RECORDAÇÃO DE GILBERTO AMADO, O RECIFENSE
Gilberto, além de Amado por alguns, admirados por muitos, foi - e é - para nós, do Recife, tão nosso - tão recifense - como a Rua da Aurora; tão nosso como a Rua do Sol; tão nosso como a Praça da Independência; e, ainda, tão nosso como a Faculdade de Direito, como o Convento de Sto. Antônio dos Franciscanos, como a Igreja de São Pedro dos Clérigos, como o Teatro Santa Isabel.
Sendo o indivíduo individualíssimo, a pessoa personalíssima, a personalidade imperial que foi, não escapou ao destino daqueles grandes homens cuja grandeza transborda dêles, extravasa, tornando-os instituições. Foi uma instituição. Uma instituição universal; e, como tal, alternou entre a Europa e a América, irradiando, além de Direito, Compreensão Política entre as nações e exercendo, nesses setores, uma influência que nunca brasileiro algum exerceu igual ou semelhante: nem Ruy Barbosa, na Haya; nem Joaquim Nabuco, em Washington; nem Epitácio Pessoa, em Versailles. Uma instituição nacional - um pensador que se afirmou, desde jovem, pensando no seu povo, para o seu povo e sôbre o seu povo, seu pensamento completado por uma das palavras mais incisivas e mais literàriamente expressivas que já distinguiram um escritor da língua portuguêsa. Uma instituição recifense - pois êsse jurista-sociólogo de repercussão mundial, êsse pensador de significação nacional, êsse escritor que honrou, como artista literário, a língua portuguêsa, e não apenas o Brasil, não foi senão no Recife que, vindo de Sergipe, se formou; se definiu; se consolidou; se institucionalizou, sem perder, nessa institucionalização, a individualidade irredutível.
Foi no Recife que a sua carne de adolescente moreno e tropical, de provincianozinho de Sergipe, se fêz verbo; e aqui que seu verbo e sua carne se fundiram numa só e magnífica expressão de criador de beleza plástica e de idéias fortes não só em língua neo-latina, como em país americano e em terra tropical: língua, país, terra que se renovaram, e se revigoravam, com sua presença e sob sua ação de intelectual whithmaniano. Whithmaniano porque de qualquer dos seus livros maiores, seja de prosa ou de poesia, se pode dizer: quem toca neste livro, toca num homem!
Mas quem tocasse no homem que nêle dinamizou o intelectual não deixando nunca que sua criação literária se amesquinhe em beletrismo bisantinamente acadêmico, tocava num recifense. Em Gilberto Amado está entre êsses amados. É um amado do Recife um modo todo específico, recifense.
Não o digo, eu, suspeito de querê-lo mais recifense do que foi: são suas memórias que o proclamam. São suas memórias whithmanianas que o dizem. São elas que dizem: quem toca nestas páginas toca num homem formado no Recife!
Recifense cheio de amor pelo Recife, como o Recife poderia deixar de amar a Gilberto Amado, como a um dos maiores amados do seu coração? O Recife não sabe ser expansivo nem no seu amor nem na sua admiração pelos vivos que ama ou admira. É reticente. É esquivo. É songamonga. Tem a timidez do orgulho. Prefere homenagear os mortos da sua estima a glorificar os vivos da sua admiração. Mas êsse amor difícil do Recife pelos seus amados é intenso. Gilberto Amado está entre êsses amados. É um amado do Recife com A maiúsculo. Amado, querido, admirado por todo bom recifense que leu, ou ouviu ler, Minha Formação no Recife.
Por mim, recifense nato, êle foi recifensemente admirado desde o dia remoto em que o sacarrão do meu Pai - que perfeito recifense êle era! - me apresentou, em menino, a um Gilberto Amado já homem ilustre, à porta da Livraria Francesa, dizendo-me a meia voz: "é um grande escritor e como V., se chama Gilberto!"
