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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Periódicos Científicos  



EM TÔRNO DO PROBLEMA DE UMA CULTURA BRASILERA


Acabo de receber de um jovem Brasileiro cuja inteligencia nada vulgar se volta para os estudos regionais de sociologia antropologica uma carta de que transbordam inquietações e duvidas. Principalmente esta: a de que o Brasil esteja desenvolvendo, ou venha a desenvolver, uma cultura original. O jovem e arguto estudioso de problemas brasileiros parece ser dos que pensam que cedo ou tarde acabaremos europeizados de todo: diretamente, pela Europa, ou indiretamente, pelo industrialismo norte-americano nascido na Europa: na Europa burguêsa e, como diria o Professor Patrick Geddes, paleotecnica, de que os Estados Unidos se tornaram no seculo XIX e no começo do XX o aumento grandiosamente patologico. Do modo que nosso esforço para nos desenvolvermos em cultura nova e, sob varios aspectos, extra-européia, resultará inteiramente vão; e certa a teoria dos supostos ortodoxos da sociologia que proclamam: fóra da Europa não ha salvação. Nem salvação etnica nem salvação cultural.

Os que desejamos que o desenvolvimento da cultura brasileira tome livremente aspectos extra-europeus, numa afirmação corajosa do que já denominei de vigor hibrido sociologico, não queremos de modo nenhum - fique este ponto bem claro - sacrificio de tudo quanto é valor europeu incorporado á nossa vida a substitutos extra-europeus. A cultura nova e, tanto quanto possivel, original que desejamos vêr desenvolvida no Brasil seria principalmente nova e original pela combinação e harmonização de valores de origens varias - amerindia, européia, africana, asiatica - dentro das necessidades e das condições do meio americano, em geral, e brasileiro em particular, e por obra e graça de cruzamento de sangues a interpenetração de culturas diversas, considerada a luso-cristã a decisiva, embora de modo nenhum a exclusiva. Não sendo nem o Cristianismo nem a cultura iberica creações ou expressões caracteristicamente européias mas, em muita coisa essencial, extra-européias, daí resultaria o primeiro ponto de apoio firme ás pretensões extra-européias das culturas hispanoamericanas, em geral, e da brasileira, em particular.

Aí fica o problema nos seus termos gerais. Resta saber: será possivel aquele desenvolvimento de sobrevivencias uteis e de valores ativos de culturas de origens varias, em combinações e harmonizações novas que correspondam a condições e necessidades brasileiras de meio fisico, de meio bioquimico e de meio social? É pergunta que só terá resposta menos astrologica e mais cientificamente sociologica, depois de sabido ao certo o resultado da guerra em que atualmente se decide, entre outras questões formidaveis, a do primado europeu de economia, em particular, e de cultura, em geral. Primado europeu que até hoje tem significado o primado da Europa ocidental já comprometido, aliás dentro do proprio continente europeu, pelo surto surpreendente da força russa: da sua técnica ao lado de sua mistica. E a essa mistica repugna o imperalismo economico que, por largos seculos, tornou a hegemonia da cultura da Europa - enriquecida politica e técnicamente pelos Estados Unidos - uma especie de dogma de infalibilidade: a infalibilidade não de Roma catolica - que como tal é supracontinental - mas da Europa ocidental.

O jovem que acaba de me escrever destaca os reflexos, em nosso meio, da mistica, hoje em crise, de Progresso industrial sobre base capitalista a que por tanto tempo em parece ter estado associado a outra: a mistica da Europa como unica fonte de cultura capaz de alimentar e nobrecer povos da America. Tanto que estes deveriam obstruir todas as outras fontes de cultura, estancando quanto fosse sobrevivencia amerindia ou africana em sua vida, em seu sangue e em sua propria paisagem.

Contra esse ideal de exclusividade européia em nossa vida, em nossa cultura, em nosso sangue e em nossa paisagem vamos reagindo hoje, homens das gerações mais novas, nos varios países americanos tanto quanto na India, na China e nas terras coloniais e semicoloniais da Asia e da Africa mais diminuidas no seu vigor intelectual e moral, politico e economico pela mistica de superioridade absoluta da Europa. Os estudos antropologicos e sociologicos realizados nos ultimos trinta ou quarenta anos - estudos, destaque-se o paradoxo, desenvolvidos em grande parte á sombra dos proprios poderes imperialistas - veem dando aos povos extra-europeus novo sentido de dignidade - baseado na ciencia - de sua condição biologica, social e de cultura. Condição desprestigiada por sociologos de duvidosa idoneidade cientifica, como o francês G. Le Bon, cujas escritas tiveram por algum tempo larga divulgação nas Americas espanhola e portuguesa.

