PRONUNCIAMENTO DO CONSELHEIRO JOSUÉ MONTELLO E HOMENAGEM QUE LHE FOI PRESTADA PELO COLEGIADO
PRESIDENTE ADONIAS FILHOS - Tem a palavra, de acordo com a ordem de inscrição, o Conselheiro Josué Montello.
CONSELHEIRO JOSUÉ MONTELLO - Sr. Presidente, agradeço a V.Exa. me ter dado a palavra para que apresente a V.Exa. e ao meu querido Pedro Calmon as razões pessoais do meu afastamento desta Casa.
Devo pedir a V.Exa. que comece relatando um pequeno episódio da minha vida, que nunca revelei mas que considero bastante significativo para explicar certas condutas minhas. Em 1955, e gostaria que Chico Barbosa me ouvisse também, tive oportunidade de representar o Presidente Juscelino Kubitschek na posse do Governador Magalhães Barata, que me distinguia com a sua afeição. Ao fim dessa visita de natureza oficial, em que eu representava o Sr. Presidente da República, ele, com aquele modo muito pessoal que deixou Magalhães Barata na tradição e no folclore brasileiro, me disse: - "Professor Montello, eu gostaria de ter uma conversa com o Senhor, reservada". Respondi: - "Governador, estou às suas ordens". Ao fim do banquete que ele me ofereceu, ficamos os dois num dos salões do Palácio do Governo, e ele me fez esta comunicação: - "Quero avisá-lo que vou fazer do Senhor Deputado Federal pelo Pará, pois gostaria que o representasse". Fiquei na verdade emocionado. Afonso Arinos, Pedro Calmon. Gilberto Freyre, todos os que passaram pela representação de suas Províncias ou por uma representação brasileira sabem o que significa receber-se um mandato popular. Era um oferecimento que não estava apenas na linha da gentileza pessoal, mas um oferecimento objetivo: - "Vou fazer do Senhor Deputado Federal pelo Pará". Instantaneamente passou pelo meu espírito que, a despeito de ter eu uma parte da minha mocidade em Belém e de ter tido alguns dos meus grandes companheiros no velho curso pré-jurídico da Faculdade...
CONSELHEIRO ODYLON COSTA, FILHO - V.Exa. dá licença para um aparte? Recusou e fez muito bem, porque teria definitivamente perturbado as relações amistosas entre as duas Províncias do Maranhão e do Pará. No Maranhão, nos levantaríamos em armas!...
CONSELHEIRO JOSUÉ MONTELLO - Eu tinha pensado em termos de Arthur Cezar Ferreira Reis: restaurar o Grão-Pará - Maranhão...
Mas, Sr. Presidente, eu fiquei naquela reflexão instantânea que, a despeito de ter essas raízes paraenses, na verdade, sou constitucionalmente um maranhense, com raízes na minha terra, a despeito de ser o produto de uma imigração italiana e uma imigração portuguesa, mas profundamente enraizado no meu chão natal. Dominam no meu espírito as imagens que vêm da minha infância e juventude. Imediatamente respondi ao Governador Magalhães Barata com estas palavras: - "Sr. Governador, eu lhe fico muito grato por esta demonstração de atenção pessoal para comigo, mas se tivesse de representar algum pedaço do Brasil, eu representaria o meu torrão natal". Aí, Sr. Presidente, é que entra o Magalhães Barata genuíno: - "Professor Montello, será Deputado quem o Senhor indicar". Fiquei em silêncio e depois lhe disse: - "Não tenho ninguém para indicar". Mas, ao sair do Palácio, encontrei-me com um velho companheiro do Ginásio Pais de Carvalho, nosso contemporâneo, juntamente com o atual Senador Jarbas Passarinho, que foi Océlio Medeiros. Referi-lhe o que vinha de acontecer e ele me disse: - "Josué, por que Você não me indica?" Respondi: - "Está bem, vou indicar Você". No dia seguinte, ao vir par o aeroporto, no momento do meu embarque para o Rio de Janeiro, afastei-me um momento com o Governador Magalhães Barata e lhe disse: - "Sr. Governador, V.Exa. me colocou ontem numa posição de franquia para a indicação de um nome e eu tenho um velho companheiro, que foi meu colega aqui de ginásio, é acreano mas vinculado ao Pará, porque aqui estudou, que é o Océlio Medeiros". Ele me disse: - "Será Deputado". E ele foi Deputado pelo Estado do Pará.
Relato este episódio par que V.Exa. veja que eu não tenho, na minha vida pessoal, aqueles apegos que fazem com que as coisas transitórias eu as incorpore a mim de modo definitivo. Ora, sabe V.Exa. que hoje estamos participando da derradeira reunião, que se fez neste Conselho, daqueles elementos que partiram juntos, e alguns ficaram pelo caminho, mas os que sobreviveram ainda aqui se encontram e participam da hora heróica da formação do Conselho Federal de Cultura. Despindo-me de qualquer vaidade, recordarei a V.Exa. que este Conselho - e a esse respeito, Arthur Cezar Ferreira Reis, quando assumiu a Presidência, teve a bondade de acentuar - as bases físicas desta casa são o resultado da minha tenacidade e também a sua formulação teórica, aquilo que deveria ser o Conselho a partir de 1967, já ao fim do governo Castelo Branco, o que pude fazer graças a um Ministro que se chamou Raymundo Moniz de Aragão. Este, a quem procurei, imediatamente não só me deu o seu apoio, ele me deu também o seu entusiasmo, a sua concordância, a sua preocupação de que esse objetivo fosse conseguido, com a formação de um colegiado em defesa da cultura brasileira. V.Exa., como Diretor da Biblioteca Nacional, eu, como Diretor do Museu Histórico Nacional, sabíamos àquela hora as dificuldades que se apresentavam para todos os órgãos de cultura, pois ninguém sabia o que se passava no Brasil em termos nacionais.
Esta é a oportunidade para que eu agradeça a Pedro Calmon, a Afonso Arinos, que me ajudaram a preparar a legislação complementar do Conselho Federal de Cultura, o seu regimento, as suas primeiras portarias, as normas que deram a esta Casa a situação em que ela se encontra.
Mas era preciso que esta obra, além de ser diretamente ligada ao Ministro da Educação e Cultura, tivesse na verdade uma configuração nacional. E aí é que entra também um pouco da minha teimosa.
