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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Imprensa  



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Ninguém ignora serem os médicos e a medicina assunto em volta ao qual muita filosofia fácil tem girado; e muita sátira injusta e alguma justa. Isto desde Molière ao Sr. George Bernard Shaw.

Minha opinião a respeito é talvez acaciana: nem vou ao extremo de endeusar a medicina - que escrevo com m minúsculo - menos ainda os médicos; nem ao de considerar aquela formidável embuste e a estes inúteis calungas de fraque preto e esmeralda no dedo. Piamente os acredito, aos médicos e aos seus leais escudeiros, os boticários, um como reforço às tropas legais de glóbulos brancos na luta que opõem aos micróbios revolucionários e vândalos. É verdade que tenho mais fé nos glóbulos brancos do que nos médicos. Os glóbulos brancos nasceram para aquilo. Nasceram para a luta. São soldados por natureza, inimigos natos dos micróbios. Dos médicos, entretanto, nunca ouvi dizer que nascessem médicos como os poetas nascem poetas. Seu horror ao micróbio é adquirido, como adquirida é sua técnica militante.

Se em Pernambuco a medicina e os médicos se vêm ultimamente distanciando em prestígio, influência e relevo de ação, não é por nenhuma superioridade ingênita ou mística dessa profissão sobre as demais. É simplesmente por isto: contam hoje os médicos com a melhor energia moça da terra.

É fato, este, que se vem observando há anos. Dele deu notícia ao país, pela Academia Nacional de Medicina, o Professor Edgar Altino, no resumo que ali apresentou de nossa recente história médica - sugestivo resumo, na verdade, ainda que parcial quanto a certos fatos. E já o Sr. Oliveira Lima uma vez me falara dessa plêiade de médicos inteligentes e cheios de boas idéias, entre os quais os Drs. Arsênio Tavares, Ulysses Pernambucano e Selva Júnior. Aos mais enfants terribles dentre eles, em circunstância difícil, o Sr. Oliveira Lima, com aquela sua ternura imensa de bom gigante, serviu bondosamente de padrinho. A campanha que aqui se agitou em prol do melhoramento de in6talaçôes hospitalares e modernização de métodos nos hospícios de doenças mentais foi uma campanha animada pelo mais generoso dos espíritos, ainda que tenha feito vibrar; com demasiada violência, a nota de fervor neófilo. Mas o ponto a fixar é este: o prestígio que vem ganhando entre nós a cultura e a ação médica, compensando-se quase nesta esfera a subalternidade a que desceu Pernambuco nas demais, mesmo com relação a Estados vizinhos.

Quando, há cerca de seis meses, aqui chegou para dirigir a Saúde Pública e a Assistência, o Dr. Amaury de Medeiros deve-se ter sentido feliz, e talvez um tanto surpreendido, encontrando num grupo de médicos de sua terra tantas afinidades naturais. São estas afinidades, como dele próprio ouvi, que lhe têm facilitado à ação. Encontrou o Dr. Amaury de Medeiros na Sociedade de Medicina um centro de energia moça, um espírito verdadeiramente simpático ao seu. A Sociedade de Medicina é hoje a mais laboriosa e a menos decorativa de nossas sociedades. Sente-se bem isto naquela sua sala de primeiro andar, tão simples e séria que chega a ser ascética, mas com os livros bem tratados e bem catalogados e um ar' discreto de sala de estudo. O ascetismo virá, creio eu, a modificar-se; sou de opinião que um pouco de conforto à inglesa ou à americana menos mal faz aos doutores que as faladas musas. Estas, aliás, não são as criaturas inofensivas que alguns imaginam: vingam-se cruelmente dos amorosos parciais.

Não só ascetismo, mas a pobre estética da sala há-de modificar-se ao primeiro sopro de bom gosto que ali passar. Hão-de convir comigo os jovens doutores da Sociedade, que os retratos dos seus velhos mestres, alguns defuntos, outros ainda vivos, todos com o ar seráfico de numes tutelares, merecem, ao menos, molduras menos rococó.

Jovens doutores, sim. Do meu primeiro contacto com a Sociedade de Medicina ficou-me viva impressão de juventude. Não me refiro ao ar moço dos seus leaders. Semelhante referência seria até importuna se isso de médicos solenemente barbados não fosse mais dos romances e das fitas de cinema que da própria vida. Basta um exemplo: o do Professor Dr. Austregésilo, íntimo conhecedor da psicologia da sua profissão, que, ainda há pouco, rapou a barba, tomando aquele ar jovem e yankee das suas modernas fotografias.

Refiro-me à juventude de espírito - à ânsia de ação e de influência, ao frescor de idéias, à generosidade fácil. E se há um grupo de homens que a possua neste nosso burgo, tão sonolento de espírito quanto ruidoso de hábitos, esse grupo é a Sociedade de Medicina.

Deve o Dr. Amaury de Medeiros felicitar-se pelo fato de ter a seu lado um grupo congenial de colaboradores. Os benefícios que hão-de vir da ação do jovem higienista, reunida ao esforço dos médicos pernambucanos, já não é preciso ser afeiçoado ao governo, na pessoa do seu enfant gaté, para os entrever claramente. É uma ação, é um esforço, esse, de notáveis possibilidades de influência social, além das de ordem técnica. Temos diante dos olhos um como esboço de brilhante capítulo que se vai acrescentar à história da assistência social em Pernambuco. E prestigiando essa ação tão útil a esse esforço tão generoso, como que se redime o governo do Estado da sua relativa fleugma noutras esferas.



FREYRE, Gilberto. 14. Diário de Pernambuco. Recife, 23 Jul. 1923. Coluna: Da outra América.

Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de Aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 285-287.

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