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Artigos : Imprensa  



18


Feliz ou infelizmente, as opiniões - refiro-me às próprias - não são coisas fáceis de fornecer, quando no-las pedem. Ao contrário: muito mais difíceis que as "cigarrettes" ou os cartões de visita. Pelo menos no meu caso. Chego a uma opinião tão laboriosamente quanto o Beau Brummel ao laço de gravata para o jantar. E com o mesmo dispêndio de material: apenas no meu caso não se trata de seda mas de papel comum. E eis aí por que me encontro, ao recomeçar pela 40ª vez este número 18, entre folhas e folhas de papel amarfanhado. Muito mais numerosas estas folhas inúteis, que os pedaços de seda branca aos pés do insatisfeito "Beau".

Tudo isto, por que? Porque o Sr. Gagarin, ao visitar eu outro dia sua exposição de quadros, me pediu esta imensidade: minha opinião. Pensei que ia pedir-me uma "cigarrette" ou um fósforo: pediu-me sem nenhuma cerimônia a opinião. Diante do que, tive ímpetos de saltar duma só vez todos os degraus atapetados do primeiro andar ao térreo da Associação dos Empregados do Comércio; e ir-me embora, meter-me no primeiro bonde, desaparecer. Por que não podia eu - que não sou nem crítico de arte nem anotador de catálogos, nem repórter, nem coisa nenhuma - ver sossegado, na doce paz do Senhor, os quadros do Sr. Gagarin?

Demais, que gula de opiniões alheias era essa do Sr. Gagarin? Por que não se contentava com as dos críticos autorizados? Já não o carimbara um deles, dos mais discretos, "artista perfeito"?

Mas o Sr. Gagarin insistiu. E insistiu com aquela humildade de criança sem a qual não se entra em reino nenhum - nem no das Sete Artes. E assegurou-me sua tolerância e quaisquer opiniões mesmo às que divergissem um pouco da de "artista perfeito". .

Mas, se eu o chamasse principiante? Se eu o chamasse principiante o Sr. Gagarin não ficaria zangado comigo nem me procuraria bater com o guarda-chuva? Refleti um instante. Decididamente não estava diante dum russo ferozmente intolerante à maneira de Trotsky, mas de uma criatura impregnada da santa bondade de Tolstoi. E afinal é o que o próprio Sr. Gagarin se considera - principiante e nada mais.

Minha impressão é que o Sr. Gagarin se mostra um principiante cheio de plásticos recursos e brilhantes possibilidades. Se lhe pudesse passar uma receita, o que seria altamente pretensioso da minha parte, a receita seria esta: "Sr. Gagarin. Arranjar imediatamente um emprego ou a prática de um ofício que o liberte da necessidade de pintar quadros para os vender no Brasil, onde a incompreensão pública chega aos últimos requintes. Continuar a pintá-los nas horas vagas, despreocupado de fins mercantis e do gosto popular. Ingerir fortes doses de Van Gogh e Jonckind. Pela manhã e à noite, elixir de Expressionismus. No primeiro ensejo, uma estação dáguas em Munich. - (ass.) Gilberto Freyre. Rs. 50$000".

O Sr. Gagarin é um jovem artista que ainda não conseguiu a absorção, pelo próprio temperamento, da influência, aliás parcial, de certos mestres. Falta por isto às suas cores a nota, a vibração pessoal. Surpreendemo-lo indeciso nos seus melhores esforços.

Não sei se erraria dizendo que a juventude artística do Sr. Gagarin muito haveria de fecundar o contacto com certas tendências atuais na pintura alemã, principalmente a tendência para as cores primárias. Ao Sr. Gagarin devem agora preocupar sobretudo os problemas de luz - agora que ele anda a pintar estes nossos verdes salpicados de amarelo e vermelho, gritando sob o mais vivo dos sóis. Ora, é exatamente o grande problema da pintura moderna, esse da luz e das cores. Principalmente da moderna pintura alemã, que é a mais sensível a influências metafísicas: a metafisicada.

No sentido técnico o Sr. Gagarin dispõe admiravelmente suas cores. Falta-lhe, porém, a consciência ou a intuição dos valores emocionais da cor- consciência e intuição que o Recife deve conhecer através da arte vibrante de emoção da Sra. Fédora do Rego Monteiro e dos deliciosos quadros que aqui expôs o Sr. Jorge Barradas.

Vamos chegando, os modernos, em nossa aguda tortura, a um estado de alma que pede antes, para expressão, a fluidez da cor que a rigidez da forma. Vamos sentindo da cor valores íntimos que esquecêramos desde a volúpia dos vitrais góticos - esses enormes corações de Jesus a sangrar gloriosamente ao sol. Pela experimentação - porque, embora místicos, continuamos experimentadores, a própria metafísica metendo hoje um pé no laboratório - já se nos revelou a cor capaz de efeitos de plasticidade e fluidez que parecem alquimia ou mágica medieval. Refiro-me às experiências, em New York, de Thomaz Wilfred com as suas "cores móveis", um aspecto desse dinamismo metafísico que hoje incendeia as artes. Duvidoso, como é, que essas experiências sirvam de base, como quer Wilfred, para uma nova arte, baseada na quarta dimensão (Nossa Senhora!) elas mostram, com a preocupação dos pintores alemães, o interesse moderno pela cor, correspondendo ao moderno emocionalismo, corretivo do cientificismo que nos veio dominando, num "crescendo" perigoso, da reforma luterana ao "finale con violenza" das teorias de Haeckel.

Vejo, porém, que divago; e diante disto já deve estar espantado o Sr. Gagarin. Ora, o que eu queria era simplesmente chamar a atenção desse principiante cheio de talento para o estudo da cor no que ela possui de mais íntimo e não somente nas suas superficialidades. Acresce que no caso da paisagem brasileira, intuitivamente ocorre que mais lhe convém a interpretação da cor que a da forma. Mas não por meio dessas cores fugitivas, sem caráter, dessas de que disse uma vez Chesterton que fugiam de tudo, até da nossa admiração. É verdade que entre nós coisa muito diferente sucedeu com o Sr. Franciscovitch. O Recife ainda corre atrás das suas cores fugitivas.

Os quadros do Sr. Gagarin - na maior parte marinhas - muito merecem ser visitados e admirados. "Efeitos de Sol", n.O 15 no catálogo, é, com toda a sua indecisão, uma tela deliciosa. Deliciosos são também os quadros: "Largo de São Francisco" (Niterói), "Igreja de São João" (Olinda) e "Manhã Tropical" (Olinda). Nestes últimos se mostra o talentoso pintor disposto ao heroísmo de fitar nossa paisagem sem lunetas cor-de-rosa; e de surpreendê-la nas suas mais características sugestões de beleza. Encanta-me com um íntimo e especial encanto a "Igreja de São João". É quase um trabalho de artista definitivo.

O que me parece verdadeiramente curioso é vir esse russo de suas névoas fartar-se voluptuosamente do nosso sol. O precedente, aliás, já o criara Jonckind; e antes de Jonckind, de alguma forma, Dürer. Mas se as paralelas podem se encontrar, como supõem alguns intérpretes de Einstein, por que não se hão de encontrar os extremos? São aliadas.



FREYRE, Gilberto. 18. Diário de Pernambuco. Recife, 19 Ago. 1923. Coluna: Da outra América.

Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de Aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 296-298.

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