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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Periódicos Científicos  



A PROPÓSITO DE REVISTAS


Nenhuma cultura ou ciência ou arte ou pensamento moderno pode ser separado, quando mais significativo, de revistas que os anunciem, revelem, registrem, comentem, como órgãos intermediários, que são, entre o jornal e o livro. No ritmo em que vivemos atualmente, o livro nem sempre supera a revista em importância; é por vezes superado pelo que em revistas como Diogéne, de Paris, Daedalus, de Boston, Eco, de Bogotá, Cultura, de Brasília, Cultura, do Rio de Janeiro, é antecipação. Antecipação que se faz notar de modo especialíssimo nos ensaios que, sobre política internacional - rumos, tendências, motivações - aparecem na excelente publicação que é Foreign Affairs, antes de surgirem em livros; ou nos estudos, igualmente notáveis, que são publicados nos Cahiers internacionaus de Sociologie, de Paris, ou em Man, de Londres, meses e até anos antes do seu desenvolvimento ou da sua consolidação em livros.

A importância da revista como expressão e veículo, e não apenas antecipação, de renovação de cultura - inovação artística ou literária ou científica - é de importância agora imensa. Mas vem de longe. Quem pode separar o desenvolvimento da cultura brasileira das revistas em que escreveram Machado de Assis - que foi até jornalista, ligado a diários, e não apenas colaborador de revistas - Castro Alves, Taunay, Joaquim Nabuco, José Veríssimo, Romero, Eduardo Prado, João Ribeiro, Clovis Bevilacqua? Quem pode separar esse desenvolvimento, da Revista Brasileira, durante anos dirigida por esse crítico arguto e honestíssimo, nas suas opiniões e nas suas atividades, que foi José Veríssimo? Ou da dirigida em Nova York por José Carlos Rodrigues? Ou da Revista do Brasil, quer na fase Monteiro Lobato - esse inesquecível renovador das letas nacionais - quer das fases Rodrigo M. F. de Andrade e Octávio Tarquino de Souza? Ou da revista Estética, dirigida no Rio da famosa década 20 pelos então jovens Prudente de Morais Neto e Sérgio Buarque de Hollanda? Ou da excelente revista de cultura que a Prefeitura da cidade de São Paulo publicou, durante anos, sob a direção ou inspiração de Mário de Andrade? Ou, em Pernambuco, da revista O Progresso, da primeira metade do século passado, dirigida magistralmente por A. P. de Figueiredo e na qual colaborou o extraordinário Vauthier, arquiteto do Teatro Santa Isabel, urbanista, construtor de estradas, socialista forrierista? Ou da revista Acadêmica, de Frota Vasconcelos? Ou das Revistas dos Institutos Históricos, das Faculdades ou Academias de Medicina e Direito? Ou da Evolução - do Recife - onde colaborou o injustamente esquecido Leal de Barros, ao lado de Raul Azedo, Joaquim Pimenta, Hersílio de Souza? Isto para recordar apenas algumas. A história da cultura pernambucana diz cultura brasileira numa das mais pioneiras, das mais constantes e das suas vigorosas expressões - é inseparável da história de suas revistas. História que ainda não foi feita. Inseparável dela é também a quase revista O Carapuceiro - esta já considerada, em páginas inteligentes e eruditas, pelo Professor Waldemar Valente. Também história, no sentido de clássica, é a publicação que dirigiu em São Luís do Maranhão o misto de sábio e de jornalista, que foi João Francisco Lisboa.