Foi o primeiro outro Gilberto que conheci. O primeiro que admirei: antes de admirar Chesterton. Pois não tardaria que lesse, encantado, A Chave de Salomão; e confessasse ao velho Freyre o meu encanto por êsse outro Gilberto a quem êle me apresentara dizendo: "é um grande escritor!"
Que maior grandeza pode atingir um homem que a de um grande escritor? Talvez nenhuma. Desde o meu encontro com o ainda jovem e já escritor Gilberto Amado, êle foi quase tudo na vida: deputado, senador, embaixador, acadêmico, além de catedrático, de consultor jurídico, de jornalista dos maiores que o Brasil tem tido. Aos meus olhos, porém, sua maior grandeza continua sendo a que me fascinou, menino, logo depois daquela tarde em que o vi, mais apolíneo que dionisíaco, parado à porta da Livraria Francesa do Recife: a grandeza de escritor. A de autor de algumas das melhores páginas escritas na nossa língua. A de criador: criador de beleza. Provocador de reações. Abridor de caminhos.
Ao recordar-me do meu primeiro e distante encontro com Gilberto Amado, recordo-me, também, de outro, menos remoto, quase recente, não no Recife e perto do Capibaribe mas em Paris e à margem do Sena. No também nosso Paris e à beira do também nosso Sena. Caminhávamos pelo cais, felizes por termos almoçado alegremente juntos depois de alguns anos de separação, êle, ditatorial e arbitrário, escolhendo os pratos e os vinhos num velho restaurante seu conhecido. Felizes por estarmos mais uma vez juntos; e juntos em Paris; e, felizes, ainda, por mais uma vez verificarmos nossas afinidades profundas, entre divergências sinceras. E de repente aproximou-se de nós um adolescente de olhos grandes e de cabelos louros, a nos perguntar que caminho devia tomar para o Odeon. Era um escandinavo: belo, sadio, bárbaro. Gilberto Amado logo identificou no possível normando um estrangeiro pelo francês que falava. Indicou-lhe o caminho para o Odeon. Mas, às suas palavras de guia de rua, o jovem escandinavo quis de Gilberto Amado outras luzes. Sentiu no estranho um mestre e um guia de inteligência. Confessou que era Comunista; mas um Comunista incerto. E nunca vi um adolescente deixar-se fascinar tão depressa por um adulto em quem logo sentira um superior, um guia, um mestre, do que o escandinavo por Gilberto Amado, pela sua palavra e pelas suas idéias luminosamente helênicas. Esqueceu-se o jovem bárbaro do Odeon e creio que deixou, desde aquela tarde, de frequentar o Partido Comunista Juvenil. Assim - pensei - devia ser na Grécia antiga. A Grécia dos adolescentes iluminados pela luz do saber irradiado dos mestres peripatéticos.
Gilberto Amado, como escritor, como jurista, como jornalista, e não apenas como professor de Direito, foi, desde jovem, formado no Recife, um mestre peripatético no melhor e no mais alto sentido da expressão. Um mestre que mesmo caminhando por uma rua de Paris ou de Nova York, de Genebra ou do Rio, fazia discípulos, iluminava de repente adolescentes, helenizava mágica e lògicamente bárbaros que por acaso lhe dirigissem a palavra, lhe perguntassem um nome de rua, lhe pedissem a hora certa.
E bastava a sua maneira de indicar a um estranho uma rua ou de informar-lhe a hora exata, para que o estranho inteligente ou sensível se sentisse atraído pela luz do seu talento ou pela flama do seu saber. É assim que se afirma o mestre incomum: o que não procura discípulos e é descoberto, quando menos o espera, por discípulos sequiosos de mestres: de mestres incomuns que não pareçam mestres.
