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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Periódicos Científicos  



A PROPÓSITO DE UM INSTITUTO DE PESQUISAS SOCIAIS


Que é o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais? Ninguém que se interesse por cultura de alto nível, no Brasil, pode ignorar o que seja esse centro de estudos brasileiros que, sendo um órgão federal - uma autarquia -, tem a sus sede na capital de Pernambuco, a metrópole do Nordeste. E sendo uma originalidade, tais as suas inovações, para ser bem compreendido precisa de ter suas raízes identificadas nas suas ligações, quer com um passado cultural - o do Nordeste e Norte brasileiros - que se destaca por pioneirismos e antecipações, quer com os problemas sócio-econômicos que vêm tornando as duas regiões regiões-problemas, com tremendos desafios à inteligência e ao saber de pensadores e cientistas sociais e à argúcia e capacidade de ação dos homens públicos e empresários.

Segue o Instituto Nabuco uma nítida filosofia acerca do que seja a relação entre Ciências do Homem e a condição humana, quer considerada ecumenicamente, quer considerada situacionalmente. E o situacional, no caso, vem incluindo, desde os começos do Instituto Nabuco - que acaba de comemorar 25 anos de atividades -, para os seus dirigentes e pesquisadores, o regional, o ecológico, o nacional.

Não são eles abstratos: são existenciais, no amplo sentido da expressão. Não são presentocentristas: consideram seus pesquisadores o tempo tríbio, e, como tal, permanentemente uma inter-relação de passado, presente e futuro. Não são um agregado de especialistas: são um conjunto de interespecialistas que, atentos uns ao trabalho dos outros, se orientam para um generalismo que constitui um interespecialismo dinâmico e, quanto possível, criador e acima dos puros especialismos: uma espécie de miscigenação cujos produtos sejam complexos nas sínteses que apresentam e através das quais procuram-se soluções das chamadas gestaltianas. Não são numerológicos nem estatisticomaníacos; mas valorizam os números que definam situações susceptíveis de serem assim, se não definidas, apresentadas, classificadas e esclarecidas. Não são adeptos de sociologias ou antropologias, ou ecologias, ou psicologias que se fechem em escolas como, agora, a estruturalista; mas não repudiam contribuições, nesses setores, ligadas a grandes nomes de criadores ou de renovadores dessas e de outras escolas ou sistemas.

Trata-se, assim, de uma casa de estudos principalmente científicos do Homem situado - concepção, a de Homem situado no trópico, que, tendo partido de pesquisador do Instituto Nabuco, foi proclamada válida e valiosa pela Sorbonne, em solenidade honrosa para o Brasil, mas sem se alhearem os pesquisadores desse instituto brasileiro do valor que, para o conhecimento do Homem situado, e do Homem total, representam áreas inacessíveis aos números e ás pesquisas apenas objetivas. Daí suas abordagens serem por vezes humanísticas, artísticas, históricas, filosóficas. Esta a sua orientação, hoje reconhecida nos grandes centros, europeus, americanos, orientais, africanos, de cultura, como afirmação de um pensamento original e criadoramente brasileiro, que se vem apoiando em pesquisas das chamadas objetivas, completadas por esses outros estudos ou por essas outras análises de caráter transobjetivo. E sempre pesquisas sobre assuntos amplos, deixando-se o afã matematicamente perfeccionista pelo compreensivo, desde que o perfeccionismo desse gênero só parece possível, quando possível, em trabalhos restritamente microssociológicos ou microantropológicos ou microssociais.

Atravessamos, todos os povos modernos, uma fase revolucionária, em face da qual o Brasil está se apresentando como país que se faz notar por corajosas renovações e inovações, sem repúdio ao que considera essencial nas suas constantes. O equilíbrio talvez ideal.

Não só no Brasil como no mundo atual, quase todos estamos diante de situações que resultam, várias delas, da atuação - diversa de região para região e de país para país, em alguns dos seus aspectos - de um mesmo processo social; e este, de transformação; de alteração de formas de vida; de mudança de estilos de convivência; de renovação de culturas.