O jovem Brasileiro cuja carta venho comentando parece ser tambem dos que não vêm grandes possibilidades do Brasil afirmar-se em cultura em varios aspectos extra-européia, semelhante á mexicana. Tantas seriam as evidencias de que nossas ainda ralas manifestações de americanidade creadora vão sucumbindo sob o dominio forte e solido de organizações empenhadas em conservar nosso status de colonia cultural da Europa que os vagos começos de cultura brasileira estariam condenados a desaparecer de todo.

Para o jovem Brasileiro preocupado com os problemas brasileiros de cultura e de antropologia, o caso de Ibiapina - pretêsto, ao seu vêr, de recente manifestação de odio não apenas politico e teologico mas cultural contra os brasileiros desejosos de um Brasil menos colonial [1] - se apresenta cheio de significados sociais. Ibiapina conseguira unir a energia brasileira, a pertinacia nordestina, o élan Bandeirante á causa da expansão cristã no Brasil esboçando uma formidavel organização de atividade catolica nos sertões do Nordeste, semelhante á de Dom Bosco e á dos Maristas. Atividade que seria desenvolvida principalmente por caboclos da terra da marca do proprio Ibiapina, por brasileirissimas senhoras que em vez de "madres", "irmãs-superioras" ou "conegas" se tornassem todas conhecidas por "mãis-sinhás" [1].

No fracasso da iniciativa heroica do padre Ibiapina, o meu correspondente parece vêr refletir-se a precariedade cultural do Brasil mestiço em face de uma Europa branca ainda imperialista nos seus designios e metodos; anciosa de conservarse senhora toda - poderosa do sistema brasileiro de educação, isto é, do que se póde denominar o sistema brasileiro de educação. De modo que estariamos nós - os brasileiros integral ou sociologicamente cristãos - sem meios de comunicar ás gerações novas a consciencia e o gosto dos valores, ou das combinações de valores, que nos são peculiares e o zelo pela identificação do catolicismo com as necessidades regionais do Brasil, com o folclore, com as tradições populares, com as condições tropicais do nosso país, sempre que essa identificação for possivel sem sacrificio para a ortodoxia catolica, isto é, para o que a ortodoxia catolica precisa guardar como conjunto de valores essenciais á Igreja. Essenciais á Igreja mas superiores a interesses e pretensões européias - nacionais, dinasticas ou continentais - de primado ou de exclusividade de dominio de cultura no mundo moderno. Inclusive a exclusividade na conservação ortodoxa da velha fé de origem hebréa "uma vez entregue aos santos"; e não aos europeus.

É claro que a cultura brasileira, como as demais culturas americanas, tem nos valores recebidos da Europa riqueza magnifica a ser desenvolvida de acordo com as necessidades e os interesses de cada provincia dentro das perspectivas cada dia mais largas que se abrem ao contacto das energias provincianas ou regionais de cultura com as ecumenicas. Mas sem que o contacto com a tradição européias signifique o sacrificio de espontaneidades regionais de desenvolvimento de cultura e de expressões de vida á exclusividade dos estilos e dos valores europeus.

Dos problemas brasileiros de antropologia, das questões americanas que pedem a orientação e o auxilio da antropologia aplicada para a sua solução ou tentativa de solução, seria erro grosso separarmos o problema da reforma do ensino. Não a reforma do ensino como a compreendem os pedagogos convencionais, fechados na sua pedagogia de gabinete e, quando muito, de laboratorio. Mas de reforma de ensino que se deixasse esclarecer pelos estudos de entropologia fisica e cultural das populações brasileiras e das areas americanas.