Grande parte do desenvolvimento cultural do Rio, ou de S. Paulo ou do Recife, em particular, do Brasil, em geral, está em revistas. Em revistas e em jornais com alguma coisa de revistas na atenção dispensada a assuntos intelectuais, artísticos, científicos: um desses jornais, o ainda vivo e atuante Diario de Pernambuco, nascido no remoto ano de 1825 e onde hoje esplende a alta vocação de ensaista de Renato Campos. E onde colaboraram, com verdadeiros ensaios, A. P. de Figueiredo, o Visconde de Santos Tirso, Alfredo de Carvalho, Oliveira Lima, Artur de Orlando, Aníbal Fernandes, Olívio Mantenegro. É uma tradição essa, que a revista, a aparecer breve, da Prefeitura do Recife vai continuar de modo honroso para a administração Augusto Lucena. Aliás, já vem sendo continuada, de maneira igualmente honrosa, para o Recife, pelas revistas da Universidade Federal de Pernambuco e do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais. A primeira, Estudos Universitários - a que tanto se dedica o poeta-crítico César Leal; a do Instituto, prestes a aparecer sob novo aspecto e a intitular-se Ciência e Trópico. Se continuar a aparecer semestralmente, como está projetado, sob esse título novo e expresivo, essa publicação do Instituto - que também vem publicando livros - cumprirá, no Brasil, uma missão única: a de, com uma freqüência de que só as revistas são capazes, atualizar brasileiros, quer estudiosos, quer apenas estudantes, de Ciências do Homem, naqueles setores em que essas ciências tendem a desenvolver-se ecologicamente; e que, no caso do Brasil, é uma ecologia tropical.

Assim como precisamos, no Brasil, que as Universidades modernas se tornem centros, não só de ensino às gerações novas, mas de atualização, em plano já mais cultural do que didático, de saber, das gerações de maior idade - gerações cujo maior lazer as predispõe a essa espécie de atividade para elas tão lúcida quanto intelectualmente útil - precisamos de revistas, quer governamentais, quer particulares, que realizem essa atualização através da palavra impressa e por meio de uma dinâmica atualizante a que o livro, de mais demorada elaboração, não pode aspirar. Está certo, o Ministério da Educação e Cultura, por iniciativa do seu atual e eficiente chefe, Jarbas Passarinho, ao disciplinar o número de revistas ministeriais, reduzindo-as às essenciais e de alta qualidade. Nada, porém, de desconhecer-se o valor, a importância, a necessidade das revistas de cultura, além das técnicas e das educacionais, no Brasil dos nossos dias - inclusive as que sejam publicações do mesmo Ministério. Revistas que cumpram esta missão: a de atualizarem, pela palavra impressa - sem que se despreze o papel que, semelhantemente, pode e deve ser desempenhado pelo rádio, pela televisão, e pelo cinema - o saber de brasileiros, em diferentes setores de cultura, proporcionando também aos de maior idade - repita-se - formas altas de recreação, por vezes, terapeutica, dentro do seu crescente lazer.

A propósito de revistas particulares no País, destaque-se que vêm sendo publicadas, no Brasil, nos últimos anos, algumas de considerável interesse cultural. Dentre elas, o Caderno dos Moinhos (Recife). É hoje uma presença, na cultura brasileira, a que ninguém que se interesse por assuntos culturais, pode conservar-se alheio. O empresário Elemer Janovitz, tendo por assistente idôneo Carlos Leite Maia, é no seu setor, um exemplo. Um modelo, tanto quanto, em mais vasto setor - como homem público - o Prefeito Augusto Lucena. Ambos prezam seus deveres para com a cultura brasileira, em geral, nordestina ou recifense, em particular, através de iniciativas oportunas que se exprimam sob a forma de publicações, nem apenas oficiais, num caso, nem somente empresariais, no outro; e sim culturais.

Repita-se - a insistência se impõe - que muito do que há de mais significativo na cultura moderna, no Brasil e noutros países, está aparecendo, ou continua a aparecer, em revistas, antes de surgir em livros. A tendência - saliente-se mais uma vez - tende a acentuar-se. Quem considerar luxo dispensável ler revistas de cultura corre o risco de tornar-se inatual. A revista - vá o acacianismo - se antecipa cada vez mais ao livro.

O desenvolvimento da cultura - filosófica, sociológica, científica, literária, artística - sua dinâmica, sua atualização, suas antecipações seus experimentos seus arrojos projetados sobre o futuro, diga-se, mais uma vez, que estão, há mais de século, ligados na Europa, como nas Américas, a revistas. Mesmo as efêmeras têm sido atuantes. Mesmo as destinadas a pequenos públicos, dos chamados de elite, têm sido consideravelmente influentes. Mesmo as de jovens em guerra contra o estabelecimento ou aceito têm contribuído tanto para renovações culturais como as conservadoras, do tipo da francesa Revue des Deux Mondes - durante anos de irradiação da sabedoria, e não apenas do saber, sob tantos aspectos mestra sem igual da cultura que é a França - para estabilizações ou consolidações de valores. Estabilizações tão necessárias quanto as renovações.

