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Centro onde vinham repercutir movimentos de idéias e de onde partiram no Brasil os primeiros sinais telegráficos de cultura - isto foi Pernambuco. Primeiro em Olinda; depois no Recife. Com o Bispo Azeredo Coutinho a erudição tomou entre nós acentuado ar pragmático. Sua obra encanta, pela preocupação de. interpretar-nos os problemas, principalmente os de natureza sócio-econômica. Ainda hoje, à distância de mais de cem anos, surpreendemos nos estudos de Coutinho alguma coisa de provocante e de moderno.
Depois, foi Tobias. Isto já no Recife, e na Faculdade. A toda uma geração vibrante e nervosa, Tobias comunicou a flama, não direi criadora, mas de curiosidade intelectual. Chegou a fazer escola - o "jovem Brasil", de que nos fala Romero, Bevilacqua, Arthur Orlando, Martins Júnior. À parte, Anibal Falcão. A muitos dos discípulos de Tobias, faltando a plasticidade do mestre, sucedeu que vieram a fossilizar-se em ismos de toda espécie, notadamente no monismo mecanista. O próprio Romero não escapou a esse destino: o medo à contradição - na qual, entretanto, resvalou - levou ao extremo oposto o formidável inimigo da literatura apressada.
Mas o mestre, esse teve, a vida toda, a volúpia das iniciações. A volúpia do inédito. Vibrava-lhe o sistema nervoso ao ritmo quente da Pionieers de Whitman. Possuiu-o sempre o êxtase de conhecer o que outros não conheceram. Para Mark Twain, "realizar alguma coisa, dizer alguma coisa, ver alguma coisa antes de qualquer outro" era a suprema ventura da vida. E para Tobias. Fixando-lhe, em felizes traços impressionistas, o temperamento admirável, escreveu o Sr. Anibal Fernandes que filósofo como se tem dito, isto Tobias não foi. De acordo. Não foi inteligência criadora no rigor da expressão.
Mas não é supérfluo salientar que nenhuma matéria exótica lhe passou pelo espírito sem receber viva impressão pessoal, sem sofrer a reação do seu eu, sempre ativo e vibrante. Aquele vulgarizador sui generis colaborava com o autor em divulgá-lo, opondo-lhe corretivos ou reforçando-o com idéias próprias.
De Pernambuco Tobias escancarou uma janela sabre o espetáculo de cultura da seu tempo, sobre aquela pracisão de que a Origem das Espécies era o Santíssimo Sacramento; e Haeckel, o patriarca. Esta janela não houve cicerone que ma apontasse quando recentemente percorri o edifício da Faculdade a convite do seu digno diretor. Talvez esteja piedosamente no museu do Instituto Arqueológico. E como o Dr. Netto Campelo dá mostras de feliz orientação tradicionalista, sendo um dos seus empenhos reaver para a Faculdade o retrato do Segundo Imperador - de lá deslocado, se não erro, pela delírio jacobina - é passível que a mesma venha a suceder à tal janelinha.
Se não prima hoje a Faculdade, coma nos dias do "jovem Brasil", pelo espírito de investigação científica - é verdade que há um arremedo ou caricatura de escala, cujo patriarca seria o Dr. Laurindo Leão completado pelo ardente Dr. Joaquim Pimenta - é justo salientar que a tradição de eloqüência parece florescer tão à vontade na moderna e definitivo edifício como nos arcaicos pardieiros por onde peregrinou a instituição. Prova-o o último número de sua "Revista", cujas páginas comunicam ao mais fleugmático dos leitores vibração cívica e êxtase patriótico.
Entre os estudantes, a mesmo: a eloquência dos dias de Castra Alves e Tobias, com os seus entusiasmos eróticos e as suas ânsias patrióticas, longe de enfraquecer, revivesce triunfalmente. Disto tive amplo ensejo de inteirar-me em reunião a que assisti no Teatro Santa Isabel. No vasto programa, as peças de oratória eram numerosas, mas variadas: condoreirismo, lirismo, futurismo. Um regalo. Sob o ponto de vista moral, estou que a Faculdade do Recife tenda neste momento a refluir para as suas melhores tradições. Vai o Dr. Netto Campelo admiravelmente imprimindo à sua ação de diretor, como de passagem salientei, vinco tradicionalista.
Não há instituição que se preze sem a sua liturgia. A liturgia reúne duplo valor: a encanta estética e a significação moral. Nas universidades inglesas e americanas, surpreende a gente um como sopro de religiosidade no carinho com que uma geração comunica a outra a ritual da casa. Em Oxford - essa Oxford onde acabo de estar - tudo se faz de acordo com o ritual - até o número de badaladas com que os sinas de Christ Church ferem agudamente os ares, convidando os rapazes à paz estudiosa dos "halls". Isto às nove da noite. Feito o que sai o síndico, muito solenemente, de toga de cerimônia e bastão em punho, à procura dos retardatários nas cervejarias e lugares públicos. Em Oxford é do ritual que não se peque em público.
Nossa Faculdade tinha seu ritual e suas praxes, Descontinuou-as o delírio. "modernista" sob o pretexto idiota de serem velharias.
Temo parecer, com estes reparos, caturra. E mais ainda o temo com o reparo que me ocorre acrescentar: quanto às relações entre mestres e estudantes da Faculdade do Recife. Cuido surpreender nestas relações camaradagem demasiado fácil. Fiquei um desses dias muito admirado notando, na portaria, que os estudantes, mesmo os de ar noviço, não perguntam pelo "Sr. Diretor"; perguntam pelo Netto. "Está o Netto?" Um regalo de sem-cerimônia.
Sob o ponto de vista de progresso material creio estar a Faculdade em fase áurea. Não vi em parte alguma melhores salas de aula que as suas, amplas e sóbrias. Subindo os degraus atapetados do nobre casarão, é invariável a impressão de luxo, ainda que, algumas vezes, falho de bom gosto. A biblioteca está excelentemente instalada, regularmente catalogada e ao salão de leitura para ser ideal faltam apenas tapetes que atenuem o ruído dos passos.
O pátio, com o seu doce ar tropical, delicia os olhos. E a mim pareceu saudável o lugar para as digestões mentais, após leituras pesadas ou espessas preleções. Em volta ao edifício crescem à vontade a relva, o capim bravo e até o insolente "pega pinto". Sei que foi plano do Dr. Netto Campelo distribuir entre as árvores, agora adolescentes, do que será o campus da escola, bancos de pedra no estilo daquele sobre que repousa o busto de Flaubert, em Paris. Feliz idéia. Parece, entretanto, que foi vigorosamente impugnada, ignoro se com argumentos estéticos ou econômicos.
FREYRE, Gilberto. 12. Diário de Pernambuco. Recife, 8 Jul. 1923. Coluna: Da outra América.
Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de Aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 279-281.
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