A PROPÓSITO DE UM HISTORIADOR VENEZUELANO
À América marcada pela presença hispânica - espanhola e portuguesa - não têm faltado de todo historiadores que, ao estudo de passados nacionais venham acrescentando perspectivas hispano-americanas, e, nesse afã, revelando-se historiadores-sociólogos, atraídos principalmente pelas ocorrências históricas de sentido social e de significado cultural. Historiadores como o chileno José Toribio Medina, como o mexicano Carlos Pereyra, como o peruano Francisco García Calderon, como o argentino Ernesto Quesada, como o brasileiro Oliveira Lima e como, última e notadamente, Sílvio Zavala, também mexicano.
O venezuelano Mariano Picon Salas foi, além de insigne estudioso do passado e dos problemas do seu país, um desses intérpretes tradicionais de tendências e um dos mais lúcidos analistas de inquietações do mundo ibérico ou da civilização hispânica. Aspecto da sua atividade que já procurei destacar em artigo publicado em revista de Caracas, ao qual volto hoje, em colaboração para revista brasileira dedicada a assuntos de história, que indica sua publicação.
Se continuam poucos os intelectuais, os escritores, os artistas, no mundo ibérico, ou hispânico, que juntam ao seu sentido nacional de arte ou de cultura um outro que importa numa afinidade efetiva, e não somente retórica, com o que, nesse mundo, é transnacional, sem ser exótico ou estranho, em arte, em cultura e até mesmo no desenvolvimento de um ethos comum às nossas várias nações, a verdade é que os trabalhos de historiadores-sociólogos, como os aqui recordados, têm aberto perspectivas amplas a estudos de atualidades significativas nos diversos setores de atividades cultural que se apresentem com aspectos pan-hispânicos.
Foi um sentido, pan-hispânico, que não faltou a Mariano Picon Salas. Daí as páginas de aguda compreensão que escreveu sobre aspectos interessantíssimos de algumas de outras culturas, hispano-americanas, além de venezuelanas, revelando-se, nessas suas páginas, um dos mais autênticos intelectuais hispânicos que a América espanhola já produziu. Que o diga o seu ensaio sobre o Brasil, onde esteve como Embaixador do seu país; e do qual soube surpreender característicos significativos com uma visão menos de embaixador convencional do que de analista, desprendido de convenções oficiais, do complexo brasileiro. É um ensaio que se inclui entre as melhores interpretações panorâmicas traçadas, do Brasil atual, por um observador não sei se diga estrangeiro. Faz boa companhia às páginas, já clássicas, do argentino García Merou, escritas há dezenas de anos. Na compreensão do Brasil por um Mariano Picon Salas do Brasil se sente uma sensibilidade a certos aspectos do comportamento, do caráter, da cultura dos brasileiros que um observador de todo estrangeiro, por mais perspicaz, dificilmente teria a serviço da sua análise e, menos ainda, da sua síntese. Donde poder concluir-se a favor de alguma coisa de transnacionalmente hispânico na atitude que tem caracterizado ensaios, históricos ou não, de não poucos observadores com relação a assuntos de países afins do seu pelas origens ibéricas de cultura. É na especial sensibilidade de historiadores e de outros intelectuais e também de artistas, políticos e homens de ação, a tais origens e às suas decorrências, que é preciso, a meu ver, identificar-se uma capacidade hispânica para compreensão do que seja hispânico. Sensibilidade que torna particularmente valioso, mesmo quando apenas jornalístico, o depoimento de um hispano sobre hispanos de outra nação que não a sua. Pois num depoimento desse tipo, ao lado da vantagem de apresentar-se o observador, pela sua condição, até certo ponto, de estrangeiro, como pessoa de fora, se encontra a vantagem de ser ele, pela sua condição básica de hispano, pessoa senão de dentro, capaz de facilmente apreender certos aspectos mais significativos do comportamento da gente que observe, de dentro para fora: sentindo-lhes as raízes, as intimidades, umas tantas sutilezas difíceis de ser decifradas, pelo estrangeiro total.
