UM ENCONTRO ENTRE DOIS EUS DE BRASILEIROS PREOCUPADOS COM A RENOVAÇÃO
DA LÍNGUA PORTUGUESA NO BRASIL
É curioso que, como estudante universitário
em país de língua inglesa, eu, ainda muito jovem - pode-se dizer que ainda
adolescente -, convidado por ilustre crítico literário dos Estados Unidos para
colaborar em revista cultural dessa língua e desse país, tenha escolhido para assunto,
Augusto dos Anjos.
Porquê Augusto dos Anjos? Porquê um
interesse de jovem, ainda tão jovem, por poeta brasileiro, então quase desconhecido,
como poeta, no Brasil e na língua portuguesa?
Seduzido por Darwin, pelo darwinismo, pelo
cientificismo, e obcecado, quase morbidamente, pela idéia de morte, Augusto dos Anjos
atraiu-me pela singularidade do modo que viria a chamar-se sociolinguístico de ser poeta:
a começar pela sua ostentação de um eu que, sendo o dele, era também um tanto
de outros brasileiros. Eu, o seu, não só singular pela idéia de morte pessoalmente
convivente com ele: com eu, com seu físico magro, anguloso, áspero, cuja sombra
imagisticamente o acompanha sempre, fazendo-se presente nas suas cogitações. Inclusive
pelo seu modo de procurar nova expressão literária para a língua portuguesa. Sinal do
que foi nele afã ou preocupação de audacioso criador de uma sociolinguagem. Singular
pela expressão verbal de um eu que, sendo carne, dependia do que nele fosse verbo
para sobreviver.
Não só pessoal e autobiograficamente voltado
para a morte. Augusto dos Anjos pareceu, à minha adolescência, um brasileiro
condicionado nos rumos, não só dos seus pés como nos de seus próprios olhares, pela
impressão de como que estar de facto caminhando para uma morte, se não próxima,
convivente. Rumo místico.
Isto de modo concreto, específico,
ecológico. Passos, os seus, por uma específica área recifense - era um recifensizado -
que sua poesia, a um tempo introspectiva e visual, imortalizou: a muito recifense Ponte
Buarque de Macedo. O rumo, o de uma também muito recifense e famosa Casa Funerária - a
dos Agra - situada em frente a Igreja e ao Convento dos Frades de São Francisco - a
lindíssima Capela Dourada, inclusive - e à Ordem Terceira dessa Ordem. Numerosos
jazigos, nas igrejas da Ordem dos bons frades, de recifenses dos de prol, sepultados em
recintos privilegiadamente sagrados na época em que esses sepultamentos elitistas eram
permitidos.
Continuemos, porém, a procurar fixar
pormenores fisicamente pessoais do poeta, antes de considerarmos o ineditismo do seu verbo
que suponho me ter impressionado de modo único, em dias de minha grande preocupação com
o assunto: uma nova expressão para o português literário do Brasil. É possível que
Augusto tenha conhecido numerosos jazigos recifenses: além do Convento de São Francisco
do Recife, os de outras igrejas de Pernambuco e talvez da Paraíba. Vim a visitar muitos
deles, ao procurar juntar impressões, ao lado de informes, sobre o, assunto - esforço em
que valiosamente me auxiliou o hoje mestre de mestres Edson Nery da Fonseca -, para livro
em que, dialecticamente, consideraria jazigos de gente socialmente importante, ao lado de
covas rasas de pobres sem eira nem beira. Assunto, o desse projectado livro - dele
desapareceu precioso material já reunido, em parte com a ajuda valiosíssima de Edson
Nery da Fonseca -, que talvez interessasse Augusto dos Anjos. Pois o livro devia incluir
reflexões de sobreviventes sobre mortos queridos, como, para Augusto dos Anjos, o
próprio pai.
Mas o inédito do verbo inovador?
Impressionou-me, no que lera, ao escrever aos vinte anos, quase adolescente, o artigo em
inglês para a revista dos Estados Unidos sobre o poeta quase ignorado, seu domínio, como
que pioneiro sobre consoantes. Consoantes que, numa língua caracterizada pela
predominância de vogais como a portuguesa, eram quase antinacionais. A isto é claro que
o levara seu cientificismo, ele próprio um tanto estrangeirado. A mim, na mesma época,
estava me levando a nova perspectiva da língua portuguesa, meu estudo universitário do
Anglo-Saxão. Assunto a que voltarei: a música não convencional das consoantes, a
preocupar-me, fora, também uma das opções lingüísticas de Augusto.