Grandes foram os serviços prestados à cultura, do século XIX, através da língua inglesa, pela durante anos famosa Edinburgh Revista: famosa como expressão dessa que vem sendo, sob alguns aspectos, a maior civilização moderna do Ocidente - a britânica. Ou nos Estados Unidos, neste século, quer pelo Atlantic Montly, quer pelo American Mercury, animado pelo extraordinário espírito crítico de Henry L. mencken. Ou, ainda, em língua francesa, em dias não muito distantes de nós, pela Nouvelle Revue Française: foco da tanta renovação intelectual. Ou, em língua espanhola, com repercussão no Brasil, pela revista dirigida magnificamente, durante anos, em Madrid, por Ortega y Gasset.

A Revista de Portugal, dirigida por Eça de Queiroz, marcou toda uma época na cultura em língua portuguesa. O Brasil recebeu em cheio sua influência. O Eça dos artigos em periódicos não é menor que o Eça dos romances: é um verdadeiro ensaista - mestre do ensaio curto - e o ensaio não é menos importante que o romance ou que a poesia.

As Farpas não devem ser consideradas uma revista em que à crítica social juntou-se a graça, o vigor, a audácia da expressão literária, quer de Eça, quer de Ramalho? Foram todo um movimento renovador de cultura e até de estilos de vida, através de brilhos aparentemente efêmeros.

A Nação Portuguesa, orientada por Antônio Sardinha, a Seara Nova, de tendência oposta, ao pensamento de Sardinha, contribuíram ambas para o desenvolvimento, através de língua portuguesa, e com projeção sobre o Brasil, de perspectivas e de interpretações políticas novas dos valores nacionalmente portugueses, em particular, e dos humanos, em geral. Dos valores e dos destinos de Portugal e do mundo saído da Primeira Grande Guerra. De Portugal e do homem moderno: da sua projeção sobre o futuro sem desprender-se de todo do seu passado.

Precisamos de revistas que intelectualmente concorram, antecipando-se por vezes a livros, em abrir a brasileiros, novas perspectivas e novas interpretações de sua cultura e de sua própria vida e até de seu futuro. É o destino que prevejo para o ex-Boletim da Prefeitura do Recife - a que Cesio Regueira Costa soube dar virtude literária e primor de arte gráfica, na sua nova fase: a de revista. Graças a uma iniciativa feliz do Prefeito Augusto Lucena, deixa de ser simples boletim para começar a afirmar-se revista. Uma nova revista a serviço da cultura recifense, em particular, e da brasileira, em geral.

Que destino igual tenha o ex-Boletim do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, a aparecer breve - iniciativa também feliz do seu atual Diretor - sob a forma - repita-se - de revista. Revista reclamada pela cultura brasileira nos dias eminentemente ecológicos que o mundo atravessa, essa que vai aparecer com o nome de Ciência e Trópico.

A revista Kosmos não pode ser esquecida dentre as que contribuiram para o desenvolvimento da cultura brasileira. Nem podem ser esquecidas a Revista Nova (São Paulo), a Província do Rio Grande (Porto Alegre), a Revista do Nordeste (Recife) Klaxon. Várias outras revistas dos mais diferentes feitios deveriam ser recordadas. Revista Católicas, Arquivos maçônicos, Revistas espíritas, Revistas políticas, Revistas de províncias, Revistas da Corte e depois da Capital Federal. Revistas comovedoras, Revistas insurgentes, Revistas comerciárias, Revistas artísticas, Revistas de mestres, Revistas de estudantes, Revistas literárias, Revistas científicas, Revistas técnicas, Revistas efêmeras, Revistas duradouras.

Várias delas concorreram para acentuar tendências, vindas de várias fontes, na cultura e na vida dos brasileiros. Algumas surgiram, entretanto, para contrariar tais tendências. Ou para alterá-las. Houve choque entre algumas. Não raro houve revistas que tanto quanto jornais ou semanários se encresparam em publicações polêmicas.