Peço aos meus queridos companheiros que me relevem falar hoje, porque deixar de falar o resto do ano, vou deixar de falar talvez o resto do Conselho. Tenham um pouco de paciência comigo, para que eu possa relembrar, evocar e justificar as palavras finais que vou proferir nesta Casa.
Era preciso, pois, que em cada Unidade da Federação houvesse um colegiado análogo a este, que nos permitissem um levantamento cultural na hora própria. Assim, com exceção de São Paulo e do Rio de Janeiro, tomei a iniciativa de propor a cada Governador a criação de um Conselho Estadual de Cultura. Para tanto obtive do Ministro de Estado um ato em virtude do qual as verbas do Conselho Federal de Cultura só poderiam ter destinação em âmbito regional onde houvesse um Conselho Estadual de Cultura capaz de responder às nossas indagações na ordem de informação técnica. Graças a isso, instantaneamente começaram os Conselhos a brotar pelo Brasil inteiro. Ainda no recordo do constrangimento do nosso querido Andrade Muricy, muito preocupado porque o Conselho do Paraná custava a sair, quando em determinado Município já tinha aparecido um, e essa inquietação, para mim, era comovedora e mostrava que a obra do Conselho tinha o caráter de uma explosão nacional. Essa explosão nacional ocorreu. Tive oportunidade de presidir à primeira reunião dos Conselhos Estaduais de Cultura, o que nos permitiu fazer o primeiro grande levantamento, em termos nacionais, das inquietações, dos problemas, das angústias que em cada rincão brasileiro se apresentavam no plano da cultura. Isto foi ouvido, isto foi registrado, isto faz parte das altas dos nossos trabalhos e de um número especial da revista "Cultura", que destinamos exclusivamente a recolher tais depoimentos. Mas essa obra precisava ainda ser complementada, e foi, por um ato do Presidente da República que me designou para um grupo de trabalho presidido pelo Secretário Geral do Ministério, que era então o Professor Édison Franco. Foi com a minha presença nesse grupo de trabalho que pela primeira vez se esboçou aquilo que era o meu sonho: ter, de um lado, um colegiado que fosse normativo, mas que houvesse nesta Casa um órgão coordenador, no plano executivo, das atividades culturais. Então consegui que fosse incluída no plano de reforma do Ministério a Secretaria da Cultura. Mas na primeira fase, como não foi possível ter-se esta Secretaria, concordou-se com a instituição de apenas um Departamento de Assuntos Culturais.
Nessa hora, Sr. Presidente, eu já deveria ter saído, porque havia dado conta do meu recado, mas aí se me apresentou oportunidade de ir para Paris, em condições excepcionais. Em condições que eu não solicitei, diga-se isso bem, para que não prevaleçam certos equívocos que me são profundamente desagradáveis. Fui para Paris, repito, em condições excepcionais, fui, na história de todos os adidos culturais, existentes no País, o único conselheiro, com este posto designado pelo Sr. Presidente da República, e tenho a impressão de que o exerci satisfatoriamente. Lá, procurei estabelecer um vínculo com este Conselho porque, para a propaganda do Brasil em Paris, numa época em que se concentravam os maiores ataques ao nosso País, à nossa cultura, ao nosso Governo, louvado seja Deus! contei com a presença de dois dos nossos queridos companheiros, Pedro Calmon e Arthur Cezar Ferreira Reis, quando, graças ao Conselho Federal de Cultura e por uma iniciativa minha, inauguramos as instalações que me permitiram esta coisa realmente comovedora: apareciam artistas brasileiros, grandes pianistas, grandes pintores - para estes já havia uma sala de exposições - mas não havia uma sala de projeções, não havia uma sala para concertos, e eu consegui, com os cinqüenta mil cruzeiros deste Conselho, graças às vantagens de natureza diplomática, compor uma sala de cem lugares, com um piano de cauda que comprei no Japão, e um aparelho de cinema para a projeção de filmes brasileiros, tudo isso feito com as verbas deste Conselho, inaugurado com a presença de meus queridos companheiros desta Casa. Arthur Cezar Ferreira Reis e Pedro Calmon. Acabou-se, no Brasil, com uma situação realmente aflitiva. Chegavam os nossos artistas e precisavam dar um concerto. Sabe V.Exa. que ainda tem importância para o resto do mundo aquilo que se fez em Paris. Ocorria que um grande pianista que lá aparecesse tinha de esperar quatro, cinco meses, que houvesse uma oportunidade, na ORTF, que o inseríssemos em seu programa. Mas de então por diante, graças a o Conselho Federal de Cultura, bastava que o pianista chegasse à minha sala e eu lhe dizia: - "Olha aí o calendário e veja o dia que Você quiser". Ele escolhia o dia e ia tocar o seu piano, no dia seguinte a crítica francesa se pronunciava e o problema desapareceu. Às vezes, havia casos curiosos, por exemplo, o de uma moça, que fez uma exposição de pintura e uns quatro ou cinco dias depois entrou no meu gabinete com grande alegria e me declarou: - "Professor Montello, consegui vender dois quadros", fez uma pausa e acrescentou: "em São Paulo..."A influência era aqui no Brasil, mas era importante, porque ajudava à tessitura de glórias que faz parte dos sonhos de todos os artistas.
Ora, Sr. Presidente, tudo isso foi possível realizar, de tal maneira que quando entreguei o Conselho a Arthur Cezar Ferreira Reis, já o encontrei em condições de ter autonomia, de conduzir-se e chegar às mãos de V.Exa. e continuar vitorioso.
Mas na lei do Conselho feita por mim, em companhia do meu querido amigo Hélio Scarabôtolo, nosso Embaixador na Dinamarca, há um artigo pelo qual os Conselheiros só poderiam ser reconduzidos uma só vez. Há aproximadamente mês e pouco, andei pensando com o espírito que me fez dar aquela resposta ao Governador Magalhães Barata, com a minha simplicidade, achando que, ao sair deste Conselho, continuarei presente, por causa daquela placa que ali está. Ainda agora, Miguel Reale tinha a bondade de me dizer: - "Olha, Josué, vou sentir muito a sua falta" ao que repliquei: - "Vou sentir falta de vinte e cinco..." Vê V.Exa. que o prejuízo maior é meu. Mas vou desta Casa guardando daqui as melhores recordações dos companheiros perfeitos que tive. Não me dou o cuidado de defender aquilo que tem sido um dos pontos teimosos da minha atuação aqui, que é o Maranhão, porque o Odylo aqui fica com o mesmo espírito, com o mesmo amor, com a mesma impregnação provincial que trouxemos de lá.