Vendo-o, como o vi, pleno de glória, aos oitenta e poucos anos, recordei-me, por vezes, de outro Gilberto Amado: o das nossas noites fraternas e sinistras de peregrinação pelas pensões de mulheres perdidas da Lapa e da Glória, bebendo uisque e às vêzes cognac, terríveis alienados, quase desesperados, mas sempre lúcidos na alienação e no desespêro, eu considerado por parentes seus "rapaz perdido", que não covinha a um até há pouco Senador da República ter por companheiro tão constante, enquanto o meu tio Juca advertia do Rio a meu Pai, recifense, que só podia prejudicar-me, a mim e aos meus, ser visto com tanta freqüência, noites altas e através de madrugadas boêmias, com um "homem perdido" como Gilberto Amado, segundo êle, se tornara, depois da chamada Revolução de 30. Homens considerados perdidos entre mulheres de fato perdidas fomos os dois durante meses, não nos perdendo, porém, e sim nos encontrando, no mais profundo de nós mesmos, descobrindo até onde iam nossas fraquezas e com que fôrças íntimas, pessoais e até cristãs podíamos contar para reconstituir o que, em nossas vidas se despedaçara, o que, em nossas fés, se partira, e, até, o que, em nossas esperanças, se fanara. Não tardou que Gilberto Amado escrevesse Eleição e Representação, reafirmando-se, embora decaído do poder, o admirável sociólogo da política dos seus primeiros e vitoriosos tempos de deputado federal. E quanto a mim, já naqueles dias sinistros começara, nas manhãs mais tristes da minha vida, numa pensão barata da Rua Paulo de Frontin, a escrever o meu primeiro livro com verdadeiras dimensões de livro. Respondíamos a nossas desgraças, fazendo de nossas angùsticas, não pròpriamente poemas, porém livros sociológicos - embora nem na sua sociologia nem na minha tenha deixado jamais de haver alguma coisa de extra e até de anti-sociológico. De poético no sentido mais largo da palavra.
Ao Recife, velha cidade brasileira de estudantes por vocação e por tradição, não poderia deixar de seduzir o que em Gilberto Amado foi mestre incomum. Mestre incomum que, aliás, está presente no escritor. Nos seus livros. Nos seus escritos. Na sua palavra escrita como na outra: na falada. Mestre - o perpetuado pelo escritor - que exatamente por ser incomum é sempre poético no seu modo de ser sábio. Nunca prosaico.
Gilberto Amado passou dos oitenta anos um mestre que não deixou nunca de encantar jovens e adolescentes, iluminando-os e esclarecendo-os. Porque êle próprio, foi já provecto, pelo espírito, um jovem que compreendia jovens.
As fronteiras que dividem gerações valem muito para as gentes medianas e pouco para os homens superiores. Não isolam um homem superior das novas gerações, como não o separam das vindouras. E Gilberto Amado morreu um imortal, não por ser da colenda Academia Brasileira de Letras, mas por ser Gilberto Amado e ter criado a obra que criou. Obra de beleza e de inteligência. Obra que começou a criar no Recife. Ao sol do Recife. A beira do Capibaribe. Nascendo de nôvo no Recife.
Compreendo que Gilberto Amado - brasileiro de Sergipe nascido de nôvo no Recife e, mais do que isto, um homem que envelheceu vencendo o tempo e nascendo de nôvo tôda manhã, tôda manhã amanhecendo para a vida - lamentasse por vêzes que seus livros, esgotados nas livrarias, não estivessem sendo "reeditados regularmente". Queixava-se do seu e meu amigo José Olympio que até certo ponto merecia ser advertido dessa incúria, muito menos dêle, sempre admirável em suas relações com os escritores mais autênticos no Brasil, que da editôra, por êle criada, e hoje complexa e grandiosa. As editôras são como os jornais: quando crescem muito, tendem a quase matar, como indivíduos, não só os grandes editôres como os seus grandes editados. Os jornais, quando se tornam grandes emprêsas, tendem a tornar impossíveis os grandes jornalistas: os efetivos e os colaboradores. Só conheço uma exceção: a do extraordinário em tudo que foi, até o fim da vida, Assis Chateaubriand.