A época em que surgiu o Eu já se falava, no
Brasil, de uma <<poesia científica>>. O Positivismo comtiano levara um dos
intelectuais adeptos dessa filosofia, o notável brasileiro de Pernambuco Martins Júnior,
a concepção de uma poesia que, em vez de convencionalmente lírica, fosse inovadora,
lógica, racionalizante, em suas perspectivas, científica. Mas sem que os experimentos do
próprio Martins Júnior, nesse sector, se impusessem como verdadeiramente poéticos na
sua expressão. Nem em outras línguas, que não a portuguesa, vinham, se afirmando, como
poetas, experimentadores que pudessem intitular-se antecipadores de futuros poetas
científicos.
Entretanto, o facto é que o novo saber
humano, no Ocidente, como, em parte, uma das conseqüências da chamada Revolução
Industrial, a feição que vinha crescentemente tomando era a de um saber
transnacionalmente cientificizado. Cientificizada, em termos rigorosos, a Medicina.
Cientificizada, a Engenharia. Cientificizados estudos, outrora só humanísticos, como os
de Filosofia, os de Literatura e os de Arte. E até, com Renan, os de Religião.
O darwinismo, o spencerismo, o evolucionismo,
o ateísmo - o ateísmo quase sempre ligado a esses cientificismos - a triunfarem sobre
antigas concepções da origem do homem, da origem da vida, das origens sociais, das
origens culturais, das origens das instituições e dos sistemas de governo. Toda uma
revolução de concepções de vida e de cultura, a apresentar-se como científica ao
mesmo tempo que antiteológica, fazendo de crenças, de apreços e de considerações por
valores, atitudes que implicassem em ligações desses valores com origens vindas de
concepções apenas humanísticas ou teológicas, desprezíveis arcaísmos.
Isto, a despeito de Bergsons, Williams James,
Cardeais Newman, que não é de supor fossem do conhecimento de Augusto dos Anjos, nos
seus dias de estudante de Direito no Recife. William James foi conhecido, nessa Faculdade,
pode-se dizer que solitariamente, por Alfredo Freyre, meu Pai.
Tampouco é de supor que fossem do
conhecimento de Augusto dos Anjos obras de antropologia e de sociologia, além das do
francês Gustave Le Bon e do argentino Ingenieros, ambos medíocres no seu modo de ser
cientificistas. Nenhuma das que, já depois dos dias de Augusto dos Anjos, começaram a
ser antecipações da síntese que, como biólogo e como evolucionista, viria a ser
produzida, em termos modernos, por Julian Huxley: a evolução como ajustamento de vida a
uma variedade de condições e sua consideração dessas condições, através de uma
variedade de recursos ambientais. Correctivo a uma evolução de todo e imperialmente
uniforme. Admissão de divergências no processo evolucionário. Ou da chamada radiação
adaptativa. A comunicação desempenhando papel importante nessa radiação. E dentro
desse processo - o de comunicação - a linguagem. E dentro da linguagem, notavelmente -
esse <<notavelmente>> segundo Julian Huxley -, a poesia. O que implicava em
que, para biólogos evolucionistas, do tipo inovador, pudesse vir a desenvolver-se, entre
poesias, uma, da expressão de que seria pioneira a de Augusto dos Anjos.
O que críticos brasileiros, dos mais
convencionais da época de Augusto, como Osório Duque Estrada, consideraram, em sua
poesia, <<grosso cascalho dos exotismos estapafúrdios>>, pode ser visto, nas
palavras sobrecarregadas de consoantes, usadas pelo poeta inovador, como uma poesia que, a
seu modo, cientifica, não se harmonizava com a castiça e latinamente brasileira. Mas
ouvindo-se o justo reparo critico da Senhora Lúcia Helena, no seu recente e admirável Uma
Literatura Antropológica (Rio, 1983), de que a palavra de Augusto não deve ser
considerada <<científica>> como <<um conceito adstrito ao
verbo>>, tem-se de considerar essa perspectiva. Pois para Lúcia Helena o léxico
empregado por Augusto dos Anjos <<satisfaz a uma necessidade vital de sua
poesia>>. O factor vital a sobrepor-se à convicção científica. A poesia
transviando-se da ciência, ao mesmo tempo que procurando continuar a ser científica. Sem
que a ciência substantiva agisse de todo sobre o poeta transviado dela.