No Brasil, a transformação atual que marca fase tão notável no seu desenvolvimento como sociedade e cultura nacionais é a aceleração de um processo que vem de velhos dias. Aceleração ou intensificação em termos como nunca houve entre nós tão vigorosos. Aceleração que está se fazendo sentir saudavelmente no Nordeste.

Ninguém pode estudar compreensivamente a formação nem traçar exata ou expressivamente o perfil sociológico do Brasil esquecendo-se do que, nessa formação e nesse perfil, é nordestino, ou centro-brasileiro, ou sulino, ou amazônico ( extremo norte), em particular, ou, particularmente, "mata", ou "agreste", ou "sertão", com as configurações apenas estaduais superadas pelas sócio-econômicas ou psicoculturais. Ou deixando de considerar, dentro do complexo nacional, os, desde remotos dias pré-nacionais do Brasil, complexos regionais que vêm fazendo sentir suas presença em vários setores de desenvolvimento dos vários Brasis que constituem essa como que maravilha sociológica que é a unidade brasileira.

Dizia Oliveira Lima - historiador magistral - que dizer-se história de Pernambuco era dizer-se história do Brasil. Uma era inseparável da outra. Inseparável a história de Pernambuco da história geral do Brasil. Inseparável a história do Brasil da de Pernambuco. O que é certo, ainda mais, em relação com o Brasil total da história do Nordeste inteiro ou do Centro brasileiro ou do Sul, se nesses complexos regionais, ou nesses conjuntos regionais, incluirmos todo o Brasil que vai da Bahia ao Maranhão, do Maranhão ao Amazonas, da Bahia a São Paulo, a Minas Gerais, ao extremo sul. O Brasil, cujos problemas são hoje especificamente considerados, uns pela Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste, á qual já tanto devem a região e o País, outros, pela Superintendência da Amazônia, ainda outros, pela Superintendência da Região do São Francisco, é um Brasil uno e plural. A verdade é que, do Brasil total, a nordestina - cuja população é um terço da brasileira, sendo também a mais brasileiramente miscigenada, a mais morenamente brasileira em vários graus de morenidade, a mais espalhada, através de pioneiros audazes, pelas demais regiões do Brasil - é uma região que se desentranhou de Pernambuco - a Nova Lusitânia dos primeiros dias coloniais -, continuando, durante anos, a ter no Recife sua como que metrópole regional. É região particularmente materna dentre as que constituem, completando-se, o todo nacional brasileiro. No seu estudo antropossócio-econômico, e no estudo agrário da região norte é que se especializam os pesquisadores do Instituto Joaquim Nabuco, do Recife.

Nada mais justo que atribuir-se atualmente aos valores novos e, ao mesmo tempo, telúricos representados, magnificamente, que por Brasília, quer pela Amazônia, dentro do sistema brasileiro de sociedade e de cultura, grande importância do ponto de vista nacional. Mas, sem que se desdenhe, nessa sociedade e nessa cultura, quanto sejam aqueles valores que, vindos de fora - da Europa, especialmente de Portugal, e também da África (podendo o negro africano ser considerado um co-colonizador do Brasil) e do Oriente - abrasileiraram-se no Nordeste - a princípio, particularmente em Pernambuco - para uso também dos demais Brasis.

Necessitamos, os brasileiros, de nos projetar sobre o futuro, sobre os sertões, sobre o oeste, é certo. Mas sem cortarmos nossas ligações - ao nos projetarmos nesses novos espaços e tempos - nem repudiarmos nossas afinidades - ao neles nos estabilizarmos -, nem com aquelas partes do mundo das quais absorvemos elementos básicos, étnicos e de cultura, nem com aqueles primeiros focos de cultura, no litoral e no próprio interior - como Minas Gerais, além do litoral e do oeste paulista -, nos quais madrugaram ou amanheceram culturas regionais Culturas regionais que, juntando-se e completando-se, vêm formando a cultura nacional brasileira; e dando-lhe aquela dignidade de civilização, já provada pelo tempo, que se mistura a arrojos jovens. E não culturas quase inteiramente novas ou quase de todo improvisadas.