Justo o clamor, ainda em vida de Gilberto Amado, do cronista José Carlos Oliveira a favor da reedição dos livros esgotados de mestre sempre tão atual. Nas palavras de José Carlos: "Os jovens que hoje se acham dilacerados, à mercê de dois ou três extremismos, encontrariam na obra de Gilberto Amado um caminho nôvo e antigo - o equilíbrio que lhes falta, o bom senso, a equidistância, a paz". O cronista queria Gilberto Amado conhecido sempre pelos sucessivos brasileiros de vinte anos. Amor fácil, êste, bastante que os brasileiros de vinte anos tivessem - e tenham - constantemente acesso ao seu pensamento e à sua palavra. A sua palavra de pensador, de escritor, de artista.
Acesso ao seu pensamento e à sua palavra de jurista, de internacionalista deveriam ter, agora e no futuro, os brasileiros de tôdas as idades, através de uma obra de coordenação de suas intervenções nos debates da Comissão de Juristas da Organização das Nações Unidas que o Itamarati realizasse e divulgasse não só no Brasil como no estrangeiro. É o que um Rio Branco já teria feito. Êsse Rio Branco tão boêmio na sua mocidade de Juca Paranhos e tão organizador na sua idade madura: organizador de um Itamarati a serviço não só da política como da cultura brasileira.
Boêmios como fomos, um tanto à maneira de Juca Paranhos, Gilberto Amado e eu, durante o tempo em que, mais de uma vez, amanhecemos em bars do Rio de Janeiro, bebericando uisque e conversando os dois, ou ouvindo confissões de gente estranha, aprendendo com estranhos, recolhendo de personagens noturnos pedaços de seus pequenos romances, é interessante esta nossa outra afinidade: a de religiosos. Religiosos sensíveis, ao nosso modo, aos próprios mistérios Católicos. Sensíveis, à nossa maneira, a ritos da Igreja. Sensíveis, também à nossa maneira, à sua liturgia.
Assunto que vem versado por Gilberto Amado em páginas que parecem arrancadas a um diário que fôsse a revelação de um místico ao modo de Pascal: místico por excesso e não por deficiência de lucidez analítica. Místico por transbordamento de razão filosófica. Místico por superação do raciocínio pela supra-raciocínio.
Padres e leigos semi-cultos que hoje, num Brasil a aburguesar-se não só no bom mas no mau sentido, estão querendo ser Católicos como certos Protestantes, isto é, deixando o Cristo, filho de Deus e igual ao Espírito, para se tornarem " unitários" e, até, simplesmente "humanitários", deveriam ler, reler e até decorar o pascaliano Igreja na Finlândia, de Gilberto Amado. Um dos ensaios mais profundos.
São páginas em que o grande escritor brasileiro conta como, estando na Finlândia, sentiu-se atraído aos poucos Católicos que ali então existiam - e existem, suponho, hoje - e iam à missa em igreja quase igual às catacumbas dos dias heróicos do Cristianismo. Como se obedecesse ao conselho de Pascal, Gilberto Amado insensìvelmente viu-se entre Católicos, participando de práticas Católicas, ouvindo missa, seguindo a interpretação Católica dos Evangelhos. É êle, como escritor, quem nos diz o que foi essa sua experiência de místico que se ignorava, que se desconhecia, que não se supunha de maneira alguma parente, mesmo remoto, dos Sãojoães da Cruz e dos Ramons Lulio. Êle que nos revela, em página surpreendente, essa aventura de latino desgarrado entre nórdicos. Nenhum brasileiro deve ignorar o ensaio Igreja na Finlândia de Gilberto Amado.