Actuou em parte. É evidente ter actuado.
Evidente ter orientado o poeta. Evidente ter sido, até certo ponto, Augusto dos Anjos
cientificizado. Se, como poeta, não deixou de comandar sua poesia, é que houve uma
superação do intelectual cientificizado pelo poeta superior ao intelectual dessa
espécie. Inclusive pelo que, nesse poeta, foi, a seu modo, escandalosamente moderno,
transmoderno até, renovador, sociolinguisticamente, da linguagem política. O que, a ser
exacto, daria à poesia de Augusto dos Anjos - sugira-se - importante expressão
classificável como sociolinguística: classificação só possível de, no livro Casa-Grande
& Senzala, ter surgido, em 1933, uma antecipação brasileira do que, em 1954, por
sistematização alemã, seria oficialmente uma ciência.
Moderno anterior aos modernistas da Semana de
Arte de São Paulo, é o que foi Augusto dos Anjos na sua linguagem. Moderno, pode-se
sugerir que ecologicamente recifense: sempre caminhando por algumas das pontes
características da capital de Pernambuco. Com afinidades com Martins Júnior e como uma
espécie de discípulo de um ignorado Leal de Barros: um recifense, antes do próprio
João Ribeiro, já conhecedor, sem sair do seu Recife, da psicanálise. E que era
violinista: sua forma de ser poeta, e que, como poeta, através do violino, foi criador
experimental de novos ritmos musicais ouvidos por seus íntimos. Novos e não
convencionais. Novos e inovadores. Capaz de quase dizer, em som de violino, o que Augusto
dos Anjos veio a dizer, de modo triunfal, em som por vezes quotidianamente apoético.
Equivalente de um pós-moderno dizer, ao explodir com um
Tome, Dr., esta tesoura e ... corte
Para Lúcia Helena, Augusto dos Anjos é para
ser considerado um antecipador dos considerados modernistas brasileiros - os de São Paulo
-, entre os quais os antropofagistas da corrente do inteligentíssimo Oswald de Andrade: a
antropofágica. Não só por ter dessacratizado o <<jargão romântico>> como
por ter ido ao ponto de escrever
Para desvirginar o labirinto
Do velho e metafísico Mistério,
Comi meus olhos crus no cemitério,
Numa antropofagia de faminto!
E Lúcia Helena argutamente repara em Augusto
uma utilização, pode-se dizer que de todo dele, de <<recursos impressionistas,
isto é, a coisa ou o it apreendido segundo a impressão provocada no observador>>.
Um processo impressionista de tal modo exacerbado que chega a <<predominar não a
impressão provocada mas a irradiação de uma visão expressionista que se projecta na
realidade captada>>. Note-se: <<uma visão expressionista que se projecta na
realidade captada>>.
Dizendo o que, a lúcida e actualissima
analista se dá conta de estar chovendo em terreno já um tanto molhado por analista
anterior. Já sugerida por outro a visão <<expressionista>> de Augusto. E
honra-me com uma citação, que muito me sensibiliza, de ter sido minha a antecipação,
quase remota, acerca do expressionismo da poesia de Augusto dos Anjos, ao lembrar, desse
expressionismo verbal, sua aproximação com o pictórico, que caracterizou, quando surgiu
entre moderníssimos artistas alemães de Munique: os da década de vinte. Expressionismo,
esse, alemão, descoberto para o Brasil, não por paulista da Semana célebre mas por
recifense a seu modo internacionalizado. Internacionalizado mas sempre brasileiro: o autor
de Casa-Grande & Senzala. O também antecipador, nesse livro, de uma ciência
sociolinguística que só apareceria formalmente - repita-se - em 1954.
Arte, a arrojadamente inovadora saída de
Munique no começo do século de que creio ter sido, na verdade, o primeiro brasileiro,
ainda muito jovem, a sentir a potencialidade e a juntá-la a outra inovação, dos mesmos
dias, de perspectivas capazes, as duas, de serem transferidas de artes plásticas para
outros sectores. Essa outra perspectiva, a imagista, de anglo-saxões, da qual pode-se
também sugerir haver antecipações, intuitivas e surpreendentes, no paraibano
recifensizado Augusto dos Anjos: no seu Eu. Imagismo que, entretanto, deixou de
sensibilizar modernistas paulistas que, adstritos a modernices francesas, ignoraram de
todo modernismos anglo-saxões e modernismos germânicos. Ignorados, esses modernismos,
por eles, mas não por recifenses de vanguarda da década de vinte.