O historiador que se dedicar a um estudo sistemático das revistas brasileiras, desde as mais remotas às mais recentes, fará obra de considerável amplitude quer para a classificação do desenvolvimento da cultura intelectual no nosso País, quer para a compreensão das relações desse desenvolvimento com outros aspectos da formação social ou socio-econômico do Brasil. Essas revistas não existiram em vão ou no vácuo. Corresponderam a anseios, a necessidades, a exigências, a urgências da gente brasileira: de grupos ou de sub-grupos dessa gente. Sua história é parte da história intelectual, em particular, e parte da história social, em geral, dos brasileiros.

Brasil Açucareiro figura entre as revistas brasileiras de vida mais longa, com altos e baixos na sua maneira intelectual de ser revista, com reflexos, nas suas diferentes fases, de deferentes orientações. Mas sempre valiosa pelo que nelas é documentação no setor da sua especialização. Documentação histórica. Documentação técnica. Documentação politicoeconômica. E à margem, alguma literatura - conto, crônica, ensaio literário - associada à civilização brasileira do açúcar.

O mesmo é certo de outras revistas de feitio semelhante, noutras especialidades, a Brasil Açucareiro. Só o fato de oferecerem ao historiador documentação de ordinário idôneo nesses diversos setores consagra-as como publicações valiosas do ponto de vista daquela história que se constitui em história através de captações menos do efêmero cotidiano - como fazem valiosamente os diários - do que de experiência mais duradouras de diferentes fases de desenvolvimento de uma cultura nacional em seus vários setores.

O Brasil esteve anos sem uma revista nacional de cultura que fosse, pelo que registrasse do conjunto de atividades culturais do País, um equivalente da Revista Brasileira a que José Veríssimo deu tanta dignidade e aspecto tão sério: quase sério. Mas nos últimos anos vêm surgindo, com aspectos novos, esses equivalentes ou quase equivalentes. E vêm aparecendo revistas especializadas em diversos setores de cultura, de nível consideravelmente alto. Exemplo; EXAME, especializada em assuntos econômicos de um modo que sendo sério não chega nunca a ser grave.

Há revistas que se extinguem - ou perdem o prestígio - constituindo-se suas coleções em verdadeiras preciosidades. A já referida Revista Brasileira, da fase José Veríssimo, é uma delas. Astlantic Montly é outro exemplo. La Revue, de Jean Finot, é ainda outro exemplo. Mais dentre as brasileiras: a Revista da Língua Portuguesa. A Revista Americana. A dedicada a assuntos internacionais sob a direção de Osvaldo Trigueiro. Isto sem nos esquecermos da famosa Review of Reviews, de Londres, de que o Barão do Rio Branco se serviu para, através de artigo assinado pelo próprio Steal, fazer propaganda da atuação de Ruy Barbosa em Haya; ou de La Chronique Medicale, de Paris - um primor no gênero - ou da revista do Museu Goeldi, na fase magnifica do próprio Goeldi diretor do famoso museu brasileiro. Preciosidade é também a já referida Revista de Portugal da fase de Eça.

Daí poder dizer-se que as próprias revistas das quais se pode dizer, brasileiramente, serem revistas de fogo morto valeram pelos artigos ou estudos que reuniram, como se continuassem a seu modo, vivas. Não são propriamente relíquias: têm a sua vibração. Apenas não correspondem àquele importante característico das revistas que é o de serem atuais, novas pelos conhecimentos ou saberes que transmitem, pelas aventuras intelectuais de descobrimento em que envolvem seus leitores, levando-os a mundos ainda desconhecidos ou pouco conhecidos, ou ignorados.

