Biblioteca Virtual Gilberto Freyre - voltar à página inicial
busca       galeria       mapa do site       softwares       créditos       e-mail

Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Periódicos Científicos  



OS ÚLTIMOS TRABALHOS DE VICENTE DO RÊGO MONTEIRO


É um traço victoriosamente pessoal, o dos últimos trabalhos de Vicente do Rego Monteiro. O dos seus desenhos para o livro de F. Divoire sobre a dansa.

Na agudeza agil desses desenhos, na sua agilidade plastica, o que primeiro se sente é a victoria da ancia que sempre animou o jovem artista brasileiro: a de simplificação. É um traço espantosamente simples, o dos ultimos desenhos de Vicente de Rego Monteiro. Diz em forma telegraphica o que os traços descriptivos ou anecdoticos dizem em forma de carta ou discurso. Não descreve nem pormenoriza: suggere.

Outra victoria no traço dos ultimos trabalhos de Vicente é a da sinceridade. É injusto dizer mal da bizarria nos artistas jovens, sem primeiro procurar distinguir, á maneira dos escholasticos. Porque ás vezes a bizarria é apenas o excesso do desejo de ser sincero na expressão. Pela bizarria alguns artistas teem libertado das dobras hieraticas do classicismo a espontaneidade pessoal e o frescor de imaginação, ameaçados de morrer suffocados.

Vicente tem tido, ao meu vêr, excessos de bizarria. Mas sob a crosta desses excessos ha sempre uma sinceridade a respeitar. Dá-lhe direito sua energia creadora a similhantes excessos. Só os que passivamente copiam e repetem o acceito, o estabelecido, o officialisado - são absolutamente correctos na orthographia e na calligraphia - seja a do verbo ou seja a do desenho. Os que na pintura e no desenho não passam dos cadernos de calligraphia n.º 1 e n.º 2 - estes são os que não falham de pôr os pontos nos ii e os traços nos tt; nem sahem da linha; nem da proporção. Os creadores - quase sempre se esquecem dos pontos nos ii, e ás vezes fazem uns ee alongados que parecem uns ll; e sahem da linha. São maus calligraphos.

Do traço de Vicente vai desapparecendo a mera bizarria para "epater"; mas excessos, elle sempre os terá. Os excessos são proprios aos que fazem obra creadora e pessoal. Só irritam quando são postiços, procurando dar a ilusão do que não se tem - do que só se consegue pela sinceridade: o estylo.



Fonte: FREYRE, Gilberto. Os Últimos trabalhos de Vicente do Rêgo Monteiro. Revista do Norte. Recife, n. 2, p. 7-8, 1925.

Topo
Voltar Página inicial