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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Periódicos Científicos  



NOVOS MÉTODOS PARA NOVAS SITUAÇÕES:
uma antecipação brasileira nos modernos estudos sociais


Reuniu-se recentemente na Europa, sob a presidência do Professor Georges Balandier, um notável grupo de sociólogos, antropólogos sociais, e economistas, para estudar, entre outros assuntos, algumas situações sociais existentes em sociedade não-europeias: Asiáticas, Africanas, Canadianas, Latino-americanas. Um dos participantes nos debates era o brilhante sociólogo francês - mas com experiência africana - Jean Duvignaud que sugeriu que o conceito marxista e europeu de classe parecia não corresponder exactamente a essas situações não europeias. Desenvolvendo a sua tese, afirmou que o chamado "terceiro mundo" é, presentemente, uma zona potencialmente revolucionária onde parece estarem em processo de desenvolvimento novos valores para cuja análise são necessários novos conceitos e novos métodos de estudos sociais. Os conceitos e métodos europeus - marxistas e outros - são inadequados.

Pertenci durante muito tempo ao número desses antropólogos e sociólogos não-europeus que admitem o condicionamento do desenvolvimento dos estudos sociais, nos países que não são exacta ou inteiramente europeus na sua cultura ou na sua estrutura social, por caminhos em parte não-europeus ou extra-europeus. Esta atitude pode parecer talvez influenciada por uma espécie de patriotismo projectado no campo dos estudos sociais, sociológicos e antropológicos. Parece realmente que os não-europeus deveriam sentir-se suficientemente independentes da Europa e dos excessivamente europeizados Estados Unidos - o centro clássico dos modernos estudos sociais científicos - para usarem em relação a cada nação ou grupo de nações não-europeias na análise, descrição ou interpretação dos problemas nacionais ou das situações especificamente não-europeias, uma metodologia adaptada a essas situações e até uma linguagem sociológica um tanto diferente da usada por Europeus e Anglo-Americanos.

Afigura-se que um dos elementos que separam as ciências sociais das ciências naturais é o facto de, nas primeiras, muitos mais que nas segundas, o cientista estar muito próximo do pensador, do artista e até do linguísta; do linguísta filológico e do linguista que pode saber pouco de línguas vivas mais é sensível ao valor das palavras, do mesmo modo que os escritores, os escritores artistas, são sensíveis a essa espécie de valores tanto psicológicos como estéticos. E é tão sensível, que o Professor Robert A. Nisbet - um professor de sociologia Anglo-Americano, que por rara excepção, é também um escritor - descobriu e entendeu em todo o mundo, "relações significativas" que, não sendo totalmente universais, surgem em situações diferentes: situações regionais e històricamente condicionadas. Estas diferenças não são daquelas que a problematização ou o método estatístico possam descobrir e classificar: algumas delas só podem ser detectadas por métodos que, sendo em larga medida científicos, têm algo dos métodos do historiador e até do romancista.

Como é agora aceite por não pequeno número de cientistas sociais, tanto europeus como não-europeus, a apreensão da realidade social pelo cientista depende tanto dos ínvios caminhos do sentimento e da intuição como dos rectos imperativos da lógica e da razão. É por isso que muitos estudiosos actuais dos problemas metodológicos dos estudos sociais vão ao ponto de pensar que deve ser olhada com suspeita, não a obra do antropólogo que se assemelha à do novelista, mas pelo contrário toda aquela que, no campo da antropologia e da sociologia, teme a experiência e a imaginação. Este temor pode conduzir à redução do antropólogo, do sociólogo ou do historiador social a mera caricatura do cientista natural: não a um cientista natural do tipo de Darwin ou de Huxley mas sim de quinta categoria.