Serão as revistas mais intolerantes ou menos intolerantes do que os jornais? Creio que é mais rara a intolerância entre revistas do que entre os jornais. Pelo menos se me for permitido considerar como típicos dos dois meios de comunicação e de transmissão de cultura, os jornais e as revistas dos Estados através de minha própria experiência pessoal. Tenho casos impressionantes de intolerância - como isto surpreende e até espanta - da parte de jornais dentre os mais distintos dos Estados Unidos que tenho me enviado representantes para me entrevistarem, não publicaram as entrevistas por terem seus redatores-chefes ou diretores as considerado "reacionárias", isto é, por nelas ter o entrevistado dado expansão a idéias ou opiniões diferentes das dos mesmos jornais. Jornais - estes - aparentemente campeões ardorosos da "imprensa livre" e da "opinião independente", mas na realidade intolerantíssimos como aliás são hoje, noutros países, editoras conhecidíssimas - da Alemanha Ocidental, por exemplo, - que deixam de publicar traduções já realizadas de livros por elas solicitadas dos autores para publicação, por verificarem não serem os mesmos autores liberalóides. E não sendo liberalóides só podem ser reacionários. Não há, então, outra coisa a fazer senão rejeitá-los como nefandos.

Entretanto, dou este testemunho: conhecidas que são minhas atitudes e idéias - as quais me tornam inclassificável como liberalóide mas também como reacionário - fui já convidado para colaborar na revista marxista em língua inglesa Science and Sociely. Minha colaboração foi publicada tal como a enviei. E não tardaram seus diretores a solicitarem de mim nova colaboração. O que me parece um bom exemplo, da parte de diretores de revistas de hoje, a diretores de jornais e a diretores de casas editoras do tipo mesquinhamento intolerante a que acabei de referir-me.

No estudo histórico-sociológico que se venha a elaborar, de modo sistemático, da influência da revista no desenvolvimento da cultura brasileira - estudo que talvez possa ser empreendido pelo jovem sociólogo Carlos Azevedo, do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais - ao registro das revistas de origem e de feitio brasileiro, mais representativas de tendências significativas, que se empreenda, deve-se acrescentar este outro também sociologicamente expressivo: o das revistas estrangeiras de cultura que maior repercussão tem tido no Brasil desde que há entre nós uma inteligência já nacionalmente condicionada ou motivada embora, durante anos, após a independência política, colonialmente submissa, em grande parte; a modelos ou influências estrangeiras, inclusive os modelos e as influências a nós transmitidas por meio de revistas em línguas como a francesa e a inglesa, a portuguesa de Portugal e, a certa altura, em conseqüência do movimento germanista liderado, no Recife, por Tobias Barreto, em língua alemã. Também em língua italiana e em língua espanhola. Como nos esquecermos da influência sobre jurista e médicos legistas brasileiros de revistas italianas de criminologia?

Não haverá exagero em atribuir-se à Revue des Deux Mondes, o primado, durante anos - nos dias do Império - dessa influência. Tal revista representou, no seu setor - a revista geral de cultura - a sedução exercida pela cultura francesa - pela sua literatura, pelo seu teatro, pela sua medicina, pelas suas artes plásticas, pelo seu "espírito" - sobre a inteligência, a sensibilidade, o gosto brasileiro. O papel que desempenhou foi por vezes o de antecipar-se ao livro: o livro francês que durante anos, tanto dominou o Brasil. Livro e revista em língua francesa concorreram para deslusitanisar as letras, a sensibilidade, o gosto literário e artístico e também as maneiras, as modas de trajo, as inclinações por tipos femininos de beleza e de graça, entre os brasileiros, a decoração de suas casas, suas formas de móveis. E ente os elementos requintados da população, seu próprio modo de ser Católico, e de praticar os ritos Católicos e, a certa altura, de abandoná-los substituindo-os por um ceticismo elegante: o renaneano que tanta influência teria sobre Joaquim Nabuco. Já então o Positivismo Conteano seduzira não poucos intelectuais brasileiros - fazendo-os substituir seu Catolicismo de origem portuguesa ou de feitio italiano ou mesmo francês, pela "Religião da Humanidade", não faltando nesse setor, a influência de revistas francesas sobre os brasileiros. Sabe-se, aliás, - embora o fato seja pouco divulgado - que antes do Contismo ter repercutido no Brasil, através de publicações francesas, já aqui repercutira, o Fourierismo ou o Saintsimonismo. Já haviam feito sentir, os dois, essa espécie de influência francesa - a filosófico-social - sobre brasileiros. Do diário do engenheiro francês Louis Leger Vauthier, por min publicado - tradução de Vera de Andrade - através do então Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, consta ter o mesmo Vauthier conseguido, durante sua permanência no Recife (1841-1846), assinaturas de vários brasileiros ilustres para revistas Fourieristas que representavam interessante forma de socialismo com pretensão a científico, anterior ao marxismo judaico-alemão.