Entretanto, é ainda reduzido o número de depoimentos desse tipo intra-hispânico. O argentino García Merou escreveu - repita-se - há mais de meio século, bom livro sobre o Brasil e o brasileiro Oliveira Lima deixou-nos em Na Argentina boas páginas sobre a gente argentina e sua cultura. Há o El Brasil, de Bernardes. Há o Balmaceda, de Joaquim Nabuco, sobre política chilena. Há o Rio de Janeiro, do chileno Joaquim Edwards Bello. O livro do português João Chagas sobre o Brasil. As excelentes páginas do hispaníssimo Unamuno sobre Portugal. As do historiador português Oliveira Martins sobre a Espanha. Mas convenhamos em que nunca tantos - pois muitos milhões já são os hispanos - foram observados ou descritos, por tão poucos: por tão poucos escritores hispânicos, - inclusive historiadores - mesmo de segunda ordem.
Joaquim Edwards Bello notou, em seu contato de intelectual ou de jornalista chileno com o Brasil, há mais de meio século, ter se tornado, então, mania dos brasileiros, como dos argentinos e dos próprios chilenos, importarem notabilidades européias que no Rio, como em Buenos Aires e em Santiago, proferiam conferências e pronunciavam-se sentenciosamente sobre os países que visitavam de raspão, impressionando esnobes hispano-americanos com "cosas que ya habíamos leido una y mil veces en periodicos i libros cientificos ou filosoficos". Exagero, decerto, do intelectual chileno. Permanecem admiráveis as observações a nosso respeito, de estrangeiros ilustres que nos visitarem no começo deste século como Bryce, o historiador inglês, como o historiador italiano Ferrero; e, nos nossos dias, as de um Arnold Toynbee, sem deixarmos de destacar as de um Reyes, as de um Konrad Guenther, as de um Roger Bastide e as de um Roy Nash.
Não resta, porém, dúvida de que muito proveitoso para o desenvolvimento de uma cultura pan-hispânica seria uma maior aproximação, no plano intelectual e artístico, entre hispanos que se observassem, se analisassem, se criticassem, com olhos de historiadores ou de sociólogos da História, capazes de abordagens à base de critérios comparativos e até integrativos. Atentos a semelhanças ao mesmo tempo que a diferenças. Sensíveis a intimidades que dificilmente seriam notadas, entre brasileiros, por um observador não hispânico: a não ser um já abrasileirado francês como Mestre Roger Bastide, especializado no estudo histórico-social do complexo brasileiríssimo do cafuné; e por esse estudo predisposto à compreensão de outras subtilezas.
O chileno Bello deixou-nos sobre um patriarca da República brasileira no começo do século XX reparo que talvez só pudesse ter sido feito por um hispano: "En el hall del Hotel, el Mariscal Pires Ferreira, senador del Estado de Piauí, hombre mui simpatico i energico a quien han apodado "vaca brava", lee con marcado interés las primeras noticias de los sucessos en los diarios de la manana. Me saluda, sorriendo com benignidad; con la proteción con que se trata a un niño..." Que francês teria se inteirado, com tanta naturalidade, do apodo "Vaca Brava" que, extra-oficialmente, caracterizava o marechal Pires Ferreira? E do seu todo paternalista de político de um tipo benignamente feudal? Coisa de hispano com relação a outros hispanos.
E sobre a rivalidade, por vezes ridícula, do Brasil daqueles dias com a Argentina e não apenas da Argentina de Zaballos com o Brasil do Barão do Rio Branco: "Los tranvias eletricos de Rio son una cuarta mas largos i mas altos que los de Buenos Aires"... E "las veredas de la Avenida Central son medio metro mas anchas que las de la Avenida de Mayo". Outro reparo: "El argentino de la alta sociedad, inglesado i fino, grande i fornido, desenbarca en los puertos brasileiros como en tierra conquistada; todo lo hace reir: los palacetes de la avenida, los regimientes que pasan y los parametros estraordinarios de las mujeres". Reparos que talvez só pudessem ter sido feitos por um hispano bisbilhoteiro de hispanices com relação a hispano de outras duas nações que não a sua.