Quando um investigador europeu com uma considerável experiência não-europeia, como o Professor E. E. Evans-Pritchard, de Oxford, escreve que, como antropólogo social, ele e alguns dos seus colegas britânicos, consideram a antropologia social como pertencendo mais às "ciências humanas do que às ciências naturais", alguns de nós, estudiosos não-europeus de uma antropologia que nos nossos países geralmente anda ligada à história e à sociologia, pensamos que decisiva importância teria tido para o progresso das aproximações interdisciplinares no estudo de sociedades, como por exemplo, a Brasileira, uma compreensão menos tardia deste fenómeno por parte de não poucos cientistas sociais Ingleses e de outros países de língua inglesa em que os estudos sociais estão bastante desenvolvidos. Pela nossa parte sabemos, não só através do Professor Evans-Pritchard, mas também do falecido Professor Kroeber, que a "integração descritiva" é a aspiração dos antropólogos, dos sociólogos da História e dos historiadores sociais. Daí a nossa conclusão de que os estudos interdisciplinares - antropológos, sociológos, históricos - cujo objecto seja uma sociedade do tipo da brasileira, podem ser o caminho ideal, se bem que extremamente árduo, para alcançar, ou tentar alcançar, a compreensão deste género de integração. Deste modo, o estudioso deve ocupar-se do seu tema de modo criador, usando a experiência e a imaginação científica para reconstruir outros aspectos do passado social do grupo humano, de forma que a sua técnica ou o seu método se assemelhem à da novelística de tipo proustiano, quase científica, mas predominantemente humanística.

É já considerável o número de universitários, especializados nos estudos sociais, que estão de acordo neste ponto: os historiadores, os antropólogos sociais e os sociologistas preocupam-se com aquilo que um deles chamou "séries equivalentes de problemas que se projectam do presente para o passado". Deixou de haver fronteiras que os dividam em grupos fechados. Os especialistas absolutos estão tanto em declínio no vasto campo dos estudos sociais como nos demais campos da investigação científica e filosófica.

Os sociólogos têm muito a ganhar com o contacto com historiadores e antropólogos sociais. Os antropólogos sociais especializam-se na exploração de formas e problemas sociais que se deparam no mundo contemporâneo nas chamadas "sociedades primitivas", usando elementos que, sendo antropológicos, são semelhantes aos da "história escrita". Com estes antropólogos podem os sociólogos e os historiadores descobrir novas perspectivas para a compreensão do presente como história.

Se, no plano ideal, historiadores e sociólogos são "fungíveis", como alguns desejam, esta reciprocidade e cooperação deverá tornar-se extensiva aos antropólogos. Especialmente na análise ou no estudo de sociedades de um tipo cultural misto, como é o caso de algumas sociedades modernas, entre elas a brasileira.

É talvez por isso que, durante anos, alguns cientistas sociais brasileiros foram acusados por vários dos seus colegas norte-americanos, demasiado académicos, de usarem métodos heterodoxos no estudo da sociedade brasileira e das sociedades luso-africanas. Esta falta de ortodoxia metodológica era devida, principalmente, ao uso revolucionário, por parte de alguns investigadores brasileiros do desenvolvimento social ou da situação social do seu país de três vias de abordagem - histórica, sociológica e antropológica - nas tentativas de análise e explicação do desenvolvimento brasileiro no tempo e da sua situação no espaço. Pois se trata de um desenvolvimento e de uma situação que têm as suas origens imediatas - não remotas - não só em fontes civilizadas - Europeias e orientais - mas nas chamadas "primitivas"- Americanas e Africanas - num espaço largamente tropical e quase-tropical, onde esse desenvolvimento, embora essencialmente uno - um desenvolvimento brasileiro pan-nacional - seguiu ritmos regionais diferentes, de acordo com diferentes condições ecológicas - trópicos secos, trópicos húmidos, orla marítima, interior, montanhas - e diferentes predominâncias étnico-culturais: sul-europeias, norte-europeias, africanas, amerindias e diverso grau de miscegenação entre esses grupos.

Alguns dos ensaios escritos por modernos investigadores brasileiros, sobre vários aspectos desse desenvolvimento e dessa situação, podem ser considerados obras-primas literárias, e foram-no efectivamente por alguns competentes críticos estrangeiros. É o caso do famoso livro Os Sertões, de Euclydes da Cunha, escrito no princípio deste século. Mas quase todos estes estudos são o resultado de aventuras metodológicas em que a geografia, a história, a antropologia, a sociologia e a literatura estão presentes, com especial acento num ou dois desses aspectos. Esta combinação de pontos de vista chocou a princípio alguns especialistas estrangeiros de visão acanhada, embora deva notar-se que, hoje, mesmo nos Estados Unidos - onde, de certo modo, alguns destes cientistas sociais do século XX se tornaram quase fanáticos herdeiros do especialismo germânico do século XIX - a tendência dominante é no sentido de uma crescente interrelacionação entre os diferentes estudos sociais. É também verdade que, ainda há sete anos, um distinto crítico universitário do New York Times escreveu acerca de um livro brasileiro, que se inscrevia nesta tendência para a interrelacionação de pontos de vista e de métodos no estudo de sociedades nacionais do género da brasileira que "numa época em que a história, a antropologia e a sociologia afastam cada vez mais profundamente os seus caminhos (este livro) socorre-se de todas elas na sua investigação".