Em 1922, encontrando-me em Paris, graças a
Vicente do Rego Monteiro, um desses recifenses - pena que Augusto dos Anjos não tivesse
tido contacto com brasileiro do Nordeste tão antecipador, quanto ele, em perspectivas
artísticas -, conheci dois dos futuros participantes paulistas da Semana de Arte de São
Paulo: Tarsila do Amaral e Vítor Brecheret. Assinale-se, porém, que nenhum dos dois,
sondado por mim, revelou o menor conhecimento daqueles dois inovadoríssimos ismos
europeus que, junto com Ulysses, de Joyce, atraíram-me como os mais potentemente capazes
de levar pensadores e escritores, e não somente artistas de várias artes, das plásticas
as musicais, a novas perspectivas de coisas e de gentes.
Compreende-se - perdoe-se a este analista
falar de si mesmo - que não viesse a ser, como brasileiro internacionalizado, mas sempre
brasileiro, tão sensibilizado, em profundidade, pela Semana de Arte de São Paulo de 22,
tanto quanto fora, um pouco antes da explosão dessa Semana, pela poesia de Augusto dos
Anjos: pelo que havia nela de uma nova linguagem poemática e não apenas de uma nova
visão poética de brasileiro. Linguagem sociolinguisticamente inovadora em língua
portuguesa. De onde ter eu escrito sobre Augusto dos Anjos, em revista norte-americana,
como poeta de uma marcante originalidade brasileira expressa nestes termos, nele
complementares: poemáticos e poeticamente filosóficos. Sociolinguísticos, como se diria
algum tempo depois.
Quando em 1977 apareceu o Eu em língua
espanhola, na muito brasileira colecção Iracema - em memória de José de Alencar,
indianista e notável abrasileirador, em termos literários, da língua portuguesa -, a
extraordinariamente inteligente Maria Julieta Drummond de Andrade, iniciando, com
tradução de Augusto dos Anjos, esse belo empreendimento cultural, apresentou Augusto
como <<poeta extrañamente original que ve a traves de las fuerzas disociativas la
imagen de la humanidad futura>>. O que, a ser exacto, o paraibano recifensizado
teria chegado à condição de pioneiro de uma mensagem de carácter universal.
O tradutor de Augusto dos Anjos para a língua
espanhola foi um intelectual argentino: Manuel Graña Etcheverry. Que diz Etcheverry do
por ele traduzido, e então quase ignorado brasileiro? Que era autor de <<versos
vibrantes, perturbadores, que tomaran por materia la muerte, la putrefacción, la
enfermedad asquerosa, en fin, todo lo trágico y repugnante de los fenómenos vitales
disgregativos>>. Ao que acrescentou o registro da atitude do então considerado
príncipe da poesia brasileira, Olavo Bilac. Ao tomar conhecimento de versos, para Bilac,
tão apoéticos, <<[...] hizo bien en morir>>.
A verdade, porém, é que vem se sucedendo,
nos últimos anos, edições de Eu e ocorrendo a superação de Bilac por ele como grande
poeta brasileiro. Não tem sido raros, em anos recentes, reexames e novas
caracterizações do autor de Eu. Inclusive a notável tese, A Cosmogonia de Augusto dos
Anjos, da já citada com admiração Professora Lúcia Helena, da Faculdade de Humanidades
Pedro II, do Rio de Janeiro.
Reexames e novas caracterizações, além de
estéticas, sociofilosóficas, do poeta inovador. Caracterizações destacadas pelo
intelectual argentino e tradutor de Eu para a língua espanhola, como sendo a de um poeta
<<épico dramático>> e, como tal, <<fruto de la tensión entre el caos
(principio de desagregación) y el cosmo (principio de agregación)>>, com uma
<<intuición monistica>>, a caracterizar o que, nos poemas de Augusto, o
crítico argentino destaca como, além de <<fusión de lo perene y de lo,
transitorio>> [...], <<constelación de fuerzas (los ejes de tematizatión),
que se entrecruzan a largo de toda la obra>>, <<da creación>>
representada principalmente <<por la imagen del telus, del humus e del Arte>>.
