13
Sucede que chego ao nº 13, desta série, absolutamente sem veneta para coisas de cabala ou olho mau. Vejo-me diante do número fatídico como em face de um intruso. De um orador, por exemplo. O número, entretanto, impõe, esta vez, o assunto.
Haverá indivíduo para quem o sobrenatural não exista, nem sublimado nem deformado? Em cujo sistema nervoso não tenha alguma vez corrido a agonia do "What am I; and Whence; and Whither" de Carlyle? Ou o medo a um pio de coruja? Duvido.
Houve uma vez um homem que inventou u'a máquina para esvaziar o cérebro de superstições e misticismos. Um encanto de precisão, a tal máquina. Aplicou-a o homem - sábio e livre-pensador - ao próprio cérebro. Dias e noites a fio esteve a máquina a funcionar, esvaziando o cérebro daquele experimentador desdobrado em paciente. Mas houve um resíduo contra o qual operou em vão o sutil engenho. Não se desprendia. Rodava o dínamo 2.500 vezes por segundo, e nada. O "transformer" a 3.000 "volts", e nada. O resíduo era a última das superstições: a de supor-se um homem livre de superstição.
Garanto a autenticidade da história. Vi a máquina. Conheci o sábio, meses depois de sua estranha aventura, todo voltado para o sobrenatural, às voltas com Swedenborg e Sir Oliver Lodge.
Ora, o que este homem fez, já o fizera outro homem. Um sábio francês, morador à Rue Monsieur le Prince, em Paris. É certo que sem a mesma precisão mecânica. Mas a tentativa estava feita: o homem da Rue Monsieur le Prince conseguira, tanto quanto possível, uma religião sem o sobrenatural. Um como esperanto de cosmogonias e éticas.
O Positivismo, na sua técnica, é um sistema que admiro, como admiraria uma caricatura da Gioconda no Punch. Ou em Simplicissimus. A caricatura, na sua esfera, pode ser maravilha. Apenas a caricatura não nos satisfaz a fome de beleza. Nem o Positivismo, que é o racionalismo vulgar trepado em pernas de pau, a ânsia mística.
A ânsia mística, estou que todos a possuímos. Pode variar, em ardor, de temperamento a temperamento. Ou de um clima a outro clima. Ou de uma época a outra. Diminuiu, por exemplo, com a nossa, de intelectualidade industrializada, depois de se ter aguçado na flecha da Catedral Gótica. As estatísticas mostram-se fluidamente variando de inverno a verão. Mas ausente, nunca.
Do misticismo não estão livres as puras inteligências à la Fradique. O próprio Fradique, impermeável ao sobrenatural cristão, teria sido capaz, em dadas circunstâncias, de cair lubricamente ajoelhado ante rude bruxedo como qualquer braquicéfalo da África equatorial. A exemplo do "homem cultíssimo hodierno", de que nos fala Tobias. E haveria de fazê-lo Fradique, dizendo, como diante da vasta bacalhoada que ele e os amigos foram comer numa taverna da Mouraria: "Nada de idéias! Nada de idéias!"
De Eça positivamente se sabe que conservou, a vida toda, pegados às paredes do cérebro, retalhos de superstições infantis: o medo às bruxas, ao azeite derramado, ao pio das corujas, ao uivar dos cães. E era filho, e dos mais depurados, do século que engraçadamente se chamou das luzes.
Aliás o século XIX, se não teve a superstição das bruxas, nem a da alquimia, nem a dos santos, louros como sóis, vencendo dragões, verdes como o lodo, nem nenhuma das que contribuíram para o pitoresco da vida medieval, foi supersticioso ao seu jeito. Deslocou o misticismo das catedrais para os laboratórios, mas continuou místico. Prosaicamente místico. Endeusou a Ciência, que passou a escrever com C maiúsculo; fez da Origem das Espécies um como Santíssimo Sacramento; da Evolução, Dogma; do Copo Graduado, Custódia. E sua mania de verdade, palpável e papável como um lombo de porco, outra coisa não foi senão lúbrico misticismo.
A esse misticismo de laboratório, vastamente superior é o dessa grande "officina artis spiritualis" que é a Igreja Católica. Abstraindo-se o espírito de análise, de preferências emotivas, ver-se-á que pertencem à mesma esfera bentinhos de Nossa Senhora e Equatoriais, Corações de Jesus e Retortas. Quanto a mim, sempre me pareceu mais interessante uma catedral que um laboratório. Mesmo as caricaturas de catedral, como a de Olinda, ganham em interesse e excedem em encanto aos laboratórios mais aparatosos.
Entretanto, o século XIX teve a petulância de cantar, sujo da fuligem das suas fábricas de azeite, de suas turbinas e dos ácidos dos seus laboratórios, sua superioridade sobre os demais. Cantou-a? Anunciou-a em berros de leiloeiro. Ficaria para o Sr. Leon Daudet a tarefa um tanto iconoclasta de fazer o inventário do século que se sobrepusera ao de Péricles como aos das catedrais; e de concluir com menos retórica e mais verdade, que fora Le Stupide.
Distanciei-me do assunto. Mas que poderia dizer do "13" propriamente? Dele sei o que todo mundo sabe.
Lamentava Gonzaga de Sá não haver conhecido intimamente uma costureira; lamento eu não ser íntimo de saga ou cartomante. Das cartomantes pode aprender o indivíduo o pouco que sabem os professores de psicologia e os sábios da psicanálise, além do muito que eles ignoram. A natureza humana deixa de si menos retalhos num laboratório de psicologia experimental que sobre o pano roxo ou negro duma mesa de bruxa. Penso às vezes que o sucesso, entre nós, de João do Rio - aquele gênio fácil e plástico de Reportagem - deveu-o ele à sua intimidade com as artes negras. Donde se poderia concluir que no Brasil estas, e não as artes liberais, abrem e até escancaram ao indivíduo de algum talento e muito "savoir faire", as portas do sucesso.
FREYRE, Gilberto. 13. Diário de Pernambuco. Recife, 15 Jul. 1923. Coluna: Da outra América.
Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de Aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 282-284.
|