Deve notar-se que esta tendência para uma interrelacionação de pontos de vista tem vindo a acentuar-se cada vez mais não só nos Estados Unidos e no Canadá como também na Europa. Acerca de um recente Dicionário de Ciências Sociais, publicado em inglês e editado por Julius Grould & Williams I. Kolg (Tavistock) escreveu um sério semanário inglês que ele podia ser considerado uma espécie de guia convergente de tais tendências. Hoje toda a gente fala de "convergência". É a palavra mais usada para caracterizar o desejo actual de estabelecer uma estreita interrelacionação entre a sociologia, a antropologia social, a psicologia a ciência política e a economia. São numerosos os especialitas anglo-saxões destas matérias que podem considerar-se comprometidos naquilo que um deles descreveu como "um balanço crítico das contribuições do passado e uma sua organização criadora num sistema de análise mais satisfatório". Assim, o redactor do citado semanário, negando a existência de rígida compartimentação nas ciências sociais, defendida a construção daquilo a que Kal Manheim teria chamado um "dispositivo de defesa entre elas". Para estas tendências mais modernas de associar a ciências sociais isso não significa que umas devam absorver as outras: "são mùtuamente indigestas", como alguém disse com tanto humor como sabedoria.

Na ciência social aplicada, pode dizer-se ter havido uma antecipação brasileira em relação à mais moderna tendência europeia para considerar em conjunto as diferentes ciências sociais, com os seus diversos pontos de vista, no propósito criador de entender e interpretar certas situações brasileiras que, sendo complexas - por serem simultâneamente "civilizadas" e "primitivas" - não teriam sido compreendidas nem satisfatòriamente interpretadas a partir de um único ponto de vista: histórico, antropológico ou sociológico, como pretendem as formas europeias de considerar outras sociedades civilizadas ou primitivas.

Disse-se de alguns destes antropólogos, historiadores sociais e sociólogos de tipo misto, tanto brasileiros como estrangeiros, que eram meros romancistas frustrados. Foram criticados exactamente por aquilo que se considerou a sua quebra de ortodoxia metodológica. Mas, como escreveu um crítico, se - como costumam fazer os cientistas sociais demasiado ortodoxos - se considerar a cultura de uma comunidade com grandes preconceitos ou hipóteses, pode bem acontecer que tornem o investigador cego para a "verdadeira situação", ou, pelo menos, atrasem a sua descoberta dessa mesma situação.

Esta designação de "romancistas frustrados" atribuída aos antropólogos ou historiadores deste tipo é particularmente aplicada aos autores brasileiros de ensaios de carácter social. Um crítico francês, o Professor Roger Bastide, da Sorbonne, disse, não com intenção de crítica, mas procurando antes uma exacta caracterização do novo tipo de investigador antropo-social brasileiro, que este género de análise, sendo científica, é também humanística e pode descrever-se como "proustiana", devido à sua atenção aos pormenores significativos e a algumas das suas características psicológico-literárias.

É exactamente neste ponto que alguns antropólogos sociais como Euclydes da Cunha, Nina Rodrigues, Oliveira Viana, Roquette Pinto, Fernando de Azevedo, Sérgio Buarque de Holanda, Luís Viana, Amaro Quintas e historiadores sociais brasileiris parece terem dado, e estarem dando, uma não despicienda contribuição para estudos sociais integrados ou convergentes. Para eles, a melhor conexão entre os dados abtidos pelo esforço dos historiadores, dos humanistas, dos sociólogos e dos antropólogos sociais ou para "associar a vários espaços" - como diria Kroeber - parece ser a proporcionada pela História Social; e como tal de especial valor para o estudo, a análise e a interpretação de numerosos casos, através de pormenores significativos, do conjunto de uma cultura mista supranacional, como o conjunto socio-cultural luso-tropical (Brasil, África portuguesa, Oriente português, Cabo Verde) ou de um conjunto nacional, como a sociedade brasileira e a sua cultura. São efectivamente conjuntos em que os elementos "civilizado" e "primitivo" estão num constante processo de interpenetração e interrelação. Só através de uma pluralidade de pontos de vista - nomeadamente históricos e antropológicos - podem ser estudados de modo satisfatório.