Imagismo do mais incisivo, portanto. Eu <<seria así un cuestionamento poético en
que se inbrican una aguda conciencia estética y un contenido repensar del escenario
humano>>. Note-se virem ocorrendo ultimamente identificações de tais poetas
autênticos com a maneira poemática de Augusto dos Anjos, e que um deles, dentre os mais
notáveis, surgiu há pouco falando como se pela sua boca e pela sua voz falasse o
próprio Augusto.
Ao que se acrescente, repetindo-se
observação já anotada, ter a Professora Lúcia Helena concordado com o talvez primeiro
analista a destacar, como estudante brasileiro, ainda adolescente, no estrangeiro, a
originalidade e a importância de Eu, como apresentação intuitivamente expressionista e,
como tal, pioneiramente modernista, de temas ligados a morte, sem lhe faltar sentido,
além de brasileiro, telúrico, ecológico, criativo. O expressionismo de Augusto dos
Anjos, intuído por adolescente brasileiro, quando ainda estudante universitário nos
Estados Unidos, muitos anos antes de vir a ser reconhecido por critica literária ilustre.
De onde poder dizer-se haver, em Eu, resposta
especificamente brasileira - telúrica e criativa - àquele desafio que a morte representa
para as filosofias, para as ciências do Homem, para as artes. Poderia ter sido referida
por Jacques Choron no seu Death and Western Thought (N. Y. - Londres, 1983), onde
as respostas a desafio tão pungente incluem, dentre as modernas, além do brado poético
de Federico Garcia Lorca, <<yo quiero que me enseñen donde está la salida para
este capitán atacado por la muerte>>, reflexões as mais diversas: desde a de
Nietzsche à de Heidegger. Entre elas, a do existencialista católico, de minha particular
estima pessoal, com quem em Paris conversei sobre Augusto dos Anjos: Gabriel Marcel. De
onde o coordenador das aludidas respostas ter chegado a uma conclusão que talvez pudesse
incluir a de Augusto dos Anjos em Eu: a de poder-se contar com uma <<visão do drama
cósmico que dá às mais humildes vidas um sentido que as coloca além dos desgastes do
tempo. Do tempo e da morte>>. Não estará essa <<visão do drama
cósmico>> presente naquele Augusto dos Anjos em quem o tradutor argentino encontrou
até um antecipador da <<imaginação filosófica>> de Teilhard de Chardin?
Talvez se possa dizer da linguagem de Augusto
dos Anjos que ainda espera por uma, em termos especificamente estéticos, análise mais
profunda. Porque, tendo sido uma linguagem sobrecarregada de projecções de ciência
sobre expressão poética, teve que ser aparentemente quase apoética. Mas com o poeta
bailando - destaque-se - um novo tipo de ballet sociolinguístico em língua portuguesa.
Assim, quando fala do espaço como abstracção spenceriana, ousa fazer, não do
spencerismo, mas do próprio Spencer um como que comparsa do seu remexer de ossos não de
particulares mas de toda a espécie humana. Fala de <<psicoplasmas>>. Fala de
<<filostomo ávido nocturno>>. Fala de <<blastodermes>>. Cria nova
linguagem poética com esses arrivismos verbais. Com esses monstruosos novo-riquismos
verbais de origens inovadoramente científicas. Novas rimas. Novos ritmos. Novas
combinações musicais em língua portuguesa. Doma palavras-feras. Acaricia
palavras-monstros para que obedeçam sua maneira escandalosamente nova de ser poeta
comprometido com ciência. Estabelece relações quase de coito poeticamente danado com
palavras sobrecarregadas de consoantes. Estupra a língua portuguesa. Comete violências
de quem rasgasse ventres de mãe - da língua materna - para deles retirar bebés
hediondamente sinistros mas com alguma coisa de fascinante.
Situa-se, assim, entre os maiores renovadores,
ampliadores, enriquecedores não só da língua portuguesa como talvez de línguas
latinas, em geral. Mostra-se, paradoxalmente, neste particular, outro e maior José de
Alencar. Um anti-Machado de Assis. Um anti-Joaquim Nabuco. Mas indo além deles.
Escandalizando. Chocando. Irritando. Deixa Euclides da Cunha quase na sombra como um
corruptor da língua castiçamente portuguesa que, entretanto, enriquece, avigora,
moderniza, pós-moderniza, mais ousadamente do que o autor de Os Sertões. Só
Guimarães Rosa se aproximaria dele. Mas cautelosamente. Mineiramente. Menos violento.
Menos brutal, em estupros de virgindades da língua portuguesa. Mas sem a mesma
repercussão popular alcançada por Augusto dos Anjos. A fenomenal repercussão popular de
Eu.
