VINTE E CINCO ANOS DEPOIS
O nome de Monteiro Lobato está este ano em foco: é que faz um quarto de século que o grande paulista publicou Urupês. E quem diz Urupês diz uma revolução nas letras brasileiras.
Para a vitória do livro concorreu poderosamente o velho Rui, quando, em discurso célebre, destacou a significação social do Jeca Tatu. Mas não nos esqueçamos de que, a essa altura, Lobato conseguira o milagre de despertar o velho Rui da indiferença, tão dos nossos doutores e bacharéis de quase todos os tempos, pelos problemas brasileiros de solução mais difícil que a jurídica ou a política. Indiferença em que se extremou uma geração inteira de intelectuais
brasileiros: a dos primeiros decênios da República.
Sabe-se que os problemas teluricamente
brasileiros quase não existiram para o erudito Rui; e alguém que foi íntimo do seu
gabinete, de sua biblioteca e da sua própria sala de jantar, já me falou do pouco
interesse do sábio da Rua São Clemente pelos livros que se ocupassem do Brasil cruamente
brasileiro, desvirginado, como assunto sociológico, pela impetuosidade romântica de
Euclides da Cunha. Do Euclides de quem Rui, ainda com mais razão do que Nabuco, poderia
ter dito que não era escritor muito do seu agrado, tal a impressão que causava aos
intelectuais só de gabinete, de "escrever com um cipó".
Ter feito Rui Barbosa, já velho, voltar-se do
alto do seu gabinete, com olhos espantados e quase de menino - menino doente, criado o
tempo todo dentro de casa - para aquele Brasil áspero que os brasileiros de hoje estudam
com um amor que seus avós, bacharéis e doutores, quase desconheceram, me parece um dos
milagres realizados pelo escritor Monteiro Lobato. Foi por obra e graça de Urupês
que o maior campeão sul-americano da inocência de Dreyfus verdadeiramente descobriu que
a poucas léguas da Rua de São Clemente havia quem sofresse mais do que a remoto mártir
do anti-semitismo europeu; sofresse de dores que o habeas corpus não cura; não
alivia sequer. Nem a habeas corpus, nem a anistia; nem o sursis. Nenhuma
solução simplesmente jurídica.
Antes de Monteiro Lobato, grandes vozes como a
de Euclides, a de Teixeira Mendes, a de Eduardo Prado, a de Aluizio de Azevedo, a de
Gilberto Amado, levantaram-se contra o farisaísmo jurídico entre nós. Mas foi a voz de
Lobato que conseguiu esta vitória inesperada: fazer com que Rui Barbosa enxergasse
problemas extra-jurídicos como o de Jeca Tatu. Nem questão de limites interestaduais,
nem de anistia, nem de abuso do poder executivo, por caudilhos de casaca ou de farda, mas
o problema cru de doenças, de degradação humana, de deterioração social em suas
formas extremas. E esses doenças, essa degradação, essa deterioração nas próprias
fontes da vida, da economia e do caráter brasileiros.
A figura de Monteiro Lobato há de guardá-la,
não apenas a história literária do Brasil, mas a própria história do povo e da
nacionalidade brasileira: aquela história que às vezes é escrita com sangue. Ele foi um
dos iniciadores mais vigorosos da fase atual de literatura em nosso país. Mário e Oswald
de Andrade, José Américo, Amando Fontes, Lúcio Cardoso, Jorge Amado, Raquel de Queiroz,
José Lins do Rego, Luiz Jardim e vários outros, ao aparecerem, encontraram o sulco de
Lobato.
E a preocupação atual de nos voltarmos para
os nossos problemas mais com os olhos de estudantes da natureza humana e da condição
brasileira do que com o pince-nez de jurista, de gramático e de político, é
preocupação que anima as melhores páginas do Lobato de 1918. Do Lobato que apareceu há
vinte e cinco anos com seu Urupês revolucionário, escandalizando patriotas,
gramáticos e acadêmicos.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Vinte e cinco anos depois. Ciência & Trópico. Recife, v. 9, n. 2, p. 209-210, 1981.
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