CONSELHEIRO ODYLO COSTA, FILHO - O Maranhão é que deveria ter feito V.Exa. seu Deputado, em vez do Governador Maranhão Barata.
E eu poderia ter sido feito, de quebra...
CONSELHEIRO JOSUÉ MONTELLO - Fica aqui, como representante do Maranhão na Assembléia da Cultura Nacional, o Deputado Odylo Costa, filho... O Maranhão estará esplendidamente representado.
Isto, na ordem pessoal.
Agora, Sr. Presidente, eu não queria que as minhas derradeiras palavras fossem estas de prestação de contas. Não. Eu queria sair daqui louvando dois companheiros, que estão concluindo a sua atuação no plano cultural e que começaram comigo. Um Manuel Diégues Júnior, que está deixando a direção do Departamento de Assuntos Culturais depois de uma grande obra. Nas várias vezes em que bati à sua porta, sempre para pedir pelos outros, ele generosamente me as abriu para que eu pudesse advogar os interesses do Maranhão, a minha província, de artistas vários, tudo isso ele tornou possível. O outro é o nosso companheiro Renato Soeiro, sucessor natural de Rodrigo Mello Franco de Andrade, que ainda vejo sentado nesta Casa, com o seu cigarro teimoso que o ia matando devagarinho. Renato Soeiro foi digno continuador dessa obra. Consegui, por seu intermédio, o tombamento de vários prédios que eu não queria que caíssem, na minha Província. Sempre falo assim porque acho que não devo me meter com a província dos outros, devo cuidar da minha. Renato Soeiro realizou uma grande obra e eu gostaria que este louvor da obra de Renato Soeiro, da obra de Manuel Diégues Júnior, este louvor aqui ficasse registrado, como o estou fazendo, com abundância de coração, com o reconhecimento de todo este Colegiado, de tal modo que as minhas palavras sejam, em primeiro lugar, de agradecimento a todos os companheiros, que na verdade foram meus confrades, no sentido de fraternidade, de irmandade, e sejam, por outro lado, o louvor que quero fazer a essas figuras a quem a cultura brasileira deve assinaladíssimos serviços.
Sr. Presidente, mais uma palavra.
Este painel da cultura que acabo de apresentar precisa ser completado apenas com uma frase relativamente ao nosso querido amigo, futuro Ministro da Educação e Cultura, Eduardo Portella, que tão esplendidamente conosco conviveu à sombra do Maranhão, como V.Exa. tão bem se recorda, Eduardo Portella, meu antigo companheiro de mais de vinte anos, meu fraterno amigo, posso assim dizer, Eduardo Portella, numa das suas primeiras manifestações, já convidado pelo novo Presidente da República para as responsabilidades de Ministro de Estado, manifestou o propósito de dar uma grande atenção à cultura. Não mais estarei neste Colegiado quando S.Exa. começar a transformar em atos essa sua proposta de quem ainda não assumiu o cargo. Mas quero que fiquem, no Conselho Federal da Cultura, à espera dele, quase que de escabeche, os meus aplausos a tudo aquilo que for feito em favor da cultura, como se eu estivesse neste lugar aplaudindo, primeiro, as palavras do seu propósito, e em segundo, as realizações com as quais vai continuar o mesmo espírito que fez com que nos congregássemos há treze anos.
CONSELHEIRO MANUEL DIÉGUES JÚNIOR - Sr. Presidente, em primeiro lugar, não poderia deixar de mencionar o meu reconhecimento às palavras mais que amigas e, sobretudo, generosas com que Josué Montello acaba de referir-se à minha passagem pelo Departamento de Assuntos Culturais. Na realidade, o que realizamos nestes cinco anos e consta de relatório que está em preparo, a ser distribuído dentro de poucos dias, não foi senão o produto de um trabalho de equipe dos Diretores dos diversos órgãos ligados ao DAC, inclusive o IPHAN, cujas atividades procuramos estimular e tanto quanto possível incrementar, e bem assim os demais órgão, como o Instituto Joaquim Nabuco, que está hoje nos trazendo algumas de suas publicações, a FUNARTE, que foi criada justamente neste período, com o Ministro Ney Braga, e está hoje nos apresentando mais uma publicação, resultado de sua eficiente atuação, que é o livro sobre "O Artesanato Brasileiro", e outras referências teria que fazer, mas espero que os meus companheiros leiam futuramente o relatório referido, pois não teria eu condições pessoais de falar no momento a respeito do assunto. Queria em particular assinalar a distribuição hoje ao Conselho do livro "O Artesanato Brasileiro", produto do trabalho que a FUNARTE vem realizando, criada no governo Geisel, sob à inspiração do Ministro Ney Braga, e que encontrou todos os elementos capazes de desenvolver a sua atuação, de realizar o que realmente está realizando em benefício da cultura brasileira no que se refere às artes. Este livro sobre o artesanato, que todos os companheiros estão recebendo, está presente a cada um deles, constitui justamente uma demonstração deste trabalho e nada melhor o testemunho que é a introdução, de autoria do nosso companheiro Clarival do Prado Valladares, cuja competência, cuja inteligência e cuja cultura têm sido sempre postas ao serviço das nossas atividades, quando reclamamos a sua colaboração. O livro "O Artesanato Brasileiro" é possivelmente o primeiro que reúne numa só publicação um conjunto de elementos sobre as diversas manifestações do artesanato no Brasil. É uma publicação que enriquece, não direi apenas a bibliografia brasileira, o que seria já muito, porque enriquece muito mas ainda o conhecimento das diferentes atividades artesanais em nosso País.
De outra parte, Sr. Presidente, eu tinha pedido para falar em Assuntos Gerais justamente para a minha despedida como Diretor do Departamento de Assuntos Culturais. Entretanto, o nosso companheiro Josué Montello provocou o assunto e aproveito a oportunidade para referir-me a esta circunstância. Esta é a última reunião a que compareço como Diretor do Departamento de Assuntos Culturais; voltarei à minha posição de membro deste Conselho, com um mandato ainda, se não me falha a memória, de dois anos, para cuja indicação muito concorreu sem dúvida a própria escolha de Josué Montello quando organizou a primeira equipe que constituiu o Conselho Federal de Cultura.