Foi com essa argúcia especial e, no seu caso, especialíssima e à base de uma cultura superior à de simples jornalistas quase por natureza levianos; foi com essa argúcia - argúcia de hispano com relação a hispanos de outras nações que não a sua - que Mariano Picon Salas, historiador-sociólogo, observou, analisou e interpretou o Brasil que conheceu de perto há uma dezenas de anos: um Brasil interessantíssimo, pela euforia de alguns e pela insatisfação de outros, com o aparecimento súbito de Brasília, isto é, a presença repentina de uma nova vida e na paisagem nacionais. Um futuro a invadir um presente e a tornar-se histórico da noite para o dia. Mariano Picon Salas deixou-nos a propósito deste fato, e de outros aspectos da então atualidade brasileira, observações de uma rara penetração que cedo adquiriram caráter histórico-sociológico. Penetração - a revelada pelo historiador-sociólogo venezuelano, com relação ao Brasil - que insisto em considerar quase impossível em observador que não fosse, como ele era, um hispano sensível a semelhanças, e não apenas a diferenças, no comportamento de outras gentes hispânicas que não a nacionalmente sua.
É pena, por isso mesmo, que não tivessem sido mais amplas suas observações desse tipo sobre o Brasil. Mais: que não tivesse estendido sua área de contatos com culturas e gentes hispânicas. Que, a base de contatos assim extensos, não tivesse nos deixado todo um livro panorâmico, de caráter histórico-sociológico, sobre essas culturas e sobre essas gentes. Ou, pelo menos, organizado, com sua idoneidade de scholar conhecedor da matéria em vários dos seus aspectos, uma antologia que fosse, em larga escala, o que é A Espanha Vista pelos Portugueses, coordenada por José Osório de Oliveira. Uma antologia do que "os modernos autores portugueses escreveram sobre a Espanha". Tal livro pareceu necessário ao coordenador português e aos seus editores espanhóis "exatamente porque, tendo a mesma origem, sendo vizinhos e próximos parentes, nos diferenciamos" devendo, por isto, "conhecer-nos melhor... até para melhor nos compreendermos a nós mesmos, no que especificamente somos".
Uma antologia, em escala muito mais larga, que reunisse observações sobre diferentes partes do mundo hispânico por hispanos de outras áreas, é no que resultaria: em concorrer para que cada hispano se compreendesse melhor no que especificamente é, seja como venezuelano ou mexicano, espanhol ou português, brasileiro ou peruano, goês ou filipino, cubano ou paraguaio. Deveria pôr o verbo no futuro, e não no condicional, porque estou certo de que uma antologia desse porte não tardará a ser organizada e publicada. O que agora lamento é não estar vivo, para escarregar-se, de modo ideal, da sua organização, dando-lhe todo o necessário vigor, o hispano admirável que foi Mariano Picon Salas, em quem ao saber, à visão, à sistemática do historiador, se juntava o poder de observação, disciplinado e metódico, de bom sociólogo: sua capacidade de generalizar sem desprender-se de particularidades irredutíveis.
Seu livros de historiador-sociólogo sobre a Venezuela é o que revelam: seu sentido amplamente hispânico, por um lado, e compreensivamente americano, por outro, dos passados nacionais hispano-americanos. Ao seu modo de tratar problemas do passado e de atualidade do seu país não faltam, além da perspectiva americana, horizontal, o sentido hispânico vertical. Daí não os prejudicar nenhum estreito nacionalismo do tipo endogâmico. Nem lhes falta a percepção de um complexo hispânico de cultura, que a alguns de nós parece, cada vez mais necessário a uma análise e a uma interpretação de passados e de problemas nacionais que, vistos como passados ou problemas exclusivamente nacionais, não se fazem compreender senão em seus aspectos mais superficiais. Ou menos profundos.
