A PROPÓSITO DO CENTENÁRIO DE OLIVEIRA LIMA
Comemora-se êste ano - especialmente em Pernambuco - o centenário do nascimento de Oliveira Lima, que nasceu quase ao alvorecer de 1868: já muito no fim de 67. Pernambuco pode não ser sempre carinhoso ou sequer justo com seus grandes homens, enquanto vivos. Pode ser até injusto com êles. Desdenhoso dêles. Pode preferir às suas virtudes superiores e aos seus altos talentos as puras mediocridades. Mas sabe sepultá-los com grandes honras: homenageá-los magníficamente quando morrem. Sabe concorrer quase em massa a suas missas de sétimo dia. Sabe conservar o sobrado onde nasceu um Joaquim Nabuco e defender da ganância de particulares a casa onde nasceu um Oliveira Lima. Sabe levantar estátuas aos Nabuco e aos Dom Vital, que vaiou, e aos Martins Júnior, que repudiou, quando vivos, atuantes desassombrados, por lhe terem dito verdades duras em vez de mentiras melífluas ou simplesmente por terem sido superiores em vez de democràticamente iguais aos cidadãos comuns.
A ser exata essa psicologia do complexo de remorso com relação aos seus grandes filhos, quando os vê mortos, de que parece sofrer Pernambuco, ao lado do seu fidalgo pudor ou do seu nobre receio de parecer adular, cortejar, mimar os vivos de elevados méritos, enquanto vivos, o centenário do nascimento de um grande pernambucano, morto há quarenta anos, merece as atenções, as comemorações e até os carinhos de um Pernambuco cioso da glória dos seus mortos indiscutívelmente imortais. Le Roi est mort: vive le Roi! Que no grande homem que morre há sempre um maior que nasce de nôvo. O grande homem autêntico morre nascendo de nôvo. O dia do Centenário do nascimento de um Joaquim Nabuco, de um Dom Vital, de um Oliveira Lima, não é um dia fúnebre mas um dia de júbilo para pernambucanos: Não estamos aqui reunidos para chorar um grande morto mas para festejar um imortal: Viva Oliveira Lima! Le Roi est mort: vive le Roi!
Porque rei êle foi e não apenas biógrafo de rei: rei caluniado. Rei êle continua pelo modo por que comandou tôda uma renovação nos métodos de historiografia no Brasil, produzindo, no gênero, obra prima à qual nenhuma outra escrita por brasileiro excede em valor.
Essa obra prima é DOM JOÃO VI NO BRASIL. O que Oliveira Lima aí empreendeu e conseguiu foi tôda uma difícil reabilitação: a de um rei caluniado. Reabilitação à base de estudos sérios e sólidos, orientados por um sentido sociológico da História que situam êsse e outros dos seus trabalhos acima das simples crônicas e das reconstituições apenas cronológicas do passado do nosso país.
A posição de Oliveira Lima na estrutura de sua época é a de um homem singular. Singular pelo seu desassombro em defender causas para o momento ou para o Brasil impopulares e até antipáticas, que êle considerasse justas ou em perigo; singular pelo gôsto de escrever cartas num país tão pouco dado à atividade epistolar como o Brasil; singular por não ter nunca escrito um soneto, numa terra, no seu tempo de estudante e de jovem, de tantos sonetistas avulsos ou insistentes; singular pelo seu culto da amizade, entre gente, como a brasileira, nos seus dias e, mais ainda, atualmente, muito das camaradagens fáceis porém pouco de amizades sérias, profundas e duradouras. Êle foi singularmente leal aos amigos; incapaz de atraiçoar qualquer dêles; fiel à memória dos amigos mortos - Itajuba, Carvalho Borges, Souza Correia, entre vários - tanto quanto dedicado aos vivos; generoso com os amigos jovens sem para tanto tornar-se um cortesão da mocidade, muito menos um mestre ávido de discípulos ou um provecto a querer conquistar adeptos ou a influir de qualquer modo sôbre os chamados "novos" - como se todos os novos - tantos dêles medíocres e sem futuro - representassem o Futuro com F maiúsculo.
Singular êle foi também por ter sido um cidadão do mundo, um brasileiro sempre preocupado com os problemas e os destinos da sua gente. Um brasileiríssimo brasileiro no essencial dos seus sentimentos.
Cresci admirando num Oliveira Lima que conheci de perto, não só um cosmopolita, como um cidadão, um patriota, um brasileiro, um pernambucano, aos meus olhos de menino e de adolescente, exemplar, mesmo através dos seus fracassos; ou, talvez, maior à sombra dos seus fracassos quixotescos do que teria sido à luz de um fim de vida de todo triunfante como foi o de Joaquim Nabuco ou o do segundo Rio Branco.
Mais: conheci-o romantizado pelo exílio. Exílio voluntário mas exílio. Exílio em país, no inverno, frio, brumoso, cinzento, em contraste com um Brasil que, entretanto, a despeito do seu muito sol, não soube nunca tratar brasileiro tão insigne com o calor afetuosamente materno que Oliveira Lima não só merecia como desejou. Desejou sem dizer que o desejava: reprimindo seus desejos. Escondendo-os. Abafando-os. E por isso mesmo sofrendo mais do que se fôsse franco na expressão dêsse anseio de filho a vida inteira um tanto afastado do seu país: servindo-o no estrangeiro. "Longe da vista, longe de coração", diz a sabedoria popular que também insinua: "quem vai ao mar, perde o lugar".
Oliveira Lima, atravessando várias vêzes o Atlântico a serviço do Brasil, perdeu, na sua terra, grande parte do lugar que deveria ter sido seu. Inconfundívelmente seu. Viu-se esquecido por muitos e substituído por alguns. Mais: no próprio serviço diplomático outro tanto lhe aconteceu. Não só por ter sido êle vítima de ressentimentos, de mesquinharias, de inveja e de despeitos de chefes e de colegas, como por ter sido sua própria personalidade das que se contrapõem aos sucessos fáceis, provocando resistências e suscitando obstáculos a êsses mesmos sucessos. Personalidade angulosa em vez de redonda. Quixotesca, Pernambucana: os pernambucanos mais autênticos raramente se destacam como homens redondos ou macios. Nenhum até hoje chegou a Chanceler ou a Presidente da República: fato que pode ser apenas um acidente mas talvez represente um fenômeno psicológico mais que sociológico.
Como todo verdadeiro Dom Quixote, Oliveira Lima teve na vida mais fracassos do que triunfos. Como pernambucano característicamente pernambucano, estêve perto de Legação do Brasil em Londres e do Ministério das Relações Exteriores: mas sem se ter tornado nem Ministro em Londres nem Chanceler. Fracassando nessas suas ambições e na de ser Governador de seu Estado. Quixotescamente fracassando.
Fonte: FREYRE, Gilberto. A propósito do centenário de Oliveira Lima. Brasil Açucareiro. Rio de Janeiro, a. 36, v. 71, n. 3, p. 10-12, mar. 1968.
|