Faz-se declamar, recitar, amar, por
brasileiros, que nele, sem o entenderem de todo, ou de modo algum, encontram instintivas
afinidades através de sons de linguagem e talvez de ânimos um tanto sadicamente
estuprantes. Afinidades nas quais se misturam quotidianos a vozes, palavras,
polissílabos, até, vindos ainda quentes, alguns deles, de laboratórios, de tratados de
biologia, de livros de anatomia para sensibilizarem estranhamente ouvidos de quase
analfabetos. Entre os quais os <<soldados de policia>> que Manuel Bandeira
teria se admirado de serem entusiastas de Augusto dos Anjos.
Como se enganaram, a seu respeito, não só
Olavos Bilacs como, até, Manuéis Bandeiras, estes por não terem sabido descobrir em
Augusto não só um modernista mas um pós-modernista mais fraterno com eles do que
Mários e Oswalds de Andrades! Mais telúrico do que esses irredutíveis beletristas de
gabinete.
Augusto foi a negação do beletrista
convencional e é difícil imaginá-lo na Academia Brasileira de Letras. Mas ninguém,
mais do que ele, escritor. Escritor superliterário. Magnificamente superliterário pelo
que significou para a língua portuguesa através da sua expressão mais que literária.
Pergunto a mim mesmo por que, estudante
universitário no estrangeiro, quase sem ter com quem conversar sobre coisas literárias
brasileiras, deixei-me de repente fascinar pelo gênio de Augusto dos Anjos a ponto de
escrever sobre ele, aos vinte anos, em revista cultural em língua inglesa. Por que?
Creio que uma das respostas está no facto de
ter escrito esse artigo ainda quente de curso universitário que fui talvez o único
brasileiro, até hoje, a seguir, praticando verdadeira façanha: o estudo sistematicamente
universitário de Anglo-Saxão: a pré-língua inglesa. O curso me pôs em contacto com
uma língua em estado de tal modo telúrico que revolucionou toda a minha visão da
própria língua portuguesa. O curso como que chegou a afectar minha latinidade,
levando-me a enxergar no excesso da influência eruditamente latina sobre a formação
brasileira antes desvantagem que vantagem. Como sendo um factor de artificialização
livresca da língua portuguesa que senti não ter tido oportunidade de superações
pré-brasileiras de expressões apenas latinas. Superações como viriam a ser as tentadas
retardadamente, à la Joyce, por Guimarães Rosa, de fazer voltar a língua literária a
formas rústicas, selvagens, quase analfabéticas, de expressão.
Com a minha leitura de jovem, muito jovem, do
Eu, encontrei em Augusto dos Anjos, mais do que em Os Sertões ou em Alencar ou em
Eça, um telúrico que, remexendo ossos, desgrudando-os de carnes transitórias, embora de
modo algum desprezíveis, como que daria a esses ossos uma dignidade simbólica de
permanência que projectasse, na linguagem de jovens empenhados em tornarem-se escritores,
uma mais profunda ligação com o Brasil essencial e não apenas convencional. E que
permitisse a esses jovens transferirem, para a língua portuguesa, uma espécie de
equivalência dos ossos da bela, magnífica, opulenta, complexa língua inglesa, que eu
encontrara no Anglo-Saxão. Nas suas palavras essenciais, existenciais, germinais, das
quais sairiam as mais vigorosas palavras do próprio Shakespeare. Um Shakespeare que nunca
se deixaria, como Milton se deixou, latinizar por excessos de eruditismo de gabinete.
Aqui, uma particularidade a notar-se em
Augusto dos Anjos: pode ter pecado por excessos cientificistas. Nunca, porém, por excesso
de eruditismo que o separasse do brasileiro comum. Dai virem se entendendo Augusto e o
brasileiro comum.
Entre ele e o brasileiro comum estabeleceu-se
uma surpreendente afinidade. Se é certo do grande Manuel Bandeira ter dito, antes de,
converter-se a Augusto dos Anjos, que Augusto era <<poeta para soldado de
policia>>, o toque pejorativo do reparo, não deixou de registrar uma surpreendente
popularidade de poeta de modo algum popularesco. Mas com um misto, na sua expressão
superliterária, de ênfases em horrores e, contraditoriamente, em ligações entre esses
horrores e tendências a uma superação deles por novas formas de vivência e de
convivência. Esse misto, através de uma musicalidade nova, atraente, profética,
popularizou-o. E essa popularidade vem se reafirmando.