Formamos, os hispanos, um sistema de civilização transnacional de cultura, desenvolvido num tempo e expandido em espaços consideráveis e dentro do qual precisamos nos analisar e nos interpretar, considerando, sob esse critério, semelhanças e diferenças.
É um sistema do qual precisamos - aqui já trata de uma projeção de alguma maneira política: política cultural, pelo menos - de nos tornar conscientes, em vez de desprezarmos quanto possa tornar-se vantagem, para cada nação hispânica, ser parte de um complexo assim rico de possibilidades e de potencialidade num mundo crescentemente inclinado à valorização de conjuntos transnacionais, ou supranacionais, de forças e recursos nacionais.
Segundo moderna corrente brasileira de interpretação sociológica do desenvolvimento de populações e de culturas de origem hispânica, situadas em áreas não-européias, a consciência das semelhanças que as caracterizam, em face de outras populações e culturas de outras origens européias situadas em áreas de não-européias, tende a ser mais profunda com relação as populações e culturas de origem hispânica situadas em áreas tropicais: na África, no Oriente, na América tropicais. É este o sentido de uma Hispanotropicologia que reúna estudos diversos - à base os ecológicos e os historicossociais - dentro de complexo tão vasto.
É assunto que estimaria ter versado demoradamente com Mariano Picon Salas. Faltou-me, porém, a oportunidade para esse encontro, por mim tão desejado. Com efeito, a última vez em que estivemos juntos, foi no almoço com que me honrou, em Paris, ha já alguns anos, o então Embaixador do Brasil junto à Unesco, Professor Paulo Carneiro: almoço para o qual convocou gentilmente os demais embaixadores hispânicos junto à Unesco. Um deles, Mariano Picon Salas.
Conversamos, então; mas conversa sobre assuntos gerais. Picon Salas desejava que no dia seguinte eu jantasse em sua companhia. Mas para o dia seguinte estava comprometido: um convite do Quai d'Orsai intransferível: eu me encontrava em Paris como hóspede do Governo Francês. Fugiu-me, assim, excelente oportunidade de considerar com Picon Salas a teoria hispanotropical que eu há pouco apresentara a professores e estudantes de universidades da Alemanha Ocidental, encontrando, da parte deles, a melhor receptividade; e que já fora prestigiada com a aprovação dos sábios do Instituto Internacional de Civilizações Diferentes, reunidos em conclave memorável.
Estou quase certo de que Picon Salas teria acolhido com simpatia aquela idéia. Já uma vez tínhamos chegado a acordo quanto à necessidade de a presença israelita no mundo hispânico, desde os começos da expansão da Europa hispânica na África, no Oriente, na América, ser estudada sob um critério amplamente hispânico ou ibérico: considerando-se as atividades de judeus portugueses na América Espanhola, por exemplo - algumas delas já estudadas pelo historiador chileno José Torïbio Medina; e - é claro - a repercussão de atividades de judeus espanhóis entre hispanos de língua portuguesa.
Alguns dos surpreendentes compromissos de colégios jesuíticos na América colonial com vastas empresas financeiras daqueles dias é como parece que deveriam ser estudados: através daquela provável presença de judeus entre padres da Companhia a que se referem historiadores modernos como o alemão Ernst Samkaber em seu Sulamerika. Samkaber sustenta ter sido judeu o próprio Diego Lainez, o segundo Geral da Companhia de Jesus. Jesuítas de origem judaica - é claro que convertidos ao Catolicismo de modo profundo - teriam, entretanto, trazido para o serviço da S. J. ou da causa Católica, o conhecimento de assuntos financeiros ou de problemas internacionais de economia - inclusive de colocação de produtos tropicais em mercados europeus e os de preços. Problemas estes, ultimamente estudados de modo exemplar pelo Professor Fernand Braudel e pelos seus colaboradores no Colégio de França e na Sorbonne. Aquele conhecimento, lhes teria permitido agir, na América colonial, com imensa vantagem sobre outras organizações Católicas e sobre os próprios Estados nacionais, o espanhol, o português; e sem que os perturbassem, neste particular, preconceitos de rivalidade de portugueses com espanhóis ou de espanhóis com portugueses por eles, quase sempre, superados, dada sua condição, quase sempre atuante, de membros de uma organização supranacional, inclinando-se ora para a Espanha, ora para Portugal - talvez mais para a Espanha do que para Portugal - conforme aqueles seus interesses de elementos supranacionais.
