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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Periódicos Científicos  



SE EU FOSSE EUROPEU E TIVESSE DE EMIGRAR DE PORTUGAL


Se eu fosse português-europeu, e tivesse vinte anos e me encontrasse em situação ou na necessidade de emigrar, penso às vezes que iria muito romanticamente para Timor. Mas o provável é que com lirismo e mais prudência, fosse para uma das Áfricas Portuguesas; ou então para o Brasil. Nunca - isto é certo - para a América do Norte; nem para a Argentina; nem para a Venezuela.

É que em qualquer desses países, eu temeria tornar-me ex-português; e ver o meu nome - João, por exemplo - caricaturado em "John" ou deturpado em "Juan". "Que há num nome?" pergunta-se no Shakespeare. Há muito. Os Joões deixam de ser Joões quando se tornam "Juans"; os Josés deixam de ser Josés quando se tornam "Joes". E é quase sempre o que acontece com os Josés e os Joões portugueses que vão de vez para os Estados Unidos, para a Argentina, para a Venezuela.

De modo algum, decidido a emigrar de Portugal, eu me deixaria seduzir por qualquer desses países, aliás admiráveis. Pois grande seria o meu temor de cometer uma espécie de suicídio sociológico, em que perdesse o nome, perdesse a língua, perdesse a personalidade portuguesa.

Tão grande como esse temor, seria meu gosto ou meu empenho em enraizar-se em terras de sol tropical que fossem já terras portuguesas; povoadas por portugueses; marcadas pela presença portuguesa na língua, nos costumes, nas formas das casas e das igrejas. Porque em qualquer desses terras, eu teria a certeza de continuar português, sem deixar de acrescentar alguma coisa de novo e de aventuroso à minha condição lusitana.

Eu me deixaria amorenar ou bronzear, no Brasil ou na África, pelo sol das manhãs tropicais, como por um velho Amigo da gente portuguesa. Amigo, simplesmente, não: Irmão. Irmão-Sol. De que outro povo europeu o Sol do trópico - o de Brasil, o das Áfricas, o do Oriente tropical - tem sido mais franciscanamente irmão do que do português? De nenhum. Eu concorreria para a continuação desse já antigo amor fraterno da minha gente com o Sol do Brasil ou com o Sol da África, que ilumina e fecunda terras há séculos portuguesas. Numa desses terras de Sol, eu trabalharia, fundaria família, cresceria, multiplicaria, sempre português no meu nome, na minha língua, no meu modo de festejar o Santo António e São João, nas minhas devoções, nos meus cantos de saudade, no meu gosto pelo vinho e pelo bacalhau, nas minhas esperanças, nas minhas ambições. Triunfaria - ou não - fiel às minhas raízes. Envelheceria leal às tradições da minha gente. E o que tivesse feito de novo, de arrojado, de grande, até, teria sido sem sacrifício algum do meu passado ao meu futuro.



Fonte: FREYRE, Gilberto. Se eu fosse europeu e tivesse de emigrar de Portugal. Panorama. Lisboa, n. 6, p. 12, 1957.

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