Latino desgarrado entre nórdicos, êle foi várias vêzes. É claro que latino cuja latinidade seja entendida antes como espírito, cultura, estilo de vida, forma de religiosidade, do que simplistamente como raça. Porque em Gilberto Amado cedo madrugou a intuição de que raça - o fato biológico - não é nenhum deus a que devessem ser feitos sacrifícios ou pelo qual se rejeitassem valores mais importantes, para o Homem, ou para uma nação, que os apenas étnicos. No autor de Grão de Areia cedo se definiu um pensador brasileiro da mesma tendência do grande José Bonifácio, com relação à formação e à política do Brasil: com a idéia de precisarmos de compreender essa formação como processo que vem juntando brancos, ameríndios e negros - seus sangues e suas culturas; e implicando, êsse processo; no reconhecimento do mestiço - o de branco e negro ou negro e ameríndio - como valor dinâmicamente, positivamente, criadoramente brasileiro; e não como a presença negativa temida por Euclydes da Cunha e, por vêzes, pelo próprio Sylvio Romero; nem o negro como o espantalho patológico que Nina Rodrigues nêle enxergou, do ponto de vista da formação brasileira, embora estudando-o através de um dos esforços mais ingentes de análise antropológica jamais realizados no continente americano; e nisto mostrando-se superior a êsse outro "arianista" temeroso de negros, em tempo retificado por mestre Roquette Pinto e pelo sábio Froes da Fonseca, que foi Oliveira Viana.
José Bonifácio - é pena Gilberto Amado não lhe ter escrito a biografia. Ao memorialista de primeira grandeza que se revelou já em idade provecta, autobiografando-se de modo magnífico, e retratando ao mesmo tempo tôda uma época significativa de vida brasileira, talvez pudesse ter se acrescentado o biógrafo do pensador-homem de ação mais digno da sua atenção intelectual, da sua interpretação sociológica, da sua consagração em obra prima de estatuária literária. O nosso - tão seu e tão meu - José Bonifácio - bem merecia a honra de ter sido biografado por Gilberto Amado.
Não faz muito tempo, erudito estrangeiro que, por vêzes, se volta para assuntos do Brasil, insinuou, um tanto levianamente, ter eu, no ensaio intitulado Casa-Grande & Senzala simplesmente seguido o alemão Von Martins na importância atribuída às três etnias - a branca, a ameríndia e a negra - na formação étnica e cultural do Brasil. Ignora êsse erudito ter essa importância sido destacada no século XVII pelo quase-sociólogo que foi, em algumas das suas páginas geniais, o Padre Antônio Vieira; que, no século XVIII, foi já orientação seguida pelo Marquês de Pombal, reconhecer o valor do mestiço brasileiro - pelo menos o chamado mameluco - e atribuir-lhe o máximo de dignidade; que no comêço do século XIX José Bonifácio traçou, incisivamente, o modo por que, independente o Brasil, se deveria não apenas acadêmicamente, escrever a história pré-nacional e nacional do país - considerando-se a fusão das três etnias e das três culturas - como continuar a fazer-se, a desenvolver-se, a viver-se essa mesma história.
Viver história e não apenas escrevê-la. Quem mais do que Gilberto Amado, no Brasil, viveu história? Que história não é passado adormecido ou aquietado no tempo mas experiência que se infiltra, viva, atuante, inquieta, no presente e se projeta sôbre o futuro. Assim foi para Gilberto Amado o passado brasileiro: história vivida, história vivente, história, como diria Vieira, futura.
Quem tocasse em Gilberto Amado não tocava apenas num contemporâneo mas num antecessor e num vindouro. Em Gilberto Amado os três tempos coexistiram sempre. Completaram-se.