Agradeço ao Conselho a cooperação constante com que, direi mesmo, me orientou no trabalho que realizamos nestes cinco anos no Departamento de Assuntos Culturais. Muito do que foi feito resultou da inspiração do que aqui aprendi, nos anos de convivência com os companheiros de Conselho. Muito do que fizemos resultou da orientação, da cooperação, do apoio e, por que não dizer, também da amizade dos companheiros do Conselho Federal de Cultura.
CONSELHEIRA RACHEL DE QUEIROZ - Quero aproveitar a oportunidade para tornar presentes os meus agradecimentos à solicitude com que V.Exa atendeu a todos os pedidos de natureza cultural ou de ordem pessoal, quando se tratava de alguém que necessitava de ajuda e apoio, dentro das atribuições de V.Exa., que sempre procedeu com atenção exemplar, quer como amigo, quer como alto funcionário.
CONSELHEIRO MANUEL DIÉGUES JÚNIOR - Muito obrigado.
Quero pois agradecer ao Conselho, embora com palavras modestas e toscas, a colaboração recebida, o apoio que me foi dado nestes cinco anos e, sobretudo, a amizade pessoal com que sempre me distinguiram como Diretor do DAC e que espero continue a existir como simples membro do Conselho Federal de Cultura.
Muito obrigado ao Conselho Federal de Cultura.
CONSELHEIRO ODYLO COSTA, FILHO - Sr. Presidente, não sei se o pronunciamento do Conselho Josué Montello foi ou não prematuro, mas ele colocou tais preliminares que essa despedida dá a impressão de que realmente se vai consumar.
Quero dizer que recuso terminantemente receber a incumbência da representação do Maranhão sozinho nesta Casa, porque na realidade ele, embora tivesse levado o seu patriotismo provinciano, o seu amor do terroir a recusar uma cadeira de Deputado Federal pelo Pará, no que, como já acentuei, fez muito bem, pois teríamos pegado em armas se tal hipótese se concretizasse e invadido o território vizinho, o que não é difícil, através do Gurupi, naquela região de castanhais, embora S.Exa. tivesse levado o seu provincianismo até esse ponto, ele sabe perfeitamente que é insubstituível. Há de fato na formação da sua personalidade de criador e de humanista um encanto que o torna irresistível. Ele é um manejador de homens, e de certa forma foi útil à política brasileira que ele não tivesse, ainda que entrando pela porta errada, aberto a porta paraense, feito seu caminho para o Parlamento, porque talvez tivéssemos tido outra evolução dos acontecimentos no Brasil e estivéssemos hoje enfrentando a sua ditadura pessoal, muito mais difícil de remover que a de qualquer sistema.
Estou dando propositalmente um tom ameno, cordial, a estas palavras para evitar emoções que seriam prejudiciais a mim e a ele, mas não posso deixar de assinalar o quanto nos toca de perto a cada um de nós, e neste sentido é unânime o sentido do Conselho, a sua manifestação de despedida.
Quanto a Manuel Diégues Júnior, que aqui continuará, quero dar um depoimento, em certo sentido mais forte que o de Rachel de Queiroz. Somos amigos há quase meio século - sei lá! - mas convivi com ele como Diretor do Departamento Cultural da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, nos dois últimos anos, e o testemunho que quero dar é o da eficiência, da vigilância, do espírito de iniciativa, do sentido criador que ele imprimiu às atividades do Departamento de Assuntos Culturais. Neste sentido, ele foi um continuador de Soeiro, com uma diferença: Soeiro não conseguiu se desligar do IPHAN, do que todos chamamos o Patrimônio e que no Brasil inteiro constitui um pavor para aqueles prefeitos ocupados em derrubar casas, como aquele famoso que dizia, num trocadilho de mau gosto, "O Dr. Rodrigo tomba por um lado, eu tombo pelo outro...", pois Rodrigo incluía no tombamento e ele derrubava a casa. Em verdade, o Patrimônio é que amedronta, porque não deixa tocar na casa, não deixa reformá-la, não deixa colocar janela nova onde havia a veneziana tradicional. Soeiro, de fato, não se podia dedicar inteiramente ao DAC porque também partilhava do Patrimônio, enquanto Diégues pôde cuidar do plano de desenvolvimento cultural do Brasil, que agora nos representa ao exame do Conselho, mais uma vez revelando as qualidades que todos conhecíamos, impregnadas sobretudo daquela bondade de trato, que também é nossa velha conhecida, no seu convívio ameno e fraterno com todos os intelectuais brasileiros.
Ontem, Sr. Presidente, ao sair daqui, encontrei um militar que também é escritor, Humberto Peregrino, que me dizia ser muito difícil aos homens que não participam da intelligentsia compreender a fraternidade existente entre nós e que faz com que, acima de todas as divergências ideológicas, no momento em que é tocado alguém que pertença a essa estranha "raça" de seres livres, todos os demais se sintam também tocados. Isso aconteceu a cada instante e já nos primeiros dias do governo de Humberto de Alencar Castelo Branco, que era um homem superior, era difícil aos que estavam no poder compreender. Lembro-me de que, nessa ocasião, eu não era ainda parente de Jorge Amado, protestei com veemência junto a alguém que estava próximo do poder, contra medida que poderia atingi-lo. Essa pessoa me dizia: - "Mas Vocês não pensam igual!" Repliquei: - "Não pensamos igual, mas respeitamos um ao outro e nos estimamos profundamente". Essa é a regra essencial da convivência na nossa fraternidade e ninguém é melhor exemplo disso - que é uma coisa à parte da teoria do brasileiro cordial, mas uma convivência de determinada raça de homens sobre os quais se podem construir nações - ninguém é melhor exemplo, Sr. Presidente e Srs. Conselheiros, do que Josué Montello.
CONSELHEIRO DEOLINDO COUTO - Sr. Presidente, não cheguei a tempo de ouvir as palavras de Josué Montello, apenas lhe ouvi os últimos períodos. Pretendo, em uma das sessões próximas, dizer alguma coisa da alta e nobre personalidade desse nosso confrade. No momento, pretendo apenas fazer duas retificações.
A primeira é a que Josué Montello não foi aqui o representante do Maranhão; foi um representante da cultura brasileira, porque não interveio apenas na defesa dos interesses culturais da sua terra, mas de todo o nosso País. É uma ratificação que deve ficar na ata dos nosso trabalhos.