Não concebo assunto historicossocial mais merecedor do que este de ter sido versado por um Mariano Picon Salas. Ou de ser versado por um Sílvio Zavala ou, no Brasil, por um Gonçalves de Melo ou por um Artur Reis.
Picon Salas pertencia à raça intelectual dos Francisco García Calderon, dos Carlos Pereyra, dos José Vasconcelos, dos Alfonso Reyes, dos Urena, dos Romero, Basadre e, principalmente, do Professor Sílvio Zavala - de Zavala e do grupo de pesquisadores idôneos que, convocado por esse magistral historiador sociólogo mexicano, concorreu, há alguns anos, em reunião na Universidade de Colúmbia, para a ordenação de um plano sob o qual viesse a se elaborar uma história geral das Américas - na capacidade de considerar os temas básicos dessa história, quer na sua extensão ibérica ou hispânica, - a latina, a americana, a continental - quer na sua profundidade sócio-cultural. Esta, incluindo o gosto pelo que seja qualidade, e não somente quantidade, número, volume, nas civilizações ou nas culturas de que sejam portadoras as sociedades ou os grupos humanos que o analista estude e procure interpretar.
Esse gosto pela qualidade não faltava a Mariano Picon Salas. Conhecedor de técnicas modernas de investigação histórica e de análise social, permaneceu, ao mesmo tempo, um humanista lúcido no seu modo de tratar assuntos históricos e atualidades sociais. Arcaísmo de sua parte? Simples permanência de atitude? Inércia de intelectual apegado a uma formação inatual? Ao contrário: antecipação ao humanismo científico que, nesses como noutros setores, tende a corrigir, à medida que se avigore, o que há atualmente de exclusivo ou faccioso, quer num humanismo fechado às ciências modernas, quer num cientificismo hostil ou indiferente a preocupações históricas, filosóficas e artísticas na análise do passado ou dos problemas do Homem.
Por isto mesmo, me deu ela a impressão, no nosso derradeiro encontro, que foi já há alguns anos, em Paris, e á sombra da Unesco, de ser um homem, um hispano, um intelectual que ali respirava o ar reclamado pela sua inteligência já então no outono; talvez a fase mais feliz para uma inteligência do tipo da sua. Pois Paris continua a ser, no plano intelectual, mais que qualquer outro grande centro de cultura, a negação daquilo que Georges Duhamel muito parisiensemente chamou, certa vez, "o demônio quantitativo". Também o ambiente ideal para aquelas sínteses - ou tentativas de sínteses: tentativas a ser sempre renovadas - que completem as análises ou lhes dêem sentido universalista: sínteses que, no plano social ou no cultural, me pareceram ser sempre um dos afãs de Mariano Picon Salas.