São - repita-se - de seus vibrantes ensaios de mocidade - aquêles em que primeiro se afirmou sua vocação de escritor - lúcidas intuições: intuições que o separaram - a êle e também ao bom sociólogo e escritor medíocre, Alberto Tôrres - de eminentes intelectuais brasileiros, seus contemporâneos - um Euclydes da Cunha, um Nina Rodrigues, um Graça Aranha, um Paulo Prado, um Oliveira Viana, um Alberto Rangel, o próprio Sylvio Romero - para os quais a ecologia tropical e a mestiçagem brasileira se apresentavam, ora sempre, ora esporàdicamente, com aspectos antes negativos do que positivos da nossa situação na América ou no mundo.
Foram antecipações, essas, do intuitivo que em Gilberto Amado se harmonizou quase sempre com o lógico, que não podem ser esquecidas. Como não podem ser esquecidas as de Alberto Tôrres: o primeiro intelectual brasileiro que, no Brasil, se referiu aos estudos revolucionários do antropólogo Franz Boas, conhecidos também, com antecipação notável, por êsse outro admirável sábio que é o jurista-sociólogo e também escritor de virtudes literárias - Pontes de Miranda, sôbre as relações entre "raça" e ambiente. Não pode ser esquecido Gilberto Amado pelos antropólogos, geógrafos, biólogos, sociólogos, psicólogos sociais que, com a colaboração de outros homens de ciência e de estudo, e, também, de artistas e de beletristas, estão hoje empenhados, no nosso país, na ousada sistematização em ciência de indagações várias e dispersas sôbre a ecologia tropical, em geral, e a do Brasil, em particular, e, mais, sôbre os fenômenos de adaptação de populações humanas e de culturas - inclusive populações em grande parte, mestiças, como a do Brasil, e culturas também mistas ou várias nas suas origens - a ecologias predominantemente tropicais: o caso da população e da cultura brasileiras. Êsse esfôrço de sistematização - pelo qual se mostrou há pouco tão interessado o historiador-filósofo Arnold Toynbee - de estudos dispersos e de intuições pioneiras, numa possível Tropicologia, pensam alguns estrangeiros que marca uma das contribuições mais valiosas da cultura brasileira tanto às de ciências da Terra como às chamadas Ciências do Homem e aos estudos humanísticos: espécie de suma socio-ecológica que unisse essas ciências a êsses estudos em tôrno das gentes situadas nos trópicos. Gilberto Amado foi, de certo modo, desde a mocidade, senão um quase tropicólogo em potencial, um tropicalista.
Pertenceu ao número dos intelectuais difíceis de ser classificados. Porque tanto foi grande pelo seu saber de jurista - rival dos Teixeira de Freitas e dos Clovis Bevilaqua - como pela arte de escritor; tão mestre da expressão poemática como da prosa - tão difícil em língua portuguêsa; tão ensaista literário quanto ensaista sociológo. E seria indesculpável que, numa caracterização de sua personalidade de homem-orquestra, fôsse esquecido o romancista que se não criou, procurou criar no Brasil, um tipo de romance adaptado à expressão romanesca do lógico às vêzes completado pelo mágico que êle foi também nos ensaios e nos poemas. É uma obra de ficção, a sua, semelhante num ponto a de Balzac: por ser também sociológica.
Como sociológica foi sua aventura autobiográfica: a mais humana, e, talvez, a mais imortal - se assim se pode dizer - de quantas aventuras de inovador ou de renovador de gêneros literários e de especialidades humanísticas marcaram a sua vida de intelectual - acentue-se - whithmaniano. Porque ao retratar-se, Gilberto Amado se retratou homem de vários meios e de sucessivos tempos - notavelmente sua infância em Sergipe e sua mocidade no Recife - retratando também êsses meios - por vêzes até paisagens - e fazendo parar momentos expressivos dêsses tempos aos quais êle próprio dissesse, um tanto ao modo imaginado por Goethe: parem, não por serem perfeitos, mas por serem belos. Ou não por serem belos, mas por serem significativos.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Recordação de Gilberto Amado, o recifense. Revista Brasileira de Cultura. Rio de Janeiro, a. 1, n. 2, p. 131-139, out./dez. 1964.
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