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Para o romance Palanquim Dourado, o Sr. Mário Sette tomou um assunto que vem nitidamente reafirmar o seu propósito de fazer literatura regional. Regional e tradicionalista. Aliás de tradicionalismo, já o Sr. Mário Sette, em discurso de liturgia acadêmica, fizera a mais solene das profissões de fé.
Confesso que o áureo título deste novo romance do Sr. Mário Sette, em vez de aguçar o apetite de leitura, teve efeito contrário. É um título de "novelette" barata, destas que vêm em série, nos rodapés dos jornais ou em fascículos de papel áspero. Contrasta com o nome, tão lindo e tão bem posto, do romance precedente do autor: "Senhora de Engenho". Mas um título feliz e sugestivo haverá tormento maior que a captura dum título assim, seja para um romance ou um pudim de ovos, para uma peça de teatro ou um simples artigo?
Dizia-me Guilherme Filipe, uma tarde em que jantamos juntos em Coimbra, num hotel à beira do Mondego: "Custa-me mais intitular meus quadros que pintá-los". Guilherme é até radical neste assunto:
para ele os artistas deviam simplesmente numerar os seus trabalhos, dando tempo ao tempo e deixando que eles - os trabalhos dissessem o seu nome mais tarde, "quando tivessem a idade da fala. . . "
Com a idéia de numeração concordei plenamente, mesmo porque já a trazia dos Estados Unidos, onde há tão belas coisas sem nome. . . A Quinta Avenida, por exemplo. E a Quinta Avenida faz, pensar na Quinta Sinfonia. Palanquim Dourado - observo - é o sétimo dos livros do Sr. Mário Sette: por que não o numerar singelamente "7"? Se o fato cronológico não bastasse como pretexto, seria fácil criar pretexto mais forte dos próprios incidentes. do livro. De que não estou a fazer chiste em torno de assunto tão sério, prova o fato de, à falta de títulos para os meus artigos, passar doravante a numerá-los.
*Primeiro de uma série de artigos que o autor resolveu numerar em vez de lhes dar títulos.
Palanquim Dourado é um livro desigual: contém muito belas páginas e páginas execráveis; é forte, deliciosamente forte, no elemento descritivo e de anêmica palidez no psicológico. Estas proposições, cabe-me adiante prová-las. De propósito deixarei à parte os deméritos históricos e cronológicos desse trabalho, já rigorosamente apontados pelos Srs. Mário Melo - uma espécie de polícia ou detetive nesta matéria - e Leônidas de Oliveira. Gasta o Sr. Leônidas de Oliveira - ao meu ver com flagrante exagero metade do seu interessante artigo procurando mostrar que o doce conhecido por "mata-fome" não é colonial, datando do ano da Guerra do Paraguai, quando uma preta velha chamada Miquelina, aliás Mãe Quelina, com quitanda à rua do Rangel, introduziu-o no mercado.
E certo que o romance do Sr. Mário Sette é histórico e fora melhor que, mesmo nestes pormenores e nos destacados pelo faro sherloqueano do Sr. Mário Melo, estivesse o artista de acordo com as crônicas. Mas convém não exagerar os deveres de fidelidade do artista a minúcias de cronologia e exterioridades de história. Semelhantes deveres são relativos. Para o artista a grande preocupação é a do sentido íntimo, não a da verdade exterior, seja esta de fisiologia ou de história, de astronomia ou de mecânica. Nós sabemos que fácil e volátil criatura é a chamada verdade científica, mesmo quanto às ciências exatas: ontem nos braços de Newton, hoje nos de Einstein, amanhã nos doutro qualquer pedagogo audaz.
Quando estive em Paris, meu passeio a pé, quase todas as tardes, era ao Museu Rodin, à rua Varennes. Na velha casa do mestre passava, em enleio, horas a fio. Há naquelas formas trágicas, naqueles nus amorosos, um formidável descuido de pormenor anatômico. Mas como é vibrátil e quente tudo aquilo! O mesmo é certo dos frescos de Bourdel no delicioso teatro dos Campos Elísios. Bourdel é outro desdenhoso de precisões fisiológicas; ele exagera e deforma na ânsia de verdade íntima que é a ânsia de toda a grande arte. Isto desde os primitivos aos expressionistas de Munich e Berlim, cuja obra ao mesmo tempo de reação e experimentação tanto me interessou. WaIter Pater repete de Bacon (Francis Bacon - "Essays") e creio que de Pater, Rodó, que não há refinada beleza sem alguma coisa de estranho nas suas proporções. Essa alguma coisa estranha vem da vontade de exprimir a verdade íntima, sacrificando-se a ela a exterior. Todo o artista tem o direito e sente a necessidade de o fazer. Fá-lo Poe; fá-lo Huysmans; fá-lo o mesmo Pater; fá-lo Wilde; fazem-no os russos; fazem-no Papini e seus discípulos. Entre nós poderia citar-se o caso do Sr. Monteiro Lobato, de que até em Urupês, um conto em violenta, oposição às modernas teorias de hereditariedade, sem que isto diminua - a não ser para a petulância cientificista dalguns censorões - o valor estético da peça.
Estendendo-me neste respeito quis defender o Sr. Mário Sette contra dois dos seus mais hábeis críticos, cujo processo de crítica não me parece convir à natureza e propósitos da peça criticada. Não importam, no caso dum romance, discrepâncias cronológicas; importa, a falta do "plus réel que le réel" de que nos fala Cocteau.