Creio que ele era dos que concordariam com esse outro admirável intelectual ibérico ou hispânico - e não apenas mexicano, que foi Alfonso Reyes, neste ponto: em acreditar num pendor da inteligência hispânica - a da América, principalmente - para ser mais generalista que especialista; e, em encontrar-se, por essa sua tendência, em situações de concorrer, de algum modo, para aquelas sínteses, ou tentativas de síntese, por que hoje anseiam, em várias especialidades, cultores, europeus e anglo-americanos, de ciências ou estudos avançadíssimos em suas realizações analíticas, mas relutantes, esses cultores, por um como pudor intelectual vindo de seu próprio purismo ou rigorismo analítico, em se arriscarem a sínteses. Seria a audácia para as sínteses, ou para as tentativas de síntese, no setor dos estudos sociais como noutros setores, um característico daquela juventude de espírito a que de ordinário se associa o hispano mais castiçamente hispânico; e de que foi exemplo recente Miguel de Unamuno, em toda a sua vida, inclusive na sua velhice, um analista sempre ansioso por sínteses audaciosas. Característicos também de Ortega, de Cajal, de Pidal, depois de ter sido de modo tão ostensivo, de Pelayo, e em dias mais remotos, de um Vitoria - fundador do Direito Internacional -, e o de um Vives - fundador, segundo Dilthey, da moderna Antropologia experimental. Característico, entre os hispanos da América, de um Sarmiento, de um José Bonifácio, de um Teixeira de Freitas, de um José Vasconcelos.
Também creio poder dizer-se de Mariano Picon Salas que para ele, como para outros de nós, estudiosos da civilização histórica ou ibérica, esta se vem caracterizando, não só através das obras dos seus pensadores, dos seus artistas, dos seus intelectuais, como através das tendências de suas populações, para sínteses que começam a resultar em novas expressões de arte e de cultura e em novos estilos de pensar, de sentir e principalmente de conviver. O que é principalmente certo daquela convivência que assume cada dia mais, no mundo hispânico, aspectos socialmente democráticos, através de uma crescente fusão de raças, já responsável pela emergência, em largos setores de populações hispânicas, sobretudo hispanotropicais, - por mais que essa tendência seja contrariada em setores mais restritos -, de novos tipos tanto raciais com étnico-culturais. O que se vem verificando em áreas como a venezuelana, a brasileira, a mexicana, a cubana.
Aí, talvez mais do que naquela Argentina ou naquele Uruguai mais europeus que o resto da América hispânica - uma Argentina e um Uruguai, aliás admiráveis, que a um Louis Pierard, francês, apareceu, em 1937, diante dos primeiros temores franceses em face de uma próxima guerra terrivelmente devastadora de valores considerados básicos, pela Europa clássica, ainda presa à idéia de ser civilização, em suas formas mais altas, privilégio de europeus brancos ou de descendentes brancos desses europeus - o provável refúgio dessa espécie especialíssima de civilização - parece estar aquela "espécie de nova primavera, de nova juventude do mundo", segundo o mesmo Rarard desejada por tantos europeus como uma nova primavera tornada viva, criadora, dinâmica. Nova primavera que, entretanto, só venha a realizar-se pela crescente fusão de raças na América hispânica; e sobretudo pela também crescente síntese de culturas aí, em particular e no mundo hispânico, em geral: principalmente no hispanotropical em que tanto se vem expandindo em outras vivências o hispano-europeu. Nessa "espécie de nova primavera" acreditava Mariano Picon Salas, embora decerto lhe repugnassem excessos de retórica, mesmo da parte de franceses. Pois era ele de uma época e de um tipo de hispano que pode, por vezes, desdenhar em europeus - inclusive em franceses - aquela retórica que outrora se considerava no Norte da Europa, sobretudo na França, intransferivelmente hispânica. Ibérica. Ou tropical. Ou hispanotropical.
Mariano Picon Salas, hispano de terra tropical, não sofria nem da retórica associada por tantos europeus do Norte aos hispanos nem do verbalismo por eles, norte-europeus, associado ao homem ou ao mestiço do trópico. Muito da sua terra quente e da sua gente, também cálida, era, entretanto, de uma exemplar lucidez, de um raro equilíbrio, de uma vigorosa, mas de modo algum, artificial elegância, no seu modo de ser intelectual. Um intelectual que em qualquer parte do mundo honrava a sua condição de homem de inteligência erudita e de saber sério.
Fonte: FREYRE, Gilberto. A propósito de um historiador venezuelano. Histórica - Grifo. Rio de Janeiro, n. 1, v. 1, p. 66-72, jan./abr. 1972.
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