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Fala-nos Romain Rolland, em página cheia de vibração, das "joies de créer". São três: gênio, amor e ação. Qualquer delas, destacada das outras, isolada, só, bastaria para fazer superiormente feliz uma criatura. Imaginem-se as três reunidas. Um escândalo de ventura.
O glorioso Júlio Dantas é quase esse escândalo. Requintado artífice verbal, quanto lhe sai da pena é primor de filigrana. Ou de alquimia, como talvez preferisse dizer o sisudo autor de A Crítica literária como Ciência.
Isto na esfera do gênio. Na do amor, dizem-no todos, di-lo a própria literatura do Sr. Júlio Dantas, com as suas reticências nem sempre reticenciosas, di-lo sua voz baritonada em que o Sr. Anibal Fernandes surpreendeu "entonações voluptuosas" - um grande triunfador. E na esfera da ação, às vitórias de médico ele vem agora acrescentar as de político.
Feliz o partido, e mais que isto, o regime que em seu seio possui tão raro charmeu. Podem-se conseguir milagres na esfera do gênio, sem coisa nenhuma ter de charmeur. Nas duas outras, não. Isto, em regra geral, como se diz nas gramáticas. Porque a vida é afinal muito parecida às gramáticas: tem exceções perturbantes e irritantes.
Na vida do Sr. Júlio Dantas há o ritmo fácil do presente do indicativo dum verbo regular. É difícil imaginá-lo em situação difícil ou desalegre, o favor dos deuses e, menos, o das deusas, contra a sua gentil pessoa.
Em face disto, é lícito esperar que do seu breve contacto com o Brasil resultem excelentes e áureas coisas. São os homens de sua sedução pessoal e do seu gênio verbal que conseguem muitas vezes deslocar a resistência de antipatias c incompreensões populares. Principalmente em países como o nosso, e como o do glorioso hóspede, particularmente sensíveis ao gênio verbal e aos encantos pessoais. Pelo que, de muito júbilo nos deve encher a todos, brasileiros e portugueses. o ter o Sr. Júlio Dantas, com a melhor das bravuras, enfrentando aquelas amolecedoras "fadigas atlânticas" que a Carlos Fradique Mendes obrigaram a muitos dias de repouso.
A essa sinfonia de regozijo não venho trazer nota discordante. Apenas ligeiríssimo reparo a certo ponto da conversa do eminente autor de Nada com o meu caro amigo O Sr. Anibal Fernandes.
Ora vêde: no afã de comunicar-nos do atual regime português a mais rósea das impressões - mui nobre afã, na verdade, e muito lícito - quis dar o Sr. Júlio Dantas à reação crítica que ali se faz sentir agudamente contra a democracia jacobina, caráter infantil e passageiro. Simples "esprit de minorité" da mocidade inquieta. "A mocidade é monarquista na república, como era liberal e republicana na monarquia".
Não direi que certo elemento, hoje ferventemente monárquico em Portugal, o seja menos por convicção que por sentimentalismo e, sobretudo, por esse contagioso lirismo messiânico que sempre foi característico do gênio português. Sebastianismo, para usar a palavra histórica. Mas o inegável é que há na reação atual um elemento pensante e inteligentemente crítico.
Estive em direto contacto com "Integralistas", isto é, monárquicos "d' avant garde", e com os homens da Seara Nova, que são a "ala dos namorados" - para usar de novo frase histórica - da democracia livre, pensadora de Portugal. Há, entre estes, indivíduos de notável talento: ao Sr. Câmara Reys e ao Sr. Antônio Sérgio tive o fino prazer de conhecer pessoalmente. Cuido, porém, que só o observador desequilibrado pela mais rasgada parcialidade de sentimento negaria à ala oposta, aos antidemocratas, o encarnarem, neste momento, a melhor inteligência e a maior bravura de ação portuguesas. Os Srs. Fidelino de Figueiredo, Conde de Monsaraz, Antônio Sardinha e Afonso Lopes Vieira bastariam, isolados, para dar ao grupo antiliberal sumo prestígio, sob todos os pontos de vista.
O movimento antiliberal português, longe de ser puro esprit de minorité, é um esforço consciente de reintegração nacional. A reintegração do país no seu caráter e nas suas tradições, desfiguradas por uma como espessa camada de cem anos de constitucionalismo acaciano e, ultimamente, de delírio demagógico. Ao meu ver, ninguém fixou mais pitorescamente a natureza, os fins e as possibilidades desse movimento, que o Sr. Afonso Lopes Vieira - espírito tão gentil - na sua conferência sobre a reintegração dos quadros de Nuno Gonçalves e demais primitivos portugueses, pelo Professor Freire: "O que nós, que amamos e acreditamos em Portugal, lhe queremos fazer, é o mesmo que o professor Luciano Freire tem feito aos nossos quadros." É que para os inteligentes reacionários a má saúde de Portugal se deve ao furor neófilo, de que não escapamos nós, sua antiga colônia. Nisso até lhe tomamos a dianteira: apenas não chegamos aos extremos do anticlericalismo a que tem chegado Portugal.
O movimento português se pode bem miar a uma tendência hoje geral entre os mais cultos. Na própria República Americana, a suposta terra clássica da democracia, é forte a reação antidemocrática, como tive ensejo de salientar em artigo no "Correio da Manhã", de Lisboa.
Este artigo, ainda há pouco o comentava, com a maior das simpatias, o Sr. Oliveira Lima, na sua primeira correspondência de Portugal para "La Prensa". E são do mestre admirável estes reparos: "Nos Estados Unidos um traço que jamais desapareceu, mesmo sob o jacobinismo, foi o amor à tradição. Em Portugal, o novo regime quer que o povo olvide em absoluto o antigo regime."
Contra isto se insurge a inteligência crítica das gerações mais novas. Principalmente os chamados integralistas. Querem o regresso absoluto ao passado? "Muito ao contrário, responde voz autorizada do grupo; pedimos à experiência do que foi as normas seguras do que deve ser." *
* Não se deve confundir o Integralismo português, comentado neste artigo, com o algum tempo depois surgido no Brasil com o mesmo nome e orientação diferente.
FREYRE, Gilberto. 11. Diário de Pernambuco. Recife, 1 Jul. 1923. Coluna: Da outra América.
Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de Aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 276-278.
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