O estudo minucioso das revistas de outras origens européias que, juntamente com as francesas, embora sem o mesmo vigor, tiveram leitores ou assinantes no Brasil, que por elas foi influenciado, é um aspecto desse tipo de sociologia da literatura e da arte - a literatura transmitida pela revista por vezes em antecipação ao livro ou com mais extensa influência do que o livro - que precisa de ser analisado. Analisado e interpretado, de acordo com os diferentes tempos sociais vividos pelo Brasil.

Impossível subestimar a atual importância das revistas de arte - não confundi-las com simples revistas ou semanários ilustrados, raramente de alta categoria do ponto de vista estético ou intelectual - pelo que apresentam em imagens e corres, de valores ou de criações das mais altas significações. Que sirva de exemplo a revista polonesa Projekt, que, vindo de uma nação dentre as chamadas socialistas, nos traz, sob a forma de revista, uma mensagem de interesse artístico-Cultural, nas suas expressões visuais, inclusive cromáticas, a que nenhum indivíduo culto dos nossos dias pode ser indiferente. Pois através dessa revista, como que se apresenta um manifesto: o de que desenho, pintura, imagem, cor, são meios de crescente valor como expressão e comunicação de cultura, em vários setores superando os meios apenas gráficos ou literários, embora desses se possa dizer que, em não poucos casos, tendem a destacar-se como imagísticos ou pictóricos. Os Imagistas ingleses e americanos dos Estados Unidos da década 20 estão alcançando, nos nossos dias, não pequenas vitórias para o seu programa, naquela década, tido por contrário às melhores formas de expressão cultural que seriam as esmeradamente literárias e quase que apenas gráficas.

No Brasil de hoje já há uma revista de alta categoria cultural, Cultura, de Brasília, que tende a dar a imagens, que acompanhem textos literários, um valor superior ao de simples ilustrações pitorescas: fotográficas e mesmo não fotográficas. É uma tendência que deveria acentuar-se entre nós. Aliás, estamos necessitando de uma crítica de artes plásticas mais consciente do valor como que ultraplástico dessas artes ao darem movimento, além de cor, a imagens que são veículos de mensagens culturais cujas perspectivas excedem, por vezes, as transmitidas por meios rigorosamente ou literalmente gráficos. Cultura, de Brasília, poderia valorizar mais esse aspecto das modernas expressões culturais de revistas que, no caso de revistas - e outras publicações - está sendo enfatisado de maneira honrosa para a moderna ligação, no nosso País, de tecnologia com a difusão de artes, de ciências, de letras, de cultura em vários dos seus setores - inclusive no da culinária, no da decoração ou ambientação doméstica, no do jardim paisagístico.

O Brasil Açucareiro, revista que é órgão do Instituto do Açúcar e do Álcool, sem se limitar a ser publicação estritamente técnica, bem poderia desenvolver a importância que dá à imagem, ao desenho, à pintura de melhor categoria, não como substituto de fotografias na ilustração de artigos ou de ensaios, mas pelo que possam acrescentar a esses artigos e ensaios como expressões culturais, aliás note-se, de passagem que o atual Presidente do Instituto de Açúcar e do Álcool, Gen. Álvaro Tavares Carmo, é pintor bissexto. Capaz, portanto, de ser sensibilizado pela sugestão que aqui se faz, dado que sua compreensão do que seja arte é bastante ampla para permitir a sua consciência do valor sócio-cultural de expressões artísticas, a dinamização da revista do Instituto que dirige, neste setor: o da imagem singnificativa.



Fonte: FREYRE, Gilberto. A propósito de revistas. Brasil Açucareiro. Rio de Janeiro, n. 41, v. 2, p. 11-16, ago. 1973.

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