Os homens de responsabilidade intelectual e cientifica não desejam nem no Brasil nem nos Estados Unidos nem em país nenhum, que á guerra de hoje se suceda novo Versailles: um arremedo de paz, em vez de uma paz verdadeira. Uma falsa paz estreitamente politica quando os desajustamentos sociais e de cultura pediam então e pedem hore um esforço profundo de reorganização da Europa, a solução do problema das materiais primas e das colonias, uma reforma do ensino sob novo sentido de relações inter-humanas o inter-regionais, o esboço de federações antes de cultura que de raça e de democracias antes sociais que politicas que na Europa, pelo menos, substituissem as estratificações de classe, de raça e de nação. Versailles, porém, primou em ser uma paz de politicos estreitissimos. Nem ao menos os economistas da visão cientifica de Keynes foram ouvidos. E quanto á antropologia - quem imagina um Clemenceau ou um Lloyd George, cada qual mais orgulhoso de sua sabedoria politica, da sua experiencia de demagogo, do seu realismo de homem de Estado, capaz de tomar lições de antropologistas, de folcloristas, de educadores?

Só o pequeno reino da Dinamarca, sentido que dentro dele e pela Europa inteira continuava a haver alguma coisa de podre depois de Versailles, intensificou desde então a obra de reorganização de sua vida, de sua economia, de sua cultura pelo esforço conjunto de seus homens politicos com seus homens de ciencia: inclusive os antropologistas, os folcloristas, os educadores. Daí o sistema novo de economia e, até certo ponde de organização social, ao lado da reforma de ensino avançadissima e sobre base cientifica com que se vinha democratizando e socializando o povo da Dinamarca quando as necessidades de guerra da Alemanha nazista a antingiram brutalmente. Ora, a reforma de ensino da Dinamarca é obra prima de ciencia e filosofia; de humanismo cientifico. Obra prima de que se destacam as escolas para os camponeses com um programa em que se junta ao ensino da agricultura e da criação de vacas e de aves o da historia, da poesia, da religião.

O exemplo dinamarquês se impõe tambem ao Brasil e aos demais países americanos, cujo sistema de ensino precisa de ser reformado não por pedagogos só de gabinete, mas sobre o conhecimento vivo e tanto quanto possivel exato da nossa situação antropologica - fisica, social e de cultura - e com o maximo de aproveitamento dos nossos valores tradicionais e populares. Inclusive a poesia do povo, sua musica, sua arte, seu folclore. Realisado esse esforço, teremos dado ponto de apoio firme ás pretensões de nos desenvolvermos em cultura sob varios aspectos extra-européia; e não passivamente sub-européia.

Notas

1. Refere-se á prisão, em Junho passado, do autor desta pequena comunicação na cidade do Recife (Brasil) por ordem das autoridades do Estado e, segundo se diz e parece, sob a pressão dos Jesuitas, muito fortes na mesma cidade, onde, apesar de serem todos estrangeiros, principalmente Portuguêses e Espanhóis, veem interferindo insolentemente na vida politica. O ponto de vista dos mesmos Jesuitas parece ser o que o autor diz corresponder á filosofia de que "fóra da Europa não ha salvação cultural". Com efeito parecem nitidamente contrarios a qualquer esboço de filosofia social que admita o direito do Brasil e dos países americanos procurarem desenvolver uma cultura sob varios aspectos nova, original e extra-européia. Esta idéia vem sendo desenvolvida pelo autor em varios trabalhos, não lhe parecendo haver incompatibilidade entre semelhante americanismo e o verdadeiro Cristianismo que não pode ser de modo nenhum uma expressão de exclusividade européia ou de primado europeu de cultura. Deve se dizer que os mesmos Jesuitas e os membros do governo do Estado de Pernambuco filiados á sua filosofia são simpatisantes do Falangismo e do proprio Fascismo, um deles tendo escrito violenta critica ás idéias do conhecido filosofo catolico Professor Jaques Maritain.
O Padre Ibiapina - objeto de artigo que serviu de pretêsto á prisão do autor - foi um padre brasileiro com vocação missionaira que fundou, em varios pontos do interior do Brasil, casas de ensino religioso e ao mesmo tempo agricola e industrial, adaptado ás necessidades regionais brasileiras. Infelizmente essa organização ou esforço não foi continuado, depois da morte de Ibiapina. Ultimamente verificou-se que varios padres e frades estrangeiros espalhados pelo Brasil como missionarios eram antes agentes politicos do que religiosos. Daí o autor ter oposto a estes o exemplo do referido Ibiapina.[voltar]

2. Espressão caracteristicamente brasileira na sua composição e nas suas sugestães. [voltar]



Fonte: FREYRE, Gilberto. Em torno do problema de uma cultura brasileira. Philosophy and Phenomenological Research. Buffalo, N.Y., n. 4, v. 2, p. 167-171, Dec. 1943.

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