Talvez seja hoje mais lido, no Brasil, por
gente do povo do que Castro Alves e do que Gonçalves Dias. Mais do que Bilac. Mais lido
do que Mário de Andrade, Cassiano Ricardo, Oswald, Menotti: os festivos Modernistas de
22. Sem ser ostensivamente festivo, Augusto parece sensibilizar brasileiros por uma
espécie de religiosidade não, clericalmente cristã, não só em torno da morte, como,
paradoxalmente, em torno da vida. A mesma espécie de religiosidade que está fazendo
brasileiros de hoje incluírem, a revelia de um, por vezes, quase cretino clero católico
do chamado progressista, entre ex-votos, não só partes de seus corpos, quando doentes, e
ameaçados de morte - saliente-se o brasileirismo esplêndido -, mas suas lavouras, seus
animais e, agora, até suas máquinas. Máquinas, dentre as mais modernas, quando sob
ameaças de doença grave e de morte semelhantes aos perigos que vêm pondo em risco
sobrevivências de vegetais e de animais úteis aos homens.
O brasileiro homem do povo não pretende
esconder-se de tal modo da morte que a ignore. O que ele procura é superá-la, pegando-se
com seus santos, ao defender-se de triunfos, sobre ele, brasileiro comum, de doenças que
pareçam fatais. Daí a abrangência dos ex-votos do cristão teluricamente brasileiro
estar se estendendo até a promessas em torno daquelas moderníssimas máquinas doentes.
Ao estender esse brasileiro essa defesa a espigas, a lavouras, a bois, a carneiros, e
também a tractores e arados doentes, ele se mostra cósmico, telúrico, ecológico num
sentido que não faltou ao muito brasileiro Augusto dos Anjos. O Augusto dos Anjos de quem
se sabe ter dito, certa vez, que em vez de Augusto deveria chamar-se Arbusto.
Natural que fosse telúrico. Recifensizado e
muito, não nasceu no Recife. Nasceu em casa-grande da muito sua Paraíba. Casa-grande
perto da qual havia um pau d'arco a que se sabe ter se afeiçoado quase como se fosse
afecto de pessoa a pessoa.
E pela saúde do qual, se soubesse a quase
materna árvore ameaçada de morte, é possível que o racionalista, o darwinista, o
spenceriano, tivesse concorrido com o irracional, que nele talvez sobrevivesse
secretamente, em fazer promessa a santo ou à Virgem, para poupar a vida do bom do pau
d'arco, dado como perdido pelos bacharéis em agronomia.
Acentuo ter lido Eu, quando estudante
universitário no estrangeiro, após uma nada insignificante aventura possível de ser
denominada sociolinguística, que me aproximou, nesse sector, de perspectiva buscada por
Augusto para criar uma nova língua literária: a cientificizada em vez de convencional,
literária, castiçamente neolatina. A aventura de ter eu estudado a sério e aprendido de
facto uma língua que creio nenhum outro brasileiro, antes ou depois de mim, estudou: o
Anglo-Saxão. O Anglo-Saxão de cujos verdores emergiu a magnífica língua inglesa, como
se essa língua, quando esplendida de maturidade, viesse a substituir o ascetismo ósseo
da língua verdemente mãe por uma língua aberta a sensualidade de opulentos gostos
sensuais de carne adquiridos por não poucas de suas palavras germinais. O próprio ling
que anima a muito inglesa palavra darling vinda de dear e ling.
Expressão máxima, nessa língua, de amorosidade. O inho da língua inglesa.
Ao passar do estudo do Anglo-Saxão à leitura
de Eu foi como se me defrontasse com palavras semelhantemente descarnadas: as nascidas
para virem, quando sobriamente reencarnadas, a ser escritas, umas longas, por serem, por
vezes, compostas, outras, também longas, por suas origens latinas, em contraste com as
anglo-saxônicas, sempre breves. Breves e de sons, a seu modo, os de origem
anglo-saxônica, matinalmente e até madrugadoramente musicais. Musicalidade quase
nocturna, antes de tornar-se madrugada, que ocorre em Augusto.
