-36, 1982.
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