Bryce encontrou no Brasil uma civilização nacional impregnada de suas origens européias, sem ter surpreendido o mesmo em algumas das outras Repúblicas da América, sôfregas de se mostrarem novas. Essa mistura de antigo e jovens é, com efeito, uma das originalidades brasileiras. Uma das originalidades da nação americana que se tornou independente, conservando-se monárquica. Que tem, no Nordeste como no Rio Grande do Sul, no Rio de Janeiro como em São Paulo, no Pará como em Minas, redutos da tradição e focos de inovação. No Nordeste, esses dois aparentes contrários vêm se completando de modo singularmente expressivo; e Pernambuco é o que se pode denominar o fulcro dessa como que simbiose. Daí a importância de estudos antropossócio-econômicos em torno da população, do passado sociais, dos problemas sociais e das perspectivas dessa região - repita-se que sob vários aspectos - materna. Ou germinal.

Daí - acrescente-se - poder-se concluir que o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais desempenha, no Brasil de hoje, uma missão essencial. Indispensável.

Tão importantes para o Brasil quanto Brasília são, do ponto de vista cultural, além de Salvador da Bahia, de Porto Alegre, de São Paulo, das cidades mineiras, o Recife, completado por Olinda e Igarassu; e também Maceió, Aracaju, Natal, Fortaleza, a capital da Paraíba, a do Piauí, a do Maranhão, Belém, Manaus, sem nos esquecermos das cidades intermediárias entre esses extremos de passado e os de presente a projetarem-se sobre o futuro, que Brasília representa de modo notável; sem nunca nos esquecermos, ao nos referirmos convencionalmente a passados, presentes e futuros, que o tempo é - outra concepção brasileira saída, repita-se, de pesquisador do Instituto Joaquim Nabuco - tríbio. Isto é, antes um só do que três. Brasília e São Paulo são essenciais ao Brasil. O Brasil necessita de todas essas fontes e de todas essas perspectivas de cultura - as consideradas "progressistas" e as por alguns desdenhadas como arcaicas - para desenvolver um sistema quanto possível original, próprio, a um tempo tradicionalista e modernista, regionalista e unionista, telúrico e atlântico, e até transoceânico. E que, sendo inter-regional, seja também nacional e, sendo nacional, seja também transnacional.

O Nordeste - aquele onde teve início, no Brasil, uma civilização notavelmente estável, sempre a renovar-se, e, por vezes, a seu modo, autocolonizadora com relação a Brasis rústicos, completando a ação arrojada e dinamicamente bandeirante, isto é, desbravadora, dos paulistas, sempre a avançar em espaços novos - não pode deixar de ser presença tão viva, tão criadora, tão atuante quanto a somente nova e, como cidade de todo nova, admirável Brasília nos atuais esforços de articulação de um sistema brasileiro de sociedade e cultura, cujos objetivos sejam amplos, e nunca parciais. Nem parciais no espaço, nem parciais no tempo. E sim panbrasileiros e pantemporais. Integralmente nacionais, portanto, nas duas dimensões: espaço e tempo. Mais do que isto: cabe-lhe papel importante quanto à expansão de valores culturais do Brasil, que se tornam transbordantemente transnacionais. É a sua vocação uma vocação a que seus líderes e suas gentes de hoje não podem faltar.

Ao Nordeste brasileiro, portanto, e ao Norte não poderia faltar a atividade científica e humanística de um instituto especializado no estudo de problemas tão nacionais - e transnacionais - quanto regionais como é o Instituto Nabuco.



Fonte: FREYRE, Gilberto. A Propósito de um instituto de pesquisas sociais. Cultura - MEC. Brasília, n. 4, v. 14, p. 45-49, jul./set. 1974.

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