A segunda retificação, esta um tanto jocosa, é em relação a Odylo Costa, filho, o qual disse que, na época em que Josué talvez fosse levado a fazer política no Pará, os maranhenses talvez entrassem no Estado para tomar uma atitude, pois lhes seria fácil atravessar o rio Gurupi. Mas S.Exa. se esqueceu de que as margens do Gurupi são povoadas de índios os mais terríveis, que são os negros urubus, altamente perigosos e não deixariam de modo algum os maranhenses invadirem o Pará.
PRESIDENTE ADONIAS FILHO - Permita o Conselheiro Deolindo Couto uma ligeira interrupção, apenas para transmitir um aparte, dado a meu lado pelo Conselheiro José Cândido de Melo Carvalho, que por modéstia ou timidez não quis fazê-lo em voz alta: diz ele que conviveu muito tempo com esses índios, que "não são de nada"... (Risos).
CONSELHEIRO DEOLINDO COUTO - São, apenas, antropófagos! Talvez prefiram praticar a sua antropofagia em populações melonodérmicas, mas em realidade são antropófagos.
CONSELHEIRO ODYLO COSTA, FILHO - Esses índios foram estudados num livro recente sob o título "Selvagens Amáveis".
CONSELHEIRO DEOLINDO COUTO - Metam-se com eles!...
CONSELHEIRO MIGUEL REALE - Sr. Presidente, Srs. Conselheiros:
Desejo manifestar e confirmar as palavras que pessoalmente disse a Josué Montello, no sentido de que a sua presença neste Conselho representou sempre uma diretriz muito segura no plano cultural e, ao mesmo tempo, um exemplo extraordinário de dedicação àquilo que esta Casa deve realizar em prol dos valores fundamentais da intelectualidade brasileira.
Manifestação do Conselho Federal de Cultura
CONSELHEIRO RAYMUNDO MONIZ DE ARAGÃO - Sr. Presidente, Srs. Conselheiros: pedi a palavra para expressar o meu pesar de hoje aqui não encontrar integrando a nossa Colegiada o amigo, o companheiro, o Acadêmico Josué Montello. Não tendo comparecido à última sessão da reunião passada, esta a razão da manifestação tardia, entretanto não menos sincera e necessária. Sei que decorreu de um ato de S.Exa., que por um julgamento inteiramente pessoal, considerou-se impedido de ser reconduzido a este Conselho, a ocorrência. Isto, se explica o fato, não diminui o meu pesar, não diminui a consciência da perda, que tenho, deste Conselho, de referência a quem o assistiu antes de que ele fosse: que contribuiu para a sua consolidação, que todo o tempo trabalhou, dando o melhor d seu esforço, para o brilho destas sessões, para a efetividade das tarefas empreendidas, para o melhor renome do Conselho, e que hoje constrói. No silêncio do seu gabinete, onde elabora as suas magistrais obras literárias, um grande contributo em favor do patrimônio cultural do País. A expressão do meu pesar limita-se, é claro, ao fato de não o ver aqui e não se estende a nenhuma conseqüência deste fato, qual seja a sua necessária e forçosa substituição. Era o que eu desejava que a ata registrasse.
CONSELHEIRO DEOLINDO COUTO - Sr. Presidente, Srs. Conselheiros: desejo apenas associar-me ao que aqui foi dito pelo Conselheiro Raymundo Moniz de Aragão de referência ao nosso ex-companheiro Josué Montello. Não era ele apenas contemporâneo da fundação deste Conselho porque o precedeu nas providências administrativas que a o tempo do Ministro Raymundo Moniz de Aragão se tomaram no governo Castelo Branco para ser constituído o Conselho Federal de Cultura, e somente deixou de aqui comparecer durante o tempo em que exerceu ação cultural em Paris. Todos estão a recordar-se de sua atuação realmente eficiente, promotor de cultura e ele próprio criador dela com a sua produção literária. Um ponto sobre o qual é necessário sempre insistir é que, embora se fale aqui sempre em representação regional no Conselho, Josué Montello não se cingia a defender os interesses culturais da sua Província, como ele gostava de chamá-lá, mas a toda a cultura brasileira. Respeito as providências, que aliás foram suscitadas por ele próprio, para se afastar desta Casa, o que entretanto não é suficiente para que eu deixe de lamentar a ausência de um companheiro que de fato fará falta ao Conselho Federal de Cultura.
CONSELHEIRO PEDRO CALMON - Sr. Presidente, Srs. Conselheiros: acompanho, a respeito do nosso querido confrade Josué Montello, as justas palavras de Raymundo Moniz de Aragão e agora de Deolindo Couto. O Conselho Federal de Cultura presta a sua homenagem àquele grande homem de letras que foi, com o Ministro Moniz de Aragão, o criador desta Casa. Devemos-lhe uma colaboração intensa, inteligente, entusiástica, pode-se dizer que cheia daquele espírito que conhecemos e festejamos em Josué Montello. Estas palavras constituem, pois, o justo reparo que fazemos da nossa tristeza de não o vermos de novo entre nós.
CONSELHEIRO ADONIAS FILHO - Sr. Presidente, quero me associar ao pesar do Conselho por não ter sido renovado o seu mandato, por exigência dele próprio, do nosso querido companheiro Josué Montello. Seria inútil tentar fazer aqui, não direi a biografia, mas uma espécie de crônica de sua participação na vida deste Conselho, que de tal maneira se acha incorporado à sua decisão, ao seu poder de vontade e realização. Com Raymundo Moniz de Aragão e Josué Montello, à luz - e não à sombra - do Presidente Castelo Branco, foi que o Conselho Federal de Cultura se tornou uma realidade. Assim estou certo que todos nós, em sentimento realmente unânime, consideramos lamentável a ausência de Josué Montello nesta Casa.
CONSELHEIRO DJACIR MENEZES - Sr. Presidente, quero apenas dizer que estou de pleno acordo e de pleno coração com todas as palavras aqui proferidas sobre Josué Montello e especialmente as referências feitas pelo Conselheiro Moniz de Aragão e, não podendo expressar mais do que já foi dito, limito-me a lastimar a ausência que é realmente lamentável.
CONSELHEIRA RACHEL DE QUEIROZ - Sr. Presidente, como decana quase que sou do Conselho, como um dos companheiros da primeira hora de Josué Montello, quero dizer que realmente é grande a tristeza por não mais vê-lo aqui. Felizmente a sua ausência desta Casa, como todos acentuaram, por iniciativa dele, não significa que se afastará das outras áreas de cultura e inteligência do País, pois ainda veremos, por muitos e muitos anos, Josué brilhando no cenário da literatura nacional, como merece.