Repito que algumas das tendências dos estudos sociais contemporâneos no Brasil foram, ou são ainda, nalguns pontos, uma antecipação das mais modernas orientações dos estudos sociais na Europa, nos Estados Unidos e no Canadá. Entre outros aspectos, levaram a uma aproximação entre a ciência social e as humanidades, a ponto de ser possível caracterizar tais estudos como "sociologia proustiana", "antropologia social proustiana" ou "história social proustiana". Conduziram também a uma aproximação entre três pontos de vista nos estudos sociais - o sociológico, o antropológico-social e o histórico-social. Tal tendência é, possivelmente, mais intensa no Brasil do que noutros países, onde nestes três géneros de estudos sociais se seguiu uma rigorosa e severa política de segregação.

Os modernos estudiosos, não só do passado social e da sociedade brasileiros, mas também de todo o complexo passado social e estrutura da zona luso-tropical, de que o desenvolvimento brasileiro é hoje a principal expressão, procuram considerá-los nos seus mais íntimos e porventura mais significativos aspectos. Pensam que lhes é possível analisar e interpretar estes obscuros aspectos de uma realidade sócio-cultural geral através de métodos que, sendo científicos - pelo menos no que respeita à ciência - podem também ser proustianos, não no sentido de terem algo da técnica romanesca, mas no sentido de serem empáticos como os historiadores e os antropólogos têm o direito de ser, ao identificarem-se com certas situações, desconhecidas na plena realidade que as torna reais, no essencial, através da reunião da maior quantidade possível de pormenores concretos, vivos, reais. É por isso que os modernos estudiosos desse passado e dessa estrutura recorrem intensivamente - num grau que provàvelmente nunca fora alcançado antes em partes alguma no estudo de uma sociedade mista, semi-civilizada, semi-primitiva - não só a documentos íntimos e pessoais, mas também a documentos aparentemente comerciais, como contas e anúncios, que na sua origem são também pessoais; e ainda a informações sobre o comportamento sexual e doméstico, que se encontram nos documentos da Inquisição e da Igrejá, onde há referências concretas e realistas aos mais secretos pecados dos colonos pioneiros do século XVI nas suas relações sexuais com as escravas, com as amerindias, com as negras recentemente chegadas de África, com animais; e também ao sincretismo do Catolicismo Romano com ritos judaicos e com práticas religiosas amerindias e africanas, algumas das quais ligadas ao sexo e ao amor, ao casamento e aos filhos.

Poderão acaso estes métodos de análise semi-históricos, semi-antropológicos, semi-científicos, semi-humanísticos, ser extensivos a outras sociedades? Em relação a sociedades em que há, ou houve, uma análoga interpenetração de raças e culturas, penso que sim. Um crítico cubano, que é também um marxistas de relevo, Juan Antonio Portuondo, mostrou o desejo de ver estes métodos brasileiros, algo proustianos, utilizados no estudo de outras comunidades latino-americanas, além do Brasil. Alguns outros historiadores, antropólogos e sociólogos anglo-americanos exprimiram o mesmo desejo relativamente a certas áreas dos Estados Unidos, cujas condições ecológicas e experiência histórica as tornavam semelhantes às zonas tropicais ou quase tropicais da América em que se processou a colonização Portuguesa ou Ibérica.

Outros críticos manifestaram as suas dúvidas sobre o possível valor universal de tais métodos, objectando que, se eles efectivamente são proustianos, como outros críticos afirmam, são literários e não científicos, embora se haja dito do próprio Proust que era simultâneamente científico e poético no seu processo de análise dos mais secretos e íntimos aspectos do comportamento humano. O problema respeita - diga-se uma vez mais - às relações entre ciência social e humanismo: um tema que é hoje objecto de frequente discussão e intenso estudo entre os cientistas e os filosóficos sociais da Europa, dos Estados Unidos e do Canadá. Na Europa desenha-se também uma tendência, entre modernos sociólogos como o Professor Jean Duvignaud, de França, no sentido de admitir que não necessários novos pontos de vista, nos estudos sociais, para a análise e interpretação de situações não-europeias.