Dá a impressão de real e vibrátil o ambiente em que decorre o entrecho da peça? A paisagem, sim. O dom de descritor, como já uma vez tive ocasião de notar, possui o Sr. Mário Sette. É o seu forte. E Palanquim Dourado está cheio de lindas passagens descritivas, do mais vivo e delicioso colorido de paisagem local. São exemplos desse admirável dom do Sr. Mário Sette entre outros trechos, o seguinte, em que vêm evocados os ocasos de Olinda: "Ocasos divinos! Faziam juntar as mãos, dobrar os joelhos, mover os lábios. Nos mosteiros sombreados, nos claustros floridos, barrados de azulejo, as freiras recitavam as orações da tarde, roçando as alpercatas nas lajes tumulares dos irmãos adormecidos. Nas praias esbatidas, claro-escuras, os jangadeiros rolavam para os câmoros as jangadas molhadas, as velas ao sereno, guardavam os samburás;.." Outro extrato, para mostrar que o Sr. Mário Sette igualmente possui o dom de movimentar as cenas evocadas: "a cidade, com as suas ruas vetustas, largas, era um vaivém de soldados, frêmito de tropas aquarteladas nos conventos, nos vastos solares, na cadeia, nos sítios circunvizinhos. Chegavam reforços... Carros de bois, gemendo, traziam cereais, açúcar, latas, de mel, mantas de carne de sol. Cornetas vibravam... No canal, rente à ponte, barcaças aferradas, dependentes de ordens. Pensou-se em tentar' um desembarque nas costas de Olinda... Damas das famílias goianenses costuravam roupas, pregavam divisas, cozinhavam doces, cuidavam dos ranchos." Tudo isso vem deliciosamente dito. O que, mesmo nos trechos mais belos do romancezinho, irrita a quem possui certo polimento ou educação de gosto é o arrevezado extravagante de certos termos; "vidraças peroladas", "dedos perolados de água benta", "o galardão, amauroseava-o", "bancos primitivos abrolhando pelas ruturas de argila furtivos céus", "chocalhavam cabras amojadas mordicando a grama tenra", "trauteando redondilhas de amor".
A muita perícia do Sr. Mário Sette para a coloração da paisagem, corresponde uma vasta. incapacidade para animar o elemento humano. Falta mesmo a Palanquim Dourado a expressão característica da época. Não se sente, em volta àquele bravo gentil-homem, Luís do Rego Barreto, a tensão política, a ansiedade, o sinistro faiscar de punhais nus em mãos extremamente cautelosas. .. O que o Sr. Mário Sette nos diz, e admiravelmente, dos trajos e do mobiliário, da confeitaria e dos quitutes coloniais, não consegue nem de leve caracterizar a psicologia do momento. Nem do momento nem dos personagens. De Águeda conhecemos o guarda-roupa e os móveis da casa e os dourados do seu palanquim; do seu caráter, da sua vida interior, apenas consegue o. Sr. Mário Sette dar-nos uma idéia esfumada e volátil. Falta a essa amorosa, vibração, como vibração falta ao desfecho artificioso do romance.
Igualmente artificiosa me parece, em vários trechos, a linguagem dos personagens. Destacarei um caso típico: diálogo entre Fernão e seu tio, o cônego. Convém resumir a "mise-en-scéne": está o bom do cônego repousado numa rede, muito à vontade, de chambre de ramagem, a descalçar as meias roxas. De fora vem o hálito das mangueiras. O cônego vai até à varanda, onde está Fernão e voltam ambos ao interior. Começa o cônego a embalar-se na rede e, daí em diante, toca a conversa. Mas que conversa, Nossa Senhora! Imaginem o sensato do cônego, a descalçar as meias ou, já descalço, a acariciar os pés nus, dizendo coisas como estas: "abiria com injusteza", "não toleram se nos embrusque a serenidade", "pomos maninhos", "octênio de Nassau", "progressão de intolerância". E erguendo-se da rede, sorvendo uma pitada: "menino, Deus louvado, os zéfiros celestes tangeram do debrum formoso das nossas praias as velas das gentes menos desamadas da Europa".
Isto numa conversa íntima. Imaginem esse reverendo num púlpito ou, modernamente, na tribuna da Academia Pernambucana de Letras! Merecia ou não que Luís do Rego - homem de gosto fino, conforme o testemunho de viajantes europeus da época - mandasse-o degolar?
Noutros trechos conseguiu imprimir o Sr. Mário Sette à fala da gente rústica colonial um cunho de naturalidade e até um ligeiro arcaísmo, mostrando assim não ser inteiramente insensível ao que, na sua Vie de Jeanne d'Are -'- aliás um livro execrável e muito digno do "lndex Expurgatório" - diz o malicioso Anatole: que as idéias se mudam, mudando as palavras.
Obra de valor social é-o, e de certo peso, Palanquim Dourado. Alcançando pelo seu título romanesco e pela sua história fácil de amor, as cestas de costura e as mãos burguesas. dum numeroso público impressionável, concorrerá para comunicar a esse público a flama de são tradicionalismo. Concorrerá também para divulgar interessantes e úteis noções de indumentária e mobiliário coloniais.
A preocupação tradicionalista, a que Sr. Mário Sette vem subordinando sua atividade de romancista, é-me altamente simpática. Quando entre nós, em recintos a que maior discrição não faria mal, se recebe e acolhe como boa a literatura banalmente "modernista" de caixeiros-viajantes, consola a atitude de um escritor influente como o Sr. Mário Sette. Semelhante atitude revela de sua parte aquela aristocracia de gosto que Ernesto Renan atribuía a quantos se interessam pelas coisas do passado. E admirando, como admiro, os dons do Sr. Mário Sette, ainda tão jovem, confiantemente espero do seu talento nova obra da natureza de Palanquim Dourado, porém mais equilibrada, mais cheia de vibração humana e de visão interior, a par dos encantos descritivos.
FREYRE, Gilberto. 1(*). Diário de Pernambuco. Recife, 22 abr. 1923. Coluna: Da outra América. Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 245-249.
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