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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Imprensa  



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Tenho ouvido dizer mal do Sr. Júlio Dantas simplesmente porque o admirável autor de A Ceia dos Cardeais aqui apareceu de empresário.

É ou não lícito a um escritor tomar empresário? Melindroso assunto, mesmo abstraindo-se o espírito do caso individual do Sr. Júlio Dantas. Mas, há um aspecto tão curioso e provocante da relação do ego com o não ego que me sinto irresistivelmente atraído a discuti-lo.

Não visa a reminiscência de Kant dar a falsa impressão de que sou entendido em assuntos de ética. Tenho dessa matéria especulativa noções muito superficiais. Estudei-a num severo compêndio que principia dizendo: "Conduct is 3/4 of life". A matemática é de Mathew Arnold. O mestre que me iniciou na ética falava com o ar de quem está com sono. Só uma questão o excitava: o problema do matrimônio e assuntos correlatos. Eram, entretanto, os assuntos que eu e alguns amigos ouvíamos discutir com mais sono. Duvidávamos um tanto da autoridade do mestre.

De quanto aprendi a respeito da ética das profissões restam-me vagas lembranças. Lembra-me que o professor sonolento costumava dizer muito mal dos jornalistas, principalmente do anonimato. E isto sem conhecer os jornais do Brasil e do Peru.

Por que será que em certos países o público se sente ofendido nos seus melindres ao primeiro sinal de savoir vivre da parte de um artista? E acha ilícita a venda em retalho, em conferências e artigos, de literatura?

Há duas respostas: lª, o público sente no artista alguma coisa de superior e o deseja fora do mundo e da sua vil mercancia; 2ª, o público vê no artista um como objeto de luxo, de prazer, "espécie de prostituta", como uma vez sugeriu R. L. S.

A ser verdade a última possibilidade, o artista é um ser apenas tolerado. Não tendo jeito para funções mais nobres na vida é-lhe generosamente permitido ir escrevendo suas histórias, salpicando de colcheias, semicolcheias, breves e semibreves, mínimas e semínimas seu papel de solfa ou plasmando no barro mole seus nus voluptuosos. Mas deve resignar-se a ser tolerado - e nada mais. Querer o escritor, pelo luxo da sua literatura a retalho, preços na proporção de charque e carne verde é o requinte de mercantilismo.

No caso da primeira possibilidade, deve o artista vibrar de gozo, colocado na excelsa classe dos mártires. A superioridade de sua função na vida - criar belezas e fazer pensar - exige dele a renúncia de todos os ganhos materiais. Se escreve um livro é em benefício do editor que reverte o grosso dos lucros, como no conhecido caso de Flaubert e os virtuosos Srs. Levy & Cia. Suas mãos devem conservar-se : castas do vil metal.

É um modo de ver, esse, belo e comovente, a favor do qual se podem reunir exemplos de escritores, compositores e artistas clásssicos, cuja faculdade criadora o "vil metal" tem amolecido ou corrompido. Entre outros, François de Curel. Este, uma vez enriquecido, mandou às favas o respeitável público. .

Há, entretanto, lugares em que se põe em prática um como protecionismo do talento implume. Li uma vez, já não me lembra onde, que se organizou na Austrália uma Genius Exploiting Company. O mais curioso dos sindicatos de que tenho tido notícia. Visava a exploração, de gênios e talentos, não só em proveito dos mesmos como de um grupo de acionistas, cujas ações, as vitórias dos artistas amparados pela sociedade, haveriam de valorizar, dando-lhes dividendo.

A este como protecionismo, opõe-se o laissez-faire nosso e doutras gentes. Nesse caso laissez-faire quer dizer, em bom português, deixar que o artista leve o diabo. A favor de semelhante política mui lindas coisas se podem dizer. Por exemplo: que o esforço martirizante a que o artista é obrigado para viver, aguça-lhe o talento ou o gênio. Mas, o certo é que à literatura mal paga e hoje tão anêmica da França se pode opor a da Inglaterra, onde é regra ser o escritor muito bem pago. Isto desde Pope. Dickens com os seus The Pickwick Papers ganhou milhares de libras. Ia ficando podre de rico, quando morreu. A Tackeray pagava o "Cornhill" por cada um dos seus artigos (da série Roundabout Papers) a bagatela de cem libras. Kipling escreve hoje a um shilling por palavra. Os amigos em Londres do Sr. Antônio Torres quase estouraram de espanto à notícia de que o escritor brasileiro apenas recebe cem mil réis por artigo. Entretanto, o Sr. Carlos de Laet recebe setenta e cinco; e quanto ao Sr. Oliveira Lima só ultimamente começou o "Estado de São Paulo" a pagar-lhe cem mil réis, em vez dos cinqüenta da tabela.

Nos Estados Unidos, James W. Rilley chegou a escrever a quinhentos mil réis por palavra. Naquela terra sórdida e vil habituei-me à sem-cerimônia dos escritores, em escreverem a dinheiro e em tomarem empresários. Vi Tagore, com o seu ar de Cristo, aparecer de empresário. Vi aparecer de empresário, o místico Maeterlink. E o socialista Wells. E o grande poeta Yeats. Na tarde de que, num teatro de New York, falava Chesterton, pediram-me 5 dólares por um bilhete. O nosso Sr. Oliveira Lima faz conferência pagas em Williamstown. E vai agora fazê-las o argentino Sr. Zeballos.



FREYRE, Gilberto. 16. Diário de Pernambuco. Recife, 5 Ago. 1923. Coluna: Da outra América.

Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de Aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 291-293.

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