O Eu, parece que o escreveu Augusto dos Anjos
mais para ser musicalmente falado do que lido literariamente, de modo semelhante ao
acontecido com o Anglo-Saxão, no qual se escreveram obras como que só pré-literárias,
porém fortemente expressivas na sua oralidade um tanto imatura. Os termos científicos,
segundo o gosto de Augusto, eram para serem mais falados por bocas que lidos
literariamente por olhos. E dando a certas palavras cientificizadas uma certa
recuperação do que teriam sido, quando usadas, sem específicas intenções
científicas, a maneira das descarnadamente anglo-saxônicas na sua pureza. Uma certa
recuperação de sua virgindade de palavras que fossem quase que só palavras-ossos de
tão sem redondos. Ainda sem arredondados latinos de revestimento de carne. Latinos e
latinizantes.
Os olhos que hoje lêem Eu continuam a ser
mais bocas que olhos. Repetem as palavras lidas com um gozo sensual de quem chega a
repeti-las pelo puro prazer de saboreá-las, gozá-las, mastigá-las, quase sem
entende-las de todo. Mais intuindo-as do que sabendo seus significados logicamente
exactos. Por vezes, Augusto faz que suas palavras sejam perversamente apreciadas pelos
seus próprios gostos e odores das podridões que evocam. Aliás, não é certo de, no
sector do paladar, o requinte ser estimar-se a comida já passada e, até, quase podre? O
requintado do faisandé.
Eu é um livro em que o saber cientifico do
autor desempenha mais o papel de servo de suas intuições ou de servo de sua arte
musicalmente verbal do que de ostentação de conhecimentos rigorosamente científicos. O
autor absorveu um tanto esses conhecimentos. O autor leu Spencer. O autor procurou
inteirar-se de teorias de Darwin. Procurou impregnar-se do Evolucionismo quando ortodoxo e
uniforme. Mas chegou a um ponto em que, como quem sabe música pelo ouvido, ele usou
língua de ciência também aprendida pelo ouvido e quase voluptuosamente. E que ouvido
sensível a graças, a sons, a ênfases musicais, o ouvido de Augusto dos Anjos!
O que pode-se sugerir ter, em parte,
acontecido com Euclides da Cunha. Mas com Augusto dos Anjos de um modo talvez menos
convencionalmente musical. Mais um excesso, sobre ele, de influência hereticamente
wagneriana que a dos clássicos. Mais a de sons extremos e desvairados que de sons
exemplarmente equilibrados. Sua música ideal talvez tivesse sido uma que não chegou a
conhecer: de Stravinski. E sugira-se que, um tanto, a de um futuro Villa-Lobos. Nunca a de
Carlos Gomes.
Procurei seguir, como escritor literário da
língua portuguesa, sugestões anglo-saxônicas. Parte da minha tentativa de contribuir
para reverdecer a língua literária do Brasil, libertando-a de, para mim, excessos de
maturidades representadas por latinismos dos mais convencionalmente tendentes a serem de
todo eruditos, a livrescos, a fechadamente clericais, reflecte influência do que aprendi
de Anglo-Saxão. Servi-me, de início, de modo que escandalizou puristas ortodoxos, de
não poucas palavras breves, de uma ou duas sílabas, de origem, quer indígena ou
amerindia, quer afro-negra, que fossem equivalentes de palavras breves de Anglo-Saxão
sobreviventes na língua inglesa. Elas estão em Casa-Grande & Senzala: em
sentenças, entretanto, paradoxalmente, longas. Palavras, até, de uma só incisiva e
sugestiva sílaba, que, aliás, existem no próprio português misto de popular e de
erudito, como a lusitanissima cu, em Portugal de uso muito mais inocente e
quotidiano do que no Brasil. Palavras tão verdes para sempre, no português do Brasil,
como dissílabos de origem ameríndia: caju, cajá, açu, mirim. Ou de origem musicalmente
afro-negra: banzo, cunhã, bunda. Palavras de todo sempre verdes em língua portuguesa
latinamente menos erudita.
Segundo outro critério renovador da língua
portuguesa do Brasil, dando-lhe outra espécie de verdes, Augusto dos Anjos buscou essa
renovação, principalmente em polissílabos de origem arrevesadamente científica. Alguns
com consoantes quase antilatinas. Porém wagnerianamente musicais. Com gostos sonoros que
vêm sensibilizando até soldados de policia abertos à música ruidosamente sonora
chamada de pancadaria.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Um encontro entre dois eus de brasileiros preocupados com a renovação da língua portuguese no Brasil. Colóquio Letras, Lisboa, n. 121/122, jul/dez 1991. p. 183-193.
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