Outro moderno antropólogo social, o Professor anglo-americano Robert F. Spencer, notou há alguns anos, num ensaio sobre "As Humanidades na Antropologia Cultural", que, se a antropologia e as humanidades se interessam pela mesma espécie de fenómenos, "à intimidade que pode existir entre elas deveria ser dado o seu próprio lugar, não podendo ser ignoradas por mais tempo as vantagens que advém para a antropologia de uma estreita associação (com as humanidades)". E acrescenta: "tal como o historiador, o antropólogo tenta alcançar uma "integração descritiva", no sentido que lhe deram Evans-Pritchard e Kroeber". Consequentemente, e porque tem em vista compreender o comportamento cultural, a antropologia, embora sem deixar de ser uma ciência empírica, deve utilizar todos os métodos de que possa dispor. É exactamente o que há mais de trinta anos vêm fazendo alguns investidores brasileiros.

Os modernos antropólogos europeus e anglo-americanos que estão utilizando em relação a culturas civilizadas ou mistas métodos que antigamente se aplicavam apenas às culturas primitivas usam técnicas de que já há longos anos os seus colegas brasileiros, num caminho ousado e pioneiro, se vinham socorrendo. Estes pioneiros parece terem-se antecipado aos mais famosos antropólogos europeus e anglo-americanos na "sondagem" da cultura com que trabalham, como antropólogos de campo, e, nalguns casos, no emprego das "mesmas formas de percepção usadas pelo crítico literário ou pelo artista" cujo uso alguns modernos antropólogos anglo-americanos, como o Professor Spencer e sociólogos europeus, como o Professor Duvignaud, reputam legítimo. "Assim como o humanista tenta descobrir os motivos do Dom Quixote, aspirar o seu perfume, e apreciar e valorar o universo de Cervantes, também o antropólogo procura mergulhar numa sessão de feitiçaria ou nos cantos populares e sondar as suas implicações". O Professor Spencer foi bastante arrojado ao escrever isto. Admite, pois que tentando obter, como os modernos antropólogos, "um maior grau de objectividade na busca dos factos relacionados com outras culturas" de facto e na prática, quando defronta novas "situações" dispõe apenas do "seu Juízo crítico" e das "suas percepções intuitivas". As situações não-europeias, como a brasileira, são decerto novas situações para um antropólogo, um sociólogo, um economista ou um cultor da ciência política.

Além da sociedade brasileira, há outras cujo imediato passado é tanto um passado etnológico ou antropológico como histórico, pois é o registro da experiência de um grupo ou de uma cultura que é combinação de elementos civilizados e de elementos primitivos. É não só o caso do Brasil, mas também o de Cuba, da Venezuela, do Perú, do Paraguai, de Angola, de Moçambique, de Cabo Verde: sociedades euro-tropicais cujo passado é misto, parte histórico, parte etnológico; e cuja actual situação social é também mista. Durante muito tempo, o grande erro dos historiadores e sociólogos foi o de abordagem o passado social, a estrutura social ou a situação social de um conjunto muito complexo - como, por exemplo, o brasileiro - como se se tratasse de um passado puramente histórico ou de uma situação ou estrutura puramente civilizada, apresentando aqui ou ali um ou outro problema etnográfico que não efectavam, no entanto, aqueles esquemas nem eram considerados suficientemente importantes ou significativos para ser tomados em consideração na análise e interpretação do essencial dessa realidade complexa.

Nos últimos quarenta anos, fizeram-se, e estão-se fazendo, no Brasil, - como contribuição dos estudiosos brasileiros do Homem tropical para uma ciência geral do Homem - tentativas de combinar e interrelacionar os métodos da Antropologia, da Sociologia e da História - da História Social, incluindo a História Económica - para o estudo não apenas do Brasil, separado de outros sub-grupos que integram o complexo sócio-cultural luso-tropical, mas do Brasil em conexão com Portugal, o Oriente português e a África portuguesa; do Brasil como variante da civilização europeia; e, também, para o estudo do passado social brasileiro, tanto antropológico como histórico; e para o estudo da estrutura brasileira como um todo: um todo em que os chamados elementos primitivos estiveram ou estão, social, cultural e psicològicamente presentes, debaixo ou ao lado dos elementos civilizados; ou fundidos com eles. Esta fusão, entendida mais do que como pluralismo étnico ou cultural, como coexistência paralela de sub-grupos étnicos ou culturais quase independentes dentro de um grupo nacional ou transacional, foi, e afigura-se a alguns de nós ser ainda característica particular do tipo luso-tropical de interrelação étnica e cultural: um tipo de que o Brasil é, presentemente, uma vigorosa expressão.



Fonte: FREYRE, Gilberto. Novos métodos para novas situações: uma antecipação brasileira nos modernos estudos sociais. Espiral. Lisboa, n. 3, v. 11-12, p. 55-63, out. 1966.

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