CONSELHEIRO VIANNA MOOG - Sr. Presidente, desejo apenas subscrever as palavras de Raymundo Moniz de Aragão e dos oradores que se lhe seguiram sobre Josué Montello, a respeito de quem o mínimo que se pode dizer é que, onde ele estiver, mesmo que dêem uma sinecura, ele será capaz de estragá-la, tal a sua capacidade de trabalho e de criação que todos conhecemos.
CONSELHEIRO GERALDO BEZERRA DE MENEZES - Sr. Presidente, a eminente confreira Rachel de Queiroz falou como decana: peço licença para falar como Benjamin deste Conselho para trazer também a minha palavra de admiração, quase diria, incontida, à obra que realizou nesta Casa e realiza nas letras pátrias o nosso ex-Colega Josué Montello. Já às vozes autorizadíssimas de Moniz de Aragão, de Deolindo Couto, que apontou Josué Montello como promotor e criador de cultura, aliás justissimamente, de Pedro Calmon, de Adonias Filho, que com o peso de sua responsabilidade de Presidente que acaba de ser reeleito pelo voto unânime e consciente de todos os seus colegas, disse há pouco que o destino do Conselho está vinculado à ação construtiva de Josué Montello, o que todos nós sentimos ser uma verdade palpável, de Djacir de Menezes, de Rachel de Queiroz e de Vianna Moog, a essas vozes dos eminentes colegas com os quais faço coro, desejo apenas acrescentar que venho também prestar a minha homenagem a Josué Montello, dizendo a V.Exa. o que tenho dito ao nosso ex-companheiro: que há mais de cinco anos, a exemplo do que fazia com os artigos de Carlos de Laet, recorto os que escreve Josué Montello, depois de lidos atentamento, publicados no "Jornal do Brasil". Era a homenagem que lhe queria tributar.
CONSELHEIRO SÁBATO MAGALDI - Sr. Presidente, eu gostaria de dizer apenas que as manifestações a Josué Montello têm sido tão amplas que eu creio que se poderia fazer um pronunciamento conjunto deste Conselho como uma forma de homenagem ao nosso querido ex-companheiro, pois acredito que todos nós estimaríamos assim manifestado o nosso apreço por sua participação em todo tempo nesta Casa.
CONSELHEIRO HERBERTO SALES - Sr. Presidente, associo-me inteiramente à proposição do Conselheiro Sábato Magaldi, certo de que traduz o pensamento unânime deste Plenário em relação a Josué Montello, que teve brilhante atuação na criação e na vida do Conselho Federal de Cultura e que, embora deixando de a ele pertencer, continuará a ter, na cultura brasileira, a mesma atividade intensa e luminosa que testemunhamos nesta Casa.
CONSELHEIRO FRANCISCO DE ASSIS BARBOSA - Sr. Presidente, eu não poderia deixar de hipotecar a minha solidariedade a Josué Montello e de lamentar a sua ausência neste Conselho. Ouvimos pronunciamentos de vários dos nossos colegas, dos quais quero destacar o do nosso Presidente Adonias Filho, cujo mandamento acaba de ser ratificado na sessão de hoje, acentuando, o que Josué Montello representou para o Conselho Federal de Cultura. O depoimento de Adonias, juntamente com o de Raymundo Moniz de Aragão, dois Presidentes deste órgão, mostra muito bem o que foi a passagem de Josué Montello por esta Casa. Lembro que é muito oportuno a proposição que vem de fazer o Conselho Sábato Magaldi, pois pronunciamento deveria, a meu ver, ser de todos, para que o Conselho assim expressasse a sua homenagem conjunta a essa grande figura das letras brasileiras que é Josué Montello.
CONSELHEIRO ODYLO COSTA, FILHO - Sr. Presidente, quero dizer que, como homem avisado, eu precedi as manifestações de hoje, porque fui o primeiro a me pronunciar, na reunião passada deste Conselho, quando Josué Montello dele se despediu.
Estou inteiramente de acordo coma proposta de Sábato Magaldi, fazendo uma ressalva de natureza pessoal: embora o Conselho não tenha o caráter de órgão representativo das Províncias, a representação do Maranhão fica inteiramente sobre os meus ombros agora, se bem possa apelar para Deolindo Couto, que é um pouco maranhense, para me ajudar a carregá-la, porque efetivamente tinha Josué o senso da representatividade da nossa Província e comigo, repartir esta glória e este ônus. A ressalva, porém, não me impede de aplaudir e de me associar inteiramente à proposta de Sábato Magaldi, pois creio que num pronunciamento coletivo, e ao mesmo tempo individualizado, o Conselho deverá falar em seu todo como decisão, mas com a assinatura e a presença de cada um dos Conselheiros, o que teria para Josué Montello um sentido muito alto e transcenderia das simples manifestações de cordialidade de entidades como a nossa.
CONSELHEIRO MANUEL DIÉGUES JÚNIOR - Sr. Presidente, quero associar-me às palavras com que recordamos a presença de Josué Montello, o verdadeiro criador do Conselho Federal de Cultura, que resultou de iniciativa sua e ninguém melhor poderia ter falado como o fez Moniz de Aragão, hoje nosso companheiro e na época o Ministro de Estado que referendou o ato presidencial que instituiu o órgão ao qual pertencemos, sendo suas palavras as mais justas e as mais idôneas como consagradoras do trabalho de Josué Montello. De fato, a iniciativa foi de Josué, mas foi a ação construtiva e realizadora de Moniz de Aragão que tornou possível a instituição do Conselho. Associando-me a quanto aqui se disse, estimaria que se fizesse presente a Josué Montello a nossa homenagem e, mesmo, o nosso sentimento de gratidão, de nós intelectuais, hoje aqui reunidos, pela iniciativa que teve, em boa hora ratificada pelo Ministro Moniz de Aragão.
CONSELHEIRO JOSÉ CÂNDIDO DE MELO CARVALHO - Sr. Presidente, Srs. Conselheiros: associo-me prazerosamente à manifestação de aplauso a Josué Montello, pela sua atividade, pela sua presença e como primeiro Presidente deste Conselho. Lembro-me muito bem que, logo que se instalou nesta Casa o Conselho, eu procurei Josué Montello e Manuel Caetano Bandeira de Mello e tivemos os primeiros contactos com relação às atividades do órgão. Desse período para cá, sempre estive ciente das atividades, como Presidente e como Conselheiro, do seu valor e das suas brilhantes qualidades de intelectual. Tendo tido a honra de passar à condição de membro efetivo do Conselho justamente na vaga deixada por Josué Montello, quero registrar meu preito de admiração e respeito pela grande cultura de tão eminente brasileiro e reconhecer de público os grandes serviços que vem prestando a esta Casa e à cultura brasileira. Procurarei compensar, com esforço e dedicação, aquilo que ele tão efetivamente aqui realizou com seu brilho pessoal.
