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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Periódicos Científicos  



OBRA SÔBRE A HISTÓRIA DA AMÉRICA


Como já procedi com relação a dois notáveis trabalhos francêses, aparecidos recentemente em Paris, sôbre a matéria brasileira, venho trazer ao conhecimento dêste egrégio Conselho a publicação, no México, de obra monumental sôbre a história da América, da autoria do Professor Silvio Zavala do Colégio do México - "El mundo americano en la epoca colonial" - na qual a formação da sociedade e da cultura brasileira é considerada com uma inteligência, uma penetração, uma sensibilidade incomuns em obras dessa amplitude.

O autor é um historiador a quem não falta a perspectiva sociológica dos vários passados pré-nacionais e nacionais - os americanos - que apresenta e compara nessa obra de conjunto. O Professor Sílvio Zavala é um scholar, um sábio, um esclarecido e esclarecedor sociólogo da história.

Acresce que, mexicano de origem espanhola, mostra-se compreensivo do que, na formação brasileira, vem sendo singular; e não hesita em manifestar-se simpático àqueles aspectos da colonização portuguêsa do Brasil que alguns de nós, brasileiros, porventura retificando projeções, através da antiga "lenta negra" contra essa colonização e a espanhola temos apresentado, à base de evidências, e não retòricamente como antes positivos do que negativos. O historiador-sociólogo Sílvio Zavala chega a considerar válida a interpretação da formação e do ethos brasileiros que vem acentuado entre êsses aspectos positivos, os simbiòticamente lusotropicais, em vez de amesquinhá-los. Partindo de um mestre, na matéria, de renome mundial, conhecido, admirado e respeitado pelo seu saber, pela sua objetividade e pela sua inteligência crítica, pronunciamento tão simpático ao Brasil e as constantes portuguêsas do seu comportamento e da sua cultura, do modo por que aqui vem se processando interpenetrações étnicas e culturais, adaptações de valores europeus a ambientes tropicais, enriquecimento desses valores pelos ameríndeos e africanos, merece a melhor atenção brasileira.

Os atuais dirigentes brasileiros, se seguissem o exemplo do Barão do Rio Branco e o que nos vem, atualmente, do próprio México, nação que tanto valorisa os elementos positivos da sua cultura tanto os difunde no estrangeiro - não deixariam de dar relevo a pronunciamentos como este, vindo de um Sílvio Zavala, e como o recente, de historiador-sociólogo de ainda maior renome, Arnold Toynbee, favoráveis ao Brasil e aos brasileiros. Inclusive a uma ainda imperfeita mas avançada democracia racial, contra a qual se pretende agora opor uma variante de negritude.

Porque o nosso silêncio, a nossa modéstia, a nossa humildade, a nossa resignação, quando jornais estrangeiros de agora nos agridem, quase sempre, deformando os fatos e destorcendo realidades? A essas mistificações poderemos - poderíamos e deveremos ir opondo opiniões, em sentido contrário, de também estrangeiros, não anônimos ou encapuçados, mas do renome da autoridade do saber, da responsabilidade intelectual superior a composições ideológicas de um Toynbee, de um Zavala, de um Ascarelle, de um Sitwell, de um Roy Nash, de um Roger Bastide, de um John dos Passos, de um Verger, de um Pierre Monbeig, de um Jean Roche?

Não fosse demasia ou exagero eu pediria ao Presidente deste Conselho, historiador ilustre, citado aliás no notável livro do Professor Sílvio Zavala, que providenciasse para que das palavras que acabo de proferir, a eficiente Secretaria dêste Conselho enviasse resumo ao erudito mestre do Colégio do México.

(Lido na Sessão Plenária de 23 de agôsto de 1969)



Fonte: FREYRE, Gilberto. Obra sobre a história da América. Cultura. Rio de Janeiro, v. 3, n. 27, p. 19-20, set. 1969.

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