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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Imprensa  



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Os plásticos recursos pessoais e, sobretudo, de espírito, que o Sr. Padre Gonzaga Cabral põe ao serviço das idéias e da fé que professa, fazem-no o que os espanhóis chamam un raro. Un raro entre os nossos "mestres" de cultura improvisada, - na vida mental o que na social são os nouveaux riches. A. psicose é a mesma. Basta observar a semelhança entre a literatura dos primeiros e a arquitetura dos segundos.

Duas vezes missionário esse Padre Gonzaga Cabral: missionário na esfera da fé e missionário na esfera da cultura. De ambas carecemos nós outros, tupiniquins, quase todos; mas não os ingênuos e nus a que primeiro falaram de Nosso Senhor os padres da S. J.

Não; tupiniquins os de agora, experimentados nos mais diversos requintes; desde a literatura de Monsieur Anatole France às botinas pé-de anjo que aqui nos trouxe um navio atrasado. E educados refiro-me aos mais novos - quanto a boas maneiras e estética do flirt, pelos atores de cinema de Hollywood. Isto para não mencionar outros contactos cosmopolitas igualmente civilizadores.

Entendo, com alguns caturras, que a tudo isso, a esses retalhos de jornais por cima do corpo e por dentro do cérebro, é preferível a ingênua nudez de 1500, diante da qual Frei Henrique de Coimbra disse a primeira missa. Era então isto aqui matéria mais facilmente plasmável nas mãos de escultores de homens que a soubessem aproveitar. Hoje , com a complicação de ingredientes de toda espécie, mais difícil é a tarefa. E duro como foi o apostolado de Anchieta, não o é menos, antes tem resistências mais rebeldes a deslocar, o dum Padre Gonzaga Cabral.

Consegue ele, não sei por que milagre - pela graça de Deus, evidentemente - encantar auditórios semicultos com o mínimo de sacrifício da estética da tribuna aos exageros do gosto e da compreensão vulgares. É certo que no padre Gonzaga o missionário, na ânsia de comunicar a flama de sua fé de criar opinião católica, de drenar para a Igreja entusiasmos dispersas, obriga o esteta a contemporizar com os vícios mentais do meio. Com o gosto do palavrório lírico, por exemplo, a que é tão sensível o português, e mais ainda o brasileiro, em quem se aguçou aquele gosto sob a ação de certos ingredientes étnicos. Durante a meia hora que procurei escutar o Padre Gonzaga Cabral, no Círculo Católico, num heróico esforço contra as horríveis correntes de ar, deu-me o orador a impressão de algo transigir com um gosto e hábitos intelectuais diversos dos seus. Mas, sem essa plástica contemporização - que seria da causa de Nosso Senhor, a cujo serviço o Padre Gonzaga, no viço dos dezesseis anos, consagrou os talentos?

Quis conhecer de perto o jesuíta português. Sabia-o homem de outros recursos, além do da eloqüência. Sabia-o severo homem de estudo. E homem de ação. Fui vê-lo. Recebeu-me numa sala do Colégio Nóbrega. Uma sala simples. Nas paredes, fotografias de meninos no dia da primeira comunhão, o retrato de ilustre bispo, gordo e róseo, lábios polpudos de orador nato, outras fotografias, uma paisagem em relevo. Noto que o padre Gonzaga tem antes lábios de pensador que de orador. Este pormenor pode ser de nenhuma importância; mas, quem o vi fixar em página de aguda "observação - acerca de Gibbons - foi o Sr. Paul Bourget.

Conversamos. Vamos versando assuntos vários. Sua força de visão é espantosa; espantoso é o contacto do seu espírito com as correntes de idéias mais diversas. Fala da Bahia, dos médicos, dos acadêmicos de medicina, da graça de Deus, do Sr. Afonso Costa, de Ruy Barbosa comparado ao Padre Vieira, de Manning, de Newman, da graça de Deus, da intuição de Chateaubriand, de Oxfotd, de Psichari, da graça de Deus, dos acadêmicos de medicina, da sua campanha a favor da castidade pré-matrimonial, da mania de profissionalismo no Brasil, de Anchieta, da graça de Deus... e vai ferindo os assuntos despretensiosamente; e de cada um sabe extrair o interesse ou o encanto mais íntimo.

É um entusiasta, o Padre Gonzaga, dos estudos clássicos e de generalização literária. Lamenta que se vote a eles, no Brasil, o mais soberano desdém. Triste fato, esse desdém, constatado por Lord Bryce com sua ironia de inglês.

E na reação contra essa tendência vitoriosa da especialização a todo o pano é possível que o esforço do ilustre jesuíta seja apenas um clamor no deserto.

Seu esforço, entretanto, neste e noutros sentidos, as opiniões que vai criando, as preocupações de espírito que vai provocando entre o Brasil moço, fazem desse padre de rigorosa cultura unida a sonhos azuis de místico, figura interessantíssima. Nestes meses que aqui tenho estado, foi a sua palavra o primeiro sopro de vida pela água estagnada da nossa monotonia do espírito.



FREYRE, Gilberto. 15. Diário de Pernambuco. Recife, 29 Jul. 1923. Coluna: Da outra América.

Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de Aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. p. 288-290.

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