CONSELHEIRO GILBERTO FREYRE - Sr. Presidente, Srs. Conselheiros: o que estamos assistindo neste Conselho é realmente memorável: todo um conjunto de homenagens merecidas, de louvores justos, de reconhecimento profundo a quem foi, durante anos, tão construtor deste Conselho, ao qual pertenceu de modo tão brilhante e a quem este Conselho como que pertenceu.
Desejo, entretanto, trazer ao conhecimento dos meus eminentes companheiros que acabo de ser testemunha, em São Paulo, de uma outra espécie de consagração de Josué Montello, não por provectos, como os membros deste Conselho, não por figuras eminentes da cultura brasileira, mas pela mocidade paulista. Assisti comovido a esta consagração a Josué Montello, após uma lúcida sua conferência, nesse extraordinário, significativo, expressivo encontro de escritores promovido em São Paulo pelo nosso querido companheiro Sábato Magáldi. Secretário de Cultura da Prefeitura de São Paulo. Não foi um encontro convencional e transbordou, creio, dos objetivos do Diretor de Cultura da Prefeitura de São Paulo, transbordou de maneira impressionante. Do encontro participaram eminentes membros deste Conselho, como o Presidente Adonias Filho e Herberto Sales, e também tive a honra de participar dele. Foi, repito, qualquer coisa de extraordinário verse que, para a mocidade paulista, que no caso representou a mocidade brasileira, o intelectual que se realiza como intelectual, o escritor especificamente existe. A julgar pela imprensa, a mocidade estaria alheia ao intelectual e ao escritor; a julgar pela televisão, haveria uma separação entre a mocidade e o escritor; mas, na realidade, a mocidade está tão interessada no escritor, como no artista de televisão e no cantor de rádio. O que se verificou em São Paulo é uma demonstração incisiva a esse respeito. Vi ali acorrer uma verdadeira multidão de jovens, tanto que a sala da Biblioteca Mário de Andrade não pôde conter o público moço que lá estava e foi necessário instalar alto-falantes para alcançar o público que sobrava e que não era só de curiosos e sim de gente interessada em ouvir depoimentos de escritores, acompanhando de caderno na mão e tomando notas, fazendo perguntas as mais interessantes. Creio que o Secretário de Cultura da Municipalidade de São Paulo está na obrigação de dar a máxima divulgação do que foi esse acontecimento, está de parabéns, palmas para ele!
CONSELHEIRO EURICO NOGUEIRA FRANÇA - Sr. Presidente, Srs. Conselheiros: quando ingressei neste Conselho, tive a honra de ser recebido com palavras de Odylo Costa, filho e Josué Montello. Além da minha gratidão a Josué Montello, existe a minha admiração pelo homem de letras, um dos mais fecundos da atualidade no Brasil. Em poucas palavras, venho associar-me às homenagens dos ilustres oradores que me precederam e à proposta do nosso companheiro Sábato Magáldi. Muito obrigado.
CONSELHEIRO RENATO SOEIRO - Sr. Presidente, associo-me igualmente às manifestações deste Conselho pela ausência de Josué Montello, principalmente pela tristeza de não mais vê-lo nesta Casa. Estou inteiramente de acordo também com a proposição de Sábato Magáldi e Odylo Costa, filho e sobre a maneira de chegar a ele esta manifestação nossa.
CONSELHEIRO OCTAVIO DE FARIA - Sr. Presidente, venho também me solidarizar às manifestações pela ausência de Josué Montello e à proposta de Sábato Magáldi.
CONSELHEIRO DOM MARCOS BARBOSA - Sr. Presidente, o Conselheiro Gilberto Freyre referiu-se ao sucesso de Josué Montello em São Paulo e desejo acrescentar que ele esteve muito recentemente, creio que à semana passada, em Buenos Aires, onde foi acolhido também com grande entusiasmo, segundo lemos na crônica de Maria Julieta Drummond de Andrade. Josué Montello disse, na última sessão a que aqui compareceu, que continuaria presente na placa que vemos naquela parede, mas verificamos. Pelos pronunciamentos que acabamos de ouvir, que muito mais que uma placa ele está no coração de todos nós. Aproveito a oportunidade para revelar uma frase de um Conselheiro que falava muito pouco e não se acha mais no Conselho, Gustavo Corção, que não sendo pródigo em elogios, em disse certa vez com muita convicção: - Josué Montello é um homem bom.
CONSELHEIRO ARTHUR REIS, na Presidência - Dados os pronunciamentos havidos, a Mesa não tem a menor dúvida de que a proposta do Conselheiro Sábato Magáldi está aprovada, aceita, e em conseqüência será feita a remessa ao ex-Conselheiro Josué Montello da manifestação conjunta da Casa, em ofício que lhe comunique a unanimidade deste pronunciamento.
Agradecimento do Conselheiro Josué Montello
CONSELHEIRO JOSÉ CÂNDIDO DE MELO CARVALHO, na Presidência - Srs. Conselheiros, acha-se presente, participando da Mesa, o nosso antigo companheiro e Presidente Josué Montello que aqui veio gentilmente dizer algumas palavras a respeito das homenagens que lhe prestamos. Desnecessário será repetir a frase de S.Exa. de que permanecerá entre nós, lembrado pela placa que vemos naquela parede e, como também se disse, na nossa estima e admiração. Iremos ouvi-lo com o prazer de sempre.
CONSELHEIRO JOSUÉ MONTELLO - Sr. Presidente, Srs. Conselheiros: quando fui colocado no lugar em que me vêem por bondade do vosso Presidente José Cândido de Melo Carvalho, fiquei pensando se não assustaria os meus antigos companheiros de Conselho pelo fato de saberem eles que eu já havia partido e de repente darem de novo comigo aqui e instalado na cadeira da Vice-Presidência, como se eu houvesse conquistado de uma só vez dois lugares neste plenário...
