OS ÚLTIMOS TRABALHOS DE VICENTE DO RÊGO MONTEIRO
É um traço victoriosamente pessoal, o dos
últimos trabalhos de Vicente do Rego Monteiro. O dos seus desenhos para o livro de F.
Divoire sobre a dansa.
Na agudeza agil desses desenhos, na sua
agilidade plastica, o que primeiro se sente é a victoria da ancia que sempre animou o
jovem artista brasileiro: a de simplificação. É um traço espantosamente simples, o dos
ultimos desenhos de Vicente de Rego Monteiro. Diz em forma telegraphica o que os traços
descriptivos ou anecdoticos dizem em forma de carta ou discurso. Não descreve nem
pormenoriza: suggere.
Outra victoria no traço dos ultimos trabalhos
de Vicente é a da sinceridade. É injusto dizer mal da bizarria nos artistas jovens, sem
primeiro procurar distinguir, á maneira dos escholasticos. Porque ás vezes a bizarria é
apenas o excesso do desejo de ser sincero na expressão. Pela bizarria alguns artistas
teem libertado das dobras hieraticas do classicismo a espontaneidade pessoal e o frescor
de imaginação, ameaçados de morrer suffocados.
Vicente tem tido, ao meu vêr, excessos de
bizarria. Mas sob a crosta desses excessos ha sempre uma sinceridade a respeitar. Dá-lhe
direito sua energia creadora a similhantes excessos. Só os que passivamente copiam e
repetem o acceito, o estabelecido, o officialisado - são absolutamente correctos na
orthographia e na calligraphia - seja a do verbo ou seja a do desenho. Os que na
pintura e no desenho não passam dos cadernos de calligraphia n.º 1 e n.º 2 - estes são
os que não falham de pôr os pontos nos ii e os traços nos tt; nem sahem da linha; nem
da proporção. Os creadores - quase sempre se esquecem dos pontos nos ii, e ás
vezes fazem uns ee alongados que parecem uns ll; e sahem da linha. São maus calligraphos.
Do traço de Vicente vai desapparecendo a mera
bizarria para "epater"; mas excessos, elle sempre os terá. Os excessos são
proprios aos que fazem obra creadora e pessoal. Só irritam quando são postiços,
procurando dar a ilusão do que não se tem - do que só se consegue pela
sinceridade: o estylo.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Os Últimos trabalhos de Vicente do Rêgo Monteiro. Revista do Norte. Recife, n. 2, p. 7-8, 1925.
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