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Conheci o Presidente Harding logo no princípio do seu governo. Parece-me que o estou vendo, de fraque e cartola, um ar falso de solteirão feliz, chegando a Central Park.
A Central Park, o grande parque de New York. Inaugurava-se a estátua de Simon Bolivar e no parque pareciam ser tantos os policiais como as árvores. De longe, o quiosque oficial era uma massa negra de fraques e cartolas, salpicada de manchas - peitilhos de camisa, rostos anglo-saxões, toda a variedade de epiderme dos embaixadores latino-americanos, a cara enorme de René Viviani.
Desse quiosque, o Presidente Harding fez o seu discurso. Eu estava ao lado, entre as comissões; a convite do Prefeito de New York representava os estudantes da América Latina. Vi o Presidente de perfil. Ouvi-o de perto depois de lhe ter apertado a mão. E tive dele a impressão, através daquele discurso, de um homem que pondo de lado o fraque martirizante, arregaçava as mangas da camisa para um esforço superior às suas forças. Para um esforço prodigioso. Talvez uma síntese apressada, essa. Ou um juízo fácil. Mas, continua minha idéia da situação do Presidente Harding diante da presidência dos Estados Unidos.
Harding era um homem bom, superiormente bom, admiravelmente bom. E acessível. Sem esforço, naturalmente, facilitava aos concidadãos o contacto com a sua ilustre destra presidencial. Distribuía entre eles apertos de mão, como um titio distribui bombons entre crianças. Isto num país onde se colecionam "shakehands" ilustres, como quem coleciona selos, postais ou autógrafos. De modo que esse acesso fácil lhe valeu sempre fácil popularidade.
Mas, a bondade, sendo a maior, não era a única faculdade do Presidente Harding. É certo que, sucedendo a Woodrow Wilson, resultou violento e chocante o contraste entre o seu espírito e o do autor de Congressional Government. Mas, de toda a galeria de vinte e tantos presidentes que da Casa Branca têm passado à História quantos resistiriam, sem desdouro, a semelhante confronto? Ocorrem instantaneamente a figura carlyleana de Lincoln e a de Roosevelt. Este, reforçou na presidência dos Estados Unidos o precedente que aquele de alguma forma criara, de realeza eletiva. Nietzscheano, sem o escrúpulo das virtudes passivas da maioria, grande idealista-prático, - Roosevelt conseguiu no seu governo milagres de ação e inteligência criadora.
Harding - vinha ultimamente desfazendo a má fama de absoluto simplório - esse rabo de papel que lhe alfinetaram ao paletó os amigos de Cox. Vinha, neste último ano de governo, fazendo sentir em muitas esferas sua influência pessoal. Na própria esfera das relações exteriores. Nesta seguiu "via média" entre os extremos de americanismo e internacionalismo. Uma política, a sua, conciliadora e doce.
Para a administração procurou o Presidente Harding os mais seguros recursos de inteligência. Basta mencionar os màis notáveis: Hughes (relações exteriores) e Hoover (comércio). Dois formidáveis colaboradores.
Passou da vida à história o Presidente Harding muito significativamente: levado por um trem expresso. Dir-se-ia que o matou a vertigem da velocidade. Ele nascera para os vagares dos "limited".
Há-de ser sempre lembrado pela doce bondade, pelo gênio conciliador, pelas muitas e sólidas virtudes que pôs a serviço de sua pátria, esse homem simples e bom a quem o Sr. Estanislau Zeballos chegou uma vez a comparar a doce e heróica figura de Abrahão Lincoln. E que na presidência serviu, pelo menos, de corretivo aos desmandos do seu antecessor.
FREYRE, Gilberto. 17. Diário de Pernambuco. Recife, 12 Ago. 1923. Coluna: Da outra América.
Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de Aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 294-295.
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