Aqui vim trazido pela bondade dos Srs. Conselheiros na sessão passada segunda-feira. Reconduzidos os meus queridos companheiros de Conselho a um novo mandato, somente eu, por um ato de ordem pessoal, um pedido meu a S.Exa. o Sr. Ministro da Educação e Cultura, ao mesmo Euro Brandão, agora Eduardo Portella, explicando que tinha razões de ordem pessoal ligadas ao texto da lei que eu redigira para esta Casa, somente eu dispunha de motivos que me levaram a solicitar não fosse reconduzido. Vi que a minha vontade foi perfeitamente atendida e já havia deixado o Conselho um pouco com aquela sensação do pai que deixou na igreja a filha que acabou de casar, já em outra etapa da vida e dissociada da sua pessoa, para apenas vincular-se por intermédio de netos futuros, quando ouvi, primeiro, de Rachel de Queiroz, que me deu a notícia com uma comovedora alegria, que grande parte da sessão plenária deste Conselho, a primeira da presente reunião mensal, tinha sido especialmente, dedicada, vamos usar a palavra, á minha memória... (Risos).... e achei que deveria aqui vir agradecer a um por um dos nossos companheiros, mas ao mesmo tempo fazer uma evocação. Não quero sair desta Casa sem se aqui estejam presentes também evocativamente Guimarães Rosa, meu companheiro das primeiras horas, Raymundo de Castro Maya, Gustavo Corção, Irmão José Otão, Augusto Meyer e Hélio Viana, seis companheiros que, pela evocação, eu gostaria que aqui estivessem nesta hora, para que soubessem que deles também guardo, muito vivo, o sentimento de gratidão e a melhor saudade.
Quero dizer aos Senhores que considero a minha missão no Conselho perfeitamente realizada e cumprida. Ah! que saudades que tenho de quando, no aeroporto de Recife, telefonei para Gilberto Freyre, fazendo-lhe um apelo para que saísse da comodidade do seu solar em Apipucos e viesse todos os meses ao Rio de Janeiro honrar-nos com a sua palavra, com a sua ciência, com o seu ensinamento e coma sua cordialidade. Vejo que até hoje ele continua a atender a esse apelo, ele que é uma dessas figuras solares do Brasil, indispensáveis a uma Casa como esta. Pude trazer Gilberto Freyre e isto é uma glória para mim. Os companheiros que daqui saíram, uns por termo de seu mandatos, outros porque daqui se afastaram, como é o caso de Raymundo Faoro, eu também gostaria de evocá-los na tarde de hoje para dizer que a eles me acho preso. Todos eles participam da minha pessoa, acham-se amalgamados ao meu ser.
Tenho a impressão, Srs. Conselheiros, dada a bondade com que fui carinhosamente recebido, que em verdade, mais do que no lembrete da placa que ali está, eu continuo presente a esta Casa. Quero também lembrar a figura de um poeta que se sentava na ponta desta bancada, o nosso querido Cassiano Ricardo, com quem tive a oportunidade, na Presidência deste Conselho, de travar a mais pitoresca e imprevista discussão, a saber, que eu repetida uma boutade de Cocteau, quando afirmava: - "Sei que a poesia é necessária, mas não sei para quê?" o nosso querido poeta irritou-se, na outra sessão trouxe o seu discurso escrito e eu só tive como resposta natural recitar-lhe os versos, com que dei a ele uma demonstração de que, mesmo naquela oportunidade, a poesia dele me era necessária. Muitas destas recordações trago eu aqui comigo. Nem poderia concluí-las sem fazer uma referência especial a Rodrigo Mello Franco de Andrade, que é mais do que uma recordação neste Conselho. Quando daqui saí para exercer o posto de Conselheiro Cultural da Embaixada do Brasil em Paris, Rodrigo foi até o cais do porto levar-me o seu abraço e ali, com aquele seu ar mineiro, me diz: - "Você poderia ter ficado porque iríamos reelegê-lo para a Presidência!" Respondi-lhe: - "É por isso que estou saindo..." Já achava que tinha concluído a minha missão.
Mas, Senhores, quero terminar pedindo a casa um dos meus companheiros que guarde muito viva a minha palavra de agradecimento pessoal. Aqui vim emocionado. É natural que eu venha emocionado. Não vou dizer que me desprendo desta Casa com facilidade. Não. Há uma certa violência em sair daqui porque, como todo ser humano, eu me prendo aos meus companheiros, aos quais me acho associado pela identidade do espírito, pela amizade, essa amizade que vem comigo ao longo da vida. Algumas das amizades aqui são de mais de trinta anos! Bandeira de Mello é meu amigo há cinqüenta! Há meio século!
MANOEL CAETANO BANDEIRA DE MELLO - Desde criança.
CONSELHEIRO JOSUÉ MONTELLO - Desde criança! Desde quando ele tinha quinze anos...
Senhores, quero agradecer e fazer uma referência muito especial a Raymundo Moniz de Aragão, que sei que foi quem começou nesta Casa a louvação ao meu nome, à minha memória, e também ao meu conterrâneo Odylo Costa, filho, que falou duas vezes, falou no dia em que me despedi e falou no dia em que eu já estava ausente, sempre com o mesmo carinho a que já me afiz ao longo da vida, pela generosidade com que ele sempre, em nome da nossa Província, me tratou. Vim aqui comovidamente agradecer aos Senhores e, numa demonstração a mais de que vim comovido, pedi a minha mulher que me acompanhasse e ela ali está, companheira perfeita de toda a minha vida. Entrei aqui com ela, quero sair com ela!
CONSELHEIRO JOSÉ CÂNDIDO DE MELO CARVALHO, na Presidência - Quero agradecer ao Conselheiro Josué Montello esta demonstração de carinho que nos deu, assim retribuindo a unanimidade de louvores que este Plenário lhe dirigiu, certo, mais uma vez, de que estará sempre presente na nossa estima e na nossa admiração.
Apresento a certeza do nosso apreço a Dª Yvonne Montello, ilustre companheira do nosso prezado Amigo, parte integrante de sua vida e de suas lutas.
(Notas taquigráficas das sessões plenárias de 8.3.1979 - 2.4.1979 e 5.4.1979)
Fonte: FREYRE, Gilberto et alii. Pronunciamento do Conselheiro Josué Montello e homenagem que lhe foi prestada pelo Colegiado. Boletim do Conselho Federal de Cultura. Rio de Janeiro, a. 9, n. 35, p. 24-